Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

Novas tecnologias, o redimensionamento do espaço e do tempo e os impactos no trabalho docente

 

 Vani Moreira Kenski -FEUSP
 Panorama da sociedade atual
A partir da banalização das tecnologias eletrônicas de comunicação e de informação a sociedade atual adquiriu novas maneiras de viver, de trabalhar, de se organizar, de representar a realidade e de fazer educação. Tradicionalmente, a aprendizagem de informações e conceitos era tarefa exclusiva da escola. Os conhecimentos teóricos eram apresentados gradativamente às crianças após o ingresso nas instituições formais de ensino. Eles eram finitos e determinados. Ao final de um determinado grau de escolarização a pessoa podia considerar-se formada, ou seja, já possuía conhecimentos e informações suficientes para iniciar-se em alguma profissão.
O espaço e tempo de ensinar eram determinados. "Ir a escola" representava um movimento, um deslocamento até à instituição designada para a tarefa de ensinar e aprender. O "tempo da escola", também determinado, era considerado como o tempo diário que, tradicionalmente, o homem dedicava à sua aprendizagem sistematizada. Correspondia, também, à época, na sua história de vida, o tempo que o homem dedicava à formação escolar.
As velozes transformações tecnológicas da atualidade impõem novos ritmos e dimensões à tarefa de ensinar e aprender. É preciso que se esteja em permanente estado de aprendizagem e de adaptação ao novo. Não existe mais a possibilidade de se considerar a pessoa totalmente formada, independentemente do grau de escolarização alcançado. Além disso, múltiplas são as agências que apresentam informações e conhecimentos a que se pode ter acesso, sem a obrigatoriedade de deslocamentos físicos até às instituições tradicionais de ensino para aprender. Escolas virtuais oferecem vários tipos de ensinamentos on-line, além das inúmeras possibilidades de se estar informado, a partir das interações com todos os tipos de tecnologias.
"Na atualidade, o que se desloca é a informação", diz Virilio. E desloca-se em dois sentidos: o primeiro, o da espacialidade física, em tempo real, sendo possível de serem acessadas através das tecnologias mediáticas de última geração. O segundo, pela sua alteração constante, transformações permanentes, sua temporalidade intensiva e fugaz. Velocidade. Este é o termo síntese do status espaço- temporal do conhecimento na atualidade. Velocidade para aprender e velocidade para esquecer. Velocidade para acessar as informações, interagir com elas e superá-las com outras inovações. Essa "explosão de informação", como diz Galvão, se, de um lado, presta-se " a criar meios cada vez mais eficientes para o armazenamento e a circulação instantânea de informações, de outro, desenvolve softwares e programas de busca e de filtro que nos ajudam a administrar um espaço que já beira o infinito".
O impacto temporal das tecnologias
O homem vive entre diversos tipos de temporalidades. Na realidade, há uma percepção geral e intuitiva de que os múltiplos sentidos de tempo se entrecruzam na vida cotidiana. A percepção mecânica e objetiva, definida pelos relógios e calendários, orienta as nossas atividades rotineiras. Estabelece ritmos e nos auxilia operacionalmente a definir prazos e compromissos. Em um sentido consensual geral, o tempo determinado espacialmente pelos cronômetros, pela periodicidade dos meses e das estações do ano ou pela delimitação de períodos ou eras, é uma imensa abstração. O homem ocidental subordina-se pragmaticamente às suas determinações - horas, minutos, segundos, meses, anos... - e orienta as ações de acordo com a sua imagem de "continuidade" e progressão.
A relatividade do tempo estudada pela Física aparentemente não interfere no sentido que o homem compreende o tempo na vida cotidiana. Nesta, o tempo do trabalho ou o tempo industrial, como denomina Anders, é praticamente o denominador comum através do qual a grande maioria da população urbana atual se orienta e obedece. Essa temporalidade industrial, típica da sociedade capitalista, é vivida em todos os momentos, no trabalho ou fora dele, ou como diz Anders...
" quando a sirene da fábrica anuncia o término do trabalho, ela anuncia, ao mesmo tempo, também, que se inicia a inevitável dominação do mundo sirênico dos meios de comunicação e da publicidade. Anuncia que nós dependemos dele, que aí começam as horas de nosso emprego sem limites e sem contrato, as horas por cuja lama temos que atravessar batalhando no suor de nosso rosto de ócio" (p. 170).
Em nossas relações cotidianas não podemos deixar de sentir que as tecnologias transformam o modo como nós dispomos, compreendemos e representamos o tempo e o espaço à nossa volta. Sem nos darmos conta, o mundo tecnológico invade a nossa vida e nos ajuda a viver com as necessidades e exigências da atualidade. Secretárias, agendas, correios, listas, bancos e tantos outros serviços eletrônicos redimensionam as nossas disponibilidades temporais e os nossos deslocamentos espaciais.
O tempo, o espaço, a memória , a história, a noção de progresso, a realidade, a virtualidade e a ficção são algumas das muitas categorias que são reconsideradas em novas concepções a partir dos impactos que, na atualidade, as tecnologias eletrônicas têm em nossas vidas.
O conhecimento na nova era
Pierre Lévy categoriza o conhecimento existente nas sociedades em três formas diferentes: a oral, a escrita e a digital. Embora essas formas tenham se originado em épocas diferentes, elas coexistem e estão todas presentes na sociedade atual. No entanto, elas nos encaminham para percepções diferentes, racionalidades múltiplas e comportamentos de aprendizagem diferenciados.
A forma escrita de apreensão do conhecimento é a que prevalece em nossas culturas letradas mas, a linguagem oral, ainda é a que predomina em todas as formas comunicativas vivenciais. Em meio a elas, e utilizando-se de ambas, o estilo digital de apreensão de conhecimentos é ainda incipiente, mas sua proliferação é veloz. O estilo digital engendra, obrigatoriamente, não apenas o uso de novos equipamentos para a produção e apreensão de conhecimentos mas também novos comportamentos de aprendizagem, novas racionalidades, novos estímulos perceptivos. Seu rápido alastramento e multiplicação obriga-nos a não mais ignorar sua presença e importância.
Favoráveis ou não, é chegado o momento em que nós, profissionais da educação, que temos o conhecimento e a informação como nossas matérias primas, enfrentemos os desafios oriundos das novas tecnologias. Esses enfrentamentos não significam a adesão incondicional ou a oposição radical ao ambiente eletrônico, mas, ao contrário, significa criticamente conhecê-los para saber de suas vantagens e desvantagens; de seus riscos e possibilidades; para transformá-los em ferramentas e parceiros em alguns momentos, e dispensá-los em outros instantes.
Os impactos na prática docente
A apreensão do conhecimento na perspectiva das novas tecnologias eletrônicas de comunicação e informação, ao ser assumida como possibilidade didática exige que, em termos metodológicos, também se oriente a prática docente a partir de uma nova lógica. A solução real, diz Kerckhove, " está em mudarmos as nossas percepções e não apenas as nossas teorias". Compreender este novo mundo com uma nova lógica, uma nova cultura, uma nova sensibilidade, uma nova percepção.
Não mais, apenas, a perspectiva estrutural e linear de apresentação e desenvolvimento metodológico do conteúdo a ser ensinado; nem tampouco, a exclusiva perspectiva dialética. Uma outra lógica, baseada na exploração de novos tipos de raciocínios nada excludentes, em que se enfatizem variadas possibilidades de encaminhamento das reflexões, se estimule a possibilidade de outras relações entre áreas do conhecimento aparentemente distintas. A apropriação dos conhecimentos neste novo sentido envolve aspectos em que a racionalidade se mistura com a emocionalidade ; em que as intuições e percepções sensoriais são utilizadas para a compreensão do objeto do conhecimento em questão.
Nesta abordagem alteram-se principalmente os procedimentos didáticos, independentemente de uso ou não das novas tecnologias em suas aulas. É preciso que o professor, antes de tudo, se posicione não mais como o detentor do monopólio do saber mas como um parceiro, um pedagogo, no sentido clássico do termo, que encaminhe e oriente o aluno diante das múltiplas possibilidades e formas de se alcançar o conhecimento e de se relacionar com ele. Como diz Michel Serres, " no sentido etimológico, a pedagogia significa a a viagem da criança em direção às fontes do saber. Até agora existiam lugares de saber, um campus, uma biblioteca, um laboratório... Com os novos meios é o saber que viaja. E essa inversão transforma completamente a idéia de classe ou de campus".
Neste sentido, a dinâmica da sala de aula em que alunos e professores encontram-se fisicamente presentes também se altera. As atividades didáticas orientam-se para privilegiar o trabalho em equipe, em que o professor passa a ser um dos membros participantes. Nestas equipes, o tempo e o espaço é o da experimentação e da ousadia em busca de caminhos e de alternativas possíveis, de diálogos e trocas sobre os conhecimentos em pauta, de reciclagem permanente de tudo e de todos.
Dianna Laurrillard apresenta os papéis do professor e do aluno em quatro diferentes tipos de ensino que podem ser desenvolvidos através dos diversos tipos de novas tecnologias de comunicação e informação. No primeiro tipo, o professor se apresenta como o "contador de histórias" e pode ser substituído por um vídeo, um programa de rádio ou uma tele-conferência, por exemplo. No segundo tipo, o professor assume o papel de negociador e o ensino se dá através da "discussão " do conteúdo aprendido em outros tipos de interações fora da sala de aula (a leitura de um texto ou de um livro, a observação ou visita a determinado lugar, assistir um filme, por exemplo). Uma terceira possibilidade exclui inclusive a ação direta do professor. Neste caso, é o aluno que assume o papel de "pesquisador" e interage com o conhecimento através dos mais diferenciados recursos multimediáticos. O aluno aprende "por descoberta" e ao professor cabe a interação final com o aluno, para "ordenar" os conhecimentos apreendidos pelos alunos nos outros espaços do saber. A quarta e última modalidade de ensino é a que apresenta professores e alunos como "colaboradores", utilizando os recursos multimediáticos em conjunto para realizarem buscas e trocas de informações, criando um novo espaço significativo de ensino-aprendizagem em que ambos (professor e aluno) aprendem. Espaço social por excelência, a sala de aula, nesta última perspectiva, pode assumir para si a perspectiva de interação com o conhecimento e com os atores do ato educativo. Assume também a função de ser o principal lugar em que se desenvolva a inteligência coletiva, como é defendida por Levy, em que ocorra "a negociação permanente da ordem das coisas", da linguagem, do papel de cada um, do recorte e da definição dos objetos, da reinterpretação da memória social da comunidade.
Nessa nova sala de aula (e, obrigatoriamente, nova escola) nada é fixo, mas não reina a desordem nem o relativismo absoluto. Os atos são coordenados e avaliados em tempo real de acordo com um grande número de critérios, constantemente reavaliados conforme o contexto. A ordem aqui, não é pensada no sentido positivista de adaptação às regras. Ao contrário, a ordem neste caso, significa pulsação e funcionamento, um processo de reequilibração permanente a partir das trocas intensas realizadas com o exterior, ou seja, com o ruído, que lhe traz a cada momento mais informação, mais complexidade. A concepção de ordem neste caos informacional estaria, assim, mais próxima da adaptação realizada pelo coração no corpo humano de acordo com as diferentes oscilações e adversidades vindas do mundo exterior.
Interagindo com diversas outras "comunidades" reais ou virtuais, os indivíduos que animam este novo espaço do saber, segundo Baudrillard, longe de serem "membros intercambiáveis de castas imutáveis", são por sua vez singulares, múltiplos, nômades e em meio à metamorfose (ou à aprendizagem, que é o mesmo) permanente".
A escola, portanto, como uma das instituições de memória social, coloca-se como ponto de recepção e de troca com as demais instituições culturais, em um sentido de promover a "educação" em um sentido amplo. Garantir a necessária adesão social a um projeto de convivência integrada com os outros espaços sociais e as mais recentes tecnologias, esta é a necessidade educacional da nova era.
Espaço e Tempo do Docente
Não é possivel pensar na prática docente sem pensar, na pessoa do professor e em sua formação que, não se dá apenas durante o seu percurso nos cursos de formação de professores mas,durante todo o seu caminho profissional, dentro e fora da sala de aula.
Antes de tudo a esse professor devem ser dadas oportunidades de conhecimento e de reflexão sobre sua identidade pessoal como profissional docente, seus estilos e seus anseios. Em uma outra vertente, é preciso que este profissional tenha tempo e oportunidades de familiarização com as novas tecnologias educativas, suas possibilidades e limites para que, na prática, faça escolhas conscientes sobre o uso das formas mais adequadas ao ensino de um determinado tipo de conhecimento, em um determinado nível de complexidade, para um grupo específico de alunos e no tempo disponível. Ou encaminhe sua prática para uma abordagem que dispense totalmente a máquina, e os alunos aprendam até com mais satisfação. As atividades de narrativa oral e de escrita não estão descartadas. A diferença didática não está no uso ou não uso das novas tecnologias, mas na compreensão das suas possibilidades. Mais ainda, na compreensão da lógica que permeia a movimentação entre os saberes no atual estágio da sociedade tecnológica.
 Desintermediação entre o professor e as novas tecnologias
Todos aqueles que já "cruzaram a fronteira" ou seja, procuraram relacionar-se com as novas tecnologias educativas têm queixas e observações semelhantes: a baixa qualidade didática de muitos dos programas que são comercializados e introduzidos como pacotes pedagógicos nas escolas de diversos níveis de ensino. A queixa procede. Na verdade, um pouco da culpa não está nos programas em si, mas nos produtores destes programas e softwares e aí, nós, educadores também temos parte da responsabilidade.
Realizados por técnicos que , em geral, não entendem de educação, estes programas são impostos pelas escolas e empresas como potencialmente revolucionadores do ensino. Intimidados, os professores se submetem aos técnicos e aos programas de baixa qualidade educativa por eles produzidos.
Uma das soluções para este impasse está na possibilidade do professor também assumir um papel na equipe produtora dessas novas tecnologias educativas. Outra, é a de que os cursos de formação de professores se preocupem em lhes garantir essas novas competências. Que ao lado do saber científico, do saber pedagógico, seja oferecido ao professor a capacidade de ser agente, produtor, operador e crítico das novas tecnologias educativas. Sobre este assunto vários educadores brasileiros já se pronunciaram. Bernadete Gatti posiciona-se, por exemplo, dizendo que quem deve capitanear a preocupação com a melhor qualidade do ensino "é o educador, e não o programador, nem o dono da empresa que está elaborando o software" E indaga: "será que vamos delegar essa função, que nos é específica - - dos professores - a outros técnicos que não vivenciam o cotidiano escolar?" (p. 25/26).
O domínio das novas tecnologias educativas pelos professores pode lhes garantir a segurança para, com conhecimento de causa, sobrepor-se ás imposições sócio-políticas das invasões tecnológicas indiscriminadas às salas de aula. Criticamente, os professores vão poder aceitá-las ou rejeitá-las em suas práticas docentes, tirando o melhor proveito dessas ferramentas para auxiliar o ensino no momento adequado.
 Espaço e Tempo Docente
As tecnologias redimensionaram o espaço da sala de aula em, pelo menos, dois aspectos. O primeiro, diz respeito aos procedimentos realizados pelo grupo de alunos e professores no próprio espaço físico da sala de aula. Neste ambiente, a possibilidade de acesso a outros locais de aprendizagem - bibliotecas, museus, centros de pesquisas, outras escolas, etc.... com os quais alunos e professores podem interagir e aprender - modifica toda a dinâmica das relações de ensino - aprendizagem . Em um segundo aspecto, é o próprio espaço físico da sala de aula que também se altera.
Deslocamentos são necessários, momentos dos alunos diante das máquinas alternam-se com momentos em que discutem em equipe os resultados de suas interações com o ambiente tecnológico e com outros momentos em que refletem ou se concentram em atividades isoladas, sem os recursos tecnológicos. As novas formas movimentação e a reorganização da sala de aula criam " uma nova distribuição de espaço e uma nova relação de tempo entre o trabalho do docente com o discente e o trabalho de cada um deles entre si" (Gatti, p. 24).
A rotina da escola também se modifica. Aos professores é necessária uma reorientação da sua carga horária de trabalho para incluir o tempo em que pesquisam as melhores formas interativas de desenvolver as atividades fazendo uso dos recursos multimediáticos disponíveis. Incluir um outro tempo para a discussão de novos caminhos e possibilidades de exploração desses recursos com os demais professores e os técnicos e para refletir sobre todos os encaminhamentos realizados, partilhar experiências e assumir a fragmentação das informações, como um momento didático significativo para a recriação e emancipação dos saberes.
Setembro de 1997.
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