Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

PESQUISA QUALITATIVA E QUALIDADE NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS

 

Juvêncio Braga de Lima

ANPAD  1999
 

Resumo: Nesse trabalho procura-se  contribuir para o debate  sobre a produção científica na área de administração de empresas, enfocando  a prática da pesquisa qualitativa. Para tal é retomada a discussão iniciada  anteriormente, procurando-se demonstrar que  a busca de qualidade  na produção científica  está associada  a aspectos constantes do debate entre  pesquisas quantitativas e qualitativas. Aspectos da crítica sobre a produção científica no Brasil são retomados e confrontados com as discussões próprias à área , de modo a permitir a formulação de algumas contribuições, tanto no âmbito da prática da pesquisa qualitativa e  apresentação de resultados, como da organização da pesquisa acadêmica na área de administração de empresas.
 
 
 
         Introdução
 
A busca de qualidade  da produção científica em administração constitui um tema  importante. O debate aberto no XXII ENANPAD ( Encontro Nacional da ANPAD ) com vários trabalhos  e sobretudo , de modo específico, as provocações , insinuações  e contribuições de Bertero et al (1998) implica na continuidade. Assim, nesse trabalho procura-se apresentar alguns elementos para a compreensão das limitações da produção científica em administração de empresas que envolva  a pesquisa qualitativa.
Após delimitar alguns aspectos da busca de cientificidade na produção científica no âmbito da administração de empresas, ressalta-se o confronto crítico entre pesquisas quantitativas e pesquisas qualitativas. Apresenta-se, finalmente , os elementos para uma busca de qualidade, sugerindo passos para a  superação de críticas  à pesquisa qualitativa e  para a organização da pesquisa acadêmica  no sentido de favorecer ao debate  teórico–metodológico. 
 
 
1. A busca de cientificidade na pesquisa em administração
 
 
No início dos anos 80 ocorreu um estímulo à discussão sobre a pesquisa em administração, incluindo uma área temática no âmbito dos ENANPAD. Alguns trabalhos dessa época e outros mais recentes se voltam para delineamento de aspectos que visem a busca de excelência nas pesquisas. Bertero (1984) procura estimular o debate sobre o ensino de metodologia de pesquisa em administração. Os estudos de caso foram objeto de reflexões dos autores envolvidos nesse debate  ( Souto-Maior, 1984)  e  busca de delimitação de caminhos para  a prática da pesquisa   foram discutidos por Garcia et al ( 1984), Zajdaznajer ( 1984), Szenészi ( 1984).
Em  uma passado mais recente, merece destaque o trabalho de Machado-da-Silva et al ( 1990) ao avaliarem o estado da arte da produção acadêmica na área de administração, empregando os paradigmas de análise sociológica de Burrel e Morgan ( 1979) para classificar essa produção acadêmica. Também se inscreve nesse campo de produção  o trabalho de  Seleme e Orssatto (1991), ao discutirem  as possiblidades da tradição macro-analítica
         Nos últimos ENANPAD ( Encontro Nacional da ANPAD – Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Administração) vários trabalhos tem abordado a problemática da metodologia de pesquisa  em administração, discussões sobre aspectos particulares  da pesquisa qualitativa e seu emprego na pesquisa em administração( Rocha e Ceretta, 1998), emprego de paradigmas ( Luz e Carrieri, 1998), a epistemologia da pesquisa em administração, Martins (1996). Esses trabalhos se inscrevem  naquilo que poderíamos denominar  a “busca de elos perdidos”, na academia brasileira,  na configuração de um status científico para a administração como ciência social aplicada.
Merece destaque o trabalho de Bertero et al (1998), que partem da constatação  que, apesar de crescimento recente significativo, a produção acadêmica em administração de empresas no Brasil  não tem  acompanhado em crescimento de qualidade o grande crescimento em quantidade. Os autores  fundamentam a discussão  sobre a natureza da produção teórica em administração, reportando-se  às discussões  promovidas pelas  “Academy of Management Review”( 1989) e "Administrative Science Quartely”(1995) , convergindo para uma reflexão sobre a qualidade nos trabalhos científicos na área.
A problemática da  pesquisa  qualitativa  vem de encontro  aquela posta pela  discussão da cientificidade da produção acadêmica   na área de Administração de Empresas. Essa discussão da cientificidade sempre  tem como pano de fundo   o caráter predominante de produções científicas predominantemente tributárias do funcionalismo. Evidentemente, abre-se não somente essa fixação da natureza da produção científica conduzida para explicar  relações entre aspectos do funcionamento das empresas, freqüentemente  associadas a uma justificativa  dessas práticas, quase como um reconhecimento de que a realidade foi verificada , mensurada e explicada para justificar sua reprodução de modo universal.
          A área de administração de empresas comporta um dilema original. Produzir uma Administração Científica para explicar aspectos problemáticos ou aspectos que funcionam dentro de um dada realidade, porém, visando, em última análise, garantir essa reprodução. A Administração se ressente  dessa  característica , a intervenção em potencial  ou inerente ao processo de produção científica. Vários autores  são originários de empresas sobre as quais produzem pesquisas. Mas, igualmente, existem outros que, na condição de consultores, abordam problemas de funcionamento ou perspectivas de desenvolvimento de empresas. Assim, a produção científica   é , por vezes, marcada por uma  validação da solução dos problemas empíricos, antes de solucionar problemas de ordem científica.
É inegável o caráter de ciência social aplicada da Administração. Assim, a produção científica traz , em si própria, um fundamento de aplicação de resultados ou de adaptação de resultados para posterior intervenção. Mesmo porque, freqüentemente, há estudos financiados pelas próprias companhias estudadas. Porém, o problema torna-se ainda mais grave quando essa validação  do caráter “prático”da pesquisa em administração passa a se orientar por essa característica , sendo mais facilmente acessada pelo mundo empresarial que pelo mundo acadêmico ( Whitley, 1984)
         Não se pode desprezar uma constatação fundamental para qualquer debate, de que a Administração é uma ciência social aplicada. Como afirma Whitley (1984) o  mundo social é essencialmente diferente do mundo natural inanimado, o conhecimento resultante das pesquisas sendo obtido de modo particular; as descrições dos atores  sendo prioritárias  diante da descrição feita pelos pesquisadores, que dependem das primeiras também pela possibilidade de explicação  dos fenômenos através de causas internas.
Assim, abre-se espaço para a discussão do que é  teoria no campo da administração de empresas, ou de modo mais incisivo, como expõem Bertero et al (1998), possibilita o questionamento sobre o que é uma boa teoria em administração. Essa discussão traz implícito um confronto entre  os pontos de vista positivista e não positivista. De um lado, (...)  teoria é uma declaração de intenções, um sistema de variáveis ( unidades observadas) e construtos ( variáveis aproximadas ), no qual os construtos estão relacionados uns com os outros por proposições  e as variáveis estão relacionadas uma às outras por hipóteses”( cf. Bacharach, 1989 apud Bertero et al, 1998:8). Em contraposição, os autores  afirmam que “do ponto de vista  não positivista, a noção de teoria explicativa dá lugar ao conceito de multiplicidade de narrativas. No lugar de variáveis, construtos e pressupostos, adota-se o método etnográfico. Neste caso, a noção de qualidade como atributo  da teoria passa a referir-se  à capacidade de uma determinada narrativa em transmitir a complexidade do fenômeno tratado sem simplificá-lo ou reduzi-lo”( Bertero et al, 1998:8)
         A discussão sobre as características de uma boa teoria traz implícito o confronto da polaridade entre pesquisa quantitativa e pesquisa qualitativa. Essa polaridade se agudiza a partir do momento em que houve um crescimento da prática  da pesquisa qualitativa nos estudos organizacionais. Para Rosen ( 1991) a  crítica fundamental dirigida  a partir de um ponto de vista positivista  envolvia a negação da possibilidade de  previsão na pesquisa qualitativa;  ao  mesmo tempo se questionava  o caráter de poperiano de falsificabilidade como critério de excelência de teorias produzidas em pesquisas qualitativas.
Evidentemente, há um problema na prática da pesquisa qualitativa que não está dissociado da prática da pesquisa cientifica. No fórum ASQ –1995), segundo Bertero et al.(1998), constata-se limitações diversas na produção científica da área, destacando-se  a afirmação de que “referencias não constituem teorias”. De fato, pode-se perceber essa deficiência através de uma crítica de referenciais teóricos  expostos em artigos diversos, dada à não configuração de uma lógica  de produção teórica. Constata-se,  em muitos trabalhos com evidentes limitações  da abordagem teórica, a não diferenciação lógica  entre a prática da revisão de literatura e a prática de formulação de um quadro teórico. Constata-se que as citações se sucedem, com maior ou menor esforço e  sucesso no estabelecimento de relações entre conceitos ou afirmações teóricas. Mas, o principal problema  consiste na consideração conjunta de textos  objetivamente servindo à necessidade de tentar-se construir uma abordagem teórica, com outros, citados sob uma perspectiva de revisão, contribuindo para expor o conhecimento anterior sobre o problema estudado.
A problemática da qualidade da produção científica na área, criticada por Bertero et al (1998)  manifesta-se através dessa característica , identificada em certos trabalhos. A ausência do reconhecimento da  dos procedimentos lógicos  para construção teórica e sua distinção da exposição do balanço do conhecimento anterior, estariam  evidenciando a ausência  da busca de qualidade dos trabalhos. O confronto com o conhecimento anterior e a demarcação do avanço teórico ou particularidade do enfoque teórico proposto em cada  trabalho  é uma orientação mais facilmente observada  na literatura oriunda do main stream, independentemente da crítica possível da validade da exposição e da efetiva produção de qualidade que possa ser feita sobre esses trabalhos. Ressalte-se, nesse sentido, que os fóruns da Academy of Management Review e da Administrative Science Quartely ( ciados por Bertero et al, 1998; Godoy, 1995) procuravam balizar a busca de melhoria de qualidade da produção  nos centros mais desenvolvidos.
Com efeito, a busca de  qualidade  na produção científica envolve o reconhecimento de uma  dialética  que orienta os estudos e pesquisas na área de administração de empresas. Verifica-se   que  a produção científica  tende a ser mais calcada na perspectiva de aplicação, como uma conexão imediata entre  ciência e tecnologia aplicada. Resulta uma inserção de categorias e  formas de pensamento tributárias dessa  característica.
Administração se caracteriza por uma lógica das matrizes, abrindo-se categorias  bi-polares para explicar a realidade, com muitos exemplos possíveis. Essa polarização , freqüentemente, diminui o espectro possível de interpretação da realidade, contribuindo para reificar fenômenos essencialmente sociais. Assim sendo, os aspectos conceituais que se prestam  a estudar a realidade  de empresas ou de  setores econômicos podem ser transformados em adjetivos que qualificam a realidade, como se um mundo empírico pudesse sempre ser reduzido a quatro dimensões. É inegável  a validade operacional das matrizes para  estudar a realidade. Mas, antes de permitirem a explicação, essas práticas se orientam pela ação possível, calcada  na realidade estudada, não raro  induzindo-se a possibilidade de universalização de seu emprego. Antes de serem tipos ideais, na perspectiva Weberiana, as matrizes  se prestam para esquematizar a realidade, como se nascessem dela ou com ela se confundissem, por serem expressas   como segmentos dessa realidade.
Esse fundamento operacional das matrizes pode também contribuir para limitação da criatividade na produção teórica. Para Deetz ( 1996), é inegável o valor da matriz de Burrel e Morgan ( 1979)  para categorizar  os paradigmas sociológicos  na análise organizacional. Mas, pode-se  verificar os efeitos danosos da matriz, essencialmente formulada como uma produção conceitual pela própria natureza dos paradigmas, mas empregada posteriormente  sob a forma de uma qualificação de pesquisas, prestando-se a reificar as abordagens .O autor analisa esse processo, evidenciando que  os critérios  de classificação foram sendo  reificados, impedindo a observação e análise da ciência das organizações, normalmente dinâmica por sua própria natureza. Para o autor, os paradigmas  serviriam para isolar  a possibilidade de comunicação entre eles, dadas as polaridades. Quando, de fato,  o aspecto principal a ser observado noa prática científica deveria ser  o modo de fazer ciência, grupos de pesquisa de unidades de pesquisa diferentes, podendo interagir  e dialogar. Esse s grupos de pesquisa poderiam dialogar ou se manterem isolados. Mas, ao dialogarem poderiam estar  trabalhando  sobre o mesmo objeto de pesquisa, com maior  ou menor interação com a sociedade como um todo.
Ora, essa situação avaliada por Deetz (1996)  pode ser corroborada no Brasil, onde as análises das pesquisas  produzidas na área revelam dificuldades diversas de avanços científicos e especificidades de uma produção nacional.  Em avaliação feita  por Machado-da-Silva et al.(1990),  constata-se que  os trabalhos publicados nos ENANPAD’s ( Encontro Nacional da ANPAD ) na área de organizações  seriam predominantemente tributários  do paradigma funcionalista, percebendo-se igualmente  “(...) a predominância do enfoque prescritivo sobre o enfoque analítico nos artigos analisados, o que significa que a construção de conhecimento científico na área de organizações encontra-se  bastante prejudicada no Brasil”( Machado-da-Silva et al, 1990: 27).
         Na  mesma perspectiva e com  conclusão um pouco diferente, constata-se que  a produção acadêmica na área de administração de empresas teria uma  “(...) inclinação  predominantemente acadêmica, o que indica pouca preocupação com aplicabilidade  e pouca atenção ao universo gerencialista e à problemática concreta enfrentada por administradores  no interior e à frente de organizações (...) A sua inspiração (...) seria estrangeira, na medida em que assuntos, variáveis e problemas  são os levantados por autores estrangeiros”( Bertero e Keinert, 1994; apud Bertero et al, 1998) .
         Diante dessa constatações pode-se afirmar que há ausência de uma prática de debate  acadêmico  através da produção científica publicada, também constatada por Vergara e Carvalho Jr.(1995). Esses autores, além de constatarem a predominância de citações de autores americanos na área de organizações, procuraram investigar as justificativas dos autores brasileiros para isso. Verifica-se que uma das explicações seria a  pouca quantidade de artigos brasileiros quando comparado com os estrangeiros na área estudada; quando  questionados sobre a predominância de citações de autores americanos, “o problema é visto por alguns  como decorrente do inevitável domínio cultural americano, opinião que encontra discordância nos que acreditam que, a despeito da influência americana, falta pesquisa em análise organizacional no Brasil, bem como conhecimento e preocupação em conhecer a realidade e administração que se pratica no Brasil, além do que , o que se estuda é teórico ( Vergara e Carvalho Jr.,1995)
         O mesmo tipo de constatação foi feita por Vieira ( 1998 ) na área de marketing, ressaltando uma percentagem mínima de citações de trabalhos apresentados  nos ENANPAD presentes nos trabalhos de anos posteriores.
 
 
         2. Características e confronto   entre pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa
 
Associado aos debates sobre a natureza da  produção científica na área de administração de empresas, procura-se confrontar   a pesquisa quantitativa e a pesquisa qualitativa. A busca de qualidade na pesquisa qualitativa faz parte  da busca da qualidade na pesquisa em administração de empresas e envolve   aspectos que fazem parte desse confronto. 
A noção de pesquisa qualitativa  na área de administração de empresas  aparece dentro de um movimento mais amplo das ciências sociais de recuperar, nos anos 60, as suas origens metodológicas. Evidentemente, a pesquisa qualitativa sempre continuou sendo utilizada por antropólogos e sociólogos, mas havia uma forte inserção de metodologias quantitativas, com recursos às estatísticas e à matemática para o desenho de pesquisas  e análise de resultados.
O movimento para ampliação do usos das pesquisas qualitativas em ciências sociais  foi associado à contraposição à predominância de enfoques de pesquisas tributários do positivismo ( Rocha e Ceretta,1998), em fatos sociais  sendo tratados como  fenômenos físicos, sobre os quais se utilizaria de instrumentos para análise, com identificação de relação de causalidade  entre variáveis, categorizadas, em última instância como independentes e dependentes.    
Na pesquisa qualitativa, ao contrário, busca-se o sentido do comportamento dos atores, baseando-se na interpretação. Trata-se de uma “descrição em profundidade”, em que se considera, ao mesmo tempo, uma interconexão entre a análise do comportamento e do sentido( Geertz, 1973; apud,Rosen,1991).
         A pesquisa  qualitativa em administração pode envolver  várias situações de pesquisa, tais como  a pesquisa documental, o estudo de caso e a etnografia ( Godoy,1995). Na mesma perspectiva, Bryman classifica  a prática da pesquisa qualitativa segundo quatro níveis de  participação do investigador: tipo 1, em que é totalmente participante, geralmente em uma ou duas organizações, com ênfase na técnica de observação participante( combinada com algumas entrevistas  e análise de documentos);  semi-participante, em que o pesquisador é um observador, geralmente em uma ou duas organizações, mas com um papel indireto ( incluindo também algumas entrevistas e análise de documentos); baseada em entrevistas , geralmente  envolvendo o estudo de 1 a 5 organizações ( havendo análises de documentos ) e observações eventuais); multi-organizacional,  com ênfase em entrevistas  a indivíduos  em 6 ou mais organizações, freqüentemente mais de 10 ( com uso de documentos e  algumas observações ).
Cabe fixar algumas características de base  das pesquisas qualitativas.  Bryman (1995 ), analisando o trabalho de Smirch (1983) sintetiza  sete aspectos elementares da pesquisa qualitativa: a inserção do pesquisador  na organização estudada, valorizando fortemente a interpretação  dos próprios administradores sobre a organização;  a  pesquisa  confere  grande importância ao contexto,  a presença do pesquisador em reuniões possibilitando  a compreensão sobre o que acontece na organização. No caso analisado, uma iniciativa de um presidente que poderia ser um aparente sucesso em sua concepção,  não era partilhada pelos membros do escalão superior; ênfase  no processo, interligando-se eventos  sob um mesmo fenômeno  sob estudo em uma dada organização; produção teórica  não estruturada à priori  e ausência de hipóteses. A teoria  sendo construída paralelamente  à evolução da pesquisa; fontes de dados diversificada, como por exemplo, no caso estudado, a combinação de  observação participante, transcrição de entrevistas e conversas, além de documentos.
         Outros autores  apresentam formulações sobre a pesquisa qualitativa, como Godoy (1995) , que destaca as seguintes características básicas: “a pesquisa qualitativa tem o ambiente natural  como fonte direta de dados e o pesquisador   como instrumento fundamental(...) a pesquisa qualitativa é descritiva(...)  o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida são a preocupação  essencial do investigador;(...) pesquisadores utilizam o enfoque indutivo na análise de seus dados”( Godoy,1995:62-63)
Godoy ( 1995) sintetiza com propriedade  os modos de  realização de trabalhos no campo da pesquisa qualitativa em administração.  A partir da avaliação feita no Fórum da Acedam of. Management, identificou três modos principais de realização de  pesquisas qualitativas: o uso de pesquisa documental,  muito utilizado sobretudo na pesquisa de marketing, através da prática de análise de conteúdo;  uso do estudo de caso, em que se recorre a entrevistas , observação participante  e não-participante;  uso da etnografia, através do acompanhamento, por exemplo, de processo de mudança no âmbito de uma organização, acompanhando, ao longo do tempo, a reação de agentes, através da observação participante e realização de entrevistas e análise documental.
Associado ao problema da falta de diálogo entre  grupos de pesquisa ou  no âmbito da pesquisa nacional há, como em outros meios acadêmicos a exist6encia da dicotomia   entre a  pesquisa qualitativa e a pesquisa quantitativa. Essa  categorização  está , por sua vez, associada ao debate entre objetivismo e subjetivismo na pesquisa científica.  Enquanto na primeira alternativa o pesquisador  formula um  problema de pesquisa a partir  sobretudo da literatura,  aborda a realidade sob a ótica teórica  que define  elementos de operacionalização da pesquisa;  no segundo caso  há um papel de interpretação como condição da produção científica, incluindo a participação efetiva do pesquisador na produção doas observações, elas próprias servindo à construção da teoria, calcada  na realidade estudada.
Brymann (1995) apresenta  uma comparação através de sete de características  das pesquisas qualitativas e quantitativas: ênfase na interpretação  sobre as concepções dos agentes é uma marca das pesquisas qualitativas, enquanto a definição de modo apriorístico sobre o que é importante  a ser levantado como informação   no campo típico das pesquisas quantitativistas;   outro aspecto definidor dessa diferença, que assim como a interpretação , é o contexto, na busca de integração de um conjunto de informações que façam sentido como conjunto; para as  pesquisas quantitativistas tenderiam a dar pouca atenção ao contexto; outros aspectos importantes para a pesquisa qualitativa seriam  o caráter processual da pesquisa, valorizando o avanço na reflexão sobre os dados;   exame de documentos  e realização de entrevistas gravadas;  valorização do caráter processual da própria interação entre os agentes de uma organização;  implicação do pesquisador na pesquisa e contato direto com os  fenômenos organizacionais. Na pesquisa quantitativa,  a ênfase recai sobre uma análise  estáticas da realidade   organizacional, formalização de um quadro de referência teórico à priori, tendência a utilizar  apenas um tipo de instrumento de levantamento de dados ( geralmente um questionário), associada à característica  de que cabe ao investigador  revelar a realidade organizacional, ao estabelecer relações entre variáveis, isso feito com base  em um  distanciamento do pesquisador face à realidade estudada, não necessariamente sendo responsável pela aplicação do questionário junto aos   membros das organizações estudadas.
O confronto existe e dificulta o diálogo, na medida em que se considera  o confronto entre aspectos científicos e não científicos da prática de pesquisa científica. A ausência de diálogo está associada ao confronto entre uma crítica de não cientificização da pesquisa qualitativa, não submetida à teste estatísticos e comprovação de fidedignidade e validade contra a crítica de matematização da realidade social, do tratamento do fato humano como coisa, à semelhança de fenômenos do mundo físico e biológico. Porém, nos dois aspectos da pesquisa , a problemática da crítica deveria se dirigir antes ao tipo de pergunta científica que ao modo de seu tratamento.(Deetz,1996)
 
 
         2.1. Aspectos  de crítica  na prática da pesquisa qualitativa e da pesquisa quantitativa
 
Torna-se freqüente observar  a problematização pelo empírico  na pesquisa quantitativa, de cunho funcionalista. Falta de revisão de literatura anda de par com indefinição de categorias teóricas para estudar um fenômeno, que passa a ser estudado sem que se invoque a discussão de como se aborda diferentemente, ou como se pretende explicá-lo diferentemente. Assim, pode-se  apresentar um problema de pesquisa  como estudo das transformações  ocorridas nos processo de mudança tecnológica de um setor  empresarial qualquer. Basta uma interrogação no final para que se caracteriza uma pergunta como problema científico. Nessa perspectiva  pode-se colocar uma pergunta como qualquer pessoa comum, de modo coloquial, garantindo-se  a cientificidade pela operacionalização de  variáveis, antes aspectos empíricos efetivamente pertinentes ao fenômeno, que resultantes da configuração científica do fenômeno estudado, resultantes do processo de teorização  pertinente à inserção da pesquisa no conjunto das demais citadas em uma revisão de literatura.
Quanto à pesquisa dita qualitativa, o empirismo resulta no predomínio da descrição sobre a interpretação dos fenômenos. Esse tipo de pesquisa, nesses casos, envolvem uma dupla  deficiência: de um  lado, privilegiam o empírico na descrição da realidade, apesar de incluírem elementos teóricos  na sua seleção  e  validação; além disso, se ressentem do movimento do pensamento, ele próprio garantia de validação do estudo, revelando a constituição da demonstração de modo balizado e coerente.
Evidentemente, o risco, conforme mencionou-se anteriormente , deve-se , de um  lado às limitações de formação dos pesquisadores, à inserção do pesquisador nas  organizações, sobretudo empresas em que trabalharam , trabalham ou prestam consultorias ou à concepção na formação do administrador do caráter prático ou aplicado da administração. Nesse último caso, o aplicado se confunde com o empírico, a descoberta científica sendo uma busca de relações  , formuladas através de categorias  próprias ao mundo empírico, organizacional, aos fatos não propriamente conceituais. O privilégio à realidade vai ao extremo , solucionando  o problema lógico do pesquisador, conduzindo  ao individualismo dos trabalhos de pesquisa e  artigos científicos, em que a originalidade  do caso é conferida pelo próprio caso, o que poderia ser qualificado como uma originalidade  dada antes pela inserção no espaço que no tempo.
Evidentemente, não se pode generalizar   sobre  problemas de lógica em muitas pesquisas  fortemente marcadas pelo contexto. Mas, o que está em jogo não é simplesmente essa definição, havendo  problemas de concepção, como se depreende  da análise  feita por  Blair e Hunt ( 1984)  apresentam uma  classificação entre pesquisas orientadas por contextos específicos e pesquisas  não orientadas pelo contexto, para  registrar  a legitimidade da consideração de um tipo de organização como tema de  grupos de pesquisas: pode-se pensar em pesquisadores que se especializam em estudar um tipo de organização, como por exemplo organizações hospitalares, escolas, etc. Esse tipo de abordagem em nada estaria empobrecendo, por si só , a qualidade da prática da pesquisa; contrastando-se com as pesquisas não  definidas por contextos específicos, são marcadas por  especialização em certos tipos de variáveis ou temas, como motivação, liderança,etc.  Os autores ressaltam, entretanto, que cada tipo de modos de investigação teriam propriedades específicas, quanto a aspectos analíticos, aspectos de aplicabilidade, aspectos profissionais.  Deve-se ressaltar   as diferenças  quanto às possibilidades  de aplicabilidade, de modo que as  pesquisas  orientadas por contextos específicos, concentrando-se em certos tipos de organizações  seriam mais aplicáveis à soluções de problemas  das organizações estudadas, mais facilmente apreendidas e aplicáveis por  gerentes de organizações similares e  permitirem aplicações   baseadas em modismos.  Esses elementos de diferenciação são legítimos até o ponto em que não ultrapassam os pré-requisitos lógicos da prática científica, ou melhor, não passem por uma inversão entre  modos de classificação de investigações científicas e  validação . Pode-se cair  na generalização conceitual , em que se valida a pesquisa pelo fato mesmo dessa  aplicabilidade. Os autores  fazem essa ressalva, considerando que há discussões sobre esse caráter de aplicabilidade no âmbito das ciências sociais.
         Na mesma perspectiva e, enfocando a  pesquisa qualitativa,   em defesa do estudo de caso, um dos  métodos  principais da prática  desse tipo de pesquisa, Brymann (1995) reconhece, como outros  autores  ( Yin,1984), que  não se deve esperar  adequações de  inferências teóricas que porventura sejam geradas  ao longo do estudo. Para o autor,   o que  deve acontecer é a geração de  padrões e  associações de importância teórica. Nessa mesma perspectiva de defesa da pesquisa qualitativa, Bryman (1995) torna evidente  que um estudo de caso pode mesmo comportar uma conjunção de  pesquisa qualitativa e  pesquisa quantitativa,  essa situação sendo inerente à natureza da pesquisa qualitativa que pode sempre envolver mais de um método no levantamento de dados. O exemplo de um estudo de uma grande empresa, em que se aplicou questionários  para uma amostra de empregados, combinando-se com entrevistas de certos funcionários, serve a evidenciar mesmo a possibilidade de complementaridade e  checar a validade dos resultados  obtidos com os dois tipos de instrumentos.
 
         2.2. A defesa do caráter científico da pesquisa qualitativa
 
A defesa  dos critérios  científicos na prática da pesquisa qualitativa  envolve a busca de seus fundamentos. Na verdade, a negação desse tipo de pesquisa  envolve a  negação da validade da busca de compreensão, enquanto categoria científica. Porém,  deve-se ressaltar que, sobretudo nos estudos de caso, quando as críticas são legítimas, deve-se  ao uso apenas  a noção de  estudo de caso como argumento de cientificidade, “estou estudando um caso, logo...não tenho hipótese... nem teoria...”, que é negado na prática, dada a ausência de procedimento sistemático.
         Muitas das críticas sofridas pelos adeptos da pesquisa qualitativa, incluindo a ausência de teoria ou de formulações teóricas associadas, se referem à prática incompleta do programa da compreensão weberiana. Ao interrogar-se , por exemplo  por  haveria capitalismo no Ocidente, e somente no ocidente, quando as possibilidades estariam também presentes em outros lugares, Weber estaria  abrindo as condições para a prática de um programa de investigação, associando , em seguida   a questão das conseqüências  da racionalização do espírito humano em geral ( Cf. Jaspers, 1977). Quando amplia seu questionamento, o faz para  estabelecer a conexão do presente, da realidade objeto de preocupação, com o passado. Deve-se ainda ressaltar a excelência do programa metodológico instaurado por Weber, na medida em que , “para poder comparara coisas humanas , é preciso que eu apreenda os fatos mediante conceitos que os encontrem  enquanto sentido: como o sentido que eles têm para os agentes; ou como sentido objetivo, enquanto algo corretamente significado ( como num operação matemática). A realidade é uma tessitura infinita de coisas dotadas de sentido e alheias a ele. Para captá-la são necessários conceitos construídos que, desenvolvidos da maneira mais conseqüente quanto ao seu sentido, apenas servem  como instrumentos de medida para a realidade, ao permitirem ver o quanto ela corresponde a eles. Esses conceitos são chamados por Weber de tipos ideais. Para ele, esses tipos são o instrumento metodológico para se chegar a realidade, e não a própria realidade. Eles não são conceitos  referentes a espécies, sob as quais  o real é medido para, na medida em que haja correspondência, apanhar o real de maneira precisa e para trazer  à luz com nitidez aquilo em que não haja correspondência entre o tipo e o real... Há uma tendência indestrutível da vontade não crítica de conhecer, no sentido de tomar  o que é acessível ao conhecimento conforme critérios geralmente aceitos como sendo o único plena  e definitivamente verdadeiro, de tal modo que , de posse desse saber, eu sei o que é  bom, o que devo fazer, e o que é o próprio  ser. É contra esse impulso monístico que se volta o conhecimento crítico de Max Weber. Ele  aspira a um conhecimento empírico de validade incontestável e persiste, enquanto pesquisador, em separações que ele  reivindica tanto em nome do conhecimento legítimo quanto do legítimo filosofar. Assim ele luta pela efetiva separação entre conhecimento empírico e julgamento valorativo; entre conhecimento particular  e unilateral e todas as modalidades de captação da totalidade; entre realidade empírica e essência do ser ( Jaspers, 1977:129-130)
         A ausência de uma postura crítica sistemática diante da alternativa metodológica  tributária  de diferentes concepções para estudos organizacionais se vincula ao limite imposto na prática das pesquisas ditas qualitativas que se rendem ao puro empirismo, confundindo a realidade com a produção científica. A administração é uma ciência  que considera a ação como um dos seus objetos inconfundíveis. Mas, ao reduzir os resultados de pesquisas qualitativas à qualificação ou descrição de ações,  há ausência de critérios de seleção de dados com base nos valores neles presentes, ou seja , buscar o significado de ações,  apreender  e expor  de forma sistemática os fins, abrindo-se a possibilidade de explicação ( Cf. Rex, 1973)
A busca da compreensão  é a busca  dos fins das ações dos atores envolvidos em uma dada situação, seja identificando fins , seja buscando provas  relativas ao fim que o ator busca e as regras que  realmente governam sua conduta, além  da investigação do estado interior do ator e os símbolos usados  para expressar  esse estado na sociedade em que se insere esse ator. ( cf. Rex, 1977)
Para a sociologia weberiana, a  interpretação  da ação social  é que permite  explicá-la, dados seus efeitos , compreendendo as ações  pela orientação de seu sentido. Há, efetivamente, um sentido  subjetivo ou mental das ações; o método da compreensão permitiria descobrir esse sentido,  tendo em vista  o sentido existente de fato ou seja através de um sentido construído como tipo ideal e referido a agentes típico-ideais ( Cf. Fernandes, 1980).
         A compreensão se insere como fundamento  essencial da prática da  pesquisa qualitativa em administração, diante do amplo  gradiente de enfoques, podendo incluir  fases das organizações estudadas ou fases dos contextos em que se inserem as organizações, implicando buscas para além dos aspectos histórico do ambiente imediato em que se inserem.
De qualquer modo, incluir a perspectiva histórica  está associado a um fundamento da pesquisa qualitativa,  a identificação do sujeito com o objeto de estudo, implicando na conjunção entre teoria e método. Desse modo, os riscos da não formulação de uma boa teoria na pesquisas quantitativas,  correspondem  a não conjunção  de forma clara, dessa integração, num mesmo movimento da teoria e do método na pesquisa qualitativa.
Ao contrário de  prevalência da teoria na condução da pesquisa, no seu início, como nas pesquisas de cunho positivistas e quantitativistas, à qual se conjuga um conjunto de técnicas de pesquisa, na pesquisa qualitativa abre-se um diálogo entre a realidade a teorização, interpondo-se o método e a teoria, como uma alternância constante entre  o pensamento e a apreensão perceptiva da realidade estudada. As possíveis crítica sobre a qualidade de teorização na abordagem de um dado fenômeno organizacional  vão, fatalmente, estar associadas  à limitações nessa prática do movimento do pensamento e da realidade estudada.
 Na verdade, inclui-se  nessa situação, a  ausência desse  diálogo quando se estudam casos, a ausência da prática  da manutenção do “cahier de bord”, elemento fundamental para descrição dos passos seguidos  na produção da pesquisa qualitativa, permitindo  retraçar os procedimentos da produção dos dados , da interpretação (cf. Mucchielli, 1995).
Na  mesma perspectiva , Godoy (1995)  afirma que  a prática da etnografia na pesquisa qualitativa , requer  que sejam  conjugados níveis de análise dos dados de campo, tanto os simples  e informais, como  outros que podem mesmo incluir uma sofisticação estatística. Para a autora, “a análise dos dados de campo deve permitir  que o pesquisador verifique a pertinência  das questões  previamente selecionadas e das percepções que gradativamente vão refinando com o propósito não apenas de descrever, mas, de construir novas explicações e interpretações teóricas sobre o que está acontecendo no grupo social em estudo”( Godoy,1995:29)

 

 

3. A busca de qualidade em trabalhos   com enfoque da pesquisa qualitativa

 
O apelo de Bertero et al (1998) para a busca de qualidade na produção científica na área de administração de empresas é legítimo. Como os autores constatam, o aumento na quantidade de produção científica na área não foi acompanhado da evolução qualitativa. A reflexão envolvendo  aspectos próprios da pesquisa qualitativa  permite identificar  uma  duas  faces dessa problemática: de um lado, há um desafio que depende  de balizamento da produção científica, do que fazer científico; de outro lado, constata-se aspectos  relacionados à organização do trabalho acadêmico.
 
         3.1. A perspectiva da prática científica
 
        A conjunção equivocada de uma prática de revisão de literatura com uma prática de produção de  um quadro teórico  reforça  a problemática original da administração como ciência social aplicada, muito marcada pela ação ou pela perspectiva da intervenção. Assim, pode-se perceber em  vários trabalhos que apresentam casos na produção acadêmica brasileira que,  à solidão do pesquisador  que individualiza o “seu caso estudado” como uma experiência única e passa a tomar  o caso revelado ou analisado como uma produção científica, se associa uma busca  não sistemática de pequenas amarras”, cuja solidez   é conferida  no quadrante oferecido pelo próprio texto. Perde-se, dessa  forma, a possibilidade de diálogo com outros pesquisadores a partir  da inserção do objeto estudado sob uma ótica teórica ou dada à  formulação teórica produzida  no processo de investigação.
Essa  problemática traz um fundamento ao mesmo tempo implicado de modo ontológico e de modo epistemológico, no sentido do estabelecimento de um ordenamento do mundo natural, mundo da vida e mundo social  de modo que haveria uma teoria geral do conhecimento   aplicável  a esses mundos ( cf. Whitley,1984). Assim sendo, pode ocorrer  uma produção científica que, de tão calcada na realidade, se apresenta sob um discurso marcado por termos coloquiais, de senso comum.  Trazem, por conseguinte,  a marca  de limitações de autonomia  da pesquisa  em administração e de sua objetividade.
Porém, a área da Administração no Brasil  ainda se ressente do diálogo  fruto do confronto de abordagens e temas comuns e diferenciados. Há o reconhecimento da falta de citações de autores nacionais no conjunto da produção científica. Mesmo os  trabalhos publicados  no âmbito nos ENANPAD’s  podem não estar sendo utilizados de  forma a atender aos princípios da revisão da literatura  ( Vergara e Carvalho Jr.,1995;Vieira,    1998) Aspectos dessa natureza, associados ao excessivo número de citações de  autores estrangeiros  contribuem para revelar o individualismo da produção   nos diversos campos de trabalho, o que de modo algum bastaria para negar a validade e a  qualidade da produção. Porém, negam, efetivamente, a consideração do diálogo científico com demais grupos  nacionais que divulgaram sua s pesquisas em anos anteriores. Independentemente da conjunção de temas  ou de problemas de pesquisas, da diferenciação de abordagens teóricas, caberia comportar a menção de parcela de trabalhos anteriores, como prática de revisão de literatura, permitindo situar  a produção científica assim divulgada no contexto das demais produções nacionais, independentemente da inclusão da literatura internacional como parte de revisão para contextualizar a própria produção científica.
A busca sistemática do diálogo científico pode ser feita no âmbito da pesquisa qualitativa  em administração. Um autor consagrado como Pettygrew ( 1990)  procura sistematizar alguns aspectos  importantes para  a teoria e prática da pesquisa de campo longitudinal. Para o autor, em um estudo comparativo de casos, quatro formas de apresentação dos resultados seriam possíveis: O caso como uma cronologia analítica, em que se expõe  a narrativa, com  delimitação de níveis de análise;  o caso diagnóstico,  incluindo aspectos prescritivos, próprios ao debate com as  empresas objeto de pesquisa; casos interpretativos/ casos teóricos,  em que se avança para um nível superior de análise, apara além das cronologias analíticas, fazendo emergir as idéias  teóricas  , tanto dos temas  analíticos  próprios aos caos como dos  debates teóricos na literatura; finalmente, há a produção teórica própria do cruzamento doas análises dos casos, com uma apresentação temática, associando descobertas teóricas e empíricas  no conjunto dos casos  a cada vez mais amplos aspectos teóricos na literatura. Pode-se perceber, através dessa exposição para relatar os passos de um programa de pesquisa, de equipe, que problemas verificados de limitações de valorização da prática da pesquisa qualitativa podem estar associados  a consideração, por exemplo, da primeira fase acima descrita com  a  produção desejável no estudo de caso científico.
Pode-se perceber nessa exposição como estudos de caso podem estar sendo apresentados mais sob a forma dos dois primeiros estágios ( caso como cronologia analítica) e caso como diagnóstico), limitando-se  a discussão mais aprofundada, como nos casos inter-relativos  e a produção teórica decorrente do estudo. Para Pettygrew (1990) os casos dos primeiros estágios são apresentados apenas em revistas de divulgação, de caráter extensionista ou para as próprias firmas objeto de consultorias. Fica claro o tipo de  fragilidade de  produção acadêmica assim exposta, possibilitando  maior facilidade de crítica dos que defendem as pesquisas de cunho positivista e negam a possibilidade de produção teórica ou teste de teorias   a partir de pesquisas envolvendo os estudos de caso.
Na mesma perspectiva, em defesa do caráter científico das pesquisas qualitativas, enfocando o estudo de caso, Silvermann (1993)  formula as condições para que se proceda à   prática de  demonstração de validade  e fidedignidade  na pesquisa sociológica, categorias de garantia de rigor científico, com desenvolvimento de  uso de instrumental de análise estatística e matemática na s pesquisas quantitativistas. Apesar de reconhecer que muitas das críticas  sobre a não determinação de fidedignidade de pesquisas qualitativas procedem, o autor reconhece que ao rebater essas críticas , não és suficiente a resposta  evidente de que  a realidade social é processual e, portanto, dado a mudança permanente tornar-se-ia impossível  a repetição da análise de uma dada situação. Assim, expõe alguns procedimentos que podem ser seguidos no sentido de garantir a fidedignidade de pesquisas qualitativas.
No que concerne a observação da realidade,  os pesquisadores deveriam expor  as suas notas de campo em seus trabalhos, o que permitiria  ao leitor  fazer suas próprias avaliações sobre a realidade objeto de estudo   ( cf. Bryman,1988 apud Silverman, 1993).Esse procedimento também é útil no caso de transcrição de entrevistas gravadas.
No caso da análise de textos, caberia  expor  com clareza as categorias utilizadas para analise de cada texto tomado como dado , de modo estandardizado, permitindo ao leitor  poder proceder da mesma forma;  quanto às entrevistas, sobretudo quando há envolvimento de equipes, é importante que   os entrevistados compreendam  as questões da mesma maneira e que as respostas sejam codificadas sem possibilidade de incerteza. Isso deveria constar de um procedimento padronizado, incluindo pré-teste de esquemas de entrevistas; treinamento de entrevistadores; uso de  certos padrões de respostas  pré-fixados;  teste de avaliação de fidedignidade entre os  pesquisadores , checando  a codificação de respostas com base nas categorias estabelecidas.
Silverman (1995) aborda a  validade, categoria que expressa  a verdade  de um fenômeno representado pelos dados de campo expressos em um trabalho. Em uma discussão aprofundada sobre as alternativas mais comuns, triangulação de dados e  avaliação de análises junto à população objeto de estudo, o autor as rejeita e defende algumas práticas  mais apropriadas em sua avaliação: a escolha de casos, quando bem feita, favorece à minimização da crítica de representatividade. Essa escolha permite a busca de comparação de casos  através da obtenção de informações relevantes  de uma população de casos semelhantes; também poderia ser feita uma pesquisa tipo survey com uma população de caos ou coordenar  um conjunto de estudos etnográficos;  seleção de caos    que  com base em aspectos teóricos, permitindo o teste de teorias, incluindo, portanto o  teste de hipóteses.
 
 
 
3.2. A perspectiva da organização do trabalho acadêmico
 
As evidências acima apresentadas revelam, ao mesmo tempo, que há sentido em certas críticas sobre a pesquisa qualitativa. Mas, evidenciam, igualmente, que há caminhos para essa busca de cientificidade. Na verdade, está implícito nos procedimento desejáveis para a busca da produção científica de qualidade na pesquisa qualitativa, a consideração de dois aspectos operacionais, da organização da prática da produção científica no meio acadêmico. De um lado, há necessidade de constituição de grupos de pesquisas nas universidades e centros de pesquisa. O diálogo entre professores e pesquisadores vinculados a esses centros pode  gerar a ocasião para a produção de massa crítica, tanto pela concentração de pesquisas e intervenções  no meio empresarial, como pelo debate teórico-metodológico  entre eles.
É evidente que, programas de doutorado tem promovido o desenvolvimento de  grupos ou centros, denominações de marca de especializações internas aos programas, com denominações que indicam concentração de  pesquisas e produção de técnicas de intervenção no mundo empresarial, como pode-se perceber  através de alguns exemplos dentre tantos outros: NACIT  ( Núcleo de política e Administração em Ciência e tecnologia ) (UFBA), NEPOL ( Núcleo de Estudos sobre o Poder e Organizações Locais ) ( UFBA), NITEC ( Núcleo de Gestão da Inovação Tecnológica ) (UFRGS), GENEIT  ( Grupo Interdisciplinar de Estudos da Inovação e do Trabalho) (UFRGS).  Outros programas reúnem os professores-pesquisadores em torno de projetos, com o mesmo efeito de produção de massa crítica. Pode-se supor que há, nessa organização do trabalho , a possibilidade do debate interno.
Trata-se de um avanço, que está pautado nas próprias histórias desses grupos, possivelmente resultantes de praticas de interação anteriores à sua constituição formal. Os grupos podem estar sendo responsáveis pelo crescimento da área como um todo, como pode-se perceber no grande desenvolvimento dos ENANPAD’s.
Nessa  perspectiva, Shirasvatava (1987)  argumenta que, antes de se julgar a utilidade de uma pesquisa , deve-se pensar  no programa de pesquisa como unidade de análise,  em que questões  de pesquisa  são avaliadas e confrontadas aos  métodos de pesquisa  empregados para estudá-las. Para o autor, a noção de programa de pesquisa vai além  dos esforços individuais de um  pesquisador. Mesmo para um campo “aplicado” como  a administração estratégica, haveria que se avaliar  aspectos como:  adequação conceitual do quadro de referencias,  confrontando-o com os fundamentos das disciplinas básicas que lhe orientam;   rigor metodológico, considerando-se as possibilidades de avaliação desse rigor tanto em pesquisas quantitativistas como qualitativas;  acumulação de evidências empíricas, em que o teste das teorias está registrado em várias pesquisas. Torna-se, assim, impor