Claudio de Moura Castro
Edição 1859 . Veja,23/junho/2004
Não faz tanto tempo, estudo de primeira classe era no Rio ou em São Paulo. Mais adiante, as grandes capitais conquistaram seu espaço na excelência do ensino. Algumas exceções havia no interior de São Paulo ou em lugares como Ouro Preto. Mas no resto do país seria educação de segunda.
Ao divulgar os dez melhores cursos de cada uma das 26 áreas examinadas pelo Provão, VEJA (31 de março) ajudou a quebrar alguns tabus. Enterrou-se de vez o monopólio do eixo Rio–São Paulo, que já não abriga sequer a metade dos melhores cursos (curiosamente, Minas já ultrapassou o Rio, com 34 contra 32).
De fato, os melhores cursos estão localizados em treze Estados, incluindo alguns improváveis como Paraíba, Alagoas e Piauí, que têm os mais baixos níveis de IDH da União. Ou seja, não apenas se quebrou o mito dos grandes centros, mas os números mostram que a excelência está ao alcance de Estados pobres.
Os dados indicam também que as grandes capitais (Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador, Recife) não detêm o monopólio da excelência. Fora dessas capitais, há 132 dos melhores cursos – já ultrapassando os 126 das cidades mencionadas acima. Outra manifestação da dispersão geográfica da excelência é mostrada pela observação de que há 115 desses cursos que nem sequer estão em capitais brasileiras (contra 145 nas capitais).
Quem sabe onde fica Cândido Rondon? E Itatiba? Pois é, lá estão alguns dos melhores cursos do Brasil. Os turistas que forem visitar a pitoresca feira de Caruaru poderão aproveitar a oportunidade para consertar seus dentes, pois lá está uma das melhores escolas do país.
Fica também em xeque a decantada indissociabilidade do ensino e da pesquisa, um totem sagrado do nosso sistema de educação. Mais de um terço dos melhores cursos não está naquelas instituições que são produtoras sistemáticas de pesquisa (definidas pela produção de pelo menos uma publicação significativa por professor/ano). Quando examinamos a contagem das instituições e não dos cursos individuais, a proporção onde não se faz pesquisa é quase a metade.
Esse é um resultado muito interessante, pois as universidades de pesquisa são famosas, públicas e gratuitas, atraindo quase sempre os melhores professores e os melhores candidatos. Portanto, competir com elas é lutar contra adversários que têm tudo a seu favor. Mesmo assim, consegue subir ao pódio dos melhores um terço dos cursos em universidades com pouca ou nenhuma pesquisa. Note-se também que 39 nem sequer são universidades, mas apenas faculdades. Em suma, os cursos oferecidos por universidades de pesquisa tendem a ser melhores – se pela pesquisa ou pelo cabedal de vantagens oferecidas acima, não sabemos. Mas os resultados mostram que a excelência no ensino não requer necessariamente a pesquisa. Isso já sabíamos pela experiência de países como Estados Unidos e França. Os dados aqui examinados também demonstram com grande vigor que o melhor ensino é possível sem pesquisa.
A discussão acima lida com os 260 cursos campeões – correspondendo a apenas 5% do total. Portanto, poucos conseguirão matrícula neles. E os outros? Se não for destruído por uma gestão desastrada do MEC, o Provão continuará sendo a primeira e a melhor fonte de informações.
É confiável? Um grupo dos melhores professores do país se reúne várias vezes, acerta os temas da prova, entrega sua formulação aos melhores técnicos e a aplicação é feita por instituições com décadas de experiência. É inevitável que os resultados sejam mais confiáveis que qualquer outra prova ou medida. Há limitações técnicas e metodológicas – algumas consertáveis, outras não. Contudo, deixamos de fazer os vôos cegos da qualidade acadêmica. Ficamos surpresos ao ver a geografia da excelência se esparramar pelo Brasil. E, mais prosaicamente, os alunos ficam sabendo onde estão os bons e os maus cursos.
Aliás, o Provão não é para agradar aos professores, alunos ou reitores. Ele é uma resposta do MEC à sociedade, que precisa de informações para fazer escolhas acertadas.