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em Metodologia da Pesquisa
Gilberto Teixeira, Prof. Doutor
1 A ENTREVISTA DE PESQUISA
A dúvida que aparece inicialmente em quem se inicia no estudo da técnica de entrevista é a respeito das razões que levam um entrevistado a participar em maior ou menor grau de uma entrevista. Na realidade é de se estranhar porque um entrevistado irá perder seu tempo e energia e até mesmo em certos casos colocar-se em situação embaraçosa.
Para certos tipos de entrevista, há alguma forma de recompensa à vista ou uma razão de evitar alguma forma de punição. Assim, numa entrevista de seleção de empregados, a recompensa visada é o emprego; na entrevista com um médico, a promessa de cura; na entrevista com um advogado, a recompensa de evitar uma punição.
A entrevista de pesquisa entretanto não oferece nenhuma recompensa tangível, daí ser necessário motivar o entrevistado à uma maior participação e porisso é importante a compreensão de quais fatores influem nessa participação.
Em primeiro lugar deve-se reconhecer que a situação de entrevistado envolve dois indivíduos, funcionando num dado contexto social. O comportamento de cada um deles será influenciado por suas experiências prévias, “background” social, expectativas e percepções, estrutura de comunidade em que vivem, grau de comunicabilidade entre eles e até o ambiente físico da entrevista.
Nas páginas que se seguem, procuramos de modo tão sucinto quanto possível analisar quais esses fatores, classificando-os, didaticamente como: características pessoais do entrevistado, circunstâncias decorrentes da entrevista e o grau de comunicabilidade interpessoal entre os entrevistados.
2 OS FATORES QUE INFLUEM NA PARTICIPAÇÃO
Características pessoais dos entrevistados
Embora as características descritas adiante não estejam sempre presentes em todo entrevistado, a experiência tem confirmado que são forças motivadoras para produzir maior participação.
a- ALTRUISMO
O desejo de ajudar os outros está presente em algum grau, em qualquer ser humano.
Este desejo pode estar dirigido para o próprio entrevistador, para a instituição que patrocina a pesquisa ou mesmo para a sociedade como um todo, se o entrevistado perceber que sua participação poderá ser útil.
Dois são os meios pelos quais o entrevistador pode incentivar e trazer à tona o altruismo do entrevistado:
o estabelecer uma imagem da utilidade social da pesquisa em termos do sistema de valores da sociedade, grupo ou comunidade em que se baseia o estudo.
o enfatizar o papel especial de cada entrevistado em tornar possível que seja alcançado o máximo de utilidade social através da pesquisa.
É claro que esses apelos vão ser feitos de forma diferente a pessoas de diferentes níveis educacionais. Na medida que elas sejam mais qualificadas, o apelo se traduzirá em explicações mais técnicas do problema, no significado social da coleta de dados. Baixos níveis educacionais exigem explicações bem simples, tais como: “Os cientistas querem saber mais sobre este assunto e necessitam de seu auxílio para que depois eles possam auxiliar outras pessoas”.
b - Satisfação emocional
Para muitos raramente ocorre a oportunidade de expressar suas opiniões ou conversar com um bom ouvinte. O entrevistador oferece essa satisfação e mais particularmente se o material coletado for servir para algo útil e sério.
Noutros entrevistados, a satisfação decorrerá de uma certa identificação com o entrevistado ou com os patrocinadores da pesquisa. Pode ser muito recompensador para certas pessoas, o fato de estar colaborando numa pesquisa científica ou com uma universidade e ter sido selecionado como participante de tal estudo.
c - Satisfação intelectual
Semelhante à satisfação emocional, para certas pessoas, a entrevista é altamente recompensadora intelectualmente. Para pessoas que gostam de discussão e debate de idéias e cujas vidas não oferecem freqüente ocasião para isso, a oportunidade de ser interrogado sobre ter que pensar e responder sobre tópicos diferentes, é uma experiência agradável.
d - Experiência prévia
As motivações precedentes não operam no vácuo e só poderão produzir participação ativa quando moldadas por uma ampla variedade de fatores situacionais entre os quais se distingue a experiência prévia do entrevistado e a percepção de recompensas.
Se o entrevistado tem uma experiência prévia de entrevistas isso vai afetar positiva ou negativamente sua participação.
e - Percepção de recompensa tangível
Alguns entrevistados, percebem numa entrevista, recompensas tangíveis, não prometidas e nem sempre visíveis para o entrevistador.
Assim é que por exemplo, numa pesquisa de comportamento de eleitores, um entrevistado pode ver na entrevista um meio de obter maior poder político. Duma entrevista sobre doenças, o entrevistador pode julgar que obterá um conhecimento maior de certa doença ou mesmo um diagnóstico médico.
3 AS CIRCUNSTÂNCIAS DECORRENTES DA ENTREVISTA
As motivações que encorajam ou inibem a participação de um entrevistado, são modificadas pela situação: o horário, o local e o assunto. Todo entrevistado tem rotinas, atividades e preocupações que podem conflitar-se com a participação numa entrevista. O entrevistador que as conheça pode minimizar-se os conflitos. Muitos fatores são previsíveis: horário de refeições, horário de trabalho, horários de “pico de trabalho” da dona de casa, horário de programas de TV mais populares.
Em grupos homogêneos de entrevistados, ciclos sazonais de trabalho tais como o período de colheita para fazendeiros, épocas de fechamento de balanço para contadores, as épocas mais trabalhosas de cada negócio ou indústria, oferecem todos uma indicação de calendário mais ou menos favorável para realizar entrevistas e obter maior ou menor participação.
O local da entrevista pode também influir na sua participação. A entrevista na residência pode dar oportunidade de suplementar ou verificar informações pela observação da família e ambiente que vive o entrevistado.
Por outro lado se a casa é muito cheia de gente a reserva e sossego da entrevista serão prejudicados: outros membros da família podem influir com sua presença nas respostas ou distrair o entrevistador. Certas circunstâncias pessoais do momento da entrevista são inteiramente imprevisíveis. Assim, se a entrevista vai interromper uma discussão familiar ou a visita de um médico, por exemplo, o entrevistador deve ter suficiente tato para marcar outro horário.
Assim uma população de entusiastas do esporte estará predisposta para qualquer entrevista sobre suas atividades. Por outro lado, um grupo que esteja sofrendo críticas (executivos de certas indústrias, políticos) ou exercendo atividades ilegais (bookmakers por exemplo) não serão muito cooperativos para entrevistas sobre suas atividades. Quando se trata de assuntos – tabu assim definidos aqueles pessoais íntimos ou que não são de usual conversação em público (sexo, status financeiro, religião) as pessoas são mais relutantes de informar. Isso também ocorre com assuntos que embora publicamente discutidos, não agradam ao entrevistado por julgar que suas opiniões são incomuns ou condenáveis.
Grau de comunicabilidade interpessoal entre entrevistados
A comunicabilidade existente entre os entrevistados pode ser de grande influência na sua participação em entrevistas. É importante então conhecer uma estimativa do grau de comunicabilidade que têm entre si os entrevistados. Isso indicará como eles podem influir entre si. Assim é que, uma amostra de cidadãos de uma grande cidade dificilmente se comunica entre si. Por outro lado, numa seção do Rotary clube de uma pequena comunidade, a comunicação interpessoal é mais freqüente e cada membro provavelmente conhecerá bem seus companheiros. O grau de autonomia de decisão em participar ou não de uma entrevista é outro elemento a analisar.
Prisioneiros de penitenciárias, operários de uma fábrica, crianças na escola, não podem ser entrevistadas sem permissão superior. Embora essa permissão seja imprescindível, alguns entrevistados poderão ficar receosos de oferecer total participação ainda que tenham a permissão.
Até mesmo em grupos menos controlados, os líderes informais podem influir em seus seguidores a ponto deles preferirem consultá-lo antes de participar da entrevista.
A melhor estimativa do grau de comunicabilidade entre entrevistados é obtida através de estudo das duas redes sociais em que o entrevistador está situado: o conjunto de entrevistados o seu meio social e o seu grupo de referência cada uma dessas redes sociais oferece possibilidade de intercomunicação. A primeira rede – o conjunto de entrevistados pode estar geograficamente separado ou não: a tripulação de um navio, os operários de uma fábrica, os residentes de uma pequena vila, os membros da Associação Médica de um país ou região, os pediatras de cidades com mais de 100.000 habitantes. A distância entre entrevistados não indica o grau de comunicabilidade.
Interessa verificar o vínculo existente entre eles e o grau de comunicabilidade existente.
A segunda rede – o meio social dos entrevistados, isto é, as diferentes pessoas de seu ambiente que influem e, em alguns casos, controlam seu comportamento.
Em alguns estudos o conjunto de entrevistados e o meio social serão idênticos.
Mas haverá casos que serão completamente separados. Em uma pesquisa por exemplo sobre estudantes universitários, o corpo docente pode não estar sendo entrevistado,, embora faça parte do seu meio social..

