Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

A função do educador frente à construção do conhecimento científico

 

Armando Correa de Siqueira Neto
Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo
 
 
O conhecimento é concebido por seu conteúdo e pela beleza de suas possibilidades quando em contato com a aprendizagem humana. A sua imagem chega-nos como um bem precioso e inquestionável. E, de fato, havemos de concordar com a proposição de seus valores. Não apenas envidamos esforços em avaliar a sua presença contextual na história da evolução humana.

Para compreender parte da dinâmica de funcionamento da construção do conhecimento, torna-se relevante estudar o ponto de desenvolvimento em que nos encontramos e o progresso que o antecedeu.

Imaginamo-nos altamente capacitados no reino da razão, e que os avanços tecnológicos atestam esse conceito. Cremos em demasia na superioridade intelectual conquistada e habilmente descrita pela história. E, embora este autoconceito seja simpático do ponto de vista da vaidade e da auto-estima, se observarmos ao nosso redor, na convivência social, encontraremos a negação em alto grau dessa proposta.

Vivemos como adultos civilizados e portadores de padrões considerados ótimos mediante o pacto social, conforme descreveu bem o filósofo inglês Hobbes (2002). Contudo, na prática, agimos como crianças, através de comportamentos birrentos, verificáveis na vaidade egóica de nossas atividades comuns; trabalho e relacionamento familiar, até decisões da alta esfera nas cúpulas governamentais: atividades bélicas, conchavos financeiros e outras ações, ditas fundamentais. São máscaras, que justificam a prepotência infantil de pouca consciência acerca do desenvolvimento. É claro que nos mantemos na rota da evolução, mas a questão é: em que velocidade? Não me refiro a uma corrida sem precedentes, mas a uma acomodação conveniente, como a do personagem Peter Pan, quando se refere ao fato de ter de crescer, demonstrando revolta e conseguindo manter-se infantilizado na Terra do Nunca.

Contextualizar o homem no modelo de ciência que temos pode dar amostras de que há um jogo constante de interesses, no qual os fins são válidos , sem se ater muito aos meios que os compõem, ou seja, as preocupações quanto a pesquisas feitas para se obter títulos e ocupações de fama e prestígio em detrimento de trabalhos relevantes reduzem a progressão evolutiva do conhecimento. O que importa é manter-se no pódio, independendo se a corrida trará benefícios.

Outra forma clara de compreender este conceito são os milhares de livros publicados anualmente, dos quais uma pequena porcentagem é capaz de acrescentar valores e pontos produtivos para quem os lê, exceto o fato de melhorar o cabedal de palavras, quando o fazem!

Ressalto que não podemos fugir da metodologia, mas podemos fugir de seu exagerado rigor. Conforme Alves (1984), fazer ciência pela ciência é mero exercício, sem levar em conta o seu uso para fins, cuja finalidade seja resolver questões humanas de importância, tais como a miséria.

Como faremos ciência? Instrumento vital para o desdobrar das nossas questões mais fundamentais. Neste período ainda infantilizado, faremos como quem quer um prêmio no final, e poucos estarão destituídos deste desejo que, segundo Fadiman (1986), provêm do id freudiano, e é residente no imenso oceano inconsciente, nossa maior porção mental.

Outra questão vem a ser o desejo de nos manter presos ao modelo social da convivência. Contudo, nos falta maior compreensão sobre a nossa vida interior. Pouco estudamos e compreendemos a respeito dos conflitos existenciais pelos quais passamos continuamente e deles podemos extrair excelentes lições de amadurecimento. Quando nos conhecemos melhor encontramos facilidade em entender o outro e, conseqüentemente, as relações humanas.
Como verdadeiros adultos e educadores sérios, entenderemos que as transformações trazem consigo dor e ansiedade, com as quais temos que lidar. Diferentemente das crianças, que preferem fugir ou tardar a sua experiência ante a possibilidade do menor desprazer.

Não é possível a mudança e a evolução sem o caos, que em seguida se reestrutura, dando ordem novamente, para logo depois caotizar e transformar, num ciclo espiral ininterrupto. Disse-nos Jesus em passagem com seus discípulos: “Não vim trazer a paz, mas a espada”. Não encontrei homem mais sensível e brilhante até então. Pregador do amor ao próximo, mais por comportamento do que por palavras. Seria sua frase uma contradição? A vida é uma contradição, desde que compreendida como um benefício que proporciona progressão e desenvolvimento.

Empreender a função de educador tem esta vasta responsabilidade. Transformar a sociedade é uma meta audaciosa que precisa ser cumprida pelos objetivos de melhoria na qualidade de vida.
Por mais que coloquemos nossas questões e interesses na construção do conhecimento, tornando-o, em certa medida, parcial, cabe dobrar os esforços para reduzir a interferência. Talvez, neste caso, a velocidade para o desenvolvimento tenha um ritmo adequado respeitando cada pessoa. Todavia, devemos cobrar e extrair do ser humano a sua participação na ordem da evolução, propiciando espaço para o seu desenvolvimento criativo.
Ao incorporarmos a prática do pensamento crítico, da abertura para a criatividade e maior aceitação das diferenças entre as pessoas, podemos pouco a pouco crescer e trazer o novo adulto para participar das transformações necessárias. Recorro a Wheatley (1999), quando propõem: “Vivemos numa sociedade que acredita poder definir o que é normal e então julgar tudo com base nesse padrão fictício. Empenhamo-nos em nivelar as diferenças, em ajustar tudo aos padrões, em definir parâmetros. Porém, na vida, o novo só pode aparecer como diferença. Se não estamos procurando diferenças, não podemos ver que tudo mudou e, em conseqüência, não temos condições de reagir a isso”. Veja o quanto perdemos com nossa forma cega em encarar o dinamismo da vida.
Temos essa realidade acerca da construção do conhecimento para administrar, levantando importante reflexão às instituições de ensino, as quais, são cruciais para a formação do ser humano. É uma tarefa árdua e carece de muita vontade e empenho. O educador tem a responsabilidade de proporcionar aos alunos a discussão sobre a limitação com a qual convivemos.

Afinal, o que queremos para nós? E em que velocidade?

























 
Referências Bibliográficas
 
ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. São Paulo: Cortez Editora, 1984.
FADIMAN, James. Teorias da personalidade. São Paulo: Editora Harbra, 1986.
HOBBES, Tomas. O Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Sumaré: Martin Claret, 2002.
'WHEATLEY, Margareth J. Liderança e a nova ciência. São Paulo: Editora Pensamento-Cultrix, 1999.