Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

O HIPERTEXTO E AS INTERFACES HOMEM - COMPUTADOR: CONSTRUINDO UMA LINGUAGEM DA INFORMÁTICA

 



REVISTA DE EDUCAÇÃO E INFORMÁTICA
Ano 5 - número 11 - janeiro 95
 
 
EDUARDO H. DINIZ
Mestre de Sistema de Informação pela Fundação Getúlio Vargas
 
Teria a Informática uma forma específica de linguagem? Para responder a esta pergunta é preciso saber o que caracteriza uma linguagem e se a Informática possui estes elementos. Uma linguagem pode ser vista como um conjunto de técnicas utilizadas para armazenar e transmitir mensagens, idéias, intenções e as mais variadas expressões humanas. Mas, mais do que isso, uma linguagem é um instrumento que auxilia alguém a pensar sobre o mundo, sobre seus semelhantes e sobre si mesmo.
De certa forma, os instrumentos da Informática servem para armazenar e transmitir informações, mas o que diferencia a Informática da palavra escrita, por exemplo, é a possibilidade de trabalhar com uma gama mais variada de formatos de informação. Enquanto a escrita trabalha exclusivamente com as informações armazenáveis em palavras, na Informática é comum se falar de multimídia, ou seja, informação em formatos variados.
Mas a possibilidade de falar da Informática como linguagem só começa quando se analisa o impacto que a fácil manipulação de instrumentos de multimídia terá em nossa forma de pensar e de ver o mundo.
A língua falada e a escrita deram ao homem a capacidade de aperfeiçoar gradativamente o seu mecanismo de raciocínio abstrato. A história da escrita indica a crescente abstração dos símbolos gráficos: os desenhos figurativos de objetos e seres foram se transformando em letras e alfabetos, vazios de significado em si próprios mas ricos na possibilidade de associação, facilitando a representação de idéias cada vez mais abstratas.
A estruturação da linguagem possibilitou ao homem construir um tempo e uma influência que o fizeram predominar sobre outros seres vivos, dando-lhe até mesmo condição de enfrentar e controlar alguns fatores da Natureza, diante dos quais os outros seres não têm como reagir. E os meios utilizados para se estruturar a linguagem — sejam eles palavras, imagens, sinais ou símbolos — determinam a forma pela qual se materializam pensamentos e a própria inteligência humana.
Vivemos em uma época onde as tecnologias (e a Informática perpassando todas elas) estão invadindo crescentemente o mundo humano. Todos os dias se desenvolvem novas formas de integrar a tecnologia ao cotidiano, modificando a forma de fazer, ver e pensar o mundo. Vista desta forma, a tecnologia também pode determinar novas linguagens.
Para ilustrar esta idéia podemos comparar três formas de linguagem e de representação da inteligência: a oralidade, a escrita e a Informática. O que chamamos de oralidade, ou de palavra falada pode ser visto de duas formas distintas: a oralidade primária que se refere ao papel da palavra nas sociedades que não adotaram uma escrita e a oralidade secundária na qual a palavra falada é complementar à escrita.
Numa sociedade oral primária uma parte importante das construções culturais é calcada nas lembranças dos indivíduos. A memória está, assim, identificada com a inteligência e todo o saber é transmitido oralmente. A narrativa os mitos e os cantos são para as sociedades da oralidade primária uma forma eficiente de armazenar as informações necessárias para a sua sobrevivência. Os gestos e as danças também são importantes, mas fariam parte de outra forma de representação que não será tratada aqui.
A oralidade primária ainda persiste mesmo nas sociedades modernas, menos pelo fato de a fala se manter (coisa que está associada à oralidade secundária) e mais pela força que as representações e o modo de ser exercem ao ser transmitidos independentemente da escrita e de outras formas de comunicação. A maior parte dos conhecimentos que usamos em nossa vida cotidiana nos foi transmitida pela via oral. Muito do que fazemos é composto por habilidades adquiridas através de observações e imitações, e não do estudo das teorias contidas nos livros.
Às narrativas míticas no arsenal do saber humano foram acrescentadas a teoria, a lógica e as sutilezas da interpretação dos textos. O alfabeto e a impressão, aperfeiçoamentos que permitiram o alavancamento da escrita, desempenham hoje um papel essencial no estabelecimento da Ciência como modo de conhecimento dominante. É importante frisar que as formas sociais do saber que hoje nos parecem naturais e
incontestáveis baseiam-se no uso de técnicas historicamente datadas, portanto transitórias.
Pesquisas demonstram que pessoas educadas em culturas orais primárias captam mais destacadamente situações. Para nós, que vivemos em culturas nas quais a escrita predomina é mais forte a tendência a pensar por categorias. Esta diferenciação na forma de pensar desnuda a vinculação entre o que chamamos de "raciocínio lógico" e as técnicas da comunicação escrita. Mesmo certas racionalidades e formas de pensamento crítico só puderam se desenvolver com a escrita. Pode-se dizer até que a linearidade e a objetividade do pensamento são frutos da cultura escrita.
Com a Informática novas formas de pensar podem estar nascendo. Apesar de ainda não conseguirmos definir precisamente o que seria o raciocínio próprio da Era da Informática podemos analisar as ferramentas que têm potencial para alavancar as novas formas de representação e armazenamento do pensamento humano. O hipertexto é uma destas ferramentas.
A primeira manifestação da idéia daquilo que viria a ser chamado de hipertexto nasceu com Vanevar Bush, nos anos 40. Preocupado com a hierarquização das classificações científicas, Bush acusava-as de serem artificiais e de deturparem as formas naturais de elaboração das idéias. A indexação em classes e subclasses oculta segundo ele, formas de associação mais variadas que o raciocínio lógico e linear das classificações não são capazes de representar. Para ilustrar a sua observação, Bush descreve um dispositivo intelectual comparado a um reservatório infinito de documentos, imagens e sons (onde poderiam ser incluídas outras sensações), todos de alguma forma acessíveis por meio de diferentes formas de conexão. Com esse dispositivo, ele acreditava que conseguiria representar um esquema de classificação mais próximo do que imaginava ser o funcionamento da inteligência humana, ampliando os horizontes da indexação tradicional.
Não é preciso mencionar a inviabilidade da materialização do projeto de Bush, ainda mais com a tecnologia disponível na época. Mas a idéia vingou. Nos anos 60, Theodore Nelson forjou o termo hipertexto para definir a idéia de escrita/leitura não-linear num sistema de Informática. Imaginando a biblioteca de Alexandria moderna, Nelson descreve o seu sistema como sendo capaz de conter toda a arte e a ciência do mundo, podendo ser ampliada constantemente por novas intervenções de milhões (quiçá, bilhões) de pessoas a cada instante.
Atualmente há três razões fundamentais para a não-concretização de tais modelos ultra-universalizantes propostos por Bush e Nelson, todas relacionadas às suas megadimensões. A primeira delas diz respeito ao nível estritamente informático e está relacionada às dificuldades práticas de se indexarem bancos de dados tão gigantescos. A segunda está ligada à diversidade de meios nos quais se encontram dispersas as incontáveis fontes de informação que se podem reunir no planeta. A terceira é de ordem prática de organização: como selecionar, contextualizar e orientar usuários para a utilização de um sistema tão magnífico?
Estes hipertextos (poderíamos utilizar a palavra hipermídia, já que se trata de informação em diferentes mídias, mas optamos aqui por identificar todo e qualquer tipo de informação como sendo texto) são mais importantes pela forma de acesso não-linear à informação que propõem do que por sua inimaginável dimensão. Hoje, com uma quantidade de informação equivalente a uma bem-fornida enciclopédia, trabalhando com um número relativamente reduzido de mídias (texto, fotos, imagens animadas e som), tudo reunido e processado através de um computador pessoal, já se pode pensar em pequenas revoluções, particularmente no que diz respeito à Educação. Com estas ferramentas, o trabalho de pesquisa a fontes de informação tende a se transformar e a se tornar acessível a um número cada vez maior de estudantes, levando a questão da metodologia da investigação a fazer parte do cotidiano do estudo mesmo em níveis inferiores.
Acrescente-se ainda toda a expectativa anunciada pela constante evolução da tecnologia da Informática, que prevê tanto o crescimento da capacidade de armazenar informações, quanto a possibilidade de manipulá-las a partir de outras formas de percepção dos sentidos (a realidade virtual já trata como informação o tato e outras sensações). Estas inovações que ainda estão por vir contribuirão ainda mais para ampliar o impacto das ferramentas que aqui estamos chamando de hipertexto.
E é por causa do acesso não-linear que o hipertexto é mais do que simplesmente uma nova forma de armazenamento de informação, matéria-prima fundamental para produção do conhecimento. Ele pode alimentar também uma nova forma de raciocínio que contribui para ampliar os horizontes do pensamento humano. A forma tem muito a ver com o que se passa em nossas cabeças. Nós nos tornamos aquilo que observamos. A forma do transporte da informação não é neutra: ela tanto dita o tipo de informação transmitida como afeta os processos do pensamento.
Se as culturas baseadas na oralidade e na escrita determinaram algumas das características do pensamento e da inteligência humanos, de que forma um mundo povoado de computadores, dando acesso não-linear à informação e em escala muito maior do que foi possível até então, poderá criar novos modos de pensar? Não vamos ficar aqui tentando adivinhar o futuro. De qualquer modo, é bastante provável que a influência da tecnologia do hipertexto na forma de pensar e de ser humanos não seja pequena.
Mas toda linguagem exige uma técnica. E embora possamos caracterizar várias formas de comunicação como linguagem, todas elas são possíveis apenas se "materializadas" através dos meios de uma técnica. Assim é com a palavra falada e com a escrita. Assim é com a Informática.
Já se tornou corrente o uso da expressão navegação para a exploração de bancos de informação eletrônicos. A imagem dá a idéia de um mar de informações que deve ser singrado para se obter aquela parcela que nos interessa. Para a navegação segura, há a necessidade do barco, de bússolas e astrolábios. Ou seja, facilitar a operação dos computadores é preciso. Só assim será possível a utilização de todos os seus recursos por um número maior de pessoas.
A sofisticação das interfaces homem—computador (que também podem ser chamadas de interfaces de usuário, ou apenas interfaces) tem contribuído para tornar o uso das ferramentas da Informática mais "amigáveis". Isto quer dizer que a "alfabetização" em Informática vai se tornar mais fácil graças à evolução de suas técnicas de utilização. Tal como aconteceu com a escrita, a simplificação do uso permitirá que um número cada vez maior de usuários tenha acesso aos recursos da Informática, tendendo a atingir o ponto onde o domínio de tais técnicas será indispensável para que alguém possa comunicar suas idéias, de forma semelhante ao que já acontece hoje com a escrita.
Inicialmente, a preocupação com a interface era apenas uma questão de ergonomia. A partir do momento em que a maioria dos usuários definitivamente deixa de ser especialista em Informática os problemas da comunicação e da significação se tornam mais importantes. Quanto maior a quantidade de usuários da Informática mais a sua interface se padroniza; e, se a padronização aumenta, há uma tendência ao crescimento do número de usuários. O quadro parece irreversível: mais e mais pessoas estarão, num futuro próximo, interagindo umas com as outras através da Informática. Quanto mais cresce a necessidade do domínio de sua técnica mais a Informática se consolida como linguagem de fato.
Se uma linguagem é uma forma de estruturarmos um pensamento e de nos comunicarmos com o outro, é preciso saber como ser inteligível. "Ler" uma mensagem significa acessar materiais criados por outros. "Escrever" uma mensagem significa gerar materiais para os outros.
É preciso internalizar o meio para subtrair a mensagem que está nele embutida. Se a Informática é um meio, é preciso internizá-la, isto é, entender e decifrar a sua lógica. Esta internalização só se torna possível com a tradução, via interface, dos complexos códigos "de máquina" com os quais trabalham os computadores em seus circuitos internos. A interface transforma uma máquina ininteligível num objeto manipulável. Ao traduzir toda a complexa técnica contida no computador para algo mais inteligível para a compreensão humana, a interface se torna decisiva na consecução da Informática como linguagem.
Mas se a escrita demonstra, a Informática simula. A primeira utilizando ferramentas de retórica; a segunda utilizando a montagem de processos. Tal como a invenção do tipo impresso não apenas aumentou a disponibilidade do livro, mas também influenciou os padrões de quem aprende a ler, o computador é um meio que muda os padrões: ele vai além da representação estática em busca da representação dinâmica.
As interfaces da Informática não irão apenas aperfeiçoar os meios de comunicação tal como nós os conhecemos. Hoje, os meios de comunicação são "burros", pois permitem apenas que a informação siga adiante. Um meio de comunicação "inteligente" ajuda a buscar a informação que se quer. As interfaces dos computadores estão se desenvolvendo para permitir que o usuário possa contar com assistentes de "navegação", seja em suas pesquisas em bancos de dados eletrônicos, seja na comunicação com outros usuários.
Transformações são esperadas na comunicação interpessoal com o desenvolvimento das interfaces e com a conseqüente ampliação por todo o planeta do número de usuários de computadores. Novas formas de comunicação entre as pessoas estarão cada vez mais dependentes de dispositivos eletrônicos e computacionais.
Uma das conseqüências do avanço tecnológico é o crescente povoamento de máquinas no mundo. As máquinas, feitas para servir, são de certa forma os escravos do nosso tempo. Quanto mais mecânica uma máquina, menos amigável é sua interação com os humanos, o que cria um certo distanciamento entre pessoas e máquinas.
Mas a Informática, acoplada a diferentes tipos de máquinas mecânicas, tende a ter uma operação cada vez mais fácil. As interfaces amigáveis dos computadores tendem a se universalizar, e a Informática será também a interface entre o mundo dos humanos e o das máquinas. As possibilidades de comunicação homem-máquina são ainda um campo aberto para as especulações. Alguém poderia limitar essas possibilidades, afirmando que, de uma ou de outra forma este tipo de comunicação acabaria servindo, no fim, a um objetivo que transcenderia a própria máquina. Mas, dado o fetichismo com que a ficção científica trata os robôs, por exemplo, pode-se imaginar aí uma nova fonte de relacionamentos, o que, nos dias atuais, ainda é assunto para alimentar devaneios de todo o tipo.
Isto quer dizer que a linguagem da Informática terá impacto em três níveis: em primeiro lugar, permitirá novos modos de comunicação entre os homens, dadas as características especificas de suas técnicas; em segundo lugar, possibilitará o desenvolvimento de novas formas de estruturação do raciocínio; e, por último, numa visão mais futurista, abrirá uma nova frente de diálogo entre os homens e suas criações, as máquinas.
Além dos elementos de hipertexto e de interface discutidos aqui, a linguagem da Informática merece ser considerada também por causa de pelo menos duas outras importantes características de suas ferramentas: o poder de produzir simulações e o de facilitar as comunicações entre pontos distantes através de redes de computadores. A discussão sobre estas outras características demandaria um interessante trabalho de investigação.
De qualquer forma a oralidade, a escrita e a Informática são fundamentais para a gestão do conhecimento. É importante notar, ainda, que tais linguagens se caracterizam não pela mera substituição de uma pela outra mas por uma "complexificação", ou seja, com a nova englobando a anterior sem fazer com que esta desapareça. A nova linguagem vai sempre incorporar características da anterior, sem ter poder para substituí-la, ampliando os universos de sensibilidade nos quais se baseia a comunicação do homem com seus semelhantes, com a Natureza e consigo mesmo.
Tudo o que foi dito sobre a linguagem da Informática até aqui deixa o espaço
aberto para uma discussão muito importante sobre o papel do educador diante da Informática. Se se partir do ponto de que o professor ajuda o seu aluno a aprender a escrever não para que ele se torne um hábil desenhista de letras, mas para que ele tenha a capacidade de expressar as suas idéias, o domínio da linguagem da Informática se torna tarefa imprescindível para qualquer educador preocupado com todas as formas de expressão que determinam o pensamento humano.
Qualquer visão sobre a Educação pressupõe a sua expressão através de uma linguagem. E toda linguagem se ancora numa técnica de estruturação do pensamento que permite a codificação das idéias, possibilitando confrontá-las e transformá-las. Também para melhor entender o processo de ensino -aprendizagem, o conhecimento dos instrumentos da linguagem da Informática se torna indispensável. Assim, a compreensão do hipertexto e das interfaces homem - computador é relevante para a discussão sobre o futuro desse processo dinâmico que chamamos de Educação.