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em Universidade no Brasil
Ninguém sabe precisar a razão central que mantém as universidades públicas em permanente estado de alerta contra o ensino privado. Há explicações de cunho técnico, uma delas relacionada à produção científica brasileira. Sabe-se que o Brasil aparece no pé do ranking de produtividade nesse campo, mas as poucas realizações alcançadas se devem ao governo. As escolas particulares não gastam dinheiro com isso. Há também uma boa tintura ideológica na discussão antidono no ensino superior. Os professores pró-ensino estatal gostam de dizer que a faculdade privada só pensa naquele que é considerado um objetivo profano: o lucro. Esquecem-se, claro, de que em certo sentido se pode até afirmar que a universidade paga se guia por uma filosofia mais justa. Afinal, quem paga a conta no fim do mês é o aluno ou seus pais. No caso da escola pública, na qual não se cobram mensalidades, toda a sociedade banca o custo na forma de impostos.
Ana Sílvia Morais e Lia Abbud
Veja-Edição 1 713 - 15 de agosto de 2001
A cúpula das universidades públicas desistiu de enfrentar o avanço do ensino particular superior apenas à base de discursos ideológicos contra a presença da iniciativa privada do setor. A nova arma, agora, é a mesma usada pela "tropa inimiga": a abertura de vagas. A reação começou em São Paulo, onde, nos últimos dias, a rede de universidades estatais anunciou um pacote prevendo a criação de quase 60.000 vagas até o ano de 2011. Outros Estados prometem fazer o mesmo. Os especialistas prevêem que a movimentação deva ser generalizada. A reação das escolas do governo se dá num momento pujante do ensino particular. A cada semana, surge uma nova faculdade privada no Brasil. Como resultado desse ritmo impressionante de crescimento, elas somam um total de 905 instituições – contra 682 contabilizadas na década de 80. Nos últimos quatro anos, as matrículas nessas escolas tiveram um aumento de 27%, o que representa 103.000 novos alunos por ano. "Essa iniciativa da universidade pública é boa, pois ajuda a diminuir o sentimento da sociedade de que as instituições do governo são elitistas", diz José Goldemberg, ex-reitor da Universidade de São Paulo e professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da mesma universidade.
A abertura de mais vagas por parte da universidade pública deve ser recebida com um grau elevado de entusiasmo, pois há no país um problema objetivo a ser resolvido. Apenas 12% da população em idade universitária está matriculada em alguma faculdade. Essa taxa é duas vezes maior na Bolívia e quatro vezes maior na Argentina. Diante desse fato, o crescimento da oferta de ensino, seja ele de controle governamental ou privado, jamais pode ser visto como um fenômeno negativo. Um dos problemas mais urgentes hoje é como absorver os alunos que se formam no ensino médio. Para suprir essa demanda, estima-se que seja preciso triplicar nos próximos anos o número de vagas que o ensino superior oferece atualmente. "Se as escolas privadas não estivessem abrindo suas portas, a deficiência seria ainda maior", afirma o conselheiro Efrem Maranhão, do Conselho Nacional de Educação (CNE). E, mesmo considerando todo esse avanço, a proporção entre as vagas oferecidas pelas públicas e pelas particulares permanece a mesma da década de 80. Naquele tempo, os alunos que pagavam para conseguir o diploma totalizavam 64% dos estudantes de nível superior. Hoje, esse grupo representa 65%.
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Ninguém sabe precisar a razão central que mantém as universidades públicas em permanente estado de alerta contra o ensino privado. Há explicações de cunho técnico, uma delas relacionada à produção científica brasileira. Sabe-se que o Brasil aparece no pé do ranking de produtividade nesse campo, mas as poucas realizações alcançadas se devem ao governo. As escolas particulares não gastam dinheiro com isso. Há também uma boa tintura ideológica na discussão antidono no ensino superior. Os professores pró-ensino estatal gostam de dizer que a faculdade privada só pensa naquele que é considerado um objetivo profano: o lucro. Esquecem-se, claro, de que em certo sentido se pode até afirmar que a universidade paga se guia por uma filosofia mais justa. Afinal, quem paga a conta no fim do mês é o aluno ou seus pais. No caso da escola pública, na qual não se cobram mensalidades, toda a sociedade banca o custo na forma de impostos.
Há ainda uma motivação corporativa, possivelmente a principal. Na terra sem dono em que se transformaram as universidades do governo, os professores convivem com a deliciosa e relaxante isonomia. Quem ocupa função semelhante recebe salário igual, independentemente de sua produtividade. Nas escolas particulares, a remuneração está ligada à produtividade. Essa raiva produz algumas cenas mais quentes de tempos a tempos. A última delas ocorreu no mês passado. A antropóloga Eunice Durham, amiga de longa data do presidente Fernando Henrique Cardoso, pediu demissão do Conselho Nacional de Educação alegando discordar da política do Ministério da Educação em relação ao ensino privado.
"O aumento desenfreado de instituições particulares, guiadas pelo mercado e com fins lucrativos, ameaça a credibilidade do ensino no país", afirmou ela.
Do ponto de vista do nível da qualidade do ensino oferecido, o carimbo "público" ou "privado" já não é, por si só, garantia de eficiência (ou ineficiência). Há cursos bons e ruins dos dois lados. Criado em 1996, o Provão tem funcionado como o melhor termômetro para medir essa questão. As universidades públicas continuam na frente. Vêm delas as melhores notas e avaliações de corpo docente e currículo. Deve-se registrar, no entanto, que as particulares têm conseguido avanços consideráveis na área. Esse fenômeno é mais forte nos estabelecimentos novos, abertos após o surgimento do Provão. Dos cursos de direito criados recentemente, 44% conseguiram notas A ou B no Provão de 2000. Entre os mais antigos, o índice é de 34%. A razão disso é que as novas faculdades já nascem preocupadas com os parâmetros de qualidade fixados pelo governo, e isso acaba se comprovando com o bom desempenho no exame.
Outra forma de medir o avanço qualitativo do ensino privado é o espaço que o mercado de trabalho vem dando aos recém-formados dessas escolas. Se antes ter um diploma de universidade particular era o suficiente para vetar a entrada de um aluno na primeira fase do recrutamento, hoje as empresas enxergam de outra maneira. "A oferta de talentos nas públicas é maior, mas é claro que conseguimos achar bons estagiários e profissionais em escolas privadas. Não existe mais aquele preconceito inicial, de não olhar o currículo se não for da universidade pública", afirma Júlia Alonso, sócia da consultoria Passarelli Talentos. Grandes companhias, como a AmBev e a Souza Cruz, seguem essa nova tendência. "Na verdade, hoje não importa tanto este ou aquele diploma. O que vale é a capacidade e, por isso, o mercado está mais aberto às escolas particulares", diz o consultor Simon Franco, um dos caçadores de talentos mais conceituados do país.
Um dos exemplos de excelência no campo do ensino privado é a Ibmec Educacional. Com seis anos de funcionamento, a Ibmec já conta com unidades em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba. Cobrando uma mensalidade alta, em torno de 1.000 reais, a instituição tem uma infra-estrutura invejável. Em São Paulo, os calouros são obrigados a comprar um laptop.
Em Belo Horizonte, a média é de um equipamento para dois alunos, enquanto na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo um computador é dividido entre 32 alunos. De cada dez professores da Ibmec, quatro têm Ph.D. no exterior. A escola conseguiu nota A no Provão nos três anos em que foi submetida ao exame. "Queremos ser a Harvard brasileira", diz Paulo Guedes, economista com Ph.D. na Universidade de Chicago, ex-sócio do Pactual e um dos donos da Ibmec Educacional.
As universidades particulares mudaram para melhor nos últimos anos. Confira no quadro o que melhorou no ensino superior privado e o que ainda é preciso fazer
O QUE MELHOROU
Qualidade do ensino As faculdades públicas mantêm um padrão superior de ensino. Em algumas áreas, porém, surgiram cursos particulares tão bons quanto os das universidades gratuitas
Chances do recém-formado As grandes empresas viravam o nariz para os que estudaram numa universidade particular. O preconceito diminuiu sensivelmente
Nível do corpo docente A qualificação dos professores das faculdades particulares era ruim. A maioria delas conseguiu saltar de patamar
Infra-estrutura Algumas faculdades privadas já possuem equipamentos mais modernos e completos que os das escolas do governo
Carga horária Ao contrário das universidades públicas, os alunos de escolas particulares não sofrem com o problema de paralisação de professores
O QUE AINDA É PRECISO FAZER
Pesquisas A produção científica das universidades públicas é pobre, comparada aos padrões internacionais. Nas faculdades privadas, a situação é sofrível
Formação dos professores Até 2004, um terço do corpo docente das universidades privadas deve ter título de mestre ou doutor. A maioria delas ainda não se adaptou
Diversidade de cursos As faculdades particulares dão preferência a cursos com retorno garantido, como economia e administração. Faltam cursos em áreas como medicina
Fim de subsídios Algumas das melhores universidades privadas recebem isenções tributárias por parte do governo. Ou seja, não sabem viver por seus próprios meios
Reputação As universidades privadas não conseguiram se livrar da imagem do passado, quando eram consideradas tão-somente fábricas de diplomas

