Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

Internet e conteúdos relevantes

 

Internet e conteúdos relevantes



Gilberto  Teixeira (Prof.Doutor  FEA/USP) –
 
A cada dia, a experiência de vasculhar a Internet se sofistica e se torna mais complexa. Mecanismos de busca são inventados e aprimorados e os internautas, de tempos em tempos, elegem o melhor. Agora é o Google que emerge em meio a muitos concorrentes nacionais e internacionais. Interface manejável, abrangência e velocidade de busca é o seu atrativo.
As buscas, no entanto, tornam-se cada vez mais demoradas e caminhamos, paradoxalmente, no sentido da anti-velocidade diante de tantos caminhos e possibilidades a percorrer, muitos deles logo descartados pela falta de atualização ou de credibilidade do que encontramos. Caminhos que se ampliam ou se estreitam de acordo com o domínio de línguas de quem maneja o browser.
Das diversas experiências recentes com a Internet, algumas me saltam à vista, além de tudo o que já lemos e sabemos sobre esta grande Biblioteca de Babel.
Consideremos a produção de conteúdos em língua portuguesa na Web. Apesar da aparente abundância, quando elegemos uma determinada área temática para pesquisa, logo constatamos que há falta de conteúdos proporcionais à quantidade de sua produção no mundo não virtual. A impressão é de que não estamos dando conta de trazer para o espaço da Web muito do que de importante está a ocorrer fora dela.
Esta baixa produção de novos conteúdos é também desproporcional à gradativa ampliação dos acessos e à disseminação da banda larga.
Falar de quantidades na Internet é sempre temerário, mas assistimos nos últimos tempos a uma proliferação dos weblogs, ou blogs, que têm possibilitado a muitos se tornarem editores em espaços razoavelmente públicos, coisa que ainda renderá muitos ensaios de sociologia, antropologia e comunicação. No entanto, o conhecimento acadêmico e de pesquisa não tem apresentado o mesmo boom.
Considerando que a Internet criou sua própria divisão entre o e-commerce, e-business, e-gov e o e-learning, se ficarmos apenas com as duas últimas, vemos que a produção é incipiente diante da riqueza de conteúdos das nossas instituições. É como se os nossos tesouros ainda estivessem sendo guardados e vedados ao mundo virtual.
Basta olhar, por exemplo, as home-pages das nossas universidades públicas, privadas, confessionais. Nos seus espaços físicos residem professores e pesquisadores, portanto, detentores de muito conhecimento que, necessariamente, não precisa ser guardado a sete chaves como o saber corporativo empresarial. A essas universidades também estão referenciados centenas de milhares de alunos dependentes de conteúdos didáticos, acadêmicos e científicos. No entanto, uma visita à home page de uma universidade raramente revela o que ela produz de mais substantivo e que pode se transformar em conteúdo digital de amplo acesso. Quando muito, há breves indicações do que é ali realizado, sem que esta sua produção seja traduzida em conteúdos efetivos para a Internet e com acesso livre, não só para os seus alunos, como para os cidadãos leitores/falantes de língua portuguesa de qualquer parte do mundo.
As home pages das universidades são editadas apenas como simples artefatos "institucionais", na grande maioria das vezes. Por elas podemos descobrir a estrutura organizacional, o corpo administrativo, os cursos que oferecem, o mapa de seus campi, alguns dos seus grupos e linhas de pesquisa mas muito eventualmente os resultados do que estes produzem. Ou seja, há pouco material didático, há poucos resultados de pesquisas. atitude que empobrece a instituição e a sua imagem pública, pois o seu produto é, em grande parte, o conhecimento que só tem valor ao ser divulgado.
As universidades publicas, federais e estaduais, por exemplo, que têm uma estrutura semelhante, apesar do ambiente propício da rede e de suas similaridades institucionais, nunca fizeram nenhum movimento no sentido de padronizar minimamente a edição de suas home pages e poupar tantos sacrifícios aos desenvolvedores de páginas e, principalmente, àqueles que as visitam. Por isso, não encontramos nela um padrão mínimo de busca. Navegar nas páginas de cada universidade à procura de qualquer informação é percorrer um labirinto acidentado e tortuoso. Há que se ter uma dose de calma e persistência suficientes para descobrir a lógica de organização do site, em que lugar aquele webmaster inteligente deve ter imaginado que caberia a informação procurada em páginas que mudam sempre ao sabor das administrações universitárias que se sucedem. Esta falta de padronização, certamente, amplia o tempo de navegação, com o grande risco do leitor não encontrar o que deseja.
Mas além desta arquitetura pouco amigável e o tosco emprego das artes de engenharia de navegação de muitas home pages, a questão principal é mesmo a ausência de conteúdos. Não há definições explícitas e conceitos orientadores sobre o que é melhor para estas páginas. Sabemos que algumas universidades têm pesquisas e grupos de ponta, que seus professores escrevem e publicam livros, bem como artigos em revistas e jornais, que produzem objetos artísticos, protótipos e simulações, e imaginamos que alunos e cidadãos em geral necessitem desses conteúdos. E sabemos o quanto é necessário democratizar a ciência e o conhecimento. Apesar disso, raramente as universidades mantém uma equipe que pense a sua home page como "o" espaço de divulgação daquilo que de melhor possui em termos de qualidade intelectual e de interesse público. Por isso, as home pages são geralmente desenvolvidas por especialistas em informática, em design e assessores de comunicação vindos sobretudo do jornalismo, que apesar da enorme boa vontade acabam se fixando na apresentação mínima das informações institucionais, apresentando-as mais no formato de house-organs deixando as riquezas dos conteúdos intactos e protegidos dos olhos daqueles que não conseguem ultrapassar as portas das faculdades e institutos.
Ou seja, as universidades não se entenderam ainda plenamente como produtoras por excelência de conteúdos virtuais relevantes para o ensino e a pesquisa, em língua portuguesa. Apesar da capacidade das fibras óticas da RNP e de muitos investimentos que já foram feitos na estrutura de nossas redes acadêmicas.
A edição desta produção especializada de conhecimento aparece em algumas iniciativas de órgãos ou agências criadas no plano federal ou estadual principalmente. Assim, o Curriculum Lattes e o Projeto Prossiga, do CNPq, e o Scielo, foram pensados como tais espaços de circulação desta produção que contribui para ampliar o conhecimento e facilitar a inovação. Porém, pelas suas características peculiares, necessariamente não dão conta de traduzir para o virtual a riqueza dos saberes do mundo real. Alem disso,para  comprovar o quanto estão defasadas  no tempo,um grande numero de universidades publicas insiste em não reconhecer o periodico  eletronico como revista cientifica.E assim fazendo ,tambem não oferecem a seus alunos e professores a midia impressa  alegando o alto custo da revista impressa,no que têm  razão.Enquanto isso a CAPES nas suas  visitas periodicas reclama sistematicamente  da pouca produção acadêmica dos docentes que por sua vez  alegam não ter o veiculo onde publicar seus artigos. Fica muito comodo para essas universidades  pressionar seus docentes para que aumentem a produção cientifica e ao mesmo tempo não oferecer o veiculo para publica-la . Enquanto  isso o universo  acadêmico americano e ingles aumenta espantosamente  a oferta de periodicos eletronicos (e-journals)  todos já  no  lançamento  tendo os padrões de qualidade exigidos do “paper journal” como indexação (peer review). E para facilitar essa produção  já existem no mercado  varios softwares que gerenciam automaticamente todo o processo.Mas assim mesmo há  alguns acadêmicos fossilizados que insistem em rotular o e-journal como merecendo credibilidade e,porisso, recusam referências bibliograficas  de origem eletronica. Esses fosseis  tambem não sabem que a ABNT já  padronizou  a forma de citação de  documentos eletronicos.
Especialistas em gestão do conhecimento sabem o quanto de valor pode existir no saber institucional. Para que seja possível usufruir daquilo que sabem, mas que ninguém sabe onde está, investimentos devem ser feitos para reuni-los, organizá-los e explicitá-los com muita sistematicidade. Por isso, se cada instituição se perguntasse os valores e saberes que possui e que poderiam migrar para a Internet, talvez passássemos a viver uma outra era em que os investimentos em redes e computadores fossem proporcionalmente acompanhados pela proliferação de projetos de desenvolvimento e atualização de conteúdos. Com o tempo, tais projetos seriam um elemento importante da rotina institucional com equipe própria e especializada para gerá-los. Certamente, isto tornaria o país cultural e academicamente mais rico.