Gilberto Teixeira ,Prof.Doutor (FEA/USP)
A atividade criadora da universidade deve ser permanentemente estimulada. Um país que queira alcançar estágio mais avançado de desenvolvimento não pode dispensar a existência de instituições universitárias fortes e bem aparelhadas. Tudo o que pensamos sobre a universidade deve ser cobrado de nós mesmos. A tendência a transferir responsabilidades e culpas é tentadora. Mas, na maioria das vezes, a nossa atenção é desviada do essencial e perdemos tempo valioso para o aperfeiçoamento das nossas instituições universitárias. E temos conhecimento de como tem sido entre nós difícil assegurar um mínimo de dignidade possível às universidades, por vezes, e freqüentemente, transformadas em produtoras de diplomas que autorizam o acesso à escala social, embora sem a necessária qualificação dos diplomados.
William F. Cunningham, respondendo à pergunta ''o que é educação?'', afirma que ''tanto do ponto de vista da sociedade como do indivíduo, educação é estímulo de transformações''. Não é, portanto, apenas adquirir conhecimento e desenvolver habilidades. Em realidade, esse ''estímulo de transformações'' nada mais é do que a projeção do saber na escala social. Vale dizer que a educação pode ser considerada, de certa forma, uma preparação para o futuro. Mas o que será essa ''preparação para o futuro?''. Acredito que, para esse fim, a universidade deve propiciar uma adequada compreensão da realidade social, favorecendo o desenvolvimento da capacidade crítica de cada um dos seus membros. Pensando assim, a universidade tem que ser um instrumento para que a sociedade realize o seu fim maior, que é o de assegurar ao homem a plenitude de suas faculdades pessoais. Nesse sentido ela deve realizar um papel formador, e não meramente informador.
Como assinalou Edgard Faure, a educação do nosso tempo tem como objetivo formar o homem completo. Trata-se de não mais adquirir, de maneira exata, conhecimentos específicos, mas de se preparar para elaborar, ao longo de toda uma vida, um saber em constante evolução, que ele denominou de ''aprender a ser''. E esse ''aprender a ser'' é justamente a necessidade de que o novo homem seja capaz de compreender as conseqüências globais dos comportamentos individuais, de conceber prioridades e de assumir as formas de solidariedade que constituem o destino da espécie. Diante desse quadro, estamos todos frente a uma nova necessidade: dimensionar a universidade de acordo com seu papel histórico como centro de produção científica de alta tecnologia e, principalmente, de formação de cidadania. Integrar cultura , ensino e pesquisa é um desafio que não pode ser esquecido. Os que hoje iniciam a caminhada, os que nela prosseguem, estudantes e professores, sabem que devemos preocupar-nos com o essencial, não com o episódico. Somos protagonistas do permanente, mas sempre atentos aos agentes do transitório. Pensando assim, a universidade tem que necessariamente voltar-se para a pesquisa, e sobre ela ordenar a busca da sabedoria. Não se pode mais conceber a universidade como simples receptora de inteligências para moldá-las profissionalmente ao cabo de certo tempo, devolvendo-as à sociedade para o exercício de habilidades formalmente adquiridas.
Certamente esse papel não é desprezível, mas torna-se extremamente perigoso quando é exclusivo. É certo que, no universo da educação brasileira, não se pode pretender a unanimidade da excelência. Mas já se pode obter, como de fato ocorre, uma nova postura diante do conhecimento. Essa nova postura é exatamente não diminuir o seu valor institucional pela redução da sua capacidade de gerar idéias e desvendar mistérios, no ciclo interminável do saber humano. E vale a advertência de que os novos rumos não se aplicam apenas às ciências exatas. É preciso, ao revés, estimular sempre mais a produção das ciências sociais de modo a garantir-se padrões de modernidade e de equilíbrio entre o avanço da ciência e da técnica e a felicidade do homem. Por outro lado, é necessário reconhecer que a universidade deve fazer um esforço endógeno para atingir níveis cada vez mais promissores de integração social. Isto quer dizer, em síntese, que a instituição de nível superior não se compromete socialmente apenas com a formação de profissionais. Ela se compromete gerando recursos alternativos em termos culturais. É essa a única forma de justificar a disponibilidade de tantas inteligências na missão universitária. Para esse objetivo maior, temos de bem aproveitar o tempo disponível a fim de assegurarmos rendimento intelectual ótimo nas atividades que desenvolvemos. É preciso que se entenda que a pesquisa deve envolver a instituição universitária, e não apenas, ser função localizada de acordo com o nível de ensino ministrado. Tal é, a meu ver, a função primordial da universidade. Tem lastro na confiança ilimitada que todos possuímos na inteligência brasileira. Mas, sobretudo, tem por base a esperança nas novas gerações. Acreditando nelas, estamos selando a certeza do amanhã, construindo sobre a herança cultural da sociedade que é de ontem, de hoje, de sempre. Não se trata de proclamar o futuro, trata-se, isto sim, de ganhar o presente. E o presente somos todos nós que, de uma forma ou de outra, estamos envolvidos no processo humano sem nos darmos conta de que para vivê-lo é necessário construí-lo sempre. Estamos convencidos de que saberemos dar-nos as mãos para defender os nossos ideais comuns. Sabemos que estamos e estaremos juntos para construir a sociedade que desejamos. Sociedade livre - livre de medo, livre do ódio, livre das carências. Sociedade justa. Sociedade democrática. São essas reflexões que julgo propícias para o ambiente universitário. É preciso semear sempre novas idéias, acreditar nelas e construir a partir delas. As idéias novas não vencem porque convencem os defensores das velhas idéias, mas sim porque surge uma nova geração que cresce e se afirma com elas. Afinal como disse Disraeli: ''A university should be a place of light, of liberty and of learning''. De fato, a luz, a liberdade e o aprendizado formam um cenário perfeito para a realização integral do homem .