Gilberto Teixeira (Prof. Doutor FEA/USP)
Na universidade, professores, alunos e administradores possuem interesses nem sempre coincidentes, escalas de prioridades distintas e noção diferente da urgência dos processos de mudança. A incompreensão das causas dessas discordâncias torna os docentes incapazes de melhorar seu desempenho didático, mesmo porque não existem disciplinas pedagógicas obrigatórias nos currículos dos cursos de pós-graduação, que preparam professores universitários.
Partindo do pressuposto de que a condição de aluno, em qualquer nível, implica na adoção automática de uma atitude característica que envolve conotações sociais definidas, proponho-me a examinar alguns problemas que ocorrem ao nível do estudante de pós-graduação.
Se listarmos as características desejadas em um pesquisador, deveremos, forçosamente, incluir as seguintes: a iniciativa, a criatividade e a inventividade; o pensamento lógico e racional (o pensamento mágico/supersticioso obedece a uma certa lógica acientífica, não passível de constatação ou verificação pelo método científico); a curiosidade profissional, que leva ao questionamento e à investigação do óbvio; a capacidade de aceitar soluções e imaginar métodos não convencionais, mas de rejeitar pacotes de idéias de segunda mão, desprezando a autoridade como fonte de conhecimento, e a verdade revelada.
O processo de formação cultural, entretanto, baseia-se no treinamento para a vida em sociedade pelo método do condicionamento, no convívio familiar, e pelo ensino autoritário na escola. Frota-Pessoa[1] analisou os objetivos de um programa de ação didática e os vícios que caraterizam o sistema vigente, começando por reconhecer que é mais importante desenvolver os mecanismos mentais dos alunos do que transmitir-lhes conhecimentos “e que “o objetivo primordial do ensino é que os alunos adquiram independência mental crescente e capacidade buscar e usar bem o conhecimento”. Como todos estamos cientes, isso não passa de um ideal raramente atingido, não por restrições legais ou curriculares, mas por falta de iniciativa individual dos mestres.
Ao nível de pós-graduação, onde é mais fácil o professor convencer-se de que o ensino pode ser coletivo, mas a aprendizagem é individual, os erros se somam e se agravam. Na falta de uma preparação adequada, os docentes assumem o professor-role e passam a imitar os modelos que encontraram ao longo de sua vida escolar. Carentes de fundamentação pedagógica, recorrem aos sistemas mais simples e elementares de ensino e avaliação, que são os menos eficientes. Usam da autoridade inerente ao cargo e ao papel para transmitirem conhecimentos através de exposições cansativas e inócuas e para “aferirem o aproveitamento” por meio de provas e testes. Confundem a aula expositiva, que tem o seu valor reconhecido quando história, interpreta e sintetiza temas complexos, com a aula impositiva, onde faz prevalecer, apenas o seu ponto de vista. Em geral, utilizam o método da reconstituição do crime, matando a curiosidade natural e estiolando o raciocínio dos alunos. Discorrem sobre descobertas, teorias e fenômenos como quem resume um romance policial do fim para o princípio; identificam o criminoso. descrevem a cena do crime e passam a analisar os motivos e circunstâncias.
Provas e testes têm suas finalidades deturpadas. Pode-se fazer um paralelo curioso com o desvirtuamento da pena, no direito criminal. Em lugar de servirem para estimular e aferir a recuperação e o progresso, são utilizados como instrumentos de coação.
Tudo isso resulta, em boa parte, da insegurança que faz com que o professor, conscientemente, apele para o condicionamento, e coloque os alunos no seu papel, ou no seu lugar, isto é, no student-role.
A situação é comparável à do freqüentador de teatros que, após longos anos de platéia, como espectador, é levado ao palco para assumir o papel de artista e passa a imitar as representações a que assistiu. Evidentemente, ignora tudo quanto existe por detrás do palco e tudo o que vai no treinamento do profissional: expressão corporal, dicção, memória, jogo de cena, improvisação e disciplina. Mas tenta reproduzir, atitudes, gestos e rotinas que presenciou.
O professor conta com o comportamento programado, inerente ao papel do estudante, que este assume no momento da matrícula. Os que mais se conformam aos padrões estereotipados, como espectadores educados, não considerados “bons alunos”. Por sua vez, a aceitação do papel de aluno implica em uma série de compromissos sociais, que vão da maneira de vestir à gíria do momento e ao conformismo aos padrões contemporâneos, que lhes conferem identidade e criam laços de solidariedade. Para os estudantes pós-graduados, os modelos são os dos tempos da graduação; para os graduandos, o comportamento é o trazido dos cursinhos, enquanto que seus mestres esperam que se comportem, automaticamente, como universitários ideais.
Do ponto de vista da aprendizagem, surge a expectativa de receberem, passivamente, os pacotes de informações programadas, de acordo com as experiências anteriores.
Por sua vez, os processos de transmissão de conhecimentos de modo formal, autoritário e dogmático, prevêm corretivos, nos casos de falham, durante os procedimentos de aferição. Em compensação, certas concessões são feitas: comportamentos “marginais”, desaprovados em outras situações, são aceitos e esperados, como características estudantis, e passam a ser socialmente tolerados. Estes incluem a contestação gratuita ou não fundamentada de valores sociais, a radicalização de atitudes, opiniões e idéias, e uma certa irresponsabilidade geral. Bolsas de estudo e amparo institucional constituem regalias e que influem, de maneira poderosa, na decisão de abandonar o papel e “integrar-se na sociedade”, assumindo outra função, ou seja, o papel de profissional. Todo o esquema resulta, freqüentemente, em que o “bom aluno”, brilhante nas provas, revele-se um profissional medíocre, uma vez que foi treinado e condicionado para ser “um bom aluno”.
Parafraseando um parágrafo de Roth[2] sobre a situação hospitalar, reconhecemos que a escola típica tem uma força de trabalho com uma complexa delegação de tarefas e autoridade, e um fraco senso de responsabilidade pessoal em relação ao estudante como indivíduo. A estrutura da escola em geral corta a sua clientela da maioria dos aspectos do processo decisório, desencoraja o questionamento por parte dos alunos e pais, limita o fluxo de informações sobre o processo para o aluno e reduz seu controle sobre suas próprias ações e as ações dos que existem para servi-lo.
Pós-graduados são profissionais adultos que retornam à universidade a fim de complementarem sua formação. Devem ser capazes, portanto, de colaborarem no planejamento de suas atividades curriculares. Por sua vez sua preocupação maior é com o momento que o curso vive, enquanto que a do corpo docente e administrativo é com o aprimoramento progressivo e com as condições futuras. Daí surgem desentendimentos e insatisfações.
Uma investigação mais profunda de certas deficiências freqüentemente apontadas pelos analistas do ensino poderão revelar que elas constituem um reflexo de defeitos existentes na própria estrutura e funcionamento das instituições analisadas, bem como dos erros anteriores e de deficiências trazidas de outros níveis. Desinteresse pela leitura, por exemplo, pode resultar da falta de estímulo, de orientação, de horários livres, da inadequação das instalações e serviços das bibliotecas. A preocupação com notas e conceitos e a incapacidade de apresentar idéias próprias ou originais em “seminários” constituem o resultado não de um passado escolar deficiente, mas de deficiências e distorções nos sistemas vigentes no próprio curso.
De qualquer forma, o comportamento do professor influenciará o comportamento futuro de seus alunos, quando estes assumirem o seu papel.
Retornando à análise de Roth do comportamento dos pacientes, podemos reconhecer que muito da sintomatologia decorre do próprio ingresso na universidade. Na escola, o plano de vida do estudante sofre uma ruptura total, não tanto pela sua condição ou pelo ensino, mas pela organização das rotinas estabelecidas para a conveniência de outras pessoas que não estão interessadas no bem-estar geral do aluno, mas somente em limitados aspectos deste, e isso mesmo de maneira ineficiente. Muitas das decisões da administração e corpo docente não revelam uma racionalidade genuína, quando diretamente questionadas. O aluno não pode desafiar, com sucesso, o sistema a não ser que abandone o estudo e deixe a universidade.
Feito o diagnóstico, deveremos buscara cura.
Antes que a regulamentação da pós-graduação viesse oficializar o mestrado e o doutorado, os pesquisadores eram preparados nos laboratórios dos institutos e museus de história natural, de maneira informal, através de estágios voluntários e gratuitos. O êxito dependia muito da força de vontade e esforço próprio do candidato, a quem cabia extrair do mestre e de seus colegas, o máximo de informação possível. Evidentemente, o processo era penoso e de baixa eficiência, se encarado do ponto de vista da preparação de uma massa crítica considerável. Mas foi suficientemente bom para preparar gerações de cientistas que mantiveram viva e reconhecida a pesquisa no Brasil durante muitas décadas.
Na formalização do processo perdeu-se, entretanto, o que tinha de bom, em sua espontaneidade e objetividade. Em primeiro lugar, quem buscava um estágio sabia o que queria e tinha, como tarefa primordial e como linha mestra de trabalho, o desenvolvimento de uma problemática definida que o atraía e a que se dedicava. Os conhecimentos de “domínio conexo” eram adquiridos em função de suas necessidades reais a serem aplicados, imediatamente, ao problema principal. A publicação dos resultados constituía meta prioritária.
Dentro do sistema oficialmente estabelecido, o candidato passou a buscar o curso como um prolongamento de sua graduação - inclusive pela manutenção de sua condição de aluno ou student-role. Aguarda-o um elenco de disciplinas organizadas dentro de uma filosofia reducionista, que termina por colocar o que seria fundamental em segundo plano e destacar o que deveria ser secundário ou extracurricular. A escolha do tema da dissertação ou tese, em geral, fica a cargo do orientador. O aluno é instado a “apresentar seminários”, mas não é ensinado a prepará-los e estes resumem-se em relatos de textos pouco lidos e mal interpretados, ilustrado por slides e por outros “recursos audiovisuais”, dentro do melhor estilo da “platéia ao palco”. Sua criatividade, iniciativa e espírito de questionamento são sufocados, em vez de serem estimulados. Mas espera-se que depois de diplomado, passe a propor seus próprios projetos, a sugerir soluções inéditas e a publicar por sua própria conta.
A primeira tarefa será a de criar condições favoráveis para que a iniciativa se transfira dos professores para os alunos. Estes devem ser estimulados a definirem seus próprios interesses e a organizarem seus currículos personalizados em função desses interesses. Uma vez delineada a área ou tema, o estudante deverá escolher, dentro da bibliografia disponível, o tipo de trabalho que gostaria de realizar - terá assim, um modelo a seguir. Juntamente com seu orientador deverá definir as técnicas e métodos a utilizar. Contará comas disciplinas do curso para adquirir os conhecimentos necessários ao desenvolvimento do seu projeto - que aprenderá a redigir. Geralmente, a primeira versão nasce por demais ambiciosa, mas caberá ao próprio aluno reduzi-la, pouco a pouco, a proporções viáveis, aprendendo, no processo, a dimensionar suas possibilidades.
Não é fácil, para muitos pesquisadores, resistirem à tentação de abreviarem o longo processo de aprendizagem, pela interferência direta. Mas devem lembrar-se da advertência de Roth, mais uma vez aqui parafraseado: o correto é deixar grande grau de controle nas mãos do aluno. A posição que assumimos é a de que o pessoal e as organizações educacionais devem servir aos alunos e não regular suas vidas. De qualquer modo, as pessoas devem ter direito à sua própria escolha em questões de educação, como em outras coisas, mesmo no caso de opções que os especialistas julguem que causarão problemas (e lembrem-se de que especialistas enganaram-se, com freqüência, no passado).
REFERÊNCIAS
FROTA-PESSOA, O. 1978. Um programa de ação. An. Simpós. Ens. Biol. Fís., Matem. Quím. (1o e 2o gr). Est. São Paulo. São Paulo
LANDY, D. org. 1977. Culture, disease and healting. Studies in medical Anthropology. Macmilan, Nova York, Collier, Londres.
PARSONS, T. 1942. Propaganda and social control. Psychiatry, 5(4).
PARSONS, T. 1953. Illness and the role of the physicians. In: Klyckhon, C. e Murray, H.A. orgs. Personality in nature, society and culture. 2a ed., Knopf, Nova York.
PARSONS, T. 1958. Definitions of health and illness in the light of American values and social structure. In: jaco, E.G., org. Patientes, Physicians and Illness. Free Press, Nova York.
ROTH, J.A. 1979. The necessity and control of hospitalization. In ALBRECHT, G.L. e HIGGINS, P.C. (org.) Health, Ilines and medicine. A reader in medical sociology. Rand McNally, Chicago.
SIEGERIST, H.E. 1929. Die Sonderstellung des Kranken. Kylos Jahrb. Inst. f. Gesch. Med. Univ. Leipizig, 2:11-20.
SIEGLER, M. & OSMOND, H. 1979. The sick-role revisited. In: Albrecht, G.L & HIGGINS, P.C. org. Health, illness, and medicine. A reader in Medical Sociology. Rand McNally, Chicago.
[1]FROTA-PESSOA, O. 1978. Um programa de ação. An. Simpós. Ens. Biol. Fís., Matem. Quím. (1o e 2o gr). Est. São Paulo. São Paulo
[2]ROTH, J.A. 1979. The necessity and control of hospitalization. In ALBRECHT, G.L. e HIGGINS, P.C. (org.) Health, Ilines and medicine. A reader in medical sociology. Rand McNally, Chicago.