Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

Estadao-Sexta-feira, 18 de junho de 2004 - A tragédia do ensino

 

Estadao-Sexta-feira, 18 de junho de 2004
A tragédia do ensino



Os últimos resultados do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Básico (Saeb) mostram um cenário trágico para o futuro do País. Metade dos alunos não sabe nem matemática nem português. A situação mais grave está na 3.ª série do ensino médio, a última antes dos vestibulares. De cada 10 estudantes, 7 apresentaram um nível de conhecimento considerado "muito crítico". Na 4.ª série da educação fundamental, 5 entre cada 10 alunos, além de não dominar as quatro operações aritméticas, também não conseguiram ler e compreender textos simples e curtos.
Realizadas em novembro de 2003, as provas do Saeb foram aplicadas em 300 mil alunos das redes pública e privada e trouxeram uma surpresa. Ao contrário do que se supunha, os estudantes das escolas particulares também têm um desempenho medíocre. Embora tenham obtido notas superiores às de seus colegas dos colégios municipais e estaduais, muitos ficaram abaixo da média alcançada pelos discentes dos colégios federais. Mantidas pela União, estas são as poucas escolas públicas que não têm graves deficiências em matéria de qualificação docente e infra-estrutura.
O retrato mostrado pelo Saeb é o de um sistema escolar em crise. Do ponto de vista do regime formal de progressão escolar, todas essas crianças e adolescentes são considerados alfabetizadas. Mas, como na prática não sabem ler nem fazer contas, muitas não passam de analfabetos funcionais. Ou seja, mal conseguem escrever o próprio nome. E, na medida em que o avanço científico das últimas décadas levou os setores produtivos a trabalhar com máquinas cuja programação e operação exigem cálculos e cujo controle é feito por meio de leitura digital, dificilmente esses jovens, ao se formarem, conseguirão trabalho na economia formal.
Este é o aspecto mais trágico da crise retratada pelo Saeb. Do ponto de vista econômico, a falência do sistema escolar nega às empresas os recursos humanos qualificados de que necessitam para repor a mão-de-obra ocupada.
Como poderão elas investir em tecnologia, para aumentar a produtividade, se as novas gerações não estão habilitadas para operá-la?
Além disso, a crise do sistema escolar também compromete nossa própria competitividade internacional, especialmente com relação às nações em desenvolvimento que disputam conosco os mesmos nichos nos mercados globalizados. Muitas dessas nações, a exemplo da Coréia do Sul, em apenas cinco décadas saíram do analfabetismo secular para atingir uma escolaridade média de 14 anos, na qualificação de sua mão-de-obra.
Do ponto de vista social, as conseqüências do gargalo educacional também são desastrosas, agravando ainda mais os problemas da concentração de renda, das distorções regionais e da pobreza. Sem ensino básico de qualidade, como podem as novas gerações disputar empregos de qualidade? Sem formação escolar, como podem as crianças e os jovens de hoje assegurar, quando adultos, condições de vida com mínimo de dignidade? E como pode haver possibilidade de ascensão social sem boa educação?
Esse é o grande desafio que os resultados do Saeb trazem ao governo do PT.
Tendo sido vencida a etapa da universalização da educação básica, graças aos investimentos do governo do PSDB na multiplicação das vagas da rede pública, é preciso agora melhorar sua qualidade. A cada dia perdido nessa tarefa, mais próximas as novas gerações do País estarão do obscurantismo cultural e das mazelas da marginalidade social e econômica.