Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

ESCOLA E TECNOLOGIA

 

Gladston Lisboa de Menezes

DITE / NTE Aracaju -

 
 

A Escola sofre influência direta do modelo social erguido sobre os pilares de um paradigma "tradicional", que tem por base um modelo mecanicista de ver e de fazer, apoiando-se no referencial teórico desenvolvido por Newton e Descartes no século XVII que através do método analítico propunham a decomposição dos problemas em partes componentes dispostas dentro de uma ordem lógica, "a visão de Descartes despertou nele a firme crença na certeza do conhecimento científico; sua vocação na vida passou a ser distinguir a verdade do erro em todos os campos do saber.
"Toda ciência é conhecimento certo e evidente", escreveu ele. "Rejeitamos todo conhecimento que é meramente provável e consideramos que só se deve acreditar naquelas coisas que são perfeitamente conhecidas e sobre as quais não pode haver dúvidas." (CAPRAR, 1997, pg. 53).
Para compreender este processo é preciso fragmentá-lo, dividi-lo em partes e entregar a especialistas para que dissequem e compreendam a sua essência, consideram o mundo uma grande máquina, que funciona em consonância com as leis matemáticas e físicas, e descrito sem relacionar o observador humano, o fenômeno é isolado, estudado a distância e friamente pelo experimentador, teorias são escritas, testadas e retestadas, verdades são estabelecidas e tornam-se absolutas, o homem neste modelo de ciência e senhor absoluto do mundo, pode transformar a natureza, explorá-la pois esta é sua escrava e deve servi-lo.
Reconheceram a superioridade da mente sobre a matéria, e concluíram que as duas são coisas distintas, o intelecto privilegiado exageradamente em detrimento das relações do espírito e do coração foi causa geradora de dissociações patológicas que afetaram a humanidade. Em suma o paradigma tradicional tem seus alicerces no conhecimento "objetivo" adquirido através de experimentações e observações controladas, buscando a verdade criteriosa na lógica matemática (razão) e na experimentação (sensação), gerando as correntes filosóficas do racionalismo e empirismo.
Esta base filosófica gerou duas situações fundamentais: a divisão entre conhecimento científico e conhecimento advindo do senso comum e a divisão entre pessoa humana e natureza, situações estas que foram aplicadas aos fenômenos sociais como se fossem naturais, apesar da extrema diferença entre eles; o método reducionista ficou impregnado em nossa cultura levando a uma crise planetária de dimensões imensuráveis, reflexo de um processo de desvinculação, atomização e fragmentação, gerador dos atuais problemas críticos da humanidade.
Gerou uma estrutura de sociedade dicotômica , sem compromissos, com os menos abastados, avarenta na sua concepção econômica, estúpida no trato com a natureza, pois a têm por escrava, lhe causa danos muitas vezes inrevesíveis em nome de uma ordem do Ter mais, sem olhar para o que se tem ao lado.
São longos anos de exercício desta prática danosa que tem desencadeado uma grande desarmonia, não é preciso ir longe para percebermos, no ar que se respira nas grandes cidades, no alimento que ingerimos, na agitação estressante do nosso trabalho, na má distribuição de renda, muito a poucos, pouco a muitos; em sistemas falidos de saúde, habitação e seguridade social; aplica-se a lei de "Gerson", levar vantagem sempre. Compreende-se o mundo sob verdades absolutas, teorias perpétuas que comprovadas minusiosamente aplicam-se a todas as situações
E sobre este paradigma que foi concebida a Educação que conhecemos, carteiras em fila, alunos bem sentados, quadro negro, giz, professor bem falante e conhecedor profundo da sua especialidade, mestre respeitado, sua palavra jamais contestada. Afinal são anos de experiência e saber acumulado, o livro seu fiel companheiro, referência e sustentação para o seu discurso, não negaremos aqui a importância deste, atentamos que, por boa parte das vezes este professor usa um único livro como sustentácu-lo do seu agir.
O professor "dar" aulas, leciona, passa a matéria do dia, o conteúdo aponta e enfatiza situações de assimilação de conhecimento acumulado o saber tem carater teórico e abstrato privilegia conteúdo e produto em detrimento do processo de construção do conhecimento cobra nas avaliações o que foi lido, o aluno aprende aquilo o que o professor já sabe.
A grande preocupação dos educandos é estudar para tirar boas notas, tendo como norte aquilo que lhe será cobrado, por longe a preocupação com a busca do conhecimento, em aprender para entender e conhecer, para ir mais longe, transceder.
Surge ai uma relação autoritária, uma sala de aula fria, ambiente de escuta, de atmosfera densa, alunos "tabula rasa", apáticos e acuados. A informação fluindo em um só sentido, os alunos freqüentam as aulas por obrigação, por pressão da família e da sociedade, é presente o medo das notas baixas da recuperação; ansiedade nos mais altos índices, formam-se então copistas, consumidores de conhecimento, cidadãos sem identidade.
Esta regra geral é a escola que nos é ofertada numa sociedade pós-moderna, um modelo de aprendizagem distante dos recursos disponíveis nos dias atuais, a tecnologia é desprezada, utilizada em momentos esporádicos sem vinculação ao contexto, meramente ilustradora , temida por muitos, que vêm nela uma ameaça constante, julgam que possam por ela ser substituídos, que os valores humanos sejam desprezados pela frieza de uma máquina, enganam-se.
"O planeta não suporta mais o nível de produção que atingimos e os gastos e perdas de recursos naturais que ela acarreta. É necessário um outro método de produção de bens e serviços mais econômico, mais eficiente, com menos excesso e onde trabalhem profissionais capazes de criarem e pensarem. É para formar esse novo profissional que a mudança de paradigma educacional é necessária. Caso contrário o tempo dirá." (VALENTE, 1993, Pg. 42).
Albert Einstein no início do século XX revoluciona o mundo da física com a sua teoria da relatividade uma simples equação, E=mc2 (energia e igual a massa vezes a velocidade da luz ao quadrado) que implica que energia tem massa e que não existe verdadeira distinção entre matéria e energia. Outra conquista foi conseqüência dos experimentos com átomos, os físicos descobriram vários fenômenos relacionados com a estrutura atômica a radiatividade, o raio X, que eram inexplicáveis a luz da ciência clássica, puseram por terra todos os conceitos a séculos conhecidos.
"Todas as vezes que se fazia uma pergunta à natureza, num experimento atômico, a natureza respondia com um paradoxo, e, quanto mais eles se esforçavam por esclarecer a situação, mais agudos os paradoxos se tornavam." (CAPRA, 1997, pg. 71).
Foi descoberto por Heisenberg, que o comportamento das partículas atômicas é totalmente imprevisível e que esta incerteza não é falha no instrumental de medida, mas sim da intervenção estrutural do sujeito no objeto estudado, caracterizando o Princípio da Incerteza, compreendeu-se que o objeto estudado sofre efeito direto do observador mudando a velocidade das partículas.
Niels Bohr, pois a luz a Lei da Complementaridade, esclarecendo que as unidades sub-atômicas aparecem tanto como partículas (matéria) como quanto ondas, simultaneamente; a resolução desse paradoxo partícula/onda obrigou os físicos a aceitarem um recorte da realidade que ia de encontro ao fundamento da visão mecanicista de mundo (o conceito da realidade da matéria). No universo subatômico a matéria não apresenta-se em lugares definidos, em vez disso, mostra tendências para a sua existência, os eventos não ocorrem em tempos e maneiras definidos, mostram tendências para ocorrer. Um evento atômico não é vaticinável apenas se pode prever a probabilidade da sua ocorrência.
As leis da física atômica são leis estatísticas, de acordo com as quais as probabilidades de eventos atômicos são determinadas pela dinâmica de todo o sistema. Enquanto, na mecânica clássica, as propriedades e o comportamento das partes determinam as propriedades e o comportamento do todo, a situação na mecânica quântica é inversa: é o todo que determina o comportamento das partes. (CAPRA, 1997, pg. 81)
Destes fatos decorreram uma nova forma de ver o mundo, multidimensional, com implicações de grande importância sobre a construção do conhecimento científico, rompemos a barreira do pentasensorial, as emoções e os sentimentos passam a integrar os decursos de construção do conhecimento e de entendimento da natureza.
Percebido desta forma o mundo não suporta mais o modelo cartesiano- newtoniano, que separa realidades inseparáveis, mente e corpo não são mais vistos separadamente, compreendem um todo uno indivisível, homem e natureza separados não tem mais sustentação, interconexões ocorrem em todas as dimensões: objeto – sujeito, indivíduo – contexto o ser humano e o universo, não existe inércia, morosidade, conexão total e renovação continuada, leva-se a compreensão de um mundo físico como uma rede de relações.
No novo paradigma, se todos os conceitos, todas as teorias e as descobertas têm um caráter limitado e são aproximadas, isto nos leva a concluir que não há certezas científica e que estamos sempre gerando novas teorias, a partir de novos insights que dependem da maneira como observamos o mundo. Construímos, portanto, "teorias transitórias" cada vez mais próximas da realidade. (MORAES, 1997, pg. 14)
A tecnologia filha também deste processo pode-se torna uma aliada na busca da construção de um novo ambiente de aprendizagem, rico, iluminado, leve, interativo, prazeroso capaz de em seu seio estimular a criação. A concepção de mundo se modifica percebe-se que somos parte de um todo, mas não parte na sua concepção de pedaço, sem significação, mas parte integrante, ativa, atuante, cooparticipadora do contexto, agente transformador do mesmo no qual existe relação estreita entre sujeito e objeto, num processo de crescimento.
O homem ciente do seu papel, da sua imparidade mais também ciente da sua totalidade, pois é integrante de um universo e co-responsável pelo seu desenvolvimento e harmonia. No micro e no macrocosmo, nas relações sociais, interpessoais e afetivas as velhas teorias já não funcionam, as verdades não são eternas, fenômenos não acontecem da mesma forma nem em tempo, nem em espaço diferentes, cada momento é um momento impar .
Uma ação neste sentido implica numa tomada de consciência do momento educacional pós-moderno, o que estar em jogo não mais é a quantidade de conhecimento acumulado nem a presteza em esplana-los.
"Reconhecemos a importância de focalizar o processo de aprendizagem, mais do que a instrução e transmissão do conteúdos, lembrando que hoje é mais relevante o como você sabe do que o que e o quanto você sabe. É necessário levar o indivíduo a aprender a aprender, traduzido pela capacidade de refletir, analisar e tomar consciência do que sabe, dispor-se a mudar os próprios conceitos, buscar novas informações, substituir velhas "verdades" por teorias transitórias, adquirir os novos conhecimentos que vêm sendo requeridos pelas alterações existentes no mundo, resultantes da rápida evolução das tecnologias da informação." (MORAES, 1997, pg. 17)
Vale hoje a aplicabilidade das habilidades desenvolvidas ao longo da sua vida escolar: a leitura critica e a aptidão numérica, a pesquisa, a autonomia, a criatividade, a oratória, a cooperação e tantas outras que pertencem ao rol de um indivíduo capaz de ver um mundo total e com ele viver em harmonia.
Sobre a reflexão do exposto acima, é que está sendo desenvolvido o projeto de Informática Educativa e Alfabetização Com o Uso da Multimídia nas unidades escolares da rede municipal de ensino de Aracaju quatro escolas hoje já dispõem de equipamentos, professores e equipe técnica pedagógica capacitada para tanto, duas em efetivo funcionamento (EPG Juscelino Kubistchek e Escola Municipal Oscar Nascimento), outras duas em fase de implementação da proposta de trabalho,(EPG Alencar Cardoso e EPG Antonio da Costa Melo), e estando previsto a expansão do programa para mais seis escolas no próximo ano.
Os resultados começaram a aparecer desde os primeiros instantes do desenvolvimento do projeto, (1998) vejam:
... Vê-se nos olhos das crianças a curiosidade, receio! Coisa de adulto, mito! O que é isso mesmo?, brinquedo fascinante, não percebem na sua ingenuidade que o que parece brinquedo, e que ótimo que assim o seja, na verdade é um poderoso instrumento para ajuda-lo a pensar, a construir conhecimento, a sua simples presença na sala de aula causa uma revolução nos costumes da escola, relatam os professores: "crianças arredias, faltosas, ora vejam, hoje por menor que seja o motivo que lhes impeçam de ir a escola obrigam os pais a dar uma satisfação a mesma, chuva grossa, frio, rua alagada não é mais motivo para faltar a aula", "meu filho acorda cedo, puxa na barra da minha saia, mãe tá na hora", relata uma mãe orgulhosa. Aquele menino problema, que chegou a ameaçar colegas e professores. Quem diria, hoje é companheiro e colabora com seu mestre. Apenas três meses e já são tantas as mudanças. ... (Boletim Informativo Tecnologia Educacional, pag. 4)
 
O projeto caminha, e a cada instante uma nova revelação, o depoimento dos professores nos encontros pedagógicos de avaliação apontam os sucessos da empreitada, o envolvimento e a participação nas atividades propostas em sala de aula ocorrem de maneira mais significativa, pois os alunos são agentes ativos do processo de construção do saber, os professores consolidam as suas ações a cada dia, o receio inicial já superado tem permitido um processo crescente de inovações, o acesso a Internet vem possibilitando a descoberta de infinitas possibilidades de interação, pesquisa e produção.
"Em geral, considera-se uma boa prática instruir as pessoas em suas atividade ocupacionais. Ora, as atividades ocupacionais das crianças são aprender, pensar, bricar e similares. No entanto, não lhes dizemos nada sobre estas coisas. Ao contrário, lhe falamos sobre números, gramática e Revolução Francesa, de algum modo esperando que, a partir desta confusão, todas as coisas realmente importantes surjam por si só. Às vezes, elas surgem, porém o complexo alienação-abandono escolar-drogas certamente não é menos comum... Permanece o paradoxo: porque não lhes ensinamos a pensar, a aprender, a brincar?" (PAPERT, 1994, PG.80)
O trabalho vem sendo desenvolvido sobre a perspectiva de projetos de aprendizagem que caracterizam-se por um compartilhamento de decisões e responsabilidades entre alunos e professores que juntos escolhem um tema a ser trabalhado, respeitando a individualidade e a realidade de vida de cada aluno, satisfazendo a sua curiosidade e desejo de aprender, elaborando estratégias de ação consensuais, onde o aluno e agente do processo, o professor elemento estimulador e orientador em um paradigma de construção do conhecimento.
Observamos que os resultados até agora obtidos partem da premissa de fazer diferente a educação, fazer dos alunos atores principais, fomentar situações que estimulem a curiosidade, o desejo da compreensão do fenômeno o gosto pela pesquisa e produção.
Bibliografia
BOSSUET, G. O computador na escola: o sistema logo. Porto Alegre : Artes Médicas, 1985.
CAPRA, F. O ponto de mutação. São Paulo : Cultrix, 1997
FAGUNDES, Léa da Cruz et et al. Aprendizes do futuro: as inovações começaram, (não publicado)
PAPERT, Seymour. A máquina das crianças - repensando a escola na era da informática. Artes Médicas, Porto Alegre,1994.
VALENTE, José Armando. Computadores e conhecimento - repensando a educação. Gráfica central da UNICAMP, Campinas, SP, 1993.