Gilson Fais*
A humanidade experimenta a vertigem do avanço tecnológico e com ele toda sorte de exclusões. E "incluir os excluídos" passou a ser a ordem do dia. O acesso aos fundamentos das ciências por trás desses avanços seguirá restrito a um grupo selecionado por anos de estudos e pesquisas. Nesse sentido, a tecnologia é necessariamente excludente: é fruto de casamentos de interfaces de saberes, produto da integração de uma vasta rede de detalhes técnicos e incubações teóricas desenvolvidas em centros de excelência cujo passaporte é o mérito intelectual. O cartão de crédito permite visita, não permanência. Afinal, de que vale o ouro sem o brilho?
Criar e desenvolver tecnologia é visto como a arte dos novos sacerdotes (os cyberdotes). Mas o acesso cognitivo real à elas é uma duvida do tempo alimentada pelo esforço, pelo talento e persistência individuais. A implementação de políticas públicas que facilitem o acesso físico à tecnologia são absolutamente inúteis se não houver iniciativa similar para o acesso intelectual à mesma tecnologia. Dê o peixe, mas ensine a pescar. Qualquer iniciativa de inclusão digital que não considere a dimensão restrita dessa iniciativa compõe um novo tipo de elitismo: o proselitismo tecnológico. Quantas vezes vamos ter que repetir: investimento em educação se faz no ensino fundamental e na preparação rigorosa de professores! Todos devem ir à Escola, mas nem todos na condição de Professor ou Diretor.
Quanto mais milagroso for o efeito prático da tecnologia, mais sofisticada e complexa é sua malha técnica e teórica. E quando se diz que é preciso “incluir digitalmente” faz-se menção exclusivamente à experimentação dos efeitos de saberes inacessivelmente articulados. Do contrário, um investimento maciço deveria ser imediatamente destinado ao Ensino Fundamental e Médio! Mas não só isso: em paralelo, uma transformação proporcional deveria ser implementada na formação dos professores. Formação de verdade, não paliativos com finalidade estatística. Em que categoria de idéias incluiríamos a proposta de enfiar computadores nas escolas onde um Diretor, mal sabendo distinguir um monitor de um processador, burocratiza o acesso físico ao ambiente onde as máquinas estão para garantir vida útil à elas quando a seus usuários mal garante uma vida educativa fútil? Dói muito, mas admitamos: já perdemos algumas gerações. Salvemos o que for possível e planejemos o futuro com humildade e consciência.
Quais saberes dão suporte à tecnologia da TV digital com tela de plasma? Da comunicação sem fio? Do microondas? Do automóvel com injeção eletrônica? E daqueles celulares repletos de efeitos estúpidos e profundamente irritantes? O conhecimento de base, aquele que aprendemos a não aprender no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, poderiam apoiar considerações sobre os princípios físicos e matemáticos que coordenam os fenômenos para a produção de determinado efeito espetacular. Entretanto, eles já não são suficientes para compreender uma ordem tecnológica que faz uso de princípios que estão além das nossas experiências cotidianas. E mesmo estando além do alcance de nossas analogias, não necessariamente se fazem além do alcance da sagacidade e da intuição criativa. E como se estimula a sagacidade e a intuição criativa senão através do abuso intelectual? (não vou definir agora o que entendo por “abuso intelectual”, mas espero que o leitor elabore o seu próprio entendimento desse conceito e o discuta abusadamente comigo após o término dessa série de artigos. Lembro, entretanto, que o abuso intelectual também é suscetível à criação de bobagens abusivas e já levou à tragédias humanas inacreditáveis...
Criar e desenvolver tecnologia é visto como a arte dos novos sacerdotes (os cyberdotes). Mas o acesso cognitivo real à elas é uma duvida do tempo alimentada pelo esforço, pelo talento e persistência individuais. A implementação de políticas públicas que facilitem o acesso físico à tecnologia são absolutamente inúteis se não houver iniciativa similar para o acesso intelectual à mesma tecnologia. Dê o peixe, mas ensine a pescar. Qualquer iniciativa de inclusão digital que não considere a dimensão restrita dessa iniciativa compõe um novo tipo de elitismo: o proselitismo tecnológico. Quantas vezes vamos ter que repetir: investimento em educação se faz no ensino fundamental e na preparação rigorosa de professores! Todos devem ir à Escola, mas nem todos na condição de Professor ou Diretor.
Quanto mais milagroso for o efeito prático da tecnologia, mais sofisticada e complexa é sua malha técnica e teórica. E quando se diz que é preciso “incluir digitalmente” faz-se menção exclusivamente à experimentação dos efeitos de saberes inacessivelmente articulados. Do contrário, um investimento maciço deveria ser imediatamente destinado ao Ensino Fundamental e Médio! Mas não só isso: em paralelo, uma transformação proporcional deveria ser implementada na formação dos professores. Formação de verdade, não paliativos com finalidade estatística. Em que categoria de idéias incluiríamos a proposta de enfiar computadores nas escolas onde um Diretor, mal sabendo distinguir um monitor de um processador, burocratiza o acesso físico ao ambiente onde as máquinas estão para garantir vida útil à elas quando a seus usuários mal garante uma vida educativa fútil? Dói muito, mas admitamos: já perdemos algumas gerações. Salvemos o que for possível e planejemos o futuro com humildade e consciência.
Quais saberes dão suporte à tecnologia da TV digital com tela de plasma? Da comunicação sem fio? Do microondas? Do automóvel com injeção eletrônica? E daqueles celulares repletos de efeitos estúpidos e profundamente irritantes? O conhecimento de base, aquele que aprendemos a não aprender no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, poderiam apoiar considerações sobre os princípios físicos e matemáticos que coordenam os fenômenos para a produção de determinado efeito espetacular. Entretanto, eles já não são suficientes para compreender uma ordem tecnológica que faz uso de princípios que estão além das nossas experiências cotidianas. E mesmo estando além do alcance de nossas analogias, não necessariamente se fazem além do alcance da sagacidade e da intuição criativa. E como se estimula a sagacidade e a intuição criativa senão através do abuso intelectual? (não vou definir agora o que entendo por “abuso intelectual”, mas espero que o leitor elabore o seu próprio entendimento desse conceito e o discuta abusadamente comigo após o término dessa série de artigos. Lembro, entretanto, que o abuso intelectual também é suscetível à criação de bobagens abusivas e já levou à tragédias humanas inacreditáveis...
Os maiores saltos produzidos pelo conhecimento humano foram frutos de intuições e abusos intelectuais: “e se for assim?”, e daí segue-se uma trama de idéias que leva frequentemente a profundas revisões do senso comum. Para aqueles que já leram alguma coisa sobre a Teoria das Supercordas (veja O Universo Elegante, de Brian Greene) sabe do que estou falando... É preciso que admitamos que não sabemos o que é o mundo, como ele funciona, quais são seus princípios reguladores – se os há! – e que nosso melhor propósito talvez seja o de erigir uma Civilização do Conhecimento e escapar, se pudermos, da civilização da banalidade. E podemos começar esse processo servindo aos princípios universais e não às palavras de ordem!
A formação de indivíduos capacitados para o exercício de atividades estratégicas para a Economia do país é o princípio que obriga o Estado a garantir constitucionalmente essa formação. Trata-se de uma questão de sobrevivência: o país precisa de uma economia robusta; a Economia precisa de cérebros para implementação de processos e produtos que tragam benefícios reais aos indivíduos. Mas nunca esqueçamos que a engrenagem toda é posta em funcionamento – e mantida assim – pela atividade de pessoas de carne e osso, com ligeiro desequilíbrio em favor da carne. Em último caso, para evitar abusos, a Lei deve ser para todos e não apenas para os inimigos de ocasião.
Podemos discutir a forma como o Estado pode se organizar para cumprir o seu propósito que é, em última instância, o de garantir que a escassês de recursos naturais seja compartilhada com a população que o constitui; a Economia é a ciência que procura formas e métodos de efetivar esse compartilhamento. Talvez essa definição não seja correta, dado que a economia frequentemente têm surtos que a razão dos pálidos economistas – ou a pálida razão dos economistas – mal descortina do turbilhão de estatísticas em que se vêem enrodilhados... Bem, como sabemos que a cobiça, a mesquinharia e o desejo de poder ocupam parte considerável do DNA humano, e que tanto o Estado, quanto os agentes econômicos, não são entidades abstratas independentes de fatores humanos, ambos precisam se inclinar ao cumprimento de regras específicas que são de domínio público. Estado e Economia mudam o tempo todo, daí a emergência de uma instituição que cuide especificamente da criação de regras, uma outra que trata de fazê-las cumprir, um painel para discussão de abusos provenientes dos agentes do Estado, da Economia e também dos ímpetos regulatórios de legisladores intelectualmente abusados. Bem, fica claro que a engrenagem é bastante complicada e possui uma essência labiríntica. Mas não há complexidade que não possa ser entendida. O que definitivamente não há é tempo real para a compreensão disso tudo.
O conhecimento é voraz. Ele nos toma completamente e nos faz escravos de um saber que parece nunca ser suficiente para resolver as questões mais elementares. Ao contrário, quanto mais aprendemos sobre algo, mais desentendimentos essenciais se aglutinam ao redor daquilo que acreditamos conhecer. A experiência do conhecer é das mais frustrantes, ao contrário do que sugere a poesia da inteligência e os delírios ingênuos dos entusiasmados. O ato de conhecer é fruto da aceitação tácita, mas não inteiramente consciente, de que o que nos rodeia é o desconhecido e que diante dele podemos alguma coisa. O que nos dá a ilusão de que possuímos um conhecimento suficiente para o entendimento de algo é o compartilhamento, entre nossos pares, dos desacertos toleráveis indiscerníveis de nossa limitação cognitiva. O conhecimento é fruto de um decoro não verbalizado entre aqueles que simulam sua produção intelectual dissimulando sua ignorância com algum estilo.
Ao iniciarmos a discussão sobre os mitos do título, não pretendemos tabelar seus valores e apontar em cada um suas incoerências. O termo “inclusão digital” é uma bobagem perfeitamente compatível com o discurso oco do “politicamente correto”. As Leis de Diretrizes e Bases da Educação já anunciavam a necessidade de se implementar o acesso às novas tecnologias. Isso porque em praticamente todas as atividades profissionais, o domínio básico na manipulação do computador (ligar, desligar, utilizar um editor de texto e planilha, enviar um e-mail, etc) é uma competência desejável. E qual é o tempo necessário para se adquirir essa competência? Seria realmente superior a 30 dias?
O diagnóstico de que a escola não oferece isso porque não possui equipamentos e professores adequadamente preparados é constrangedor, pois revela que a escola, seu ambiente, sua infraestrutura, sua população, é um anacronismo suportável por uma sociedade que trata a escola como um acessório para a evolução do indivíduo, um reduto marginal para treinamentos de conveniência à disposição da palavra de ordem que soar mais estridente. A escola deveria buscar a formação do indivíduo e não o seu treinamento. Este último não deveria ser decidido por ele?
Ainda que óbvio em função do descompasso escandaloso entre o desenvolvimento da sociedade e o da escola, o investimento em “alfabetização digital” seria mera conseqüência da alfabetização propriamente dita. Qual o propósito de se ensinar a digitar letras usando um teclado se o indivíduo mal aprendeu a formar palavras na própria mente? Por que não investirmos também em “alfabetização artística” para que o indivíduo aprenda a apreciar obras de arte, música, literatura? Só um idiota perguntaria para que serviria isso. Afinal, a apreciação da beleza pressupõe sensibilidade que é, por sua vez, decorrência do entendimento de si como um mistério. Aquele que se deixa capturar pela beleza artística entra em sintonia com a história espiritual da humanidade. E qual é o papel da “alfabetização científica”? Não serve apenas para que o indivíduo aprenda que os milagres tecnológicos são decorrências da inteligência humana aplicada criativamente e não simplesmente para habilitá-lo a escrever a forma matemática da segunda lei de Newton e, eventualmente, ajudá-lo a fazer passar pela janela – explorando o princípio da distribuição de forças em um sistema de roldanas –, do segundo andar, aquela TV 29’ que não passou por nenhuma porta da casa. Enfim, todos os anexos da alfabetização (-digital; -científica; -religiosa, etc) são decorrentes do ritmo com que se manifestam os fenômenos políticos, econômicos, tecnológicos, religiosos, etc. Sempre haverá necessidade de nos alfabetizarmos em algo. Mas uma delas precede todas as demais: é aquela que nos fez descobrir que as coisas podem ter sentido. Lembra-se do primeiro som que produziu, do primeiro sinal identificável de que você era um ser humano? Lembra-se da primeira palavra que você escreveu? E da alegria indizível que isso proporcionou àqueles que estavam ao seu redor?
A idéia de um local especial onde crianças e adultos poderiam conviver com os diversos saberes, surgiu com o propósito de permitir o acesso ao conhecimento da época para aqueles que estivessem interessados e demonstrassem algum talento para desenvolvê-lo. E, eventualmente, essas pessoas poderiam auxiliar na solução de problemas práticos envolvendo a produção de alimentos, a saúde e a segurança do grupo. E nasceu gratuito e financiado pelas grandes fortunas privadas. Com a sofisticação das ciências e a complexidade crescente das sociedades, centros de formação específicos surgiram. O Estado não podia deixar à “iniciativa privada” e à Igreja a formação dos indivíduos. Tornou-se demasiado vital a preparação de indivíduos com conhecimentos suficientes para promover a inteligência do Estado. A separação entre Igreja e Estado, no Brasil, foi efetivada em 1890 e consagrada constitucionalmente em 1891. E isso ocorreu em praticamente todos os países do mundo, republicanos e monarquias, excetuando as islâmicas. Mas em que escala?
Quando, de fato, o conhecimento foi para todos? São questões espinhosas e o espinho está na possibilidade de que o conhecimento seja apenas uma ilusão alimentada pelo delírio coletivo de que passagem de tempo significa necessariamente “evolução”. Quando se diz que o país evoluiu, a economia evoluiu, a ciência evoluiu... Quais são os índices? O que eles podem significar? Para entender isso tudo não seria prudente começarmos a certificar os processos de alfabetização e tentar compreendê-lo? Da palavra “desenvolvimento” podemos tomar aquilo que ela também representa: compactação do tempo e dos custos associados às práticas econômicas, decorrência, aliás, do uso de processos mais eficientes de controle propiciados pela informática. A desastrosa política de reserva de mercado em vigor na década de 80 aqui no Brasil, consolidou o analfabetismo tecnológico do país; do qual, aliás, custa a sair. Passado o susto, há quem diga que se a reserva de mercado na área de informática foi sem deixar saudades, experimentaríamos sentimento similar quando se for também a reserva de mercado na área da educação. Mas que reserva seria essa última?
Um dos softwares mais utilizados em escritórios e lares de todo o mundo é o editor de textos e de planilhas do Microsoft Office, sob o sistema operacional homônimo. Trata-se de um universo fantástico que envolve milhões de computadores. Esses aplicativos reinam absolutos, mesmo com o surgimento de alternativas interessantes – mas ainda não competitivas – provenientes do chamado “software livre”. Uma multidão de pequenas empresas surgiu no mundo todo por conta desse mercado. Empreendedores fizeram fortunas com empresas de consultoria. A informática alterou radicalmente a dinâmica dos negócios, não por ser um produto que inspira delírios futurológicos, mas porque possibilitou uma nova ordem de controle. E isso se transformou em um problema (e uma oportunidade) para Empresas e Governos... Afinal, a informação, que por séculos foi um produto artesanal, em poucas décadas, industrializou-se e passou a se expandir em um ritmo epidêmico. E este excesso produz um singular fenômeno comunicativo: o que informa passou a conviver com o que desinforma. E no delicado equilíbrio entre os dois, a lucidez passou a tremular, a inteligência a empalidecer e o espírito humano vem sofrendo suas conseqüências... O que está em jogo nas diversas alfabetizações é a própria civilização humana.
Terminaremos como um capítulo ou uma mera nota de rodapé na história sem começo nem fim (e aparentemente sem pé nem cabeça) da própria Vida?
* Gilson Fais é licenciado em Física pela USP e Mestre em Ensino de Ciências pela mesma universidade.