Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

Estado de São Paulo,25/julho/2004 - SAPOS DE CALÇA CURTA E OUTRAS HISTÓRIAS OBSCURAS

 

 
Livros humanizam descobertas científicas, mobilizando emoções por meio do humor
 
ELIAS THOMÉ SALIBA

Especial para o Estado
Pobre, quase na miséria, para não ir de mãos vazias à festa de aniversário de seu amigo, em Praga, Johannes Kepler presenteou-o com um floco de neve. Um dos primeiros sapos que William Harvey abriu com seu bisturi pertencia a uma velha acusada de bruxaria, que domesticara o batráquio na base do leite e da cerveja. Para comprovar que lesmas não tinham alma e impressionar-se com a capacidade regeneradora da natureza, Voltaire cortou a cabeça de oito escargots. Schopenhauer não desgrudava do seu bicho de estimação, o cachorrinho Atma (alma do mundo), que os estudantes chamavam de pequeno Schopenhauer. Como professor, quando tenho que explicar uma teoria, seja de um filósofo, de um cientista, de um sábio, de um curioso, ou de um impostor (eles também fazem parte da história), começo sempre por revelar uma passagem reveladora, curiosa ou anedótica - de suas vidas. Tal recurso funciona, e muito, pois ninguém se esquece daquele momento revelador e, por conseguinte, das idéias que estão por trás de toda uma vida. Kepler, que descreveu as órbitas elípticas, juntou ao seu inusitado presente de aniversário, um escrito no qual descrevia - antecipadamente - a noção de "corpúsculo". O divertido episódio de Harvey com a feiticeira esclarece muito da trajetória do cientista vocacionado aos trabalhos práticos e os caminhos tortuosos que o levaram a elucidar os mecanismos da circulação do sangue.O bizarro episódio de Voltaire com os escargots lembra a força dos métodos empíricos na filosofia iluminista. Já a piada de Atma, o cachorrinho de Schopenhauer, serve para discutir a questão do ascetismo e do inconsciente na filosofia do rabugento filósofo alemão.
Todas estas histórias e outras mais, intrigantes e divertidas, antigas e atuais, juntando cientistas e charlatães, astrólogos e adivinhos, ilustres desconhecidos com ilustres mal-conhecidos, podem ser conhecidas em detalhes em dois lançamentos recentes: Uma História Sentimental das Ciências (Jorge Zahar Editora, 213 págs., R$ 34) , de Nicolas Witkowski, e A Impostura Científica em Dez Lições (Unesp, 453 págs., R$ 49), de Michel de Pracontal.
Witkowski esboça uma narrativa emocionante, dividida em 35 episódios, tão divertidos quanto dramáticos, de cientistas fracassados, diletantes aloprados e exploradores compulsivos. Com raras exceções, uma gente completamente à margem da ciência oficial e das instituições que supostamente a dirigem. Como Lázaro Spalanzani - cuja história é introduzida por Witkowki a partir do romance Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca - que, em pleno século 18, pesquisou o sexto sentido dos morcegos, as migrações dos peixes e a fecundação animal, vestindo seus sapos com calças curtas e suspensórios do mais belo efeito.Ou Pierre Moreau Maupertuis, um visionário "Colombo francês", que engajou-se numa expedição, em 1736, para determinar o formato dos pólos do mundo. A polêmica surgiu por causa do atraso nos relógios de pêndulo na vizinhança do Equador, que alimentou a especulação de que o mundo pudesse ser alongado entre os pólos - e o planeta um esferóide alongado em vez de uma esfera. Sua expedição durou mais de um ano de sacrifícios - incluindo 340 garrafas de vinho e 400 litros de aguardente para enfrentar a solidão gelada da Lapônia - mas mediu um meridiano e convenceu a todos de que o planeta era um esferóide achatado nos pólos.
Mais histórias obscuras? Temos o capítulo sobre Santiago Ramón y Cajal, cientista catalão que só descobriu as interconexões dos neurônios, no final do século 19, porque escrevia de forma apaixonada e não hesitava em usar metáforas poéticas para designar o desconhecido. Ou o episódio de Léopold Hugo - tio de Victor Hugo - um atrevido colecionador de poliedros e dodecaedros de bronze, que usou para descrever "cristalóides" e formas geométricas ousadas, antecipando em muito as teorias dos "fractais". Ou a história de Ada Lovelace, filha de Lord Byron, que chegou a descrever com precisão - o ano era 1819! - as futuras possibilidades dos computadores mas, na história das ciências foi sempre vista como mais uma excêntrica musa de intelectuais e artistas. Mais aventura? Veja-se o capítulo sobre Alfred Wegener, conhecido como "o James Dean da geologia". Ou, em chave mais recente, a história de René Dubos, "o homem que não inventou a penicilina".
Cada capítulo é uma narrativa dramática, cheia de revelações, que dariam belos roteiros de filmes - se é que filmes sobre fracassos, loucuras e hesitações inerentes à história humana são capazes de interessar produtores, cineastas e público.
Já o jornalista científico Michel de Pracontal revolveu enfrentar o atual surto de pseudociências e de paixão pelo irracional, com altíssimas doses de ironia: invertendo o bom senso pedagógico - "sempre exemplifique com o certo e não com o errado!", recomendam os educadores - escreveu um extenso manual da falcatrua e da bobagem, com exemplos dos últimos 50 anos da história das ciências e mais alguns casos de impostura veiculados pela televisão francesa. O estilo é hilário, os exercícios colocados no final de cada lição são mordazes, a pesquisa é soberba - mas o excesso de referências à mídia francesa impede que o leitor partilhe de toda a brilhante argumentação. Os adeptos dos testes de Q.I. deveriam, pelo menos, ler o capítulo no qual o autor descreve a fraude praticada pelo psicólogo britânico Cyril Burt, que fundamentou seus dados originais sobre 53 pares de gêmeos, dos quais apenas 15 tinham realmente existido - o restante foi simplesmente inventado por ele...Ou a lição de número nove, na qual um exemplo divertido da correspondência de Groucho Marx - a "epistemologia de Harpo" - serve para mostrar a importância da linguagem para o conhecimento científico.
Participando de um popular programa da TV francesa dedicado à discussão da paranormalidade (fazendo, obviamente, o papel de cético), Pracontal, auxiliado pelo prestidigitador Gérard Majax, mostrou como todas as façanhas de Uri Geller não passavam de truques de ilusionista. Apesar disso, o apresentador concluiu o programa com a frase final: "Mas, minha colher, ele realmente entortou!". A ironia ácida que Pracontal destila no seu livro parece ter nascido desta impotência e do seu ódio às imposições da TV. Ele sabe que o nível científico dos impostores que desfilam no seu livro varia do autodidata completo ao pesquisador de renome internacional. Mas, convenhamos, colocar conselheiras televisivas que recomendam "limão para acabar com a celulite" ou "banho de leite de jumenta para harmonizar os chacras" ao lado de cientistas como Max Gallo - que ganha um capítulo no livro pela sua má conduta ao apropriar-se de informações do Instituto Pasteur - ou Dean Hamer, que pesquisou o chamado "gene gay" - apenas enfraquece seus argumentos. Mas, no todo, o livro é um poderoso antídoto contra uma cultura supermitiatizada, regida pela ditadura do mercado ou dos índices de audiência.
Nossa atual cultura científica, parece, regrediu décadas, não apenas devido à mídia - onde o impacto predomina sobre o conteúdo das mensagens - mas também devido ao tédio ao qual se reduziu o ensino de história das ciências - capaz de juntar o que há de mais enfadonho na história com o mais distorcido da ciência. Contra tais coisas, os dois livros mostram que talvez o único caminho seja o do humor: ele conecta as invenções e descobertas na tomada de 220 ww. da vida, humaniza a ciência, incentiva o pensamento reversível e mobiliza emoções. Mas, nem sempre é assim: um aluno, tempos depois de já formado, encontrando-me por acaso, perguntou-me: "Oi, mestre, quem foi mesmo aquele filósofo que tinha o nome do cachorrinho?"