Gilberto Teixeira (Prof. Doutor FEA/USP)
I - INTRODUÇÃO
· A responsabilidade de uma Instituição de Ensino (Faculdade, Escola, Centro de Treinamento, Departamento, Universidade, etc) é zelar para que o máximo de benefícios seja dado a seus alunos e à sociedade.
· A orientação dada ao currículo é fundamental para que este benefício possa ser proporcionado. Assim é que essa orientação deve ser permanentemente avaliada e monitorada de forma a que sejam revistos e alterados aqueles aspectos que o monitoramento indica necessidades de aperfeiçoamento. Com isso a dinamicidade do currículo (qualidade essencial) estará sendo assegurado.
· Qualquer instituição de ensino existe em função de seus alunos (clientela-alvo), mas é através do Corpo Docente que são proporcionados os benefícios e resultados atingidos. Cabe portanto aos professores a maior responsabilidade no planejamento curricular.
· Além desses motivos de ordem ética há uma enorme quantidade de pesquisas fundamentando e justificando teorias a respeito do planejamento da aprendizagem que é , afinal, o objetivo de um currículo qualquer.
· Os estudos da Psicologia da Aprendizagem demonstram que a aprendizagem deve desenvolver-se gradualmente, de modo simples e natural, em respeito ao psiquismo dos alunos.
Para tanto, estudados os objetivos da matéria, os meios disponíveis de ensino e a ação didática a ser realizada pelo professor, um Método de Direção da Aprendizagem deverá ser adequadamente escolhido. Obedecendo, então, as fases do Ciclo Docente - Planejamento, Execução e Controle - a situação de ensino estará se processando com plena garantia de bom rendimento e sem violentar a mente do educando, o centro de todo o fenômeno educacional.
Assim é, que a Direção da Aprendizagem tem de se desenvolver de modo adequado, gradual, natural e com simplicidade, e se inúmeros podem ser os meios, métodos e técnicas a serem empregadas, surge de imediato a necessidade de uma seleção e organização de elementos, de uma previsão de reações, com antevisão dos resultados e de suas conseqüências e implicações.
Por outro lado, o professor deve estar sempre aprimorando a sua cultura através de constantes pesquisas, para proporcionar sempre uma aprendizagem de conhecimentos atualizados. Com isso, seu curso será sempre novo, não caindo na rotina de repetições. E para evitar improvisações, geralmente inseguras e que levam à perda de tempo, só um meio se torna eficaz: o Planejamento Didático.
III - CONCEITO DE CURRÍCULO
“Currículo” pode ser definido como sendo um conjunto de experiências de aprendizagem que os alunos devem ter quando freqüentando um estabelecimento de ensino. Esta definição inclui tanto as atividades em “classe” como as “extra-classe”.
IV - ESTÁGIOS DO PLANEJAMENTO CURRICULAR
Embora existam diferentes abordagens para orientar um currículo (centrado no aluno, centrado no conteúdo, etc.) cada uma destas abordagens fundamentadas em teorias e experiências educacionais importantes, nada impede que o planejamento curricular obedeça a uma metodologia que na sua aplicação seguirá determinados estágios:
a) Determinação da Finalidade do Curso
Neste estágio será definida a Missão, a Finalidade, a razão, o propósito que se deseja alcançar com o curso. A pergunta “Qual o propósito deste curso?” auxiliará na determinação da Missão (ou Finalidade). A Finalidade do curso é sempre expressa em termos gerais, não quantificados.
b) Estabelecimento dos Objetivos
Os objetivos são os alvos ou fins que se tem em vista, que se quer atingir. Os objetivos serão selecionados em função de sua relação com a finalidade. Eles serão constituídos pelas atitudes, habilidades, compreensões, valores, etc. que devem ser criados ou desenvolvidos nos alunos.
A definição de Objetivos terá diferentes orientações, influencia das pela Filosofia que for seguida. O problema da determinação de objetivos envolve respostas e perguntas como: “Quais particulares conhecimentos, compreensões, etc, deverá o alunos ganhar ou desenvolver?”, “Quais desses conhecimentos, compreensões, etc.; está o Curso destinado a criar ou desenvolver?”; “Para quais deles o Curso não pode assumir responsabilidades?”
· Pontos para auxiliar a determinação dos Objetivos:
- pesquisa na própria sociedade
- pesquisa junto aos alunos e ex-alunos
- pesquisa junto a elementos do próprio curso
- pesquisa junto a chefes que possam fazer um paralelo entre um mesmo aluno, antes e depois do curso.
· A definição clara e operacionalização dos objetivos é importantíssima para a orientação da Instrução.
c) Definição da Estrutura
Entendemos por estrutura as áreas em que desejamos que os alunos ganhem determinada proficiência. As áreas da estrutura derivarão diretamente, dos próprios objetivos. Cada área apoiará um ou mais objetivos. Denominam áreas os conjuntos homogêneos dos assuntos (disciplinas).
d) Organização e Fixação dos Conteúdos
Cada área deverá ser dividida em assuntos específicos (disciplinas), com seus objetivos próprios. Cada assunto ou disciplina, também com seus objetivos.
Os assuntos ou disciplinas manterão ligação com a Finalidade do Curso através dos Objetivos das áreas.
É a seleção e a disposição dos diversos conhecimentos a serem ministrados em grupamentos por afinidade, obedecendo os princípios de Finalidade, Especificação e Abrangência, dentro dos critérios de Utilidade e Maturidade.
Em geral o conteúdo de um curso é dividido em: Área - Disciplina - Unidades (e subunidades).
Várias subunidades afins formarão as Unidades; várias Unidades afins formarão as Disciplinas, várias Disciplinas afins integram uma Área e as Áreas constituirão o Currículo do Curso.
Currículo é pois, a disposição organizada do conteúdo de um curso. Nessa organização deve-se obedecer a dois critérios de escalonamento:
· Vertical: as Disciplinas, Unidades e Subunidades são dispostas em função do Princípio da Continuidade;
· Horizontal: as Disciplinas, Unidades e Subunidades são dispostas em função do Princípio da Integração.
e) Programação
É a previsão dos dias e do número de aulas necessárias para cada assunto, levando-se em consideração a sua extensão, os métodos e técnicas didáticas a serem adotadas.
É importante que, do período letivo, traduzido em número total de tempos de aula, se deduzam 20% deixando-os livres, sem qualquer programação, disponíveis para utilização quando se tornar necessário, por causas diversas e imprevisíveis, como: não comparecimento de professores, introdução de alguma atividade extra, suspensão eventual do expediente, etc. Isto se constitui em obediência ao Princípio da Flexibilidade.
f) Planejamento de Atividades
Planeja-se atividades para os alunos, relacionando-se com os Princípios Psicológicos da Aprendizagem. Cada atividade deverá ter seu objetivo próprio, o qual suportará, em conjunto com os objetivos de outras atividades, o objetivo do assunto, e assim, sucessivamente.
Ponderam-se as Vantagens e Desvantagens de cada tipo de Estratégia de Aprendizagem de Trabalho Acadêmico. Verificam-se os meios disponíveis. Acima de tudo, analisa-se o objetivo da atividade.
g) Planejamento visando Flexibilidade
A flexibilidade não será esquecida, desde que os Princípios Psicológicos da Aprendizagem tenham sido considerados. Observa-se que a Flexibilidade é influenciada, diretamente, pela Aptidão. A Flexibilidade deve, em linhas gerais, permitir que cada aluno atinja os objetivos do curso.
h) Avaliação do Currículo
Os objetivos do Currículo são os objetivos da avaliação. Verifica-se se os meios necessários são os disponíveis. Tem-se em conta as necessidades de economia, isto é, escolhem-se soluções que, resolvendo o problema, sejam mais econômicas. Devem ser também incluídas no planejamento de currículo também as atividades extra-classe. Sob este aspecto deve ser analisado se há tempo suficiente para os alunos estudarem os assuntos, apresentarem seus trabalhos, etc. Deve ser lembrado que quanto mais extenso e difícil é um curso, maior importância deve ser dada à situação física dos alunos.
IV - PRINCÍPIOS DE ELABORAÇÃO DE CURRÍCULOS
a) Da Finalidade
Estabelece que os dados essenciais a serem aprendidos devem ter um emprego efetivo, em função dos objetivos pré-determinados.
b) Da Especificação
Estabelece que os dados essenciais devem estar bem identificados, isto é, devem ser selecionados dentro de um determinado campo de conhecimento, e estudados em função desse mesmo campo.
c) Da Abrangência
Estabelece que os dados essenciais devem ser coletados de modo a se tornarem representativos da totalidade do campo a que pertencem e do assunto-objeto da aprendizagem.
d) Da Integração
Estabelece que os dados essenciais devem manter-se articulados, isto é, embora guardando a sua individualidade específica, devem ser dispostos de modo a integrar, e não permanecerem artificialmente estanques, isolados, sem interpenetração. O assunto, através dos seus dados essenciais, deve mostrar-se como um todo. Integração em um currículo é definida, no sentido do relacionamento horizontal das experiências de aprendizagem.
e) De Continuidade
Estabelece que os dados essenciais devem ser organizados em seqüência, sem saltos, sem lacunas, sem interrupções, com perfeitas transições, a fim de proporcionar compreensão e assimilação gradativa de todo o assunto. Continuidade em currículos refere-se a interação vertical dos elementos (conteúdo).
f) Da Flexibilidade
A organização das partes componentes de um plano deve ser feita de tal modo, que permita modificações posteriores, que permita reorganizações, a fim de melhor se adaptar às circunstâncias imprevistas.
g) Da Exiquibilidade
Um plano necessita ter possibilidade de execução, isto é, os elementos que o compõem devem possuir realidade efetiva ao alcance das pessoas que vão por em prática.
V - CRITÉRIOS DO PLANEJAMENTO
a) De Utilidade
Determina o valor da aprendizagem da matéria pelo aluno, impedindo que assuntos desnecessários venham a ser objeto de ensino.
b) De Maturidade
Determina a compatibilidade entre o assunto a ser aprendido e a fase de desenvolvimento, quer mental, quer cronológica, quer profissional do aluno.
Determina ainda a adequação das partes do plano a esses mesmos fatores relacionados ao aluno.
c) De Autenticidade
Determina a confiabilidade do assunto a ser aprendido em função das fontes de ensino e consulta.
d) De Tempo
Determina a duração do período da situação de ensino.
VI - NECESSIDADE DE REFORMULAÇÕES
Um planejamento é uma previsão, uma tentativa de se ver antecipadamente o desenvolvimento de ações e seus resultados. Um planejamento está, portanto, passível de não corresponder sempre a toda realidade; em todos os momentos, circunstâncias imprevisíveis podem mudar os rumos das ações planejadas, exigindo imediata reformulação.
Por outro lado, alguns resultados, obtidos após a realização de todo o planejamento, podem vir a mostrar-se insatisfatórios.
Daí, advém a necessidade de revisões, de alterações. Ou seja: o plano necessita ser reformulado, para melhor realização. Deve obedecer ao Princípio da Flexibilidade.
Um planejamento jamais pode ser estático, perpétuo, sob pena de se tornar obsoleto. A dinamicidade é que traz maior atualização e produtividade.
Em se tratando de um Plano de curso, onde se busca a Educação, através de conhecimentos cada vez mais novos, mais atualizados, fácil é concluir a ineficácia de um planejamento estático.
Assim é que, ao final de cada Curso, necessárias se tornam reformulações, advindas de críticas, sugestões, ou de simples observações de deficiências.
A cultura não é estática. As mudanças são constantes em decorrências de novos inventos que interferem nos estilos tradicionais de vida, e em função da variedade de novas estruturas sociais e dos processos de comunicação.
Tudo isso afeta as atividades e as fontes de estudo, constantes de um programa elaborado por exemplo há dois, três ou cinco anos.
a) Indícios que levam à Reformulação
Pode ocorrer que deficiências de planejamento não sejam sentidas por muitos. Porém, seus efeitos sensibilizam o professor e principalmente o aluno. Entre muitos podemos citar:
· percentagem baixa de freqüência;
· evasão escolar;
· insucesso na admissão às escolas;
· índice elevado de reprovação durante o curso.
Podemos concluir então que estes resultados negativos, tanto em qualidade como em quantidade, denunciam deficiências do trabalho escolar, e porque não dizer da falta de um planejamento adequado, da indeterminação de objetivos ou de ambos?
b) Determinação das causas
Normalmente não estão na deficiência dos planos de ensino. Sabemos traçar genericamente o que desejamos do aluno, ou o que dele esperamos ou mesmo o que esperamos da escola; porém, quase sempre não damos a devida atenção ou mesmo importância aos instrumentos que nos levaram à consecução dos objetivos, isto é, à elaboração de planos de ensino adequados, com conteúdo necessário.
Geralmente eles não atendem a pontos tais como:
· motivação e ajustamento;
· diferenças individuais;
· novas exigências da comunidade ou mudanças sócio-econômicas que se estão operando;
· aprimoramento dos métodos e materiais de ensino;
· mudanças correntes em práticas de educação;
· processos eficientes de levantamento de dados e análise de resultados; e
Diante dessa realidade, o que seria necessário realizar para minimizar o problema ou mesmo eliminá-lo? Determinada a necessidade de reformulação, a providência imediata seria a seleção de um grupo de estudos visando a eliminação das causas adversas acima enumeradas.
Este trabalho poderia ser feito através de seminários ou cursos especiais intensivos, de duração maior ou menor, conforme as exigências de tempo para a reformulação, de disponibilidade de pessoal e de recursos financeiros. O certo é indiscutível é que se deve garantir um mínimo de competência e uma direção-chave no trabalho de modo a serem definidas a filosofia e políticas educacionais que atendam aos anseios, às necessidades e às exigências do mundo e da sociedade atual.
VII - REFERÊNCIAS
COUTO, Marina. Como elaborar um currículo. Ao Livro Técnico. Rio de Janeiro, 1968.
MATTOS, Luiz Alvez de. Sumário de didática geral. Gráfica Ed. Aurora. Rio de Janeiro, 1970.
GWYNN, J.M. Curriculum principles and social trends. Macmillan Co, 1957.
Association for supervision and curriculum development. 1955.
MAIOR, A.R. A curriculum for citizenship. Wayne University Press. 1952.
TYLER, R.W. Basic principles of curriculum and instruction. Chicago, Univ. Press., 1950
TABA, H. Curriculum development: theory and practice. New York. Harcourt, Brace and World, 1962.
JOHNSON, M. Definition and models in curriculum theory. Educational Theory, 1967, 17: 127-140.
BRIGGS, L.J. Sequency of instruction in relation to hierarquies of competence. American Institute for Research. Monograf. no 3. 1968.