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Gilberto TEIXEIRA ,Prof.Doutor,(FEA/USP)
Tecnologia para quê?
Sem dúvida nossa sociedade está muito modificada se comparada com aquela de algumas décadas atrás. Estima-se que o conhecimento adquirido no último século foi equivalente àquele obtido durante toda a história da humanidade. Que conseqüências isso tem para as pessoas? Nosso mundo é dinâmico, mas para estarmos bem-adaptados a ele precisamos cada vez mais ter noção do conhecimento geral acumulado e estar aptos para assimilar, em velocidade cada vez maior, conhecimentos específicos importantes para nossas pseudo-profissões (estas mesmas estão se transformando, surgindo, desaparecendo de maneira surpreendente).
E as crianças? Estão vivendo nesse turbilhão, expostas a uma mídia muitas vezes sem escrúpulos, sem valores éticos e morais, mas que incute suas mensagens com a ajuda de tecnologias eficientes. Não se pode negar que dentro dessa parafernália existem iniciativas louváveis que conseguem ao mesmo tempo cativar as crianças e transmitir suas mensagens educativas. Contudo, esse dinamismo em geral passa longe das salas de aula. Escolas e professores têm de competir com esse mundo superficial de distrações para despertar interesse e motivar as crianças.
E os professores? Responsáveis pela preparação dos novos cidadãos, eles deveriam ter condições de repensar os currículos quase que anualmente para adaptá-los a novas realidades, deveriam usar as mesmas "armas" na transmissão do conhecimento que as mídias (e ter treinamento para tal), e estabelecer uma comunicação intensa com a sociedade em geral e com seus pares. Em vez disso, chegamos a um modelo de escola no qual os professores passam quase todo o seu tempo dentro de salas de aula aplicando conhecimentos adquiridos há muito e pouquíssimas vezes atualizados ou reciclados, ficando claro que um dos setores menos sensíveis ao desenvolvimento tecnológico desta sociedade é o sistema educacional. Para adaptar a educação ao mundo atual são necessárias transformações no processo educacional.
A tecnologia é imprescindível para esse repensar da educação?
Não! Porém ela pode facilitar e abreviar o processo.
Para que os cidadãos de hoje se integrem ao mundo em que vivem espera-se que sejam críticos, bem-informados, trabalhem de modo harmonioso em grupos e reciclem continuamente seus conhecimentos, mostrando-se aptos a desenvolver raciocínios cada vez mais complexos. As novas diretrizes da educação brasileira indicam esforços nesse sentido.
Pelo simples fato de se agregar tecnologia à educação já se tira a inércia do processo educacional, pois o agente transformador se vincula ao processo. Como conseqüência, aparece naturalmente uma valorização do ensino e em particular do papel do professor junto à sociedade. O uso efetivo de tecnologia serve também para eliminar desigualdades impostas por condições socioeconomicas ou geográficas. Além disso, estudos de casos confirmam que as novas tecnologias apóiam processos de raciocínio mais complexos, estimulam a motivação e a auto-estima, preparam os estudantes para o futuro e favorecem mudanças na estrutura escolar.
Por que Internet?
Por suas características, a Internet pode se tornar imprescindível ao processo educacional em seu conjunto. Ela possibilita o uso de texto, sons, imagens e vídeo para a transmissão de conhecimentos. Permite que conhecimentos gerados em qualquer parte do mundo sejam acessíveis a todos. Permite que alunos e professores consultem especialistas em diversas áreas. Incentiva a colaboração entre diferentes centros e culturas para a formação de conhecimento ou o trabalho na resolução de problemas comuns. Permite que alunos mostrem seus progressos a uma comunidade muito maior que aquela restrita a sua escola e seus pais, trazendo motivação extra e abrindo possibilidades para métodos de avaliação mais abrangentes.
Benefícios Educacionais
Para o estudante
Do ponto de vista dos estudantes, as mudanças são radicais. Quando eles trabalham por projetos ou buscando informações na Internet, constroem seu conhecimento por meio de problemas da vida real. Usam as mesmas ferramentas que os profissionais de diversas áreas. Eles têm consciência da importância que a sociedade dá a essa habilidade. Sabem que estão adquirindo know-how imprescindível para suas vidas futuras e valorizam isso. Para eles esse tipo de trabalho é muito divertido. Os recursos da Internet permitem que produzam projetos finais muito mais sofisticados. O aluno deixa de ser um receptor passivo de informações e passa a ter um papel extremamente ativo. Tudo isso traz motivação e auto-estima indispensáveis para o processo de ensino-aprendizagem.
Outra habilidade favorecida pelo uso da Internet e comumente negligenciada em aulas tradicionais é a capacidade de colaboração em trabalhos em grupo. Projetos colaborativos desenvolvidos na Internet incentivam uma preocupação extra com design, clareza, novas informações, argumentação fundamentada e busca de novos recursos. Ou seja, a construção do conhecimento e do processo de ensino-aprendizagem com a participação do próprio aluno. Quando os projetos envolvem a comunidade ou têm objetivos sociais, o aluno se sente recompensado pela sua contribuição social e valoriza mais a escola e a aprendizagem.
Logicamente os alunos têm de superar barreiras, entre elas a de aprender a lidar com a tecnologia e selecionar e usar material original. Eles também têm de achar um ponto de equilíbrio entre a qualidade do design, o tempo despendido com essa atividade e a produção efetiva de material interessante. A partir de alguns relatos do uso da informática nessas situações nota-se um ambiente altamente colaborativo entre os alunos, no qual eles se ajudam reciprocamente e incorporam com rapidez os progressos alcançados.
Outro benefício do uso da Internet é que os alunos passam a ter mais uma maneira de mostrar seus conhecimentos, permitindo que aqueles com dificuldades em avaliações do tipo lógico-matemáticas melhorem seu desempenho. Por não ser um simples exercício de decorar conteúdos mas sim um instrumental para se trabalhar com o conhecimento, os alunos têm muito mais consciência do estágio em que estão e são mais capazes, se incentivados, de fazer auto-avaliações.
A Internet contribui de forma totalmente diferente de outras ferramentas educacionais no que se refere a:
Para o professor
As empresas têm investido muito no treinamento de seus funcionários, justamente pelo dinamismo do mundo atual, pela necessidade de constantes redirecionamentos de suas atividades e de seus funcionários. Os investimentos são respaldados, quando não pela manutenção dos lucros, pela sobrevivência. A escola, como é pensada hoje, ainda não é questionada quanto à sua forma, portanto não tem verba para redirecionamentos. Mas existe cada vez mais a consciência, seja por parte do governo, seja por parte da comunidade, de que devemos repensar o processo educacional para adequá-lo aos tempos atuais. Enquanto as mudanças tiverem de ser feitas com recursos mínimos, a Internet se mostra como uma das poucas soluções viáveis para:
Para a escola
A Internet oferece aos diretores de escolas e planejadores educacionais contribuições valiosas e amplamente acessíveis:
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Practice: communications in the Public Interest
Como está mencionado em Benefícios educacionais, a Internet acrescenta novas dimensões ao sistema de ensino-aprendizagem. Para aproveitar todo esse potencial os professores devem ter clareza no que esperam de cada novo projeto, de que modo ele será integrado ao currículo, como será avaliado, como serão disponibilizados os recursos materiais e humanos de suporte etc.
Antes da introdução do uso da Internet como ferramenta de apoio ao sistema de ensino-aprendizagem, deve-se convencer todos os envolvidos, direta ou indiretamente, de que seu uso é realmente importante, que o que ela acrescenta não pode ser obtido com outros métodos. É preciso deixar claro que existem pontos negativos, mas que estes são suplantados em muito pelos aspectos positivos.
Preconceitos comumente difundidos são: os alunos procuram apenas material impróprio na Internet; os alunos se distraem; eles copiam o material coletado diretamente nos trabalhos escolares sem de fato produzir coisa alguma; eles ficam viciados e passam noites em claro; as informações não são confiáveis.
Apresentaremos a seguir algumas sugestões para lidar com os pontos negativos:
Internet na Escola :O papel do professor
O dia-a-dia do professor quando está trabalhando por projetos com a Internet também muda completamente. Do ponto de vista psicológico, o professor tem de aprender a lidar com o fato de que os alunos terão mais facilidade que ele com as novas tecnologias. A melhor maneira de encarar isso é reconhecer essa limitação e deixar que os alunos mais desenvoltos tecnologicamente se tornem monitores nos momentos de dificuldades técnicas. Eles desempenham esse papel com bastante prazer (o que não elimina a necessidade de existir um suporte técnico na escola).
Isso ajuda também o professor a admitir que ele não é mais o detentor de todo o conhecimento que os alunos devem adquirir. Ele faz parte do processo como um condutor e vai aprendendo junto com os alunos. É bastante comum aparecerem situações nas quais o grupo como um todo decide consultar um especialista. No dia-a-dia o professor também deve conseguir tempo para consultar colegas sobre como estão usando a tecnologia e que progressos estão tendo. Essa ajuda mútua entre pares é fundamental conforme constatado nos vários anos de estudo do Projeto ACOT.
Além do tempo para discussões com outros professores, torna-se necessário organizar o tempo para as avaliações, que nesse tipo de trabalho devem ser diárias.
A dinâmica da classe com esse tipo de ensino fica muito diferente. Varia conforme os trabalhos sejam feitos em grupo ou individualmente, se o uso dos computadores for individual, a dois, se só existir um computador etc. O professor deve pensar antes como trabalhar com a classe nessas situações e lembrar que os alunos estarão se ajudando e não devem ser tolhidos na comunicação.
O professor provavelmente enfrentará duas outras dificuldades, que entretanto serão úteis a posteriori para sua formação profissional. A primeira é que boa parte do material acessado estará em inglês e, mesmo com ferramentas tradutoras cada vez melhores, um conhecimento mínimo do idioma se fará necessário; a segunda é que o professor terá de aprender a lidar com dados que muitas vezes não estarão "digeridos". Isso acontece, por exemplo, quando se extraem dados de fontes não educativas como o IBGE e outros orgãos governamentais.
Em contrapartida, quando o professor se sente à vontade com a tecnologia, ele pode incorporar de maneira muito mais flexível os acontecimentos do cotidiano a suas aulas. Por exemplo, se ocorrer uma grande descoberta científica, ele poderá conseguir rapidamente material na Internet para usar o feito como motivação para introduzir conceitos aos alunos. Esses recursos encontram-se em muitos sites e abrangem textos, fotos, vídeos e sons.
Conclusão: a introdução da Internet na escola funciona como catalisadora de mudanças e o professor tem ganhos em motivação e auto-estima, na sua valorização como profissional. Abrem-se possibilidades para que ele ensine usando problemas e situações mais próximas à vida real, estabelecendo contato com o mundo fora da escola e aprimorando os conhecimentos cada vez mais necessários para qualquer profissão.
Planejamento escolar
Professores que pretendem usar a Internet como ferramenta educacional devem mudar profundamente a sua postura com relação a métodos de ensino. A começar pelo planejamento. Projetos que usam a Internet são quase sempre longos. Para compor esse tempo com currículos apertados, pode-se escolher projetos em que mais de um tópico curricular seja tratado simultaneamente, de preferência de maneira interdisciplinar (um exemplo interessante dessa abordagem é o projeto Por mares nunca dantes navegados). Nesse caso, o mesmo tempo de navegação ou de comunicação serve para duas ou mais matérias. O planejamento desses projetos deve ser feito de preferência antes do começo do ano letivo e as atividades devem ser perfeitamente integradas ao currículo, e não encaradas como extras. Será necessário, portanto, que se destine tempo para o planejamento e a capacitação mínima dos professores para uso do browser, e-mail, grupos de discussão, chat, videoconferência e download. Sem esse conhecimento técnico o professor dificilmente se sentirá à vontade e apto a propor projetos interessantes. Por isso é recomendável começar com projetos tecnicamente simples, a exemplo dos e-mails internos e da busca simples de recursos off-line para alunos.
Nessa fase de planejamento o professor provavelmente terá de enfrentar barreiras de diretores, coordenadores, orientadores e outros professores que não se sentem à vontade com a tecnologia e tentarão retardar ao máximo sua entrada na escola e em particular em suas áreas. Apesar dessas resistências, tem sido possível verificar que o professor que traz e usa a tecnologia passa a ter um papel de destaque na escola.
Muito provavelmente a escola carecerá dos recursos tecnológicos necessários: o professor interessado terá de elaborar projetos para conseguir auxílio. Esse ponto deve ser encarado como positivo, pois leva o professor a fundamentar muito bem os seus argumentos, além de propiciar a sua comunicação com órgãos de fomento, delegacias de ensino e a comunidade em geral, tornando-o um proponente de direções para a educação, ou seja, parte mais ativa no processo.
Ainda nessa fase, o professor será sobrecarregado pois terá uma variedade muito maior de recursos a pesquisar para preparar suas aulas e cursos. Porém ele estará muito mais apto a dar seu "toque" particular na formação dos alunos, o que não é facilmente conseguido quando se adota apenas um livro-texto.
Estratégias de implementação Antes de mais nada, é preciso "vender a idéia" de que a informática e em particular a Internet podem acrescentar algo ao processo de ensino-aprendizagem. A Internet, e de maneira mais geral a informática, ainda geram medo nas pessoas com relação a um possível "bitolamento" dos alunos e a um possível isolamento social. A escola, independentemente de ser particular ou pública, deve por meio de sua direção estabelecer com clareza sua missão: que tipo de alunos pretende formar, com que conhecimentos, e para quê. Uma discussão e a elaboração de um plano diretor, documento descrevendo como a escola pretende realizar sua missão e em quanto tempo, gera uma semente de reflexão por parte dos envolvidos e acaba por mudar todo o ambiente. Por isso é recomendável que essas discussões sejam organizadas pela direção, mas que envolvam professores, coordenadores, administradores, pais de alunos, representantes de alunos e a comunidade em geral. Encontramos exemplos e sugestões de como organizar esse plano diretor em diversos sites na Internet. Por exemplo a NASA e a Microsoft têm sugestões interessantes, já baseadas em experiências passadas. O Achademia traz outra sugestão interessante e já traduzida para o português, apesar de ainda não contemplar todo o potencial da Internet.
Uma vez definidas as metas da escola estuda-se como a informatização e a Internet contribuem para esses objetivos. Também nessa discussão devem ser envolvidos professores mais familiarizados com informática, os mais interessados e de preferência pais de alunos que estejam envolvidos com tecnologia e que possam ajudar a elaborar o planejamento e a implementação do projeto. Dependendo do número de participantes, será preferível trabalhar em comissões e de tempos em tempos marcar reuniões para comunicar andamentos, inclusive aos que não estão participando diretamente do projeto. Um exemplo dessa metodologia pode ser vista nos documentos da NASA.
O desenvolvimento dos trabalhos faz-se sempre acompanhado de documentação pormenorizada do que foi feito, por quem, em quanto tempo, com que recursos, e se tudo está dentro do previsto. As vantagens desse tipo de trabalho são enormes. Antes que os problemas se tornem irremediáveis podem ser detectados e corrigidos. Fica muito mais simples fazer mudanças de percurso. A aplicação do que foi aprendido é bem mais fácil.
Um bom início para escolas começarem a trabalhar nessa linha consiste em padronizar o uso de softwares de gerenciamento de projetos. Como exemplos podemos citar o Microsoft Project e o Primavera. Deve-se documentar tudo: qual foi a configuração dos equipamentos utilizada, o tempo gasto com treinamento, a satisfação com os prestadores de serviços, os recursos necessários para manter o sistema funcionando depois de instalado, os projetos desenvolvidos com base no projeto inicial etc.
O projeto de informatização da escola pode servir como modelo para a posterior proposta de projetos de uso dessa tecnologia, inclusive na solicitação de auxílios.
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Microsoft
Microsoft Project
Primavera
Integração com o currículo Vários fatos precisam ser levados em conta quando se pensa em usar o computador como ferramenta educacional. O computador traz uma nova dimensão ao ensino quando empregado para trabalhos colaborativos, quando fontes originais são consultadas, quando usado para debater e discutir. Para que trabalhos envolvendo a Internet tragam algo de novo, eles devem levar em conta todos esses aspectos. Com isso, além do conteúdo normal que um professor tem de ministrar, ele deve ainda se preocupar com todo esse "a mais". O uso da Internet nesse contexto é mais efetivo quando se trabalha por projetos, outro fato incomum no ensino tradicional. Trabalhar por projetos exige normalmente mais tempo que a simples transmissão de conhecimento pronto. Resumindo, o professor precisa trabalhar mais aspectos com os alunos, e ele próprio não está acostumado com alguns deles. Precisa fazê-lo dentro de um currículo bastante limitado e tem de aprender novas tecnologias. A única razão para investir em tal empreitada é acreditar que ele pode fazer um trabalho melhor, ter mais prazer com isso e proporcionar uma formação melhor aos alunos. Para tanto, o professor precisa de muito suporte e ajuda. Idealmente ele teria apoio dos orientadores, diretores e outros professores. Na prática, ele precisa "cavar" esse apoio e buscar suporte fora da escola com professores que já passaram por essa experiência e têm entusiasmo em ajudar.
Uma sugestão: começar com projetos curtos e simples que eliminem a necessidade de cobrir algum assunto do currículo da forma tradicional. De preferência, o professor deve escolher algo que um professor de outra matéria possa aproveitar também. Com isso ele ganha um parceiro para discussões e ambos podem dividir as aulas para o desenrolar dos projetos. Isso pode exigir um remanejamento de conteúdos dentro do currículo de pelo menos um dos professores envolvidos.
A prática pedagógica Como exemplos dessa complexidade, analisemos do ponto de vista organizacional alguns projetos.
Comecemos com o projeto Os Brasis dos Brasileiros. É um projeto pensado para alunos do ensino médio, para ser desenvolvido em parceria com no máximo dez escolas de outros Estados. A idéia é que os alunos troquem informações sobre suas regiões para que percebam as semelhanças e diferenças. O esquema proposto de comunicação entre os alunos sem dúvida motiva a construção de um conhecimento genuíno. A proposta é levantar dados de desenvolvimento econômico (indústria, comércio, serviços, infra-estrutura) e produção cultural (música, dança, teatro, folclore). Os resultados dos trabalhos serão divulgados nas páginas das escolas na Internet, trazendo mais motivação para a produção de pesquisas originais e interessantes
Do ponto de vista organizacional, quanto tempo leva um trabalho desses, que foi pensado em três fases, para ser desenvolvido pelos alunos? Que matérias devem ser envolvidas? Quantas aulas serão necessárias? Serão abordados tópicos do currículo tradicional? Logicamente com um tema tão rico é possível envolver diversas disciplinas e conseguir muitas aulas para o desenvolvimento do trabalho, mas a coordenação tem de ser extremamente eficiente. Sem dúvida, pode-se envolver o professor de geografia. O de português tem um "prato cheio" para trabalhar gramática, modismos, concordância, erros comuns. O de história pode levantar historicamente a origem das diferenças de cultura etc. Será que esses tópicos estariam programados para serem cobertos ao mesmo tempo ou no mesmo ano? Será que todos os professores pensaram em aproveitar esse gancho de motivação dos alunos para introduzir seus temas?
Outro exemplo interessantíssimo - e complicado de realizar na prática - é o do projeto Por mares nunca dantes navegados. Nesse projeto, o poema Os Lusíadas serve de motivação e são trabalhados os aspectos de comunicação, cooperação entre escolas, descoberta de conhecimento, construção de conhecimento, e interdisciplinaridade. Todos esses aspectos são extremamente importantes e não estão incluídos no currículo normal. Os trabalhos são desenvolvidos através de "rotas", que podem ser: literárias, históricas, artísticas, filosóficas, sociológicas ou outras propostas pelos participantes.
O projeto pressupõe trabalhos em salas de aula, em bibiotecas, em laboratórios de informática e na Internet. Também serão usadas sessões de chat. A elaboração e redação dos trabalhos foram pensadas inicialmente para serem realizadas em sala de aula. Posteriormente usam-se os laboratórios de informática para o tratamento das informações. Estima-se que cada turma invista de 20 a 30 horas letivas durante o ano. Esse número é aumentado sempre que o tema for encampado por mais uma área. Cada professor dedica ainda 2 horas semanais para trabalhos relacionados ao projeto. Um professor responsável pelo projeto como um todo dedica ainda mais 2 horas para a coordenação, manutenção da home-page e contato com outras instituições.
Vemos que esse projeto é riquíssimo também do ponto de vista de abertura e motivação. Com essa abordagem é possível envolver professores de várias áreas. Mas o que fazer com o currículo tradicional? A substituição de aulas convencionais por aulas para trabalhos com base nesse projeto deve levar em conta que os mesmos conteúdos deverão ser abordados.
Pensando na flexibilização de currículos sugerida pela nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as escolas podem começar a se planejar para propôr novos cursos e integrá-los à formação geral do aluno. O InterArte é sugestivo nessa direção. Nesse site pode-se trabalhar conjuntamente o desenvolvimento da sensibilidade artística e literária do aluno. Numa abordagem muito motivadora, no site são sugeridas várias atividades para serem realizadas com os alunos para melhor aproveitamento do material. Porém, a integração com o currículo e com as metas de ensino da escola tem de ser cuidadosamente planejada em cada caso. Convém mencionar que várias previsões indicam que no futuro as profissões de maior sucesso estarão relacionadas à cultura e ao entretenimento, portanto vale a pena investir desde agora.
Avaliação do aluno
Chegamos a mais um ponto crucial: a avaliação. O trabalho por projetos forma os alunos sob um ponto de vista mais geral. Analisá-los apenas segundo os critérios usuais de conhecimentos "decorados" não é suficiente para detetar progressos e dificuldades quanto aos outros aspectos trabalhados. Não é só o ensino, a avaliação também tem de ser diferente: mais uma sobrecarga para o professor! Este deve estar atento ao envolvimento do aluno, à qualidade de suas intervenções, aos resultados obtidos etc. Na área de Elaboração de Projetos do Cibergiz encontram-se alguns projetos mais simples. Mesmo assim não será possível a conciliação desses trabalhos com o currículo tradicional sem uma certa dose de flexibilidade e muito apoio por parte da diretoria, da coordenação e dos outros professores.
A avaliação com caráter punitivo e comparativo tende a ter um efeito negativo no ensino. As crianças se esforçam só naquilo em que são cobradas. Nesse caso, os exames e testes acabam determinando a profundidade da aprendizagem.
Por outro lado, são cada vez mais aceitas as idéias de que crianças com dificuldades numa área podem se mostrar muito capazes em outras e de que a escola deve incentivar o desenvolvimento das diferentes inteligências.
Quando crianças usam a Internet para buscar recursos ou desenvolver projetos colaborativos, pode-se avaliar: iniciativa própria, autonomia, postura positiva, capacidade de expressão e colaboração, organização de idéias e de recursos coletados, aproveitamento dos recursos, maturidade frente a problemas reais, senso crítico, criatividade etc. Esses pontos geralmente não são trabalhados nem cobrados no esquema tradicional de ensino baseado em livro-texto/notas de aula e aferidos em provas/testes.
Na avaliação do aprendizado adquirido com apoio da Internet, os professores têm de acompanhar os alunos enquanto eles trabalham sozinhos ou em grupos. Tal tarefa não é inviável, uma vez que o papel do professor nesse momento não é o de transmissor de conhecimento "digerido" e sim o de sugerir caminhos e acompanhar progressos. Enquanto acompanha ele já pode avaliar, preferencialmente em formulários já prontos para isso ou em planilhas específicas em um computador portátil. Esses formulários dependem do contexto em que vão ser utilizados: dependem do nível da turma avaliada, dependem da importância que se dá a esse tipo de conhecimento e de sua colocação em relação aos outros métodos de avaliação utilizados. Como essas habilidades não são exclusivas de nenhuma matéria, é importante comparar as avaliações obtidas por diferentes professores para construir o perfil do aluno, detetando suas dificuldades. Isso exige colaboração entre os professores, orientadores e coordenadores.
Os próprios alunos devem ser envolvidos no processo avaliativo. Pode-se pedir uma auto-avaliação por parte de cada aluno, em itens preestabelecidos, e dar nota a essa auto-avaliação. Avaliações feitas por colegas também são importantes e estes devem ter notas por esse trabalho. Quando os trabalhos forem desenvolvidos em grupo, o mesmo se aplica aos componentes do grupo, ou seja, avaliação do próprio trabalho, dos colegas e avaliação da avaliação.
Quando se incluem na avaliação itens como postura positiva, senso crítico e capacidade colaborativa tanto nos trabalhos como nas avaliações das avaliações, incentiva-se um espírito colaborativo cuja tendência é criar verdadeiras comunidades de aprendizagem nas quais todos se ajudam. A avaliação deixa de ser punitiva e passa a fazer parte importante do trabalho de formação.
É bom ter como máxima: "A avaliação como crítica de um percurso de ação será, então, um ato amoroso, um ato de cuidado, pelo qual todos verificam como estão criando o seu 'bebê' e como podem trabalhar para que ele cresça" (Cipriano Luckesi, in Raízes e Asas, Cenpec).
Deve-se também levar em conta o projeto inicial e o produto final: qualidade da proposição, realização dos objetivos propostos, profundidade, respeito ao cronograma.
A avaliação faz parte do processo de ensino e portanto deve ser feita durante o processo, com feedback aos alunos e intervenções corretivas. Não se deve esperar o resultado final para simplesmente dar nota, mesmo porque muitos projetos duram por vezes algumas semanas e o aluno não pode ficar todo esse tempo "à deriva".
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InterArte
Por mares nunca antes navegados
Na sala de aula:Trabalhos em grupo
Para que trabalhos em grupo funcionem não basta simplesmente dividir a turma e reunir os alunos de cada grupo. É preciso que o professor:
Dê a cada membro do grupo duas notas: uma para o trabalho em grupo e outra para o trabalho individual. É fundamental que estudantes sejam considerados individualmente e em grupo para que invistam plenamente na cooperação.
Ajude os estudantes a aprender a ouvir ativamente e a desenvolver outras habilidades sociais. Determine atividades que requeiram que o estudante ouça o outro sem interromper e pratique repetir tudo o que foi dito.
Deixe que os próprios estudantes definam quais são as regras básicas para o trabalho em grupo. Como eles acham que podem trabalhar mais efetivamente em cooperação?
Quando estudantes mais jovens tiverem dificuldades em esperar sua vez para falar, use um bastão. Faça o bastão passar de mão em mão. Só o estudante com o bastão tem permissão para falar. Quando se estiver on-line, pode-se criar um "bastão virtual".
Colete informação de todo o grupo antes de tomar uma decisão ou discutir um tópico. Faça com que cada membro do grupo se manifeste, sem que os outros possam interromper.
Quando planejar uma apresentação em grupo, divida os estudantes em grupos abordando um tópico ou questão. Forme novos grupos com um representante de cada grupo original e faça com que ele apresente suas conclusões para os outros. Estes devem fazer uma avaliação com base em critérios preestabelecidos. Isso evita que um único estudante faça a maior parte do trabalho.
Quando um aluno estiver dominando o grupo, dê a cada estudante um certo número de "fichas" para gastar. Cada vez que um estudante faz uma contribuição ao grupo, ele deposita uma ficha. Ao término do trabalho, todos os estudantes devem ter usado todas as fichas.
Assegure-se de que os grupos se auto-avaliem. O que funcionou e o que não deu certo para atingir as metas?
Projetos colaborativos
Alguns projetos funcionam melhor quando duas escolas trabalham em parceria, com alunos de uma escola tendo parceiros na outra. Outros projetos envolvem muitas escolas compartilhando recursos, informações e/ou responsabilidades. Como usar Assegure-se de que existe uma motivação para a participação do seu parceiro. Colaborações equilibradas nas quais todos os parceiros compartilham e usam as mesmas informações coletivas funcionam melhor.
Identifique claramente os objetivos e o cronograma do projeto. Crie instruções de participação para todos os parceiros.
Publique uma mensagem convidando os participantes 6 a 8 semanas antes do início do projeto.
Mande lembretes reafirmando prazos e metas durante o projeto.
Ajude os estudantes a trabalhar efetivamente com os outros.
Promova a interdependência no projeto estruturando-o para que dependa de cada parte dos recursos dos grupos.
Quando usar Quando os estudantes podem se beneficiar com outra perspectiva (tal como o tratamento de tópicos controversos, na criação de trabalhos de arte).
Quando seu tópico puder ser mais bem ilustrado por dados coletados em diferentes regiões geográficas (como acontece nas áreas de biologia, ecologia, geografia etc.).
Para criar um senso comunitário que não seria possível de outra forma (por exemplo, para questões de diversidade quando a escola é racialmente homogênea etc.).
Para abordar tópicos de diferenças e diversidade.
Para realçar habilidades de solução de problemas, de resolução de conflitos e de comunicação.
Benefícios Permite que estudantes treinem comunicação e aprendam de diferentes pontos de vista.
Sem comunicação clara e freqüente, as contribuições diminuem.
Antes de iniciar um projeto
Apresente as idéias a um amigo ou colega. Faça uma simulação de uma versão reduzida do projeto com seu colega.
Planeje o projeto com tempos realistas. Não complique as coisas nem para você nem para os outros definindo prazos muito curtos.
Evite planejar um projeto para o início ou fim do ano ou para o fim do semestre, quando estão todos sobrecarregados.
Envie lembretes aos participantes 1 mês antes, e 2 semanas antes do início do projeto. No último lembrete, confirme as participações.
Decida antecipadamente como as informações coletadas serão compiladas, por exemplo, usando planilhas ou bancos de dados.
Prepare-se para responder muitos e-mails. É melhor deixar modelos padrão de vários formatos preparados (para responder a inscrições, cancelamentos de inscrições, respostas, prazos, etc.). Pense num esquema para triar e-mails rapidamente. Se possível, envolva os estudantes nessa tarefa.
Durante o projeto
Afixe mapas e marque locais que responderam às chamadas do projeto para mostrar aos estudantes.
Faça com que os alunos se apresentem aos outros por e-mails curtos na fase inicial do projeto.
Cheque as mensagens todos os dias e responda imediatamente.
Depois do projeto
Peça que os estudantes agradeçam a todos os participantes.
Avalie o projeto: O que deu certo? O que precisa ser melhorado? Guarde as anotações para a próxima vez. Compartilhe espontaneamente com seus colegas e outros participantes do projeto o que você aprendeu.
Recursos escassos
Para maximizar seu tempo, quando você tiver apenas um computador:
Programe que estudantes trabalhem em duplas em intervalos de 20 minutos. Enquanto um par estiver trabalhando no computador faça com que os outros pesquisem usando outras fontes, tais como livros, revistas etc.
Crie um diretório em seu computador para os e-mails diários relacionados ao projeto. Relacione um estudante por dia para ler e responder o e-mail correspondente ao projeto.
Faça um download das páginas importantes da Web para uso posterior caso o site não esteja acessível ou haja congestionamento nas linhas. Pode-se abrir as páginas com o browser e continuar trabalhando.
Use um projetor compatível com seu computador para demonstrar para toda a classe de uma só vez navegação na Web e ferramentas de busca.
Documentação
A documentação do trabalho realizado e dos progressos obtidos é fundamental em todas as áreas. Tanto do ponto de vista técnico de configuração dos equipamentos quanto do ponto de vista pedagógico dos projetos desenvolvidos. É a partir de documentos bem-organizados que se pode construir uma evolução e não simplesmente ficar repetindo passos.
A escola deve adotar como praxe a documentação de todas as suas atividades. Com isso, um professor que busque inspiração e experiência para realizar novos projetos não recai em erros passados. Um técnico que se defronte com um problema resolvido anteriormente pode repetir com facilidade a solução. Alunos que vão desenvolver um trabalho podem partir de trabalhos já feitos e levá-los muito mais longe, seja no aprofundamento do tratamento dos assuntos, seja na sua apresentação. Quando as atividades estão documentadas as avaliações externas e internas são extremamente facilitadas e mais realistas.
O trabalho por projetos, por implicar um começo, meio e fim, favorece a documentação, que pode ser feita por meio de softwares específicos.
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