Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

COMUNICAÇÃO E APRENDIZAGEM

 

 
Gilberto Teixeira (Prof. Doutor FEA/USP)
 
1-Comunicar é lembrar como era quando não se sabia
A informação é a matéria-prima que alimenta toda a comunicação, pois a motivação básica de qualquer comunicação está em transmitir de uma mente para outra algo que será recebido como informação nova. Assim, talvez, a armadilha mais universal, aquela em que se cai inevitavelmente quando se tenta comunicar informação, é o esquecimento de como é não saber. No instante em que passamos a saber algo, esquecemo-nos de como era quando ignorávamos.
Não conseguimos nos lembrar de como era não saber ler, não saber andar, não saber os nomes dos objetos. Até certo ponto, somos todos vítimas desse fato quando explicamos algo a outra pessoa ― pelo simples motivo de que, quando sabemos algo, não conseguimos nos lembrar de como era quando não sabíamos.
Depois que você vê ou compreende uma coisa, não consegue imaginar como era antes de tê-la visto ou compreendido; perde a capacidade de se identificar com aqueles que não sabem.
No meio empresarial, milhões de dólares são desperdiçados em horas e erros no treinamento de novos funcionários, porque os treinadores ou os funcionários mais antigos não conseguem se lembrar de como era  “não saber”. Se você for capaz de se lembrar de como era não saber, poderá começar a se comunicar em termos talvez mais facilmente compreensíveis.
Podemos não ser capazes de escapar completamente desta armadilha, mas, se  pelo menos tentarmos nos colocar no lugar de alguém que nada sabe sobre o que estamos falando, poderemos prever algumas de suas perguntas e nos transformar em melhores transmissores de informação. Se poderemos simular cegueira tapando os olhos, também podemos tentar nos lembrar de como é não saber ao comunicar novas informações aos outros.
2- Aprendizagem
O aprendizado pode ser visto como aquisição de informação. Antes que ele possa ocorrer, porém, deve haver interesse. O interesse permeia qualquer esforço e vem antes do aprendizado. Para serem adquiridos e lembrados, os novos conhecimentos devem estimular a curiosidade de alguma forma.
O interesse desafia todas as regras de memorização. A maioria dos pesquisadores concorda que as pessoas podem reter apenas cerca de sete bits em sua memória de curto prazo, como os dígitos do Código Postal ou um número de telefone.
Aprender pode ser definido como o processo de lembrar aquilo que interessa. E ambos andam de mãos dadas com a comunicação. Os comunicadores mais eficazes são aqueles que compreendem o papel do interesse  no sucesso da transmissão de mensagens, seja para tentar explicar astrofísica ou para orientar proprietários de autómoveis em estacionamentos.
Garagens de estacionamento com vários pavimentos são geralmente locais bastante ameaçadores. Elas evocam imagens assustadoras ― lugar preferido para atividades nefandas, encontros clandestinos, estupradores e assassinos, sem falar do medo de não lembrar a vaga onde o carro foi deixado.
No centro de Chicago, há um prédio de garagem que usa nomes de países em lugar de números para designar cada nível. No elevador, os botões são identificados como França, Canadá, Grécia, Turquia, Alemanha etc., cada um com um tipo de letras diferente. No hall do elevador de cada andar, o hino nacional do país é tocado por um sistema de som. Embora garagens não pareçam inspirar a imaginação do público, os países estrangeiros o fazem. As pessoas não se esquecem de onde estacionaram o carro e quase todo mundo sorri ao sair do estacionamento.
O responsável pelo projeto do estacionamento levou a cabo uma atividade corriqueira, e não só a fez funcionar como tornou-a um centro de aprendizado cultural. Este estacionamento exemplifica o princípio de que só aprendemos quando estamos interessados no assunto.
Em seu livro Liberdade de aprender em nossa década,Carl Rogers afirma que o único aprendizado que influencia significamente o comportamento é o “autodescoberto”e “auto-apropriado”. Somente quando o assunto é percebido como relevante para os próprios fins da pessoa ocorrerá um volume significativo de aprendizado.
A ansiedade de informação resulta da constante superestimulação: não nos dão tempo ou oportunidade de fazer transições de um cômodo a outro ou de uma idéia para a próxima. Ninguém funciona bem perpetuamente tomando fôlego. O aprendizado e o interesse requerem “paradas intermediárias”em que possamos nos deter e pensar sobre uma idéia antes de prosseguir até a seguinte.
3- Ninguém se perde nos caminhos do interesse
A importância de estimular e manter o interesse permeia toda a mídia e todas as formas de expressão. Qualquer apresentação escrita ou verbal deve ser desenvolvida para estimular o interesse ao longo do caminho. O roteiro deve ser flexível o suficiente para permitir ao leitor ou ouvinte ver as conexões entre o tópico em pauta  e outros. Se você está apresentando uma proposta para um estudo de marketing de um novo analgésico, não deve limitar-se a discutir apenas o medicamento. Relacione-o a outros analgésicos, ao desenvolvimento desse tipo de droga, à história da medicina. Compreender as conexões entre um interesse e outro encoraja as pessoas a mapear seus próprios caminhos.
Você pode seguir qualquer interesse numa trilha através de todo o conhecimento. Conexões de interesse formam a trilha singular para o aprendizado. Não importa o que se escolha ou onde comece a jornada. Uma pessoa pode interessar-se por cavalos, automóveis, cores, grama, pelo conceito de tempo e, sem forçar o tema, vir a fazer conexões com outros conjuntos de informação.
Alguém que se interessa por carros pode evoluir para uma fascinação pelo Porsche e pela língua alemã, para a física do movimento, para o crescimento das cidades, o padrão de movimento e defesa ou para a química dos combustíveis. Carros distintos são fabricados por distintos países que possuem línguas e histórias distintas. Estudando o design automotivo italiano você pode ser introduzido ao estudo de estradas, da Via Apia, da planta de Roma e da história do transporte em si.
A idéia de ser possível expandir um interesse em uma variedade de outros torna suas opções menos ameaçadoras. Você pode mergulhar num assunto em qualquer nível e seguí-lo não apenas até seus níveis mais altos de complexidade como passar para outros assuntos.
Parte do trauma da tomada de decisão está no seu receio de ter de eliminar alternativas talvez mais viáveis do que aquela que escolheu. Mas quando você percebe que um interesse pode sempre ser conectado a outro, esse receio é afastado. Se optar por estudar automóveis, isso não significa que não possa estudar história também.
4-Lutando contra falsos ídolos
Nosso sistema educacional está infestado de falsos ídolos que continuamos carregando depois de sair da escola. Eles afetam a forma como conduzimos nossa vida e nossa carreira; nossa produtividade seria maior se pelo menos não tivéssemos receio de questioná-los. As “verdades” abaixo soam-lhes familiares?
h “Se todos lessem bem e tivessem notas altas, tudo estaria ótimo”. Recentemente, os teóricos da educação perceberam que existem dois tipos de inteligência: uma acadêmica e uma prática. Descobriram que nada indica que o fato de ser bom em uma delas garanta o mesmo na outra. A estrutura rígida da escola, com apenas uma resposta certa para cada pergunta, tem pouca relação com a ambiguidade que enfrentamos fora dela. Mais alunos “educados”não significa necessariamente mais seres humanos “bem-sucedidos”.
h “Quem sempre tem as respostas certas ganha”. Na escola, somos avaliados por nossa capacidade de responder a perguntas e, de uma forma ou de outra, isto ocupa quase todo o nosso tempo. O que precisamos saber é como formular as perguntas. Vivemos cercados por respostas e soluções. Nossa competência para formular as perguntas é que irá determinar como chegaremos às soluções.
h “As aulas devem ser para trinta alunos e durar uma hora”. Este preceito deu origem à regra inflexível que é responsável por boa parte das improdutivas reuniões de negócio realizadas pelo país afora a cada dia. As pessoas sentem-se enganadas se a reunião não dura pelo menos uma hora, que no entanto é uma medida de tempo altamente arbitrária. Como assim nos ensinaram, supomos que é assim que as coisas devam ser. Como não existe um tamanho de classe ou uma duração de aula ideal, não existe um número de participantes ou uma duração de reunião ideal. Alguns assuntos poderiam ser mais bem tratados por poucas pessoas em quinze minutos; outros, por quinhentas em uma hora. Como a quantidadede participantes de uma reunião muda seu caráter, o assunto deveria determinar a duração e o número de pessoas envolvidas.
h “Os alunos devem ser recheados com fatos como se fossem salsichas”. Os fatos só têm importância quando ligados a idéias. Eles são de pouca utilidade para os alunos, a não ser que se ensine a estes um sistema para aprender ou processar informação.
h “As aulas devem ocorrer durante o dia e as lições de casa, ser feitas à noite”. Assim como alguns aprendem mais rápido lendo, ou por tentativa e erro,ou pelo exemplo, as pessoas aprendem com mais facilidades em diferentes horas do dia. Cada qual deveria conduzir sua educação da maneira mais adequada a suas preferências de aprendizagem e em seus próprios horários. O trabalho de casa se tornará, então “diversão de casa[SP1] ”.
h “Saguões e corredores são não-espaços”. O espaço de circulação é maior do que qualquer outro nas escolas e, no entanto, é tratado como sobra. Poderia, em vez disso, ser como arcadas sob as quais as pessoas se encontrassem, conversassem, aprendessem e se apaixonassem.
h “Os docentes mais experientes lecionam para turmas mais adiantados; os mais novos, para as turmas iniciais”. Isto é um atraso. Turmas iniciais são mais impressionáveis do que as mais adiantadas, seu futuro educacional é mais frágil. Portanto, elas necessitam beneficiar-se com o ensino de professores mais experientes. Alunos que já passaram quatro anos na faculdade devem ser mais capazes de se autodirecionar.
5 – Ver, Ouvir, Expressar
Com alguma sorte, aprendemos a ler, escrever e contar, mas o que precisamos aprender, na era da informação, é a ver, ouvir e expressar. Precisamos saber como fazer conexões de um campo de interesse ou de um assunto com o seguinte. Num sistema ideal, os professores não deveriam ser encarados como máquinas de produzir fatos, como policiais ou psquiatras, mas sim como guias nas trilhas do interesse e, principalmente, seres capazes de perceber as conexões de uma trilha a outra e de um interesse a outro.
Mas, afinal, este não é o melhor dos mundos. Assim, se fomos atrapalhados por nossa educação, é nossa tarefa desenvolver modelos próprios de aprendizado.
                               
6 – Medo de aprender
Aprender implica nutrir um interesse. As maiores ameaças ao aprendizado são a culpa e a ansiedade. A culpa e a ansiedade são mãe e filha e imobilizam o interesse. Imobilizam o movimento da informação para a memória, para a sua utilização e para a comunicação. Elas impedem você de se dedicar genuinamente ao seu interesse, que é o que lhe proporciona uma sensação de posse da informação e lhe permite usá-la e comunicá-la.
Você se sente culpado por não Ter prosseguido seu curso de francês da faculdade e receia Ter piorado nas conjugações dos verbos. Daí não reconhecer que fala a língua e perder a oportunidade de exercitar suas habilidades e de aperfeiçoar algo que já o interessou.
Um mito muito difundido, alimentado pelo regime escolar, é o de que as pessoas deveriam aprender continuamente. Mas quando é que as pessoas realmente aprendem? Aprendemos em momentos, e não continuamente, e é a aceitação dos momentos de aprendizado que nos permite tirar total proveito deles. Se acreditar que tem de aprender continuamente e isso não acontecer, você se encherá de ansiedade e culpa. Será desviado do aprendizado pela preocupação de não estar aprendendo.
Nosso sistema educacional não detém o monopólio da culpa e da ansiedade relacionados com o aprendizado. Aprender envolve intrinsecamente algum trauma; requer certa dose de esforço, exige o abandono de um  modo de pensar em benefício de outro. Além disso, existe a crença puritana de que somos postos no mundo para sofrer, de que o sofrimento é bom para nós: portanto, aprender não deve ser muito agradável.
Em vista disso, é inevitável que o aprendizado seja encarado como óleo de fígado de bacalhau, algo cujo gosto pode ser bem ruim, mas que é saudável a longo prazo. O aprendizado é invariavelmente percebido, em graus diversos, como fonte de angústia.
O medo de aprender é endêmico em nossa cultura. Carl Rogers nota que, embora os humanos tenham um potencial natural para o aprendizado, eles abordam o processo com grande ambivalência, porque “qualquer aprendizado significativo envolve uma certa dose de dor, seja uma dor ligada ao aprendizado em si mesmo, seja uma aflição ligada à desistência de certos conhecimentos já aprendidos anteriormente.
Para evitar sofrer a dor de aprender, as pessoas chegam ao extremo de se iludir com abordagens suavizadas do conhecimento. É como fazem aqueles que têm medo do desconhecido quando pensam em viajar: tentam tornar a viagem o mais tranquila possível, planejando antecipadamente cada momento, entregando os preparativos a outras pessoas, procurando arrumá-la num pacote  bem amarradinho. Isso impede que o viajante obtenha a posse da vivência. E embora as excursões em grupo possam tornar mais fácil um passeio e reduzir a ansiedade do desconhecido, nem sempre são a melhor maneira de explorar novos territórios. Trata-se de resposta defensiva, que parte de posição receosa. O mesmo se aplica ao aprendizado: tentar transformar o conhecimento em um pacote amarradinho ou, pior, tentar proteger-se de novas informações, não é modo de fomentar o aprendizado. Com isso, só se conseguirá mais ansiedade.
7 – Aprender a Aprender
Uma atitude defensiva é inevitável num sistema baseado em provas, prêmios e punições. Passamos nossos anos de escola tentando acertar a informação que nos trará como recompensa notas altas ou avaliações positivas nos testes e evitando o estranho que pode nos desviar de nosssos objetivos, mesmo sendo ele relevante para nossos interesses.
Sustentados pelas descobertas de cientistas como Ivan Pavlov e B.F.Skinner, os psicólogos há muito adotaram a teoria de que aprendemos apenas pelo esforço ou pela “recompensa”. Mas este é um conceito limitado e excessivamente rigoroso, restringindo-se a criatividade e aqueles divinos saltos que a mente humana é capaz de realizar de uma simples observação para uma idéia global. Se ficarmos dependentes da recompensa, ficaremos dependentes também da visão de sucesso de outra pessoa.
No livro A sociedade da mente, Marvin Minsky faz um apelo em prol de novas formas de aprendizado. “A resposta deve estar em aprender formas melhores de aprender. Para discutir essas questões, teremos de começar usando muitas palavras comuns, como objetivo, recompensa, aprender, pensar, reconhecer, gostar, desejar, imaginar e lembrar ― todas baseadas em velhas e vagas idéias. Descobriremos que, na maioria, essas palavras devem ser substituídas por novas distinções e idéias”.