Maria Ilse Rodrigues Gonçalves
Resumo
Este trabalho situa as novas tecnologias no contexto educativo, enfocando a Internet na Educação. Aborda suas possibilidades com o deslumbramento que lhe é peculiar, sua fonte de pesquisa e suas dificuldades. Apresenta modelo comunicativo de aprendizagem via Web, com a integração do processo educativo formal e informal, situando o papel do professor nesse processo. Ressalta a importância da educação à distância na Web, fazendo projeções futuras da educação virtual, com suas contradições e inovações.
Abstract
This paper aims at situating new tecnologies withim the educational context, focusing on the role of the Internet on Education. It approaches the possibilities the Internet offers including all its peculiar fascination, its research sources and, also, difficulties. The study presents the communicative model of learning through the Web, integrating the formal and informal educational process and describing the teacher’s role in this process.It emphasizes the importance of distant education in the Web, making future projections of virtual education, with its innovations and contradictions.
1 INTRODUÇÃO
As novas tecnologias têm atingido grandes avanços advindos da sociedade da informação, transformando substancialmente as formas de trabalho, de lazer, de comunicação, inclusive as concepções de espaço e tempo, do que é real e virtual, do que é tradicional e inovador, com repercussões sociais, econômicas, políticas e educacionais. A Internet, dentre as novas tecnologias, é considerada a mais interativa até o momento e a mais promissora, não existindo em um lugar concreto, acontecendo em um lugar virtual, no ciberespaço.
Estamos no início da sociedade da informação, de onde emergem formas específicas de produção e economia, que se refletem nos contextos socioeconômicos e, conseqüentemente, vão estar presentes na cultura educacional, fazendo surgir a necessidade de pesquisar novas formas de comunicação que correspondam às necessidades dos cidadãos do próximo século.
Este trabalho objetiva situar as novas tecnologias no contexto educativo, explicitar as possibilidades e as dificuldades da Internet no contexto educacional, apresentar modelos comunicativos de aprendizagem em Internet e situar a educação virtual no contexto da educação à distância, com suas contradições e inovações.
Nesse espaço da educação observa-se um debate explícito entre a dicotomia das escolas e aulas reais diante das escolas e aulas virtuais. Em que se diferenciam? O que acontece quando um espaço virtual segue reproduzindo os mecanismos e metodologias de ensino tradicional? Tentaremos desenvolver essas questões a seguir.
2 AS NOVAS TECNOLOGIAS NO CONTEXTO EDUCATIVO
Hoje as novas tecnologias estão incorporadas no dia-a-dia e não há como dissociá-las do processo educativo. Seymmmour Papert (in Lucena, M., 1997) afirma:
"Em toda parte do mundo há um amor apaixonado entre crianças e computadores. Trabalhei com crianças e computadores na África, na Ásia, na América, em cidades, subúrbios, fazendas e selvas. Trabalhei com crianças pobres e ricas; com filhos de pais letrados e analfabetos. Estas diferença não parecem ter importância. Por toda parte, com muito poucas exceções, eu vi o mesmo brilho nos olhos, o mesmo desejo de se apropriar daquela coisa. E mais do que querer isso, eles parecem saber que no fundo eles já a possuem. Eles sabem que podem comandá-la mais facilmente e mais naturalmente do que os seus pais. Eles sabem que são a geração dos computadores."
E neste final de século não há como negar a inevitável implantação generalizada das novas tecnologias em todas as áreas.
O conceito de novas tecnologias é variável. Uma nova tecnologia nas diversas regiões do Brasil pode ter enfoques diversificados, ou seja, para um índio na Amazônia, um rádio pode ser uma nova tecnologia, enquanto a Internet 1, em alguns contextos universitários brasileiros, pode ser considerada uma antiga tecnologia. Vale ressaltar que as tecnologias indígenas não são as eletrônicas, mas as de outra natureza, de acordo com seu entorno – para o índio, o arco e a flecha constituem exemplos de suas tecnologias. Logo, esse é um conceito dinâmico e de muitas mudanças, que depende do contexto social e do meio ambiente em que se situa. E, considerando a rapidez do desenvolvimento tecnológico, parece difícil estabelecer quanto tempo podemos considerar como "novo" os conhecimentos, instrumentos e procedimentos que vão aparecendo ao longo do tempo. Como afirma Alfonso Gutiérrez Martín (1997),
"desde una postura cómodamente conservadora admitimos no disponer de ellos, y nuestra conciencia innovadora queda a salvo en espera de que las tecnologías, demasiado ‘nuevas’, lleguen la enseñanza formal a su debido tiempo".
O referido autor cita a definição de tecnologia educativa da UNESCO, nas décadas de 50 e 60. Nessa época se concebia tecnologia educativa como
"el uso para fines educativo de los medios nacidos de la revolución de las comunicaciones, como los medios audiovisuales, televisión, ordenadores y otros tipos de hardware y software".
Este é um conceito centrado nos equipamentos, que reduz a tecnologia educativa a uma série de dispositivos e equipamentos utilizados no ensino, sem inseri-los na sua dinâmica, com uma função acrítica de caráter apenas transmissivo que não atua com o receptor sem partir de uma concepção mais global do processo ensino-aprendizagem.
A utilização de uma tecnologia requer cuidados; não pode distanciar-se de questões importantes a serem colocadas, tais como para que fim, para onde, por que, para quem e como, tendo em vista o uso adequado desses recursos para uma sociedade em crescente transformação e em busca de um desenvolvimento auto-sustentado com eqüidade social. Ao mesmo tempo, deve fundamentar-se em referenciais teóricos que busquem contribuir para acelerar a mudança social e cultural.
Uma tecnologia diferente em determinados contextos pode produzir um choque cultural. Imaginem a introdução de um computador no meio indígena da região amazônica, onde não há nem luz elétrica em muitas aldeias. O Ministério da Educação e do Desporto está implantando um projeto de televisão educativa, o "TV Escola". Através desse projeto as escolas recebem um kit de equipamentos, composto de uma TV, uma antena parabólica, um vídeocassete e um conjunto de fitas. Em alguns casos, escolas contempladas com o referido kit estão situadas em áreas sem fornecimento de energia elétrica, ou seja, desprovidas das condições básicas para funcionamento dos equipamentos.
A tendência atual de integração da computação e dos meios de comunicação facilita o acesso às informações e gera novas perspectivas para o sistema educacional, influenciando os paradigmas educacionais vigentes. Em vista disso, é preciso repensar o papel das tecnologias nas escolas, os novos perfis que os professores terão de assumir e, mesmo, a própria educação em face desse desafio.
Existe atualmente um consenso no meio ocidental sobre o que se entende por novas tecnologias. São consideradas como tais as que utilizam a integração da telefonia e da informática com as diversas mídias, formando uma única, integrada. Como exemplo, cita-se a Internet que, ao mesmo tempo, pode oferecer múltiplas possibilidades: textos, imagens, sons e vídeos.
Quais as semelhanças e diferenças entre os meios tradicionais e as novas tecnologias, como a Internet, por exemplo?
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Medios tradicionales
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Similitudes
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Diferencias
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Comunicación jerárquica. Un emisor y muchos receptores
Regulados a diferentes niveles
Compleja oragnización burocrática
Comunicación muy estructurada y formal
Importantes barreras para acceder
Comunicación pública
Comerciales o estatales
Pocos productores y conocidos
El estilo y la estructura de los contenidos narrativos
Audiencias
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Pueden ser medios de comunciación de uso masivo
Constituyen una forma de entretener e informar
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Formas múltiplas de comunicación incluida la de punto a punto
No regulados, anárquicos
(ej. derechos de autor)
Estructura organizativa de mosaico
Comunicación informal
No existen barreras legales para el acceso y disminuyen los conocimientos necesarios para hacerlo
Cada vez más comerciales en conta de una base mayoritaria anti-comercial
Multiplicidad de productores y usuarios
Estructura arbórea del contenido (hipertexto)
Usuarios
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Cunningham and Finn 1996, pág. 85) apud Robin Quin
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Figura 1
Robyn Quin (1998) elucida essa questão, como se pode observar na Figura 1, Confronto entre as novas tecnologias e os meios tradicionais, em que estes apresentam uma comunicação hierárquica, com um emissor e muitos receptores, exemplificada pela televisão que, em sua veiculação, é transmitida por uma equipe com grandes audiências. É pouco interativa, e seus programas, na grande maioria, estão prontos, sem a participação dos receptores. Nesse aspecto, a diferença é que as novas tecnologias apresentam múltiplas formas de comunicação; a semelhança está na forma de comunicação massiva, podendo-se atingir grande número de receptores.
Os meios estabelecidos são dimensionados para diferentes níveis, com áreas distintas, comunicação estruturada, público definido, barreiras delimitadas, obedecendo a normas legais, enquanto a Internet, por exemplo, não apresenta controle, legal nem moral, as matérias são veiculadas a critério dos autores, sem rigor científico, onde convivem, concomitantemente, conteúdos descartáveis e informações de cunho científico inovador, observando-se, como ponto comum, a ludicidade e a informação entre os diversos meios.
Outro aspecto interessante nos meios tradicionais é que os produtores são pouco conhecidos e em número reduzido, com grandes audiências, enquanto na Internet existe uma multiplicidade de produtores e usuários, que podem ser receptores e emissores ao mesmo tempo. Os meios tradicionais apresentam estrutura de estilo e conteúdos narrativos, enquanto a Internet apresenta seu conteúdo sobre forma de hipertexto, que abordaremos posteriormente.
Atualmente, o dinamismo e a rapidez dos avanços tecnológicos têm sido tão intensos que nos EUA está surgindo o Projeto "Internet 2", em 130 universidades, com fins educacionais e não-comerciais, como a Internet 1, segundo Rodrigo Bressane (1998). O meio acadêmico tem se ressentido das dificuldades da Internet 1 – morosidade, objetivos prioritariamente comerciais, não-atendimento às necessidades educacionais e de pesquisas –, sendo que a Internet 2 está surgindo com alta performance, mais rápida, com capacidade para novos softwares e aplicação multimídia, propiciando a videoconferência e os avanços em educação à distância em seus vários contextos: telemedicina, acesso a laboratórios e bibliotecas, simulações em tempo real e construção de mundos virtuais em três dimensões.
Além dos EUA, outros países, como o Brasil, estão preparando suas supervias. O Ministério de Ciência e Tecnologia, através da Rede Nacional de Pesquisa, comanda alguns projetos, como Redes Metropolitanas de Alta Velocidade, visando aos avanços para essa nova geração da Internet 2.
Com tais avanços, os novos contextos de educação devem mudar substancialmente. Porém, como bem expressa Pierre Levy (1998),
"não se trata aqui de utilizar a qualquer custo as tecnologias, mas sim de acompanhar consciente e deliberadamente uma mudança de civilização que está questionando profundamente as formas institucionais, as mentalidades e a cultura dos sistemas educativos tradicionais e, notadamente, os papéis de professor e aluno."
Não há como a educação permanecer à margem desses desenvolvimentos. Ao longo deste trabalho serão abordados os avanços possíveis, vislumbrados para o próximo milênio.
3 INTERNET: POSSIBILIDADES
A Internet está envolta num deslumbramento, uma vez que, por mais que se a pesquise, ela nunca se esgota. Apresenta-se como uma grande vitrine: todos a admiram; seu poder de sedução é muito grande. Os jovens a admiram a ponto de não censurá-la. Copiam tudo, não questionam nada. Constitui uma grande fonte de pesquisa e possui diversificado material informativo, banco de dados, interação rápida, e os usuários podem acessá-la sempre que quiserem, favorecendo o trabalho cooperativo, a aquisição e a construção de novos conhecimentos, ao mesmo tempo que oportuniza o trabalho individualizado de aprendizagem. A Internet pode ser de grande ajuda, uma vez que, no momento em que se necessita de uma informação, pode-se recorrer à rede e localizar orientações por assunto, por problemas, conectar com os expertos na especialidade e conhecer experiências inovadoras na área.
Estávamos acostumados com a linguagem linear, seqüencial, seguindo um princípio, meio e fim, como uma forma de interação que possibilita aprofundamento maior da comunicação, peculiar aos textos científicos, filosóficos, poéticos e outros, o que constitui, sem dúvida, uma comunicação mais estática. Com o ciberespaço, temos a oportunidade de narrativa não-linear, hipertextual. Através de palavras selecionadas em forma de links, o navegador pode cruzar diversos documentos de forma às vezes lúdica. As descobertas tornam-se mais dinâmicas e interessantes, à medida que as palavras selecionadas vão esclarecendo as informações num contexto ramificado, ou seja, uma informação vai conduzindo a outra, e assim sucessivamente. Todos estes avanços abrem interessantes campos de pesquisas sobre os processos de informação, aprendizagem e ensino.
3.1 DIFICULDADES EM INTERNET
São grandes as dificuldades de acesso ao ciberespaço. Os problemas técnicos são considerados os mais significativos. Há problemas com a própria rede que, às vezes, torna a conexão lenta, problemas de segurança e manutenção técnica, além da despesa com o provedor.
Do ponto de vista da informação, a rede não oferece credibilidade. As informações são veiculadas espontânea e intuitivamente, sem rigor científico, e nem sempre são verdadeiras, considerando que a rede aceita tudo, não tem nenhuma forma de censura.. Assim, o grande desafio dos educadores será como criar mecanismos para orientar o educando a como lidar com essas limitações, ou, ainda, como muni-lo de técnicas que possam ajudá-lo a descartar o "lixo". Os educadores terão de estabelecer critérios para a seleção da informação, o que no momento está se buscando.
Outro aspecto a ser considerado é a seleção de informações, tarefa árdua para todos e, para os educadores, um grande desafio, uma vez que o chamamento da novidade é muito estimulante, as informações são ilimitadas e muitas delas inúteis e imprecisas, levando a grande perda de tempo. Esta é, com certeza, uma competência que teremos de dominar, considerando a rapidez e o dinamismo do crescimento da sociedade de informação.
No momento, essa é uma grande preocupação do Internet Society, grupo gestor da Internet no mundo. Preocupado com o futuro da Internet, o grupo está centrando esforços no sentido de desenvolver ferramentas que possam dar respostas mais precisas e pesquisando "Robôs Inteligentes" visando dar clareza às buscas.
Outro aspecto importante é a busca de uma forma mais precisa e a otimização do uso do tempo. VALZACCHI (1998, p. 300) assim se expressa:
"Ejercitando destrezas y habilidades básicas en el uso de las máquinas buscadoras de información, y técnicas de selección, clasificación y calificación que acoten sensiblemente los resultados en una búsqueda. Entre éstas podemos señalar las siguientes:
Usar la mayor cantidad de palabras que puedan describir con precisión la búsqueda.
Usar las herramientas de ‘Búsquedas avanzadas’ que disponen los más usuales buscadores.
Usar distintos buscadores para una misma búsqueda, Y eventualmente metabuscadores.
Usar buscadores temáticos."
No início do texto tratou-se com demasiado otimismo da narrativa hipertextual, que à primeira vista pode parecer mais interativa e fascinante, mas que apresenta também seus equívocos, suas limitações. Na realidade, o autor destaca o que quer e o leitor segue o itinerário traçado por ele, sem nada criar; o texto não tem co-autoria. Apresenta-se como forma autoritária de organizar o conhecimento, e quando o leitor se defronta com conteúdos profundos a leitura aleatória pode ser hiperfragmentária, não induzindo à reflexão. Como será no futuro não se sabe. Espera-se que os alunos sejam leitores, quando entrarem em contato com as informações; autores, quando produzirem suas próprias informações; e colaboradores, quando em interação com seus professores. A grande dificuldade está em aprender a lidar com as redes, constituir uma comunidade de aprendizagem. Como bem afirma Marisa Lucena (1997),
"esta nova Comunidade Dinâmica para o Aprendizado é, atualmente, apresentada e defendida por teóricos. Nela, todos os membros do grupo partilham controle e idéias e todos aprendem com as experiências e conhecimentos de todos, incluindo o professor. É uma mudança de paradigma educacional com resultados imediatos no aprendizado fundamental, tal como: indagação autodirigida ao processo de ‘como aprender a aprender’ num ambiente propício para o desenvolvimento de habilidade metacognitivas."
Outro aspecto a ser considerado é que de cada 150 de brasileiros somente um tem acesso à Internet, segundo Roberto Aparici (1998); logo, o acesso é muito limitado, o que evidencia uma tecnologia elitista e pouco democrática. Conseqüentemente, destes, quem tem nível de discernimento maior, mais escolaridade, terá mais facilidade de lidar com a tecnologia, enriquecer e ampliar seus conhecimentos. Com o vertiginoso crescimento da rede, esse distanciamento, entre os que acessam a Web torna-se cada vez mais significativo, evidenciando, assim, a necessidade de conectarem-se na rede unidades de ensino, bibliotecas ou qualquer outro lugar onde as pessoas tenham a oportunidade de interagir.
Outra dificuldade com a qual se defrontam os sistemas educacionais na utilização da Internet é a necessidade de mais linhas telefônicas e de computadores em classe, além dos gastos que a rede implica para os professores. Segundo Trejo, numa pesquisa feita pela Associação Nacional de Educação os Estados Unidos, somente 4% dos professores têm acesso à Internet em suas escolas, e desses apenas 22% a utilizam. Vale ressaltar que essa situação ocorre nos Estados Unidos, onde de cada cinco pessoas uma está conectada na rede, segundo Roberto Aparici (1998). No Brasil, a situação torna-se mais grave. Assim, pode-se afirmar que a revolução dos computadores ainda não alcançou o sistema educativo e a Internet não é a solução para os problemas educacionais do momento, que têm origens históricas, políticas e econômicas acumuladas, e que não serão resolvidos por uma tecnologia. Não se pode esperar do ciberespaço a solução mágica para modificar profundamente a relação pedagógica, mas há a certeza de que ele vai, sem dúvida, enriquecer as informações dos alunos, ajudar os professores na organização dos conteúdos, proporcionar a troca de experiências, tanto de quem está perto como distante geograficamente. Como afirma Moran (1998),
"a Internet pode tornar o ensino e a aprendizagem como processos abertos, flexíveis, inovadores, contínuos, que exigem uma excelente formação teórica e comunicacional, para navegar entre tantas e tão desencontradas idéias, visões, teorias, caminhos".
3.2 MODELOS COMUNICATIVOS DE APRENDIZAGEM EM INTERNET
Com todos esses avanços, a educação passa por mudanças substanciais. Vivemos uma inversão de valores.
Figura 5
Na Figura 5, Modelos de ensino-aprendizagem ( Branson apud Costa e Xexéo, 1998), delineia-se um modelo de evolução histórica do paradigma educacional: no passado, o professor era quem dominava todo o conteúdo, detinha todo o saber – a interação era de cima para baixo; ele era apenas transmissor de conhecimentos para seus alunos, que somente os assimilavam. O professor era o centro do processo educativo; no presente, ainda que permanecendo no centro, já são consideradas as interações professor-aluno, existe mais diálogo, as parcerias professor-aluno são mais democráticas, e no futuro a interação certamente assumirá um novo aspecto: um modelo centrado na tecnologia dos sistemas especialistas e bases de conhecimento, no qual o professor interage com seus alunos em parceria, e pode-se acrescentar que o aprendizado estará centrado na tecnologia; o aluno poderá ser, ao mesmo tempo, receptor e emissor na comunicação, e o professor ora conduzirá o processo educativo, ora aprenderá com seus alunos, socializando, assim, o conhecimento, o que tornará mais sensorial, multidimensional e não-linear a comunicação.
Pierre Levy (1998) expressa bem essas idéia quando afirma:
"O essencial, porém, reside num novo estilo de pedagogia que favoreça, ao mesmo tempo, os aprendizados personalizados e o aprendizado cooperativo em rede. Nesse quadro, o docente vê-se chamado a tornar-se um animador da inteligência coletiva de seus grupos de alunos, em vez de um dispensador direto de conhecimentos."
A seguir vamos verificar como repercute esse modelo mencionado na Figura 5, para a Figura 6.
Figura 6
A educação, utilizando os recursos da Internet, como evidencia-se na Figura 6, educação formal e educação informal (Costa e Xexéo, 1998), constitui grande enriquecimento à aprendizagem informal proporcionada pela rede. Atualmente os alunos sabem muito mais que em outras épocas e podem gerenciar seu próprio aprendizado, interagir com o professor e os colegas, desenvolver trabalhos conjuntos visando ao aprendizado cooperativo, bem como comunicar com o mundo fora da escola, derrubando barreiras geográficas. Pierre Levy (1998) assim se expressa:
"Ainda que as pessoas aprendam em suas experiências profissionais e sociais, ainda que a escola e a universidade estejam perdendo progressivamente seu monopólio de criação e transmissão do conhecimento, os sistemas de ensino públicos podem ao menos dar-se por nova missão a de orientar os percursos individuais no saber e contribuir para o reconhecimento do conjunto de know-how das pessoas, inclusive os saberes não-acadêmicos."
Na Figura 7, Educação Formal e Internet (Costa e Xexéo, 1998), temos a apresentação do profesor em seus diversos papéis: ora emissor, ora receptor no processo ensino-aprendizagem, levando em conta os objetivos pretendidos nas diferentes funções, já mencionados na Figura 2, como o professor do futuro em interação com seus alunos. Como afirma Marisa Lucena (1997),
"isto permite uma aprendizagem mais aberta e não dirigida e controlada, na medida em que os novos ambientes de aprendizagem, proporcionam campos para trabalhos cooperativos, criativos e inovadores, Isto, também, transforma uma sala de aula em uma ‘oficina de aprendizagem,’ ou em uma ‘comunidade de aprendizagem’, onde grupos de pessoas interagem dinamicamente, se organizam e se apóiam mutuamente, com um determinado objetivo preestabelecido, para cumprir uma determinada tarefa de comum acordo."
Figura 7
Esta inversão de papéis gera, sem dúvida, muitos conflitos para os professores que estavam acomodados com a postura convencional e, de repente, deparam-se com esta mudança. Mas parece que esse processo traz intenso enriquecimento para ambos. Espera-se que neste aprendizado o professor não imponha, mas acompanhe, sugira, incentive, questione, aprenda junto com o aluno. Hoje, com o volume de informações, essa troca é fundamental.
A educação no futuro constitui uma incógnita. Porém, de uma coisa tem-se a certeza: como está, não poderá permanecer. Os alunos, com todos os incentivos advindos das novas tecnologias, jamais suportarão os sistemas convencionais de ensino. Acreditamos em novas perspectivas para a educação, que no futuro deverá ser mais aberta, multidisciplinar, menos presencial, não-linear, com os estudantes interagindo em rede com seus professores ou colegas, sem horário preestabelecido, em atividades digitais.
Acredita-se que, diante de todos esses avanços, os professores terão diante de si novos papéis e grandes desafios. É provável que convivamos concomitantemente com diversos estilos de professores:
· os docentes tradicionais, que seguirão desenvolvendo as mesmas práticas antigas sem introduzir inovações, mantendo o mesmo discurso tradicional;
· os docentes que introduzirão as novas tecnologias, porém fazendo o mesmo, ou seja, usando talvez uma roupagem nova, com o mesmo discurso antigo;
· os docentes que introduzirão as novas tecnologias interagindo criticamente e construindo junto com seus alunos o conhecimento, através de novas abordagens de ensino-aprendizagem e estratégias pedagógicas.
Esta proposta que oferecemos contrapõe-se às dos modelos tradicionais de universidades à distância, como a Universidade Nacional de Educação à Distância, na Espanha, e a Open University, na Inglaterra, nas quais alunos recebem os cursos prontos sem nenhuma interação. São cursos massivos, que se reproduzem para centenas e centenas de alunos, sem considerar as diferenças individuais.
4 INTERNET E EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA
A educação à distância constitui um seguimento que poderá crescer muito com a Internet, utilizando os recursos existentes, como busca de informações, banco de dados e várias outras opções, desde conferências à distância a correio eletrônico.
Jamais foi tão grande a demanda por mais informação. Como afirma Pierre Levy (1998), "a título de imagem, dir-se-á que a metade da sociedade está, ou gostaria de estar, na escola." Assim, torna-se necessária uma modalidade de ensino mais dinâmica e flexível às grandes demandas, que seria sem dúvida a educação á distância, empregando as mais variadas formas: audiovisual, multimídia interativa, televisão educativa, TV a cabo, ensino assistido por computador, material impresso, utilizando-se tutoria telefônica, fax ou Internet. E esta demanda não só é quantitativa, como uma necessidade crescente de atividades diversificadas e mais personalizadas. As pessoas suportam cada vez menos participar de cursos já estabelecidos, que não correspondam às reais necessidade de educação contínua. Segundo novamente Pierre Levy (1998),
"os especialistas da área reconhecem que a distinção entre ensino ‘em presencial’ e ensino ‘à distância’ será cada vez menos pertinente, pois o uso das redes de telecomunicação e dos suportes multimídia interativos está integrando-se progressivamente às formas de ensino mais clássicas. O aprendizado à distância tem sido durante muito tempo o ‘estepe’ do ensino e, em breve, tornar-se-á, se não a norma, ao menos a cabeça pesquisadora."
A modalidade à distância possui características que se adaptam bem à sociedade da informação. A estrutura de validação dos conhecimentos necessita passar pelos mesmos avanços educacionais, uma vez que, quando não há mudanças, fica-se ligado ao tradicional, defasado nas inovações, como bem expressa Pierre Levy (1998):
"Utilizar todas as tecnologias novas na educação e formação sem nada mudar nos mecanismos de validação dos aprendizados equivale, ao mesmo tempo, a aumentar os músculos da instituição escolar e a bloquear o desenvolvimento de seus sentidos e cérebro."
E para tanto, reforçando a importância do aprendizado informal, acrescenta o autor que, como os indivíduos aprendem cada vez mais fora das fileiras acadêmicas, cabe aos sistemas de educação implantar procedimentos de reconhecimento dos saberes e know-how adquiridos na vida social e profissional.
4.1 AULAS VIRTUAIS
Hoje, mais do que nunca, os alunos não suportam o ensino tradicional, e com os avanços da sociedade da informação novas possibilidades estão surgindo. Pierre Levy (1998), nesse sentido, afirma:
"O que está em jogo na cibercultura, tanto no plano da redução dos custos como no do acesso de todos à educação, não é tanto a passagem do ‘presencial’ para à ‘distância’ e, tampouco, da escrita e do oral tradicionais para a ‘multimídia’. É sim a transição entre uma educação e uma formação estritamente institucionalizada (escola, universidade) e uma situação de intercâmbio generalizado dos saberes, de ensino da sociedade por ela mesma, de reconhecimento autogerido, móvel e contextual das competências. Nesse quadro, o papel do poder público haveria de ser:
1) garantir a cada um uma formação elementar de qualidade;
2) permitir para todos um acesso aberto e gratuito a mediatecas, centros de orientação, documentação e autoformação, a pontos de entrada no ciberespaço, sem negligenciar a indispensável mediação humana do acesso ao conhecimento;
3) regular e animar uma nova economia do conhecimento, na qual cada indivíduo, cada grupo, cada organização sejam considerados como recursos potenciais de aprendizado ao serviço de percursos de formação contínuos e personalizados."
Nessa nova comunicação, não importa a localização física. Os alunos devem ser capazes de interagir com o professor, com o conteúdo e entre si mesmos, de modo sincrônico e assincrônico. À medida que as telecomunicações e o computador se unem, novas maneiras de aprendizagem e de ensino desafiam a classe tradicional, mas não para substituí-la, e sim para proporcionar maneiras alternativas e complementares de ampliar as oportunidades educacionais. Essas novas tecnologias criarão ambientes de comunicação nos quais as funções das classes podem acontecer em diferentes locais. Pode-se dizer que tais contextos educativos se chamam classes virtuais, nos quais professores, estudantes e currículos interagem em telepresença. Segundo Tiffin e Rajasingham (1997), diante desses problemas e das demandas por mais educação, parece difícil imaginar que não se tenha um teleensino no futuro, que seja relevante para a vida, atualizado, dinâmico e adaptável a cada pessoa:
"...hay algunas promesas apasionantes en la clase virtual. Los sistemas educativos de base nacional son impuestos. Todo el mundo tiene que ir a la escuela. Se imponen los currículos y se restringe la selección de materias o la metodología. Para muchos, las escuelas son un tedioso tiempo de espera. Por el contrario, la clase virtual deja que el aprendiz decida lo que quiere estudiar, cuándo y cómo. Permite que el aprendiz vaya a buscar el aprendizaje que para él tiene sentido motiva al aprendiz a esforzarse por aprender."
A globalização da classe virtual parece interessante em contraste com a classe convencional, que é local, com alcance muito pequeno, porém na globalização há homogenização de culturas e idéias. O que fazemos então?
As escolas convencionais proporcionam atividades que dão a sensação de comunidade. Inclusive, a classe é um sistema de comunicação que possibilita a um grupo de pessoas se reunir para falar a respeito de algo visando aprender, entender do assunto em questão. Na classe convencional, é possível, graças aos limites que a demarcam, proporcionar proteção contra interferências externas, de modo que todos os que nela estão possam conectar-se uns com os outros, assim como interagir a respeito do que está sendo estudado. Porém, quando será que a tecnologia da informação poderá proporcionar um sistema alternativo de comunicação para a aprendizagem que seja, pelo menos, tão efetivo quanto a classe? A dimensão da educação vai mudar com estes avanços e um grande desafio se apresenta: como será a transição da educação tradicional para a virtual?
Rajasingham (1995) ressalta:
"Se ‘virtual’ significa em efeito’, mas não é possível obter-se o efeito de uma sala de aula sem a realidade da sala de aula? [...] O que será possível com a realidade virtual daqui a 50 anos? Que forma terá a aula virtual? Será que a aula virtual será um avanço da aula convencional como sistema de comunicação para o aprendizado na sociedade de informação que virá?"
A nova tecnologia virtual proporciona o efeito de que se está dentro de uma realidade simulada. Estamos começando a perceber suas potencialidades e aplicações na arquitetura, medicina e nos meios de comunicação visual. É o momento de analisar como se pode utilizá-la na educação, e para tanto parece que se conviverá com a implementação de duas linhas de ação:
· Apoio a pontos específicos da classe tradicional. Nesse aspecto, teremos os docentes que seguirão utilizando métodos tradicionais de ensino, de forma analógica, e seus alunos, em contraposição, usufruindo dos benefícios de uma cultura digital através dos hipertextos, CDROMS, enciclopédias multimídias, páginas da Web, jogos informáticos, etc. Esta convivência com universos diferentes, acredita-se, trará muitas dificuldades ao contexto pedagógico. Os problemas disciplinares devem intensificar-se muito; para o aluno, a escola deve tornar-se algo tedioso e desagradável.
· Desenvolvimento de espaço virtual utilizando-se metodologia tradicional, o que pode conduzir a vários equívocos. Somam-se os erros do passado com os do futuro, advindos das novas tecnologias. É como se fosse utilizada nova roupagem, reincidindo nas mesmas dificuldades, ou seja, é como se as páginas Web fossem utilizadas para veicular textos contidos nos materiais impressos: lineares, seqüenciais e cronológicos. Ou seja, usar uma nova tecnologia com uma velha concepção pedagógica. As facilidades pedagógicas por si sós não mudam os processos pedagógicos; é necessário coincidir o uso das novas tecnologias com transformações no sistema tradicional de ensino.
Podemos imaginar como serão as classes virtuais do futuro diante dos avanços das telecomunicações. Cremos que será possível a transmissão de sons digitais de alta qualidade e imagens de vídeo de alta definição. Conferências audiográficas estão sendo aperfeiçoadas até chegar a incluir videoconferência. Isto nos permite prever que, ao longo da próxima década, o desenvolvimento será mais rápido e se adaptará às necessidades da educação. Porém, teremos um grande problema: a educação convencional hoje é gratuita; na educação virtual isto não ocorre – é cara, devido ao custo da telefonia. Quando os custos das telecomunicações serão inferiores? Este é um aspecto muito importante, uma vez que hoje o usuário paga muito caro pelos monopólios das telecomunicações. Inclusive surge um debate polêmico que tem despertado controvérsia: diz respeito à relação custo-aluno que, em educação à distância, utilizando as novas tecnologias, com a tutoria exigindo atendimento individualizado, torna-se mais alto e conseqüentemente exigirá mais dos investimentos educacionais.
A educação convencional, diante da virtual, apresenta uma série de contradições: a classe convencional é estabelecida em períodos determinados, é linear, seqüencial definida regional/nacionalmente; a virtual, em contraposição, é estabelecida de acordo com o interesse e a disponibilidade do educando e globalmente, apresentando a educação contextualizada de forma ampla, sem fronteiras, mas configurando efeitos que acompanham a globalização, com prejuízos às culturas locais e regionais, em detrimento da identidade nacional.
Com todos esses avanços, descobertas significativas estão surgindo. Pierre Levy(1998) afirma:
"Com esse novo suporte de informação e comunicação, estão emergindo gêneros de conhecimentos inéditos, critérios de avaliação inéditos para orientar o saber, os novos atores na produção e no processamento dos conhecimentos. Toda e qualquer política de educação deverá levá-lo em consideração."
Parece fundamental que para a transição do ensino tradicional para o desenvolvimento da aula virtual seja necessário que o aluno siga construindo seu próprio aprendizado, aprendendo a aprender, não só acumulando novos conhecimentos, mas transformando-os, experimentando e resolvendo problemas de forma comunicativa, dinâmica, construtivista e participativa.
Os educadores devem elaborar currículos conforme o interesse de seus alunos, envolvendo-os no projeto de aprendizagem, proporcionando o desenvolvimento da autonomia, segundo princípios sociais de igualdade, justiça e democracia. As muitas mudanças que estamos vivenciando no campo das novas tecnologias são dinâmicas e rápidas, e no campo da educação, apesar dos avanços, muito ainda está por se fazer.
No futuro, a virtualidade deve avançar com a nanotecnologia, pois a sua utilização numa modalidade moderna de engenharia propicia a construção de objetos em forma de miniaturas. Apesar de estar na fase inicial, ela trará uma grande revolução nas máquinas e na construção de computadores, em nível molecular. Esses avanços, associados à realidade virtual, tornarão factíveis várias descobertas, inclusive permitirão uma grande mobilidade, personalização, facilitando a individualização dos processos de comunicação, o estar sempre alcançável, em qualquer lugar, como, por exemplo, os telefones celulares, as calculadoras, os walkmans e outros que têm facilitado o dia-a-dia das pessoas. Estes avanços da miniaturização devem se estender a todos os campos das novas tecnologias, possibilitando novos instrumentos, de acordo com as necessidades emergentes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Vive-se um momento histórico intenso, nesta virada do milênio. Seymour Papert (1995) convida a dar uma volta ao passado e imaginar um professor e um cirurgião encontrando-se cem anos depois. O cirurgião, naturalmente, encontraria muitas inovações, mas, infelizmente, o educador nem tanto. Nessas últimas décadas, algumas áreas do conhecimento humano sofreram megamudanças, dentre as quais as das telecomunicações, as do transporte e as da medicina... Mas a educação, como bem afirma o autor,
" ¿porqué, en un período durante el cual hemos vivido la revolución de muchas áreas de nuestra actividad, no hemos presenciado un cambio comparable en la manera en que ayudamos a nuestros niños a aprender?"
Espera-se que no próximo milênio a educação recupere esta morosidade e dê o salto de qualidade, entrando na era da virtualidade com progressos ambiciosos, principalmente quanto à melhoria da qualidade do ensino, aspecto tão ambicionado e criticado, mas ainda sem avanços significativos.
Sabendo-se aproveitar as oportunidades apresentadas com a mudança do paradigma, poder-se-á atacar desafios seculares de forma inovadora, democrática, participativa, com longo alcance, em larga escala e a custos bem menores que os atuais. Como afirma Manuel Moran (1998),
"nunca tivemos tantas tecnologias fantásticas de comunicação e, ao mesmo tempo, é um desafio encontrar o ponto de equilíbrio entre o deslumbramento e a resistência tão comuns entre muitos educadores."
Assim, com todos esses desafios, espera-se que no próximo milênio a educação consiga avançar e superar os obstáculos, rumo à democratização do saber.
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