Prof. Gilberto de Andrade Martins
Adaptação do texto de Santiago Ramõn y Cajal (*)
http://www.eac.fea.usp.br/metodologia/pesquisador.htm
1 Excessiva admiração pelas obras dos grandes autores
A extremada admiração pelas obras dos grandes talentos e a convicção de que, dadas nossas limitações, nada poderemos fazer para continuá-la ou completá-la, é uma das preocupações mais ‘funestas’ dos novos pesquisadores. A devoção excessiva ao gênio tem suas raízes em dois sentimentos: de justiça e de modéstia. Porém, em demasia, tais sentimentos aniquilam iniciativas e incapacitam ânimos para a construção de investigação original. Defeito por defeito, preferível é a arrogância ao apoucamento: mede suas forças a ousadia e vence, ou é vencido. A modéstia excessiva, porém, sugere fuga da batalha e o jovem pesquisador se condena à vergonhosa inação.
Deve o novo investigador, longe de abater-se ante as grandes autoridades da ciência, saber que seu destino, por lei cruel mas inelutável, é crescer um pouco à custa da reputação das mesmas. Poucos serão os que, havendo inaugurado com alguma felicidade suas explorações científicas, não se tenham visto obrigados a quebrar, e diminuir a ‘louvação’ a algum ídolo histórico ou contemporâneo.
Comumente, na vida dos sábios, observam-se duas fases: a criadora ou inicial, dirigida a destruir os erros do passado e a produzir novas verdades; e a senil, durante a qual, diminuída a força da produção científica, se defendem as hipóteses incubadas na juventude, amparando-as, com amor paterno, do ataque dos recém-chegados.
Infelizmente, não há grande homem que, ao entrar na história, não seja avaro de seus títulos e não dispute encarniçadamente com a nova geração, os direitos à glória. Tristíssima, porém verdadeira, costuma ser a amarga fala de Rousseau: “Não existe sábio que deixe de preferir a mentira inventada por ele à verdade descoberta por outro.”
Sempre é possível encontrar alguma ‘teoria’ exclusivamente mantida pelo princípio da autoridade. Será preciso demostrar a falsidade, segundo Popper, dessas ‘teorias’ e concepções e, assim inaugurar a própria obra científica. Porém, não basta demolir: é preciso construir. Só se justifica a crítica científica quando se dá, em troca de um erro, uma verdade.
2 Crença no esgotamento dos temas científicos
Outro falso conceito que se ouve amiúde é que: “todo o substancial de cada tema científico está investigado - como irei acrescentar algum pormenor onde diligentes pesquisadores já recolherem seus frutos. Pelo meu labor, nem a ciência mudará de aspecto, nem meu nome sairá da obscuridade.” Assim fala muitas vezes a preguiça, disfarçada em modéstia. Assim discorrem alguns jovens de mérito ao sentirem as primeiras dificuldades pela consideração da magna empreitada. A superação desse medo está em estirpar radicalmente tão superficial conceito da ciência, se não quiser o jovem investigador cair definitivamente vencido, nessa luta que em sua vontade se trava, entre as utilitárias sugestões do ambiente moral, encaminhadas a convertê-lo em um vulgar e rico prático, e os nobres implulsos do dever e do patriotismo, que o arrastam à honra e à glória.
Tenhamos presente que a construção científica se eleva amiúde sobre as ruínas de teorias que passavam por indestrutíveis. Consideremos que, se há ciências que parecem tocar à sua perfeição, outras existem em via de constituição e. algumas nem nascido têm. Pode-se afirmar, em geral, que não há questões esgotadas, senão homens esgotados nas questões. O terreno, ceifado por um sábio, mostra-se fecundo para outro. Um talento descansado, vindo sem preconceito à análise de um assunto, achará sempre um aspecto novo, qualquer coisa de que se não aperceberam aqueles que julgaram definitivamente esgotado aquele estudo. Tão fragmentário é nosso saber que, ainda mesmo nos temas mais prolixamente explorados, surgem, inesperadamente, insólitos achados. Não é dado a todos aventurar-se na selva e traçar, à força de energia, um caminho fecundo. Podemos, porém, ainda os mais humildes, aproveitar-nos da senda aberta pelo gênio e, seguindo-a, arrancar algum segredo ao desconhecido.
Ainda mesmo aceitando que o principiante deva resignar-se a recolher detalhes escapados à sagacidade dos iniciadores, é também positivo que os ‘buscadores’ de minúcias acabam por adquirir sensibilidade analítica tão delicada e perícia de observação tão notável, que abordam, por fim, com êxito, questões importantíssimas sobre a área que estudam.
Quantos fatos, aparentemente triviais, têm conduzido certos investigadores, adequadamente preparados pelo conhecimento dos métodos, a grandes conquistas científicas! Consideremos, além disso, que, por conseqüência da progressiva diferenciação da ciência, as minúcias de hoje serão talvez amanhã promissoras verdades. Não há, na Natureza, superior nem inferior, coisas acessórias e principais. Estas hierarquias com que o nosso espírito se compraz em assinalar os fenômenos naturais procedem de que, ao invés de considerarmos as coisas em si e em seu eterno encadeamento, observamo-las somente em relação à utilidade ou ao prazer que nos possam proporcionar. Na cadeia da vida são todos os elos igualmente valiosos, porque todos se tornam igualmente necessários. Julgamos pequeno o que vemos de longe, ou não sabemos ver.
3 Culto exclusivo à ciência chamada prática
Outro vício do pensamento que importa combater é a falsa distinção entre ciência teória e ciência prática, com o consecutivo elogio da última e menosprezo sistemático da primeira. E este erro propaga-se inconscientemente entre os novos pesquisadores, desviando-os de todo labor da investigação desinteressada.
É preciso enlaçar a fábrica com o laboratório, como o riacho com o seu manancial. É cretinice achar que os sábios e os povos formam dois grupos: os que perdem o tempo em especulações de ciência pura e estéril, e os que sabem achar fatos de aplicação imediata ao aumento e comodidade da vida. Teremos necessidade de insistir sobre o absurdo de tal doutrina? Haverá alguém tão minguado de discernimento para não reparar que ali, onde os princípios ou os fatos se descobrem, brotam também, de modo imediato, as aplicações ?
4 Pretendida pobreza de luzes
Alegam alguns, para justificar deserções e desalentos, falta de capacidade para a ciência. Mesmo com o risco de redundância ou de parecer maçante e prolixo, vamos apresentar, contra os céticos dos milagres da vontade, as seguintes reflexões:
a) Como têm afirmado muitos pensadores e pedagogos, o descobrimento não é fruto de nenhum talento originariamente especial, senão do senso comum melhorado e robustecido pela educação técnica e pelo hábito de meditar sobre os problemas científicos. Assim, pois, quem disponha de regular critério para guiar-se na vida tê-lo-á também para marchar desembaraçado pelo caminho da investigação.
b) Possui o cérebro juvenil plasticidade esquisita, em virtude da qual, a impulsos de um enérgico querer, pode melhorar extraordinariamente sua organização, criando associações interideais novas, apurando e afinando o juízo.
c) As deficiências da aptidão nativa são compensáveis mediante um excesso de trabalho e de atenção. Caberia afirmar que o trabalho substitui o talento ou, ‘melhormente’ dito, cria o talento. Quem deseja firmemente melhorar sua capacidade, acabará por consegui-lo, com a condição de que o trabalho educador não comece demasiado tarde, em uma época na qual a plasticidade das células nervosas esta quase de todo terminada. Não esqueçamos que, pela leitura e meditação das obras magistrais, todo homem é capaz de assimilar uma grande parte do engenho que as criou, dado que tome deste, não só as doutrinas, senão também o critério, os princípios e até o estilo.
d) Isso que chamamos talento genial e especial, não implica, na maior parte dos casos, superioridade qualitativa, senão expeditiva, consistindo somente em fazer com prontidão e êxito brilhante o que as inteligências regulares elaboram lentamente, porém bem. É uma questão de tempo – há os lentos e os rápidos. A excelência da produção equipara os lentos e rápidos. Sem medo de errarmos, diríamos que, por uma compensação muito comum, as cabeças lentas possuem grande resistência para a atenção prolongada e abrem largo e profundo sulco nas questões; enquanto as rápidas costumam fatigar-se prontamente, depois de haver apenas limpado o terreno.
e) Se, a despeito dos esforços feitos para melhorá-la, nossa memória é inconstante e pouco tenaz, administremo-la bem. “Quando no jogo da vida, vêm cartas más, não há outro remédio senão tirar o melhor partido possível das que possuímos.”
f) Deixemos de lado as ocupações desnecessárias e também idéias parasitas tocantes às minudências fúteis da vida, e fixemos apenas na mente, à custa de uma atenção aferrada e persistente, os dados relativos ao problema científico que nos ocupa. Os livros inúteis, perturbadores da atenção, pesam e ocupam lugar tanto em nossos cérebros como nas estantes das bibliotecas. O saber ocupa lugar, perdoe-nos a sabedoria popular.
g) Não é possível ter a pretensão de abarcar ‘todos os conhecimentos’ de uma vez. O cérebro é adaptável à ciência total no tempo, porém não no espaço. Quando algum sábio nos assombra com publicações sobre diversas disciplinas, reparemos que a cada matéria corresponde uma época.
Qualidades que o pesquisador deve possuir
A independência mental, a curiosidade intelectual, a perseverança no trabalho são qualidades indispensáveis ao cultivador da investigação. Não há que falar de atributos intelectuais, pois damos por suposto que o inclinado às lides da pesquisa goza de um regular entendimento, de imaginação e, sobretudo, desse harmônico equilíbrio de faculdades, que vale muito mais que o talento brilhante, porém irregular e desorientado. A conjugação do idealismo e bom senso devem orientar o trabalho da investigação científica: temperamento artístico, que o leve a buscar e contemplar o número, a beleza e a harmonia das coisas, e sadio senso crítico capaz de refrear os arrancos temerários da fantasia e fazer que prevaleçam os pensamento que mais fielmente traduzam a realidade objetiva.
1 Independência de juízo
Traço dominante dos investigadores eminente é a altiva independência de critério. Ante a obra de seus predecessores e mestres, não permanecem suspensos e aniquilados, senão receosos e esquadrinhadores. O excessivo carinho à tradição, o obstinado empenho em fixar a ciência nas velhas fórmulas do passado, quando não denunciam invencível pobreza mental, representam a bandeira que cobre os interesses criados pelo erro. Desgraçado do que, em presença de um livro, queda mudo e absorto! A admiração extremada diminui a personalidade e ofusca o entendimento, que chega a tomar as hipóteses por demonstrações, e sombras por claridades. A veneração excessiva, como todos os estados passionais, exclui o senso crítico. Dos dóceis e humildes, podem sair os santos; poucas vezes os sábios.
Com alta freqüência ainda se dá o fenômeno de gastarem seus talentos os discípulos de um homem ilustre, não em esclarecer novos problemas senão em defender os erros do seu mestre. Quantos talentos conhecemos cuja única desgraça foi terem sido discípulos de um grande homem!
2 Perseverança no estudo
Para se levar a êxito feliz uma indagação científica, uma vez conhecidos os métodos conducentes ao fim, devemos fixar fortemente em nosso espírito os termos do problema, a fim de provocar enérgicas correntes de pensamento, isto é, associações cada vez mais completas e precisas entre as imagens recebidas pela observação e as idéias que dormitam em nosso inconsciente, idéias que só uma concentração vigorosa de nossas energias mentais poderá levar ao campo da consciência. Não basta a atenção expectante, afincada; é preciso chegar à preocupação. Importa aproveitar, para a obra, todos os momentos lúcidos de nosso espírito.
Quase todos os que desconfiam de suas próprias forças ignoram o maravilhoso poder da atenção prolongada. Esta espécie de polarização cerebral com relação a uma certa ordem de percepções, afina o juízo, enriquece nossa sensibilidade analítica, e esporeia a imaginação construtiva.
A forjadura da verdade nova exige quase sempre severas abstenções e renúncias. Convirá, durante a supradita incubação intelectual, que o investigador, à maneira do sonâmbulo atento apenas à voz do hipnotizador, não veja nem considere outra coisa senão o relacionado com o objeto de estudo: na aula, no passeio, no teatro, na conversação, até na leitura meramente artística, buscará ocasião de intuições, de comparações e de hipóteses, que lhes permitam levar alguma clareza à questão que obsessivamente o domina. Nada é inútil, neste processo adaptativo: os primeiros erros grosseiros, assim, como as falsas rotas por onde a imaginação se aventura, são necessários, acabando depois por conduzir-nos ao verdadeiro caminho.
Em resumo, toda grande obra é o fruto da paciência e da perseverança, combinadas com uma atenção tenazmente orientada, durante meses e mesmos anos, para um objeto particular. Assim o têm confessado sábios ilustres, ao serem interrogados no tocante ao segredo de suas criações. Declarava Newton que só pensando sempre na mesma coisa havia chegado à soberana lei da atração universal. Buffon, enfim, não vacilava em dizer que “o gênio não é senão a paciência extremada”.
3 Paixão pela glória
É um tanto diferente a psicologia do investigador daquela comum entre os intelectuais. Alentam-no, sem dúvida, as mesmas aspirações e movem-no as mesmas molas que as dos demais homens. Existem, porém, no sábio duas que operam com desusado vigor: o culto à verdade e a paixão pela glória. Tais ambições têm causado incompreensões do sábio com o ambiente social. Diz-se que vive em um plano superior, desinteressado das pequenezas da vida material.
Com tudo isso, permanece profundamente humano o sábio sincero e de vocação. Excede nele aos melhores, o amor a seus semelhantes. Irradiando no tempo e no espaço, compreende esta paixão aos próprios e aos estranhos e dirige-se tanto à humanidade atual como à futura. Graças a esses singulares talentos, cuja mira penetra nas sombras do porvir e cuja esquisita sensibilidade os força a se condoerem dos erros e estancamentos da rotina, é possível a evolução social e científica. Só ao gênio é dado opor-se à corrente e modificar o meio moral; e sob este aspecto, é lícito afirmar que sua missão não é adaptação das suas idéias às da sociedade, senão a adaptação da sociedade às suas idéias.
4 Gosto pela originalidade científica
Corre um grande risco de fracassar o principiante que não possuir vocação decidida pela originalidade, gosto pela investigação e o desejo de sentir o prazer da descoberta. Pondo de lado a hipertrofia do sentimento da estima própria e a aprovação de nossa consciência, a conquista da verdade nova constitui, sem discussão, a ventura maior a que pode aspirar o homem. Como disse Poincaré, no seu formoso livro La science et la méthode: “A beleza intelectual basta a si mesma, e só por ela, melhor que pelo futuro bem da humanidade, se condena o sábio a árduos e pesados trabalhos.”
(*) Trata-se do livro “Regras e Conselhos sobre a Investigação Científica” traduzido pelo professor Achilles Lisboa, cuja 3a edição foi publicada pela T. A. Queiroz e Edusp, em 1979. O referido autor era espanhol, e recebeu o prêmio Nobel de Medicina de 1906.