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Gilberto Teixeira (Prof.Doutor ,FEA/USP )
O século XX testemunhou inequivocamente um acúmulo de conhecimentos científicos e tecnológicos sem precedentes na história da Humanidade. Este aumento vertiginoso dos saberes, todavia, deu-se às custas da proliferação de um grande número de disciplinas e subdisciplinas relativamente autônomas, em um contínuo processo de fragmentação que resultou em uma compartimentalização excessiva das distintas especialidades. De fato, além das dificuldades com que sempre se depararam os pesquisadores para manterem-se atualizados em suas próprias áreas de investigação, por causa deste volume descomunal de conhecimentos, o isolamento e a hiperespecialização acabaram também por criar empecilhos ao diálogo entre colegas pesquisadores de distintas formações, que ainda hoje se intercomunicam com fluidez somente a propósito de generalidades mais ou menos banais.
Estas dificuldades foram sendo gradativamente superadas à medida que a comunidade científica percebeu que apenas poderia lidar com problemas de maior complexidade a partir de um processo de investigação mais dinâmico, caracterizado pela cooperação entre os diversos ramos do universo de conhecimentos disponíveis. Conforme o grau de aproximação e o modo específico de intercâmbio entre as diferentes disciplinas, destacam-se: (a) a multidisciplinaridade, que resulta do estudo e do aprofundamento de problemas que oferecem grandes desafios (e.g.: problemas meteorológicos e o desenvolvimento de novos materiais) através de várias disciplinas simultaneamente, sem que, contudo,as disciplinas coadjuvantes sejam elas mesmas modificadas ou enriquecidas; (b) a interdisciplinaridade, onde ocorre a transferência de métodos de uma disciplina para outra, fenômeno que tem resultado na geração de novas disciplinas, como a biofísica, ou no surgimento de novas técnicas, como a radioterapia; este intercâmbio conduz a um enriquecimento recíproco das disciplinas em interação; (c) e, finalmente, a transdisciplinaridade, em que se verificam não apenas interações e reciprocidade entre distintos projetos disciplinares especializados, mas também aqui reside sua singularidade na colocação destas inter-relações no interior de um sistema total, sem quaisquer limites rígidos entre as disciplinas participantes (por exemplo, a compreensão da origem e dos mecanismos que levam ao (re)aparecimento e difusão de antigas e novas doenças). Como nas duas primeiras aproximações, a abordagem transdisciplinar ultrapassa as fronteiras de uma única disciplina, mas sua finalidade na compreensão do mundo presente em sua totalidade, ao contrário do que acontece na multi e interdisciplinaridade, não está inscrita na pesquisa disciplinar, como aliás já sugere o prefixo trans, indicando aquilo que está ao mesmo tempo entre, através e além de qualquer disciplina. Esta radical distinção não pretende gerar um antagonismo com as abordagens disciplinares, mas sim complementá-las. |