Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

Linguagens e Tecnologias na Educação

 

Nelson De Luca Pretto (*)
 
Mas, se o artista tocasse sempre a mesma fuga com a mesma nota do mesmo jogo, seria de fato um compositor? Compor, eis a questão.
Michel Serres, entrevistas a Bruno Latour.
Analisar o surgimento de novas linguagens a partir da aproximação das tecnologias da comunicação e informação com uma grande diversidade de áreas do conhecimento, exige estabelecer uma panorâmica sobre alguns elementos do desenvolvimento científico e tecnológico do mundo contemporâneo. Nesse sentido, precisamos resgatar alguns desses elementos tentando dar uma dimensão mais ampla ao que vamos tratar nesse texto.
Um dos primeiros aspectos que exige uma reflexão, diz respeito à relação do ser humano com as máquinas. Precisamos pensar historicamente sobre essa relação para podermos compreender melhor algumas das dificuldades que encontramos hoje no uso das tecnologias de informação e comunicação - as TIC - na educação e em outras áreas do conhecimento.
Num primeiro momento podemos associar a palavra techné, do grego, à palavra arte. A arte do fazer, aliada à capacidade do homem e, dependente de suas habilidades, no ato de fazer. Como parte do desenvolvimento histórico da humanidade e com o surgimento da ciência moderna, a técnica passa a estar associada ao logos e não mais com o fazer, ou seja, com a razão do fazer. Nesse sentido, surge a tecnologia como sendo uma extensão dos sentidos do homem. Essa razão do fazer está intimamente ligada à intencionalidade, aos sentidos e significados do que se faz.
Até esse momento, a característica básica da relação do ser humano com as máquinas é o fato desta ser sempre uma relação utilitarista-instrumental. A tecnologia aparece como neutra, está posta a serviço do homem, sendo definida socialmente em função do uso que será dado a ela pelo homem. A tecnologia passa a ser quase autônoma, com um desenvolvimento ilimitado, livre de qualquer imperativo ético, o que vem redundando na exploração desenfreada da natureza, com graves consequências para o meio ambiente. Uma das consequências desse tipo de relação é que, com essa perspectiva de tecnologia, a manipulação da natureza passa ser a palavra de ordem, colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade. A tecnologia passa então a ser vista como a responsável pela desumanização dos seres humanos. Obviamente, com reações dos próprios humanos.
Na metade do século XIX o mundo registrou um dos acontecimentos mais emblemáticos dessa relação dos seres humanos com as máquinas. Aquilo que ficou conhecido como o movimento ludista, que iniciou em Manchester na Inglaterra e constitui-se numa manifestação de trabalhadores têxteis desempregados, um movimento de resistência às tecnologias, com diferentes versões para o próprio nome do movimento. Consta que o nome tenha sido dado ao movimento em função de um dos seus lideres ter sido Midlands Ned Ludd, que atacara com martelo um tear , não em ato consciente de resistência, mas com raiva por ter sido espancado por um patrão. Após esse ataque, o grupo liderado por Ludd levantou-se contra os patrões e o sistema fabril e destruiu os equipamentos, o que foi seguido por diversos outros trabalhadores em diversos lugares do mundo (Falcão, 1995).
Vivemos hoje um outro momento dessa relação homem-máquina. Essa nova perspectiva poderia ser sintetizada por uma única palavra: imbricamento. Poderíamos, nessa perspectiva, entendê-la como sendo centrada no fazer da razão (a techné do logos). Máquinas e seres humanos aproximam-se cada vez mais e, principalmente, passa-se a compreender que as máquinas surgem a partir do mesmo processo social que constitui o humano. Não existe, portanto, a tradicional separação entre técnica, cultura e sociedade, que vigorava até pouco tempo.
Uma outra possível classificação para essa relação homem-máquina é a apresentada por Lucia Santaella. Para ela, esses níveis são o "(1) nível muscular-motor, (2) o nível sensório e (3) o nível cerebral" (Santaella, 1997). O primeiro nível está relacionado com a possibilidade de ampliação da capacidade física humana, com a ampliação da força, a mecanização da locomoção (movimento) e a ampliação da precisão (p.34-36). O segundo nível se caracteriza pela extensão dos sentidos, basicamente no aperfeiçoamento dos olhos e ouvidos. Como afirma Santaella, "enquanto as máquinas musculares produzem objetos, os aparelhos produzem e reproduzem signos: imagens e sons" (p. 37). No nível cerebral, com a presença de computadores e da digitalização dos processos, encontramos dispositivos que passam a processar símbolos. Passa-se a imitar e simular processos mentais, introduzindo novos elementos nessa relação homem-máquina, levando ao que ela denomina de "novo tipo de humanidade".
É justamente esse novo ecossistema sensório-cognitivo que está lançando novas bases para se repensar a robótica não mais como máquinas que trabalham para o homem, mas como a emergência de um novo tipo de humanidade. (...)
Com isso são os sentidos e o cérebro que crescem para fora do corpo humano, estendendo seus tentáculos em novas conexões cujas fronteiras estamos longe de poder delimitar. (Santaella 1997: 41/2)
Essas mudanças são estruturais e vêm acontecendo desde o início do século XX e, em torno da metade desse século, as teorias do Caos, dos Fractais, da Complexidade e das estruturas não lineares colocaram as discussões científicas em outro patamar. O conhecimento passa a apontar para uma outra perspectiva. Passamos de um mundo onde as leis científicas estavam centradas na ordem, na previsão, para um mundo onde estão em primeiro plano o aleatório, o imprevisto. Como afirma Marcelo Cini, estamos atualmente trabalhando com "todos os fatores que a ciência tentou exorcizar, minimizar, deixar fora de suas fronteiras" (Cini, 1998: 111).
Para o entendimento dessas teorias torna-se necessário fazer duas importantes distinções, como propõe Paul Cilliers. De uma lado, distinguir complexo de simples. E de outro, complexo de complicado. A distinção entre os dois primeiros não é simples porque não está associada apenas ao fenômeno mas a sua relação com o próprio observador e aos diferentes níveis de relações. Isso porque alguns sistemas que são aparentemente simples, como uma folha por exemplo, podem se manifestar absolutamente complexos quando vistos de perto. Por outro lado, uma máquina de combustão interna parece ser um fenômeno complexo, mas não o é. Como afirma Cilliers, "o simples e o complexo freqüentemente mascaram-se entre si" (Cilliers 1998, p. 3).
Um sistema com um grande número de componentes fazendo sofisticadas tarefas é, certamente, um fenômeno muito complicado, mas se analisado precisamente, não apresenta nenhum grau de complexidade. Já um sistema constituído de um conjunto de relacionamentos não-lineares, com reações a cada movimento do fenômeno, que só podem ser analisadas uma de cada vez, é, certamente, um fenômeno complexo. Estão nessa categoria, segundo Cilliers, um tocador de CD, um floco de neve, as bactérias, o cérebro, o sistema social, a linguagem. (Cilliers, 1998: 3) A complexidade de um sistema exige um olhar mais atento para os fenômenos, no sentido de identificar algumas das suas inúmeras características, das quais poderíamos apenas elencar a necessidade de ter um grande número de elementos, elementos que interajam dinâmica e não-linearmente, entre outros. Este olhar exige conceber a complexidade como um universo que se organiza desintegrando-se. Esses sistemas complexos são, geralmente, sistemas abertos, sistemas que integram-se e interagem com o ambiente. Por último, não em ordem de importância na lista de características apresentadas por Cilliers mas, que para o contexto desse texto é fundamental, a idéia de que um sistema complexo "opera em condições longe do equilíbrio. Existe um constante fluxo de energia para manter a organização do sistema e para garantir a sua sobrevivência." Para Cilliers, "equilíbrio é outra palavra para morte" (Cilliers, 1998: 4 – grifo meu). A concepção de mundo hoje é diferente, é dinâmica e flutuante, devido ao demônio da não-linearidade.
Assim, percebemos que mudam as perspectivas de interação, uma vez que somos obrigados a incorporar essas múltiplas possibilidades de interação. O conhecimento científico passa a estar impregnado de novas dimensões conceituais, não mais centradas na simetria. Passamos de um mundo onde as interações eram concebidas como sendo sempre interações lineares - aquelas onde as causas pequenas geravam consequências pequenas e as causas grandes geravam consequência grandes - para um mundo de interações não-lineares. Interações essas que se caracterizam basicamente pelo fato de não ser possível prever o resultado de um fenômeno apenas tendo como base a causa a que o mesmo é submetido. Essa causa ou essa potencialização desencadeiam interações comunicacionais por meio de encadeamentos, multiplicidades, singularidades, incertezas, desordem e hipertextualidade.
O caso mais evidente é o das equações da mecânica quântica concernentes às partículas. Pois bem, essas últimas são um produto de laboratório, e somos então levados à conclusão de que essa simetria não é uma necessidade em nosso meio cosmológico. Vivemos portanto em um Universo com um simetria rompida, estranho ao ideal de harmonia geométrica da física clássica. (...) Somos levados a falar de pluralidade de níveis interconexos, sem que nenhum deles possa mais se colocar como prioritário ou fundamental." (Prigogine, 1993: 37 – grifo meu)
Não temos mais a possibilidade de ter a estabilidade esperada com o controle das variáveis, apoiadas por uma investigação centrada no método, o chamado método científico. O método passa a ser outro. Os métodos passam a ser outros! Afasta-se, assim, a possibilidade do controle absoluto, tanto das variáveis como dos fenômenos.
Um outro elemento do momento contemporâneo diz respeito à miniaturizaçao das tecnologias, com as chamadas nanotecnologias, que são máquinas de tamanhos moleculares, possibilitando, entre tantos outros fenômenos, uma aceleração estonteante nos meios de comunicação e de circulação da informação. Com isso, é introduzida uma outra dimensão na relação espaço-temporal e o aqui e agora, com as chamadas novas tecnologia das informação e comunicação, não têm mais o mesmo significado de antes. Pode-se estar aqui e lá – lá sendo muito longe! – simultaneamente. A distância entre os que produzem e os que recebem as informações tende a zero. Mais uma vez, essa modificação espaço-temporal introduz uma outra perspectiva na relação do ser humano com a técnica. E, ao fazer isso, introduz mais um esvaziamento na distinção dos seres humanos com as máquinas.
O Departamento de Pesquisa da empresa de telefonia Inglesa Britsh Telecom, coordenado por Peter Cochrane, divulgou em 1998, que cerca de 20% das órgãos funcionais do corpo humano podem ser substituídos por próteses artificiais e que, naquele ano, mais de meio milhão de pessoas já viviam com implantes eletrônicos em seus corpos. Por conta disso, os pesquisadores da BT estão desenvolvendo um protótipo do BT Wired Man, um estudo do potencial da comunicação, considerando o dentro e o fora do corpo humano.
Posto isso, é possível tentar buscar novos contornos para o conhecimento científico e, com isso, analisar as questões educacionais e o uso que estamos dando, na educação, para as tecnologias de informação e comunicação (TICs). Antes de entrar mais especificamente na educação, vamos ampliar o espectro dessa análise e investigar como está se dando o uso dessas tecnologias em outras áreas, especialmente nas artes, na mídia e no sistema financeiro.
O desenvolvimento das comunicações eletrônicas e o seu uso no mercado financeiro é um dos exemplos significativos de incorporação das tecnologias de informação e comunicação, introduzindo um novo modo de operar com os valores do próprio campo econômico-financeiro. A manifestação expressa de todo esse movimento está associada a uma palavra muito presente nos dias de hoje: globalização. Mas podemos entender a globalização no singular – e entendê-la no singular significa um movimento evidente de expansão das fronteiras norte-americanas - ou então entendê-la no plural, num movimento de várias mãos. Globalizações, como possibilidades de múltiplas relações. Essa possibilidade de múltiplas relações exige o plural pleno e isso vai introduzir uma nova dinâmica nessa relação, pois impõe - o que não está acontecendo no campo econômico, é verdade! - muito mais do que simplesmente setores de uma região presentes em outras, mas a possibilidade potencial de todos os setores interagindo entre si.
Fora do campo econômico-financeiro, mas intimamente articulado com ele, podemos observar alguns contornos especiais desse cenário planetário. Um deles, é a possibilidade, inaugurada com o movimento Zapatista no México, do uso dessas tecnologias de comunicação generalizada para a organização de movimento sociais. Organizações planetárias que passam a se articular pela Internet de forma intensa e, com isso, promover manifestações concretas, em lugares físicos onde a lógica do capitalismo desenfreado está sendo implantado. Exemplos foram vistos durante a manifestação denominada "Carnaval contra o Capitalismo Global", realizado em junho de 1999, para coincidir com a reunião do Grupo G8 em Colônia, Alemanha, tendo como um dos seus organizadores o Movimento J18. Essa manifestação, organizada via Internet, aconteceu em lugares físicos bem definidos - os centro financeiros das grandes capitais do planeta - simultaneamente em cerca de 43 países. Mais recentemente, nas reuniões da organização Câmara Internacional de Comércio, realizada em Seattle, nos Estados Unidos, outras manifestações dessa natureza aconteceram, sendo também a Internet o elemento mobilizador das mesmas.
Para o tradicional jornal inglês The Times, esse é um movimento de sucesso como nenhum outro em termos de organização descentralizada, tendo, na liderança, os chamados "novos anarquistas", caracterizados pelo jornal como vindos de conceituadas Universidades, "classe média, educados, imaginativos e on the internet"
Obviamente esse nível de organização viabiliza-se, por um lado, pela existência dessas pessoas conectadas, mas de outro, pela existência de condições de formação que lhes possibilite, em tendo acesso aos meios, fazer uso dos mesmos de forma plena. E aí, ao usar a tecnologia, passam a modificar o seu próprio significado. Isso indica, claramente, que a formação e as condições sociais passam a ser as condições básicas para inserção plena no mundo contemporâneo.
Indivíduos e grupos articulados em várias partes do mundo, usando intensamente as TICs, passam a ter importante papel na quebra da presença homogeneizante da mídia tradicional, centrada ainda na forte concentração de propriedade dos meios e naquilo que denomina-se de sistema broadcasting de comunicação. Ou seja, um sistema que espalha a informação, emitida em poucos centros e por poucos produtores, para uma multidão de receptores.
Essa mesma tendência começa a ser reproduzida na rede, caminhando em sentido oposto às origens da própria Internet. O movimento de criação de portais, em praticamente todo o mundo, é um exemplo disso.
Como afirma André Lemos, estamos presos aos Portais-currais que "configuram-se como estrutura de informação (conteúdo) que nos tratam como bois digitais forçados a passar por suas cercas para serem aprisionados em seus calabouços interativos. Devemos nos afogar em números" (Lemos, 2000).
Mesmo com a tendência de convergência de equipamentos e também de empresas, vemos que a própria mídia vive um momento de transição muito forte. Ainda acompanhamos uma simples migração da tradicional mídia impressa para a Web. São os jornais ocupando esse espaço e as mesmas redações que produzem o jornal impresso alimentando os sites on line, sítios que, no fundo, reproduzem o jornal impresso, apenas acrescentando um pouco mais de atualidade. Isso está mudando e os primeiros sinais podem ser vistos com o surgimento de redações específicas para a rede. Começamos a viver a febre dos portais, que passam a ocupar as manchetes dos mesmo jornais, fazendo publicidade nas mesmas TVs, do velho sistema midiático, significando um movimento quase alucinado de tentativa de recuperar o controle da Net. Começamos a ver a montagem de redações específicas para esse mundo da rede, centrado ainda no tradicional princípio do furo jornalístico, notícia em primeira mão e, no fundo, uma busca desenfreada de organizar tudo. Em síntese, uma busca de tentar trazer para si o leitor, o cibernauta, entendido como um ser incapaz de andar com suas próprias pernas e que precisa ser guiado na sua navegação no ciberespaço. Em outras palavras, exatamente o oposto daquilo que entendemos como sendo a característica de maior valor da rede e do ciberespaço.
Ainda de acordo com Lemos,
O limite da emissão sempre foi o que deu poder às mídias clássicas e agora os Portais, sob a balela de nos ajudar à não nos perdermos nesse mar de dados, nos aprisionam e limitam nossa visão da rede (do mundo?), fazendo fortuna de novos jovens nasdaquianos. Dizem que tudo existe num Portal, e que não precisamos nos cansar em buscar coisas lá fora. Mas quem define o que é tudo? Voltaremos à edição clássica dos conteúdos que fez o quarto poder dos mass media?
Embora busquem agregar supostos conteúdos importantes, os Portais nos tiram, enquanto fenômeno hegemônico (e é aqui que quero situar minha crítica) a possibilidade da errância, da ciber-flânerie, nos transformando em surfers-bois, marcados pelo ferro do e-business. Devemos reverter a hegemonia e a pululação desta nova prisão eletrônica que se configura com a atual onda de Portais-currais (Lemos, 2000).
 
Se retornarmos a 1998, quando a organização W3C apresentava o crescimento do número de usuários da rede e constatava que 50% dos cliques levavam a apenas 1% de sítios visitados e 80% levavam à apenas 26% dos sítios existentes, podemos ver o quão preocupante é a questão.
Como já afirmava anteriormente,
preocupante porque a Internet tende a se tornar o maior repositório do conhecimento humano, embora ainda mantendo o mesmo estilo de concentração na produção do conhecimento e na divulgação de informações dos chamados tradicionais meios de comunicação de massa. Não chegamos a afirmar que temos o mesmo sistema de broadcasting, de distribuição de informações via meios centralizados, como vemos no caso dos sistemas de televisão. No entanto, nos parece um importante indicador para que possamos pensar na pouca diversidade de sítios sendo localizados por estas buscas indicando-nos, consequentemente, a necessidade de um repensar sobre a sistemática de produção e divulgação de sítios que expressem as diferentes culturas e valores locais (Pretto, 1999)
O movimento foi rápido. A febre dos portais tende obviamente a ser uma tentativa de por ordem no caos! Em outras palavras, organizar a Internet para que o leitor (receptor?!) saiba para onde ir, ou em outras palavras, saiba o que consumir!
 
Observando o desenvolvimento das tecnologias de comunicação em todo o mundo podemos perceber que a tendência de que a comunicação continue a se dar em um único sentido é muito forte. Por exemplo, existe uma previsão na página da xHTML de que, em 2002, 75% dos acessos à Internet ocorrerão via non-desktop manchines: celulares, decodificadores de TV por assinatura (set-top boxes), etc. Em outras palavras, serão acessos a partir de equipamentos desprovidos de recursos de edição e formatação de mensagens, o que significa que, mais uma vez, os usuários serão apenas consumidores de informações geradas de forma centralizada. Mais uma vez, sem essas possibilidade de edição e formatação das mensagens - capacidades indispensáveis à distribuição da inteligência – não se terá a possibilidade da escolha de o que, quando, como, em que nível de profundidade, abordagem, etc, se deseja interagir com o sistema.
A palavra controle, portanto, passa a retomar a cena e pode ser vista, de um lado, como mais um elemento para a organização do mundo contemporâneo. De outro, como uma possibilidade do tal controle absoluto, lembrando-nos, sem saudades, algumas vezes, do Grande Irmão de George Orwell, no seu famoso romance 1984.
A presença de cameras de vídeos em supermercados, farmácias, bancos, praças, as informações pessoais que passam a compor os bancos de dados de cadastros empresariais, cartões de créditos, contas bancárias, os computadores pessoais conectados às redes com as empresas produtoras de softwares recolhendo configurações, os identificadores de chamadas nos telefones, são apenas alguns dos inúmeros exemplos dessa situação. O jornal inglês The Sunday Times, em matéria publicada em 09/05/99 apresentou a experiência de empresas que estão desenvolvendo chips que podem ser introduzidos nos corpos dos trabalhadores para que a administração da fabrica possa localizar facilmente o empregado durante o seu turno de trabalho. Além disso, os dados possibilitam estimar a produtividade e a eficiência dos trabalhadores. (Bevan, 1999)
A maioria das pessoas admite que nossa privacidade está ameaçada. Segundo uma pesquisa nacional realizada em 1996 pela firma Louis Harris & Associates, 24% dos americanos "experimentaram pessoalmente uma invasão de privacidade". Em 1995, a mesma pesquisa revelou que 80% achavam que "os consumidores perderam totalmente o controle sobre como suas informações pessoais circulam e são utilizadas pelas empresas". Ironicamente, ambas as pesquisas foram pagas pela Equifax, uma firma que ganha quase US$ 2 bilhões por ano coletando e distribuindo informações pessoais. (Garfinkel, 2000)
Mas isso, numa outra perspectiva, também já foi feito pelo artista brasileiro Eduardo Kac, na sua instalação Capsulado Tempo (Time Capsule), realizada na Casa das Rosas em São Paulo. Ao introduzir um microchip em seu corpo, conectado em rede, Kac buscou experimentar, no sentido pleno, a possibilidade de interação em seu corpo e dele com a rede. De acordo com o artista, "assim como acontece com outras cápsulas do tempo subterrâneas é sob a pele que essa cápsula do tempo digital se projeta no futuro". As questões que o artista se propunha levantar nessa obra estão relacionadas com a "ética na era digital, sobre interfaces úmidas para elementos eletrônicos, e sobre a relação entre identidade e memória artificiais armazenadas dentro do corpo humano".
"Time Capsule" é uma obra-experiência que se encontra em algum lugar entre um evento-instalação, uma obra física de local específico, na qual o local é ao mesmo tempo o corpo do artista e um banco de dados localizado nos Estados Unidos, e uma transmissão simultânea na TV e na Web. O objeto que dá nome à obra é um microchip que contém capacitor e bobina integrados ao chip, todos lacrados hermeticamente em vidro biocompatível. O chip contém também um número de identificação pré-programado e irrepetível. A escala temporal do trabalho estende-se entre o efêmero e o permanente, ou seja, entre os poucos minutos necessários para a conclusão do procedimento básico, a implantação do microchip, e o caráter permanente do implante. Assim como acontece com outras cápsulas do tempo subterrâneas é sob a pele que essa cápsula do tempo digital se projeta no futuro.
(Kac, 2000)
A mais recente obra de Kac foi o trabalho A-positivo, realizado com Ed Bennett, durante o Simpósio Internacional de Arte Eletrônica, realizado em Chicago, em setembro de 1997. Nesse trabalho, Kac mostrou
uma obra dialógica e biobótica, na qual um ser humano doa seu sangue em tempo real a um biorrobô; em troca, o biorrobô doa nutrientes, também de forma intravenosa, ao ser humano. O biorrobô extrai oxigênio do sangue humano, e com ele suporta uma pequena chama, um símbolo da vida que resulta da troca entre ambos. A obra propõe novas relações entre seres humanos e robôs, e ao mesmo tempo cria uma forma de arte eletrônica que se baseia no uso por robôs de elementos orgânicos vivos (Kac, 2000).
Retomamos aqui a relação homem-máquina e o imbricamnento de ambos. Nesses momentos começamos a perceber um movimento de sinergia, como o que acontece com as experiências realizadas no Media Lab (MIT), por Steve Mann, que desenvolve periféricos para serem literalmente vestidos pelo homem e, com isso, permanecer conectado permanente à rede Internet.
Para Edvaldo Couto,
o uso das próteses se prolifera, e a pele humana e tecnológica, outrora divididas e separadas, se mesclam para construir o metacorpo, que resulta do homem-máquina, típico da cultura SuperCiber desse fim de século. O corpo se tornou o lugar privilegiado das tecnologias avançadas, e os eu destino parece ser o de assumir formas estéticas cada vez mais camaleônicas. (Couto, 1998: 20)
 
Quando Eduardo Kac introduziu o microchip no seu tornozelo, transmitindo a performance on line pela Net, o implante passou a fazer parte do seu corpo assim como seu corpo passou a fazer parte da Net. Como afirma Roy Asccot, "cada fibra, cada nó, cada servidor na Net é parte de mim. À medida que interajo com a rede, reconfiguro a mim mesmo." (Ascoot, 1997: 336)
A área médica também já incorpora tanto a possibilidade de comunicação trazida pelas tecnologias como a possibilidade de substituição de partes do corpo por elementos artificiais. No Brasil, por exemplo, a Universidade Federal de Santa Catarina desenvolve pesquisas na área, com a chamada telemedicina. Aldo von Wnagenheim e seu grupo pesquisam a relação entre a computação e o uso na medicina. O trabalho conjunto envolvendo médicos e informáticos consiste no desenvolvimento de protótipos para auxílio das ações médicas relacionadas ao diagnóstico e tratamento, incluindo até mesmo substituições de partes do humano por próteses, também projetadas e construídas na própria universidade a partir de informação computadorizada. Numa parceria com um clínica privada, um trabalho conjunto de médicos radiologistas e pesquisadores da UFSC avança na telemedicina, com a possibilidade de manipulação de imagens - imagens de corpos humanos, imagens que são os corpos, que são o real! – e, com isso, tem-se a possibilidade de manipular e interferir à distância. Para Felipe Nobre, um dos médicos envolvidos no projeto, "a forma de pensar, de agir e de se relacionar com o corpo muda completamente. Podemos, a partir de uma imagem gerada em um aparelho de tomografia computadorizada ou ressonância magnética, por exemplo, trabalhar com o corpo sem a presença física do mesmo". Criam-se imagens tridimensionais de um ser tridimensional e, a partir destas imagens, interfere-se no corpo. Uma vez que existe correspondência real entre os dois corpos, anatômico e virtual, toda uma série de procedimentos médicos pode ser planejada a partir do computador. Por exemplo, próteses podem ser desenvolvidas "sob medida" para o tratamento de dilatações arteriais, que entram no corpo sem mutilações. Através de punção arterial percutânea, entrando perto da virilha, pode-se introduzir uma minúscula prótese que, navegando pelo interior do corpo através de artérias atinge, por exemplo, o meio da região do tórax. Com a possibilidade de manipulação da prótese, externamente ao corpo, a mesma assume posição e configuração no interior do vaso, o que possibilita a correção exata da dilatação da artéria, sem necessidade de cirurgia. Reconstituiu-se o corpo. Um novo corpo.
Os trabalhos desenvolvidos por esse grupo já viabilizam que um paciente possa ser scanerizado pelos aparelhos de tomografia, suas imagens serem analisadas em um monitor e, detectado o problema, o sistema gere as especificações do órgão a ser recuperado e então se produza uma prótese artificial para ser substituída no corpo do paciente. Os dados são enviados para outra máquina que molda uma prótese, produzida sob medida para o paciente. Essa prótese é então implantada, por enquanto, pelo médico (de plantão?!).
A relação dessas tecnologias com o humano modifica-os mutuamente. Para Stelarc, que atua em diversas manifestações envolvendo medicina, robótica e artes, "as tecnologias médicas que monitoram, mapeiam e modificam o corpo também oferecem um meio de manipular a estrutura do corpo" (1997: 53).
Tecnologias Inteligentes e Educação
Temos uma deliberada desordem de hipotéticas ordens escondidas ou ‘múltiplos labirintos’.... Pollock está expondo um paradoxo. Ele está dizendo que esses labirintos são pela sua própria natureza insolúveis; eles não são para ser seguidos por simples trilhas ou linhas de Teseus, mas são para serem observados de fora, repentinamente, como um espetáculo de caminhos que se entrecruzam, da mesma forma que nós olhamos para os céus com seus indissolúveis labirintos de movimentos, providos no tempo cósmico pelas revoluções das estrelas e a infinitude do universo.
Park Tyler, sobre Jackson Pollock.
Ao trabalharmos com o conceito de tecnologias inteligentes estamos buscando chegar mais perto do conceito contemporâneo de tecnologia, onde a relação com o ser humano passa a ter uma outra dimensão. Até um passado bem próximo, o que observávamos ao analisar o desenvolvimento das tecnologias em geral era que pesquisas estavam centradas na busca de se estender os sentidos do ser humano. Nessa perspectiva, entendia-se as máquinas como estando efetivamente à serviço do homem.
Entretanto, a tecnologia não é asséptica e a competência técnica, de certa forma, é um engajamento político que reforça o coletivo social em um engendramento interativo, pois o mundo da novas tecnologias está intimamente ligado ao mundo da subjetividade e da criatividade humana.
A partir do momento em que passamos a ter máquinas que buscam imitar o modelo de funcionamento da mente humana, essa relação máquina-ser humano passa a ganhar novos contornos. Podemos considerar que os primórdios desse desenvolvimento tecnológico nos levam ao início da segunda metade do século XX, com as máquinas de raciocinar de Alan Turing. "Máquinas que poderiam pensar" (Holtzman: 1994: 134).
A partir dessa segunda metade do século XX, o desenvolvimento tecnológico segue passa por profundas modificações e, no entanto, as pedagogias continuam centradas num padrão associado à tecnologia mecânica, própria do modelo da Revolução Industrial. São pedagogias centradas no ensinamento das técnicas de manuseio, para o uso das tecnologias e, consequentemente, para o seu domínio. Podemos falar das pedagogias tradicional, da pedagogia nova, da pedagogia do diálogo, pedagogia técnica, progressista ou crítica. Em todas essas, visualizamos um relação com as tecnologias centrada na perspectiva de dominação das mesmas.
A partir do desenvolvimento da computação eletrônica, que se dá de forma vertiginosa a partir do surgimento e aperfeiçoamento dos transistores, mas que ganha grande impulso nos anos 80 e 90, o que vemos são essas máquinas, cada vez mais, aproximando-se daquilo que é a característica única dos seres humanos: a capacidade de operar com as idéias. Nesse sentido, ao pensarmos nas pedagogias correspondentes a esse novo momento, não podemos imaginar a possibilidade de uma pedagogia centrada na lógica da assimilação. Ao contrário, precisamos pensar na possibilidade de pedagogias que nos dêem condições de trabalhar com a diferença enquanto elemento fundante do processo humano.
Sendo assim, de nada adianta pensar em preparar para o futuro como sendo uma preparação para o mercado, preparar para o futuro, se essa preparação continuar centrada no ensinamento e no aprendizado de técnicas para o simples uso das tecnologias, entendidas ainda como ligadas à lógica utilitarista-instrumental a que nos referimos anteriormente. Aprender a usar um computador, por exemplo, não é garantia de que o seu uso se dará plenamente. Ao contrário, o simples domínio da técnica não possibilita o uso da tecnologia no seu sentido pleno: como uma máquina de raciocinar que interage com o ser que a opera. Essa idéia requer pensar no desenvolvimento de competências dos sujeitos às novas tecnologias da comunicação e da informação.
Para Roy Ascoot, considerado um dos pioneiros no estabelecimento da inter-relação das tecnologias com as artes, é fundamental introduzir a dimensão rede. Ele desenvolve o conceito de hipercórtex, "a inteligência das redes neurais", onde o centro sem centro é o conjunto de nós que compõem a rede, a Net como ele chama. A Net sendo o "cérebro global", reforçando o pensamento associativo, hipermediativo, hiperlincado (Ascoot, 1997: 337). Esses são novos elementos que precisam ser percebidos para compreender a presença das TICs na educação.
Na música o mesmo acontece. A presença dos computadores na música está requerendo um salto qualitativo de paradigma. Para aqueles que já atuam nessa área, não se faz mais a mesma música, apenas usando novos instrumentos, novas ferramentas. Está sendo produzida uma outra música. Uma música que não necessariamente busque a harmonia absoluta. Uma música que se permita buscar os dissonantes, algo que seja diferente da harmonia. Os computadores enquanto obstáculos para a produção da música e não como mero facilitadores, como auxiliares, desse processo de criação artística. Isso, certamente, tem levado à produção de uma nova música. De uma nova arte. Em todas as artes.
Nas ditas artes plásticas, a discussão sobre as possibilidades de uso das TICS também está presente. Frank Popper descreve detalhadamente em seu livro art.of.the.eletronic.age a existência de um novo campo – computer art – e apresenta uma classificação sobre como os artistas estão incorporando essas tecnologias. Para ele, o computador pode ser visto (1) como uma simples ferramenta, (2) como um meio de produção e, por fim, (3) como algo que possui um comportamento análogo aos processos intelectuais humanos e, por isso, pode ser considerado como algo criativo em seu próprio sentido (Popper, 1993: 78).
Podemos perceber, vendo os artistas e obras que Popper apresenta em cada uma das categorias anteriores, que existe uma variedade deles produzindo obras em todas as linhas e que esse movimento de incorporar e produzir arte com a presença de computadores começa a produzir novas descobertas, exatamente a partir da experimentação de seu uso mais aberto. Para Popper, a computer art vem sendo revolucionária tanto nas esferas sensoriais como intelectual, principalmente abrindo novos espaço a partir da interatividade total possibilitada pelas redes, "usando o computador não só como ferramenta ou meio mas como um fornecedor de informações abstratas e como gerador de realidades virtuais no ciberespaço" (Popper, 1993:121).
O pesquisador e professor Norman T. White vai mais adiante e analisa o uso dos computadores nas artes mostrando-nos que, desde os anos 70, eles começaram a ser usados intensamente por artistas. No entanto, afirma White,
existia um aspecto enfadonho nessa invasão, que tinha tudo para ser excitante, uma vez que 99,9% dos trabalhos de artes feitos em computador eram limitados a explorações gráficas! O aspecto essencial do computador foi esquecido na pressa de fazer que a tela de pixels do computador funcionasse também como papel ou tinta. Raramente os artistas percebiam que a única força do computador era a habilidade de brincar com tais forças existenciais-cruciais, como lógica, negentropia, probabilidade, introspecção e paradoxo. (White, 1997: 48)
Se voltarmos temporariamente para o setor financeiro podemos ver como essas transformações estão acontecendo. Para Castells, o que muda é a lógica que está presente nesse mundo de articulações. Para ele, "as redes constituem a nova morfologia social de nossas sociedades e a difusão da sua lógica modifica substancialmente a operação e os resultados nos processos de produção, experiência, poder e cultura" (Castells, 1996: 467).
A existência das redes representa a busca pela diminuição das distâncias e pela possibilidade da onipresença. As redes são sinônimo de poder, onde encontramos informação, mercadoria, velocidade e conectividade global. O ponto básico passa a ser, então, a conectividade. No sistema financeiro isso hoje é bastante evidente.
O mundo dos negócios trabalha contemporaneamente centrado na perspectiva de rede. Os trabalhadores dessa área estão hoje se relacionando, basicamente, através das redes de computadores: as telas assumindo as novas interfaces intra-humanos. Cria-se uma nova sociabilidade que, de um lado, pode afogar as individualidades; de outro, pode ser uma potencialização das mesmas.
De novo, precisamos recuperar a dimensão da globalização no plural: globalizações. Assim, entendemos que essas conexões possibilitam a conivência entre o local e o não local, o fortalecimento da cultura dos valores locais, mesmo enfrentando todos os movimento de monopólio do sistema midiático.
O setor financeiro já consegue perceber e, principalmente, utilizar um outro tipo de linguagem. A questão que se coloca aqui não é a de valorar se este tipo de comunicação instantânea é benéfico ou não. Buscamos interpretar o que está acontecendo e como isso é completamente diferente da maioria dos processos que ocorrem no sistema educacional. Urs Bruegger e Karin Knorr Cetina (Cetina 1999), analisando as microestruturas globais no sistema financeiro mundial a partir da experiência de interações entre as bolsas de valores de Londres, na Inglaterra, e Zurique, na Suiça, apresentam-nos alguns elementos dessa comunicação digital e instantânea entre operadores de sistemas informatizados separados fisicamente mas conectados via rede. Pode-se perceber o surgimento de um outro tipo de linguagem – quase abstrata – que caracteriza-se fundamentalmente pelo uso de símbolos gráficos (tipos), abreviações e está baseado em um sistema multitarefa, com os operadores envolvidos simultaneamente em várias ações comunicativas e de interação. Segundo Babin e Koulumdjian (1989) a linguagem das novas tecnologias baseia-se fundamentalmente em ver mais que ler e sentir antes de compreender. (Babin, 1989)
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Operadores de bolsa, economistas, especialistas em finanças, músicos, pintores, design gráficos, artistas de várias especializações, trabalhando intensamente com computadores, percebem a importância da rede.
Sou medido pela minha conectividade. Minha paixão é plantar sementes conceituais no substrato da Net e vê-las crescer; olhar a Net atentamente numa atitude Zen à medida que novas formas emergem, à medida que a energia criativa da conectividade gera novas idéias, novas imagens, uma nova vida. Emergência (emergence) é o comportamento chave na Net. (Ascoot, 1997: 336)
Paralelamente, se observamos como a meninada está comunicando-se através dos chats, dos bate-papos e mesmo através do correio eletrônico, observamos uma quantidade significativa desses mesmos elementos. A multitarefa sendo a norma. Os símbolos ditando as regras, as comunicações rápidas sendo a norma. A cultura do zapping e do zipping na TV, da edição rápida e com múltiplas imagens simultâneas. Como diz Douglas Rushkoff, "essa geração não está procurando a mídia para respostas, mas para questões". Eles entendem como operar com os eventos lineares, quebrando-o quadro-a-quadro. "Perde-se o sentido original – ou pelo menos o sentido que tinha sido originalmente pensado. Para essa audiência jovem, a descontinuidade da mídia não é a exceção, é a regra" (Rushkoff, 1996: 44 – grifo meu).
O uso das chamadas tecnologias inteligentes na educação, no entanto, configura-se, a meu ver, num movimento absolutamente oposto ao que vimos até aqui em outras áreas do conhecimento. O nosso desafio é, portanto, duplo. De um lado, não cabe à escola simplesmente aderir às tecnologias e aos novos paradigmas do mundo contemporâneo como se à ela não restasse outra opção. Ao contrário, incorporar essas tecnologias é fundamental, inclusive, para uma melhor compreensão do que elas estão significando no mundo contemporâneo. De outro lado, o nosso desafio é pensar em perspectivas pedagógicas que dêem conta dos desafios do mundo contemporâneo, sendo que, sem dúvida, numa primeira aproximação, não está reservado à escola a pura e simples função de preparação para o mercado.
Precisamos pensar na dimensão social da ciência e da técnica e, com isso, superar a concepção de sermos apenas consumidores dessas tecnologias e sim entendê-las como fruto de uma produção social.. O uso que pode ser dado a essas tecnologias vai depender do tipo de sociedade que temos e, principalmente, do tipo de sociedade que queremos.
A presença das TICs na escola pode representar um movimento ímpar, uma vez que ao pensarmos na redução das distâncias estamos pensando na possibilidade de construir o que Pierre Lévy chama de Inteligente Coletivo. Escolas que tenham uma maior integração com outras escolas e com o mundo contemporâneo. Escolas que tenham dentro de suas propostas pedagógicas uma inserção maior no mundo da mídia. Aqui também num duplo sentido: de um lado, com a presença de programas, emissões, emissoras e todas as fontes possíveis de informação. De outro, como possibilidade de efetivamente produzir. Como a possibilidade de fazer de cada espaço escolar um espaço de produção coletiva e, principalmente, de emissão de significados.
Para o desenvolvimento de propostas e projetos com base numa outra perspectiva, precisamos de uma escola centrada numa pedagogia que não seja a da assimilação. Uma pedagogia que tenha a diferença como sendo o seu fundante.
O que se busca, a partir desse enfoque, é a construção de um novo espaço educacional e comunicacional que tenha como base essas redes de relações. É, em última instância, rede. É comunicação, com o estabelecimento de conexões que respeitem os nós interconectados como elementos fundantes. Elementos de valor. Assim, o substrato dessa nova escola será a diferença e não a identidade.
Não se estará então buscando uma hegemonia universal, ou seja, uma grande narrativa legitimadora dessa hegemonia que, consequentemente, terá que ser ensinada. Uma vez que não existe essa dimensão do pronto a ser ensinado, passa-se a trabalhar, sob o ponto de vista do conhecimento, com outra perspectiva, onde não vale a linearidade.
Tem-se, portanto, uma rede não linear de diferenças, uma rede não-linear de diferenças em interação. Cada estudante e cada professor libertar-se-íam do uno como fundante e passariam a ser elementos dessa rede de diferenças, onde cada elemento seria também uma rede de diferenças. Nesse sentido, a única referência ao uno é o movimento, ou seja o devir.
Assim, podemos perceber que institucionalmente temos uma quebra entre as tradicionais divisões entre teoria e prática, conhecimento básico e aplicado, pensamento e ação, trabalho e lazer, entre outros. O conhecimento passa, então, a ser trabalhado como um espaço acontecimental, na singularidade do que acontece, com sentido e, ao mesmo tempo, ao nível da linguagem, num outro espaço, o das proposições, numa topologia de vizinhança das interações humanas. A aprendizagem seria dada pela interpenetração desses espaços através da intensidade e do sentido.
Nessa perspectiva, temos o fortalecimento de cada criança, cada jovem, cada professor, enfim de cada cidadão envolvido com o processo escolar, enquanto produtor de cultura e conhecimento. A escola passa a se constituir num espaço aberto de interações não-lineares, como já descrevemos anteriormente, e, ao contrário da perspectiva dominante, em vez de formar para o mercado, trabalhe numa perspectiva de fortalecimento da rebeldia.
Da rebeldia institucional e individual. Rebeldias que, quando coletivamente articuladas, possibilitam a criação de várias sinfonias.
Enfim, como afirma Michel Serres, compor, eis a questão!
Bibliografia
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Agradecimentos
Meus especiais agradecimentos a Luiz Felippe Serpa, Maria Helena Bonilla, Tania Hetkosky e Cristina Aguiar Serra pelas discussões e sugestões para este texto.
O Autor
(*) professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. Doutor em Comunicação pela USP, 1994. Pós doutoramento no Centro de Estudos Culturais, Goldsmiths College, Londres, 1998/1999.
 

Referencia Bibliográfica

Linguagens e Tecnologias na Educação, Nelson De Luca Pretto. In Cultura, linguagem e subjetividade no ensinar e aprender, organizado por Vera Candau, pela DP&A, paginas161-182