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l - INTRODUÇÃO
Está muito em moda falar-se atualmente em Qualidade na Educação. Talvez devido aos modismos de Qualidade Total e Reengenharia muito se tem escrito a respeito de Qualidade Total em Educação.
Há também quem coloque como opostos e dicotômicos os conceitos de Qualidade e Quantidade chegando a afirmar que não é possível conciliar as duas estratégias.
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Neste texto iremos analisar essa dicotomia chegando à conclusão de que as duas estratégias se complementam, especialmente quando se trata da sua aplicação no setor educacional.
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II - O EQUÍVOCO DA CONFRONTAÇÃO QUALIDADE E QUANTIDADE
Sob o título acima iremos procurar demonstrar o quanto de equivocados estão aqueles que colocam em oposição Qualidade e Quantidade. Veremos que ambas as dimensões fazem parte da realidade e da vida, pois elas não são coisas estanques, mas facetas do mesmo todo. Por mais que possamos admitir qualidade como algo "mais" e mesmo "melhor" que quantidade, porque no fundo uma jamais substitui a outra, ainda que sempre seja possível preferir uma à outra.
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QUALIDADE NA EDUCAÇÃO E A DICOTOMIA
QUANTIDADE X QUALIDADE
Gilberto Teixeira Prof,Doutor (FEA/USP]
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2.1. Quantidade aponta para o horizonte da extensão
Vida longa, casa grande, bom salário, comida farta, anos de estudo são expressões que acentuam a necessidade quantitativa. É, sem dúvida, importante pode viver muito, para ter oportunidade multiplicada, bem como é crucial morar num espaço confortável, ter uma remuneração salarial folgada, desfrutar de alimentação abundante e estudar por tempo expressivo. Entretanto, vê-se de imediato que expressões não podem ser dicotomizadas perante a qualidade, que indica o que chamaremos de a "dimensão da intensidade". Se é relevante viver muito, talvez seja ainda mais viver bem, quer dizer, é essencial combinar extensão de vida com intensidade de vida. Poderá até existir quem prefira viver pouco e bem a viver muito e mal. Mesmo aí, será falsa a dicotomia, pois não há como viver intensamente sem alguma base extensa.
Do mesmo modo, um lar precisa de um espaço mínimo quantitativo, embora sempre se possa aludir que a definição principal de lar seja aconchego, comunhão, suporte mútuo e que isso pode existir, também, numa favela. Todavia, não se trata de negar um ou outro lado, mas de modular a convergência de ambos, que sempre seria ideal. Se nos detivermos no fator salário (com frequência usado como paradigma) iremos constatar o fácil desvirtuamento de ambas as dimensões": quando é mínimo, não serve para o mínimo quantitativo ou a sobrevivência pura e simples; já os salários privilegiados representam quantidades abusivas, refletindo, sobretudo, o processo de concentração de renda. Em outras palavras, nem vale salário mínimo, que não dá para o mínimo, nem vale salário de "marajá", mantido à |
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custa da maioria pobre, mas uma referência intermediária mais adequada que combine sobrevivência com desfrute da vida.
Mais uma vez fica evidenciado que as posições extremas e radicais não são tão "sábias", como alguns defendem.
Por outra, comer muito não precisa coincidir com comer bem, mas ninguém consegue comer bem o que não sustenta. Em 1990, a média dos anos de estudo da população brasileira era de apenas 3,9 - muito pequena com certeza -, uma das menores da América Latina1. Entretanto, qualquer pedagogo poderá afirmar que a "boa educação" é menos questão de anos de estudo do que a fineza de caráter, e esta o analfabeto também pode ter. É na área educacional que mais frequentemente encontramos as posições radicais, os extremos.
Quantidade, para qualidade, é base e condição. Como base, significa o concreto material, de que também é feita a vida. É corpo, tamanho, número, extensão. Como condição, indica que toda pretensão qualitativa passa igualmente pela quantidade, nem que seja como simples meio, instrumento, insumo. Torna-se menos comum a redução da realidade toda à matéria (materialismo), nem vale a pena desconhecer as necessidades materiais, porque a felicidade não é apenas ter, mas sobretudo ser. Entretanto, o ser pleno procura satisfação material e imaterial. Segue que quantidade não é traição, deturpação, negação da qualidade, mas dimensão natural global.
^f. ONU. Human development report 1993. Somente o Haiti apresentava média inferior.
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2.2. Qualidade, por sua vez, aponta para a "dimensão da intensidade". Tem a ver com profundidade, perfeição, principalmente com participação e criação. Está mais para o ser do que para o ter. Se nos estendermos um pouco nessas considerações filosóficas veremos que é possível aplicar, metaforicamente, o termo a coisas ou a formas dadas. Um diamante pode ser de qualidade se, comparado a outros, for mais puro, perfeito, limpo. Um clima, por ser mais completo e equilibrado, apresentaria qualidade superior a outro marcado por características de excessiva instabilidade, por exemplo. Nesse caso, qualidade significa a perfeição de algo diante da expectativa das pessoas.
Na verdade essas considerações vão nos levar à afirmação de que o termo Qualidade aplica-se mais propriamente à ação humana, até o ponto de defini-lo como o togue humano na quantidade ou na realidade como tal. Isso se deve a sua ligação com intensidade. Com efeito, somente poderia ser intenso, aquilo que tem a marca do homem, por ser questão de vivência, consciência, participação, cultura e arte. Podemos resumir como sendo o desafio de construir e participar. Assim, somente o que é histórico pode ser qualitativo, no sentido dialético do saber fazer história, dentro da unidade de contrários. Ser sujeito histórico, não massa de manobra, objeto de influência externa.
Tomamos, pois, como ponto de partida, que qualidade representa o desafio de fazer história humana com o objetivo de humanizar a realidade e a convivência social. Não se trata apenas de intervir na natureza e na sociedade, mas de intervir com sentido humano, ou seja, dentro de valores e fins historicamente considerados desejáveis e necessários, e eticamente |
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sustentáveis. A intensidade da qualidade não é da força (som intenso, por exemplo), mas da profundidade, da sensibilidade, da criatividade. QUANTIDADE Extensão - ter___________ QUALIDADE Intensidade - ser construir - participar III - A VISÃO DA ONU
A ONU formulou recentemente o conceito de "desenvolvimento humano", tornando-o como "oportunidade". Sob esse enfoque, a sociedade humana pode vir a ser oportunidade de vida que vale a pena, desde que seja capaz disso. Oportunidade pode ser feita, alargada, potencializada e, também, destruída, apequenada. Depende da qualidade da população, em termos de construir e de participar. O ser humano, como oportunidade, denota, sobretudo, as potencialidades que tem, suas esperanças e utopias, sua vontade de ser e, principalmente, sua capacidade de ser sujeito dessa peripécia. Existem as circunstâncias dadas: território, recursos naturais disponíveis, cultura vigente, população, bem como dificuldades de cada caso: desemprego, atraso em educação, fome. Diante disso, cabe a cada sociedade construir seu projeto de desenvolvimento e dotá-lo da qualidade histórica possível. Tal marca possibilita, por exemplo, dizer que a sociedade europeia é mais qualitativa que a brasileira, não em termos de comparação cultural, mas em termos de formação histórica da competência em fazer oportunidade própria de desenvolvimento.
De fato, na classificação dos países, o Brasil apareceu, em 1993, na 70° posição, muito distante da colocação económica (10° economia mundial). O |
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índice de desenvolvimento humano é composto de três indicadores: educação, expectativa de vida e poder de compra, estabelecendo certa harmonia entre quantidade e qualidade. O primeiro indicador é educação (alfabetização média de anos de estudo da população maior de 15 anos), por ser condição necessária para se conceber e fazer oportunidade. Sem consciência crítica, conhecimento e participação não é viável o desenvolvimento humano porque a população sequer se descobre como oportunidade. A seguir expectativa de vida aponta para a importância de viver muito, mas revela nisso, igualmente a condição de viver bem, já que esse indicador aglutina, ao mesmo tempo, quantidade e qualidade de vida. Por fim, poder de compra apresenta a necessária base material2. O que mais chama a atenção para essa maneira de ver é valorização extrema que se faz da cidadania, concebida como a capacidade culturalmente construída de fazer uma história própria participativa3. A democracia é obra humana e representa uma das qualidades fundamentais da história conhecida. Assim, ao lado da tradicional adequação ao mercado, considerado por muitos como peremptório, a ONU valoriza o comando humano do mercado, colocando como qualidade primeira da população a educação. Aí começa a oportunidade. Desta forma chegamos à conclusão que o desenvolvimento humano estriba-se sobre duas pilastras essenciais, uma que é instrumento, outra que é fim: produção económica e cidadania. Ambas são necessárias, porque no fundo ^ índice de desenvolvimento humano foi feito pela primeira vez em 1990. O Brasil apareceu em 50a lugar, e já mostrava estar muito mal colocado ante a América Latina e o atraso maior está exatamente na esfera da educação.
^EPAL. 1992. Transformación productiva con equidad. CEPAL. Santiago. CEPAL/OREALC. 1992. Educación y conocimiento - Eje de Ia transfomación productiva con equidad. CEPAL. Santiago. Na Conferência da ONU sobre direitos humanos, em junho de 1993, em Viena, o desenvolvimento humano foi reconhecido como direito.
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formam um todo, quantitativo e qualitativo; mais uma vez fica evidenciada a complementariedade entre qualidade e quantidade.
DESENVOLVIMENTO oportunidade cidadania e produção HUMANO___________________________
IV - A DISTINÇÃO ENTRE QUALIDADE FORMAL E POLÍTICA NA
EDUCAÇÃO
4.1. Os Conceitos
Qualidade formal significa a habilidade de manejar meios, instrumentos, formas, técnicas, procedimentos diante dos desafios do desenvolvimento. Entre eles, ressaltam manejo e produção de conhecimento. É o recursos mais importante para a inovação.
Qualidade política quer dizer a competência do sujeito em termos de se fazer e de fazer história, diante dos fins históricos da sociedade humana. É condição básica da participação, dirige-se a fins, valores e conteúdos. É naturalmente ideológica, porque definição política é sua marca, perdendo qualidade, se ideologia se reduzir a justificações desumanas e a partidarismos obtusos. Inclui ética na política. Neste ponto não poderíamos deixar de ressaltar que por trás de qualquer discussão ou formulação a respeito de educação existe uma base ideológica (não existe neutralidade na educação). Não podemos segregar as duas, até porque não são duas coisas, mas faces do mesmo todo. Conhecimento sem qualidade política resvala para a implantação da agressão e do privilégio, pois perde a noção ética e serve a |
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qualquer ideologia. Ideologia sem conhecimento apenas inculca a ignorância e dela vive. Quem defender isso está confundindo competência com fidelidade. O leitor facilmente concluíra que essa situação tem sido a característica dos sistemas totalitários em todas épocas e regiões do planeta Terra. Assim, temos de um lado a arma mais potente de inovação, comandada pêlos avanços sistemáticos do conhecimento, de outro temos o desafio permanente de discutir, rever e refazer o sentido histórico da inovação ou de humanizar o progresso. Trata-se da competência humana como tal, no duplo sentido de emancipar e de conformar a realidade em termos humanos. Podemos, também, chamar a isso de desenvolvimento ou felicidade. Tanto conhecimento quanto a educação são obra humana e por isso lhes cabe o desafio da qualidade. Entretanto, na qualidade formal trata-se da arte de descobrir, enquanto na realidade política trata-se da arte de fazer. Assim, qualidade centra-se no desafio de manejar os instrumentos adequados para fazer história humana.
A qualidade dos meios está em função da ética dos fins. A qualidade dos fins depende da competência dos meios.
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4.2. A Educação
Educação tem sido o termo-resumo para designar qualidade, por uma série de razões:
a) como instrumento, sinaliza a construção do conhecimento e, como fim, a preocupação em torno da humanização da realidade e da vida; b) ligada à construção do conhecimento, impacta de modo decisivo tanto a cidadania quanto a competitividade, ganhando o foro de investimento mais estratégico;
c) como expediente formativo, primordial das novas gerações, apresenta procedimento dos mais pertinentes em termos de qualificar a população, tanto para fazer os meios como para atingir os fins;
d) principalmente, estando na base da formação do sujeito histórico crítico e criativo, educação perfaz a estratégia mais decisiva de fazer oportunidade.. Usa-se com muita frequência o conceito de "educação de qualidade" para acentuar seu compromisso construtivo de conhecimento. Essa expressão será na verdade um pleonasmo, já que os dois temos se implicam intrinsecamente. Não há como chegar à qualidade sem educação, bem como não será educação aquela que não se destinar a formar o sujeito histórico crítico e criativo4. Educação é conceito mais rico que conhecimento, porque este tende a restringir-se ao aspecto formal, instrumental, metodológico, enquanto o outro abrange o desafio da qualidade formal e política ao mesmo tempo. Por certo, conhecimento inovador não fica apenas na forma académica, já que é feito para inovar. A prática lhe é necessidade intrínseca. Mas parece claro que educação une mais facilmente teoria e prática.
Admite-se que os Estados Unidos, para dar um exemplo, sofrem grave crise de desenvolvimento, em boa parte devido ao desempenho insatisfatório da educação Cf KENNEDY, P. 1993. "O futuro dos Estados Unidos". In: Política Externa, vol.2, n° 2 set/out/nov., pp.25-58; Coming top 1992, "Education". In: The Economista nov. pp 1-18 |
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Para evitar restrições prévias, usam-se de preferência os dois termos: educação & conhecimento, atribuindo-se ao primeiro o horizonte da qualidade política, o humanismo, a formação da cidadania, a cultura comum, e, ao segundo, a necessária competência formal para melhor realizar os fins, inovar a serviço da humanidade. Ao mesmo tempo, formam a matriz primordial do desenvolvimento humano, porque decidem, mais que outros fatores, as oportunidades de constituição da cidadania construtiva e participativa e da transformação produtiva.
EDUCAÇÃO & CONHECIMENTO Estratégia primordial do
________________desenvolvimento humano
É sempre possível privilegiar, em dado momento, a busca da qualidade formal ou da qualidade política, sem, no entanto, armar prejuízo de uma ou de outra. Por exemplo, ao elaborar um texto científico ou fazer um curso, espera- se do aluno sobretudo a qualidade formal, embora o texto ou a participação ficassem ainda melhores se representassem também o engajamento em favor de fins sociais considerados nobres e éticos.
De todos os modos, não podemos restringir qualidade a meros procedimentos formais ou ao mero conhecimento, porque já transformamos meios em fins e, deixando de discutir esses, também não discutimos os meios, e servimos a qualquer fim. Assim, educação não se reduz a conhecimento. Apenas tem nele seu instrumento primordial, em termos de qualidade formal5. Por outro lado, conhecimento não precisa ser apenas instrumento formal, como se mera lógica fosse. Unindo "saber & mudar" ou teoria e prática, o Cf. FOUREZ, G. 1994. La construcción dei conocimiento científico - Filosofia y ética de Ia ciência; DEMO, P. 1983. Ciências sócias e qualidade.
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conhecimento assume orientação explícita com fins, englobando também o desafio da qualidade política. Tudo depende de como se define e se faz ciência. Para nossa finalidade, ciência é o questionamento sistemático crítico e criativo, tendo em vista inovar a realidade. Inclui não apenas instrumentar-se, mas sobretudo intervir.
Devemos buscar, portanto: conhecimento com qualidade formal e política.
V - O MODISMO DE QUALIDADE TOTAL: UMA INTERPRETAÇÃO ERRADA Está na moda a "qualidade totar, tomada como imperativo da organização empresarial moderna e traduzida para outras áreas de atividade, inclusive educação. Em si, trata-se de proposta fundamental, desde que não permaneça apenas nos procedimentos organizativos e em táticas de aliciamento de funcionários e clientes, e respectivos treinamentos6. Chegamos finalmente ao objetivo primordial de nossa discussão: o significado de Qualidade Total . Fica evidenciado após toda a série de argumentos apresentados que Qualidade Total (seja na Educação seja na empresa manufatureira ou de serviços) representa antes de tudo o compromisso com a qualificação dos recursos humanos envolvidos, tendo em vista que Qualidade (dos serviços/dos produtos) provém do Homem. Não adianta (como muitos "gurus" pretendem) aplicar instrumentos "receitas" e 6 Cf. FOLHA DE S. PAULO. 1994. "A qualidade total: o que todos procuram" oito fascículos dominicais, de 13/03/94 a 01/05/94; RAMOS, C. 1993. Excelência na educação - A escola de qualidade total; IBRAQS. 1994. "Universidade - A busca da qualidade". Anais do 1° Congresso Brasileiro da Qualidade no Ensino Superior, vol. 1, n^ 1, jan/fev.. |
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procedimentos de controle se qualidade se isso não for precedido de preparação dos recursos humanos (educação).
O objetivo inicial será portanto o aprimoramento (formal e político), do qual irá se alimentar o processo decorrente; incluindo: a) melhoria da organização produtiva ou do gerenciamento dos serviços, inclusive liderança;
b) tratamento alternativo dos clientes ou dos beneficiários; c) melhoria dos produtos, estabelecendo a competitividade; d) incremento da participação dos funcionários, recriando ambiente favorável a um empreendimento entendido como projeto comum;
e) satisfação dos funcionários e dos clientes.
Essa estratégia irá conduzir naturalmente a superar as táticas de aliciamento, seja dos funcionários, seja dos clientes, já que o processo de qualificação inclui capacidade crítica para não ser usado como mero instrumento. Com isso parece claro que falar de qualidade total em organizações que pagam mal, servem mal, formam mal, etc. é abuso do termo. Na prática, qualidade total somente é compatível com ambientes marcados pela mais-valia relativa, ou seja, em sistemas produtivos que encontram sua mola- mestra inovadora e acumuladora no conhecimento. Nos estágios da mais-valia absoluta, qualidade total é apenas aliciamento e falsidade7. Passando para o setor educacional, objeto de nossas preocupações, chegamos então à conclusão que escola de "qualidade total" supõe necessariamente um professor formal e politicamente adequado, ou seja, bem- Apenas para ilustrar este contexto, mais-valia absoluta é característica de processo produtivos que exploram diretamente o trabalhador fazendo do rebaixamento salarial a principal fonte de acumulação. Já a mais-valia relativa se baseia no uso de ciência e tecnologia, tendo como consequência, a par de processo mais intenso de acumulação, algumas vantagens para o trabalhador melhor educado (organização sindical, salários maiores, participação mais expressiva no processo produtivo, etc..). |
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formado e bem remunerado(mas não só bem remunerados, como defendem alguns). Ademais, não se obtém essa qualidade pela via dos treinamentos resumidos, tipicamente domesticadores, pois, em vez de sujeitos críticos, criativos, participativos, teremos apenas lacaios ilustrados. Dentro do perfil do trabalhador moderno, entendido como portador central do processo inovativo, trata-se de aprender a aprender, saber pensar e não somente de fazer funcionar. Isso inclui condição de avaliar processos complexos, visão geral da situação e evolução, capacidade multidisciplinar e, sobretudo, formação permanente. Sendo qualidade atributo humano, ela somente emerge, faz e se faz em ambiente humanamente adequado8. Ao contrário do que se crê comumente, qualidade total não se reduz a táticas de planejamento, organização, previsão, controle do desperdício, relações públicas. Antes, supõe competência humana como tal, formal e politicamente. Se isso existir, os outros desafios são decorrentes9. Qualidade total é, antes de tudo, processo de construção e participação coletiva.
Qualidade é, assim, questão de competência humana. Implica consciência crítica e capacidade de ação, saber & mudar. Diante da sociedade, pode ser resumida em dois desafios principais: o construtivo e participativo. "GUARESCHI, P.A. & GRISCI, C.L.L 1993. A fala do trabalhador. ''RAMOS, C..1994. Pedagogia da qualidade total.
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A competência humana não se esgota no domínio das formas, do como fazer, mas exprime-se primordialmente no que fazer, na sociedade que se quer desejável, pelo menos tolerável. Na história conhecida a qualidade mais expressiva do homem é a democracia, plantada, como meio, na capacidade produtiva e, como fim, na cidadania, redundando em oportunidade e bem-estar comuns.
QUALIDADE competência construir _________humana participar Assim colocada, qualidade é questão de intensidade, como felicidade, participação, engajamento. Não se satisfaz com "o maior' pois quer "o melhor'. Precisa do ter, mas realiza-se no ser. Carece de forma como
instrumentação, mas eclode em conteúdos, que são o fim. Qualidade de verdade só tem a açâo humana, até porque é típico produto humano, no sentido de construção e participação. É condicionada pela quantidade, mas sobrepassa-a, porque qualidade não é apenas conhecer, mas especificamente fazer acontecer. Designa a capacidade humana de inovação, no sentido primordial de fazer história própria comum.
Educação passa a ser o espaço e o indicador crucial de qualidade, porque representa a estratégia básica de formação humana. Educação não será, em hipótese nenhuma, apenas ensino, treinamento, instrução, mas especificamente formação, aprender a aprender, saber pensar, para poder melhor intervir, melhorar10:
^OTTONE, E. & TEDESCO, J.C. 1992. "Educación y conocimiento: Eje de Ia trnasformación productiva con equidad", V Seminário de Ia Comisión Educación y Sociedad, 19-21. Maio, 7pp., mimeo.
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Como fenómeno intenso, educação transita na quantidade naturalmente: precisa de anos de estudo, de currículo, de prédios e de equipamentos, mas sobretudo de bons professores, de gestão criativa e de ambiente construtivo/participativo, sobretudo de alunos construtivos e participativos. As didáticas extensas, como aprender/ensinar, decorar, fazer prova, informar-se são insumo necessário. O processo educativo, entretanto, é composto propriamente da capacidade construtiva/participativa, ultrapassando a situação de objeto para consolidar a de sujeito histórico crítico e criativo. A qualidade original é a competência de fazê-la, assim como o desafio próprio da oportunidade também é o de fazê-la. Construir a capacidade de construir e de participar é a qualidade humana primordial. _____EDUCAÇÃO____________ENSINO______
formação, emancipação treinamento, instrução,
_____________________domesticação_____
___aprender a aprender_________aprender______
Tudo o que analisamos podemos resumir no diagrama abaixo: |