Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

ORIENTAÇÃO DIDÁTICA PARA USO DA INTERNET NO ENSINO

 

 Gilberto  Teixeira,Prof.Doutor (FEA/USP)

Integração com o currículo

Vários fatos precisam ser levados em conta quando se pensa em usar o computador como ferramenta educacional. O computador traz uma nova dimensão ao ensino quando empregado para trabalhos colaborativos, quando fontes originais são consultadas, quando usado para debater e discutir. Para que trabalhos envolvendo a Internet tragam algo de novo, eles devem levar em conta todos esses aspectos. Com isso, além do conteúdo normal que um professor tem de ministrar, ele deve ainda se preocupar com todo esse "a mais". O uso da Internet nesse contexto é mais efetivo quando se trabalha por projetos, outro fato incomum no ensino tradicional. Trabalhar por projetos exige normalmente mais tempo que a simples transmissão de conhecimento pronto.


Resumindo, o professor precisa trabalhar mais aspectos com os alunos, e ele próprio não está acostumado com alguns deles. Precisa fazê-lo dentro de um currículo bastante limitado e tem de aprender novas tecnologias. A única razão para investir em tal empreitada é acreditar que ele pode fazer um trabalho melhor, ter mais prazer com isso e proporcionar uma formação melhor aos alunos. Para tanto, o professor precisa de muito suporte e ajuda. Idealmente ele teria apoio dos orientadores, diretores e outros professores. Na prática, ele precisa "cavar" esse apoio e buscar suporte fora da escola com professores que já passaram por essa experiência e têm entusiasmo em ajudar.
Uma sugestão: começar com projetos curtos e simples que eliminem a necessidade de cobrir algum assunto do currículo da forma tradicional. De preferência, o professor deve escolher algo que um professor de outra matéria possa aproveitar também. Com isso ele ganha um parceiro para discussões e ambos podem dividir as aulas para o desenrolar dos projetos. Isso pode exigir um remanejamento de conteúdos dentro do currículo de pelo menos um dos professores envolvidos.
 
 

A prática pedagógica
Como exemplos dessa complexidade, analisemos do ponto de vista organizacional alguns projetos.
Comecemos com o projeto Os Brasis dos Brasileiros. É um projeto pensado para alunos do ensino médio, para ser desenvolvido em parceria com no máximo dez escolas de outros Estados. A idéia é que os alunos troquem informações sobre suas regiões para que percebam as semelhanças e diferenças. O esquema proposto de comunicação entre os alunos sem dúvida motiva a construção de um conhecimento genuíno. A proposta é levantar dados de desenvolvimento econômico (indústria, comércio, serviços, infra-estrutura) e produção cultural (música, dança, teatro, folclore). Os resultados dos trabalhos serão divulgados nas páginas das escolas na Internet, trazendo mais motivação para a produção de pesquisas originais e interessantes
Do ponto de vista organizacional, quanto tempo leva um trabalho desses, que foi pensado em três fases, para ser desenvolvido pelos alunos? Que matérias devem ser envolvidas? Quantas aulas serão necessárias? Serão abordados tópicos do currículo tradicional? Logicamente com um tema tão rico é possível envolver diversas disciplinas e conseguir muitas aulas para o desenvolvimento do trabalho, mas a coordenação tem de ser extremamente eficiente. Sem dúvida, pode-se envolver o professor de geografia. O de português tem um "prato cheio" para trabalhar gramática, modismos, concordância, erros comuns. O de história pode levantar historicamente a origem das diferenças de cultura etc. Será que esses tópicos estariam programados para serem cobertos ao mesmo tempo ou no mesmo ano? Será que todos os professores pensaram em aproveitar esse gancho de motivação dos alunos para introduzir seus temas?
Outro exemplo interessantíssimo - e complicado de realizar na prática - é o do projeto Por mares nunca dantes navegados. Nesse projeto, o poema Os Lusíadas serve de motivação e são trabalhados os aspectos de comunicação, cooperação entre escolas, descoberta de conhecimento, construção de conhecimento, e interdisciplinaridade. Todos esses aspectos são extremamente importantes e não estão incluídos no currículo normal. Os trabalhos são desenvolvidos através de "rotas", que podem ser: literárias, históricas, artísticas, filosóficas, sociológicas ou outras propostas pelos participantes.
O projeto pressupõe trabalhos em salas de aula, em bibiotecas, em laboratórios de informática e na Internet. Também serão usadas sessões de chat. A elaboração e redação dos trabalhos foram pensadas inicialmente para serem realizadas em sala de aula. Posteriormente usam-se os laboratórios de informática para o tratamento das informações. Estima-se que cada turma invista de 20 a 30 horas letivas durante o ano. Esse número é aumentado sempre que o tema for encampado por mais uma área. Cada professor dedica ainda 2 horas semanais para trabalhos relacionados ao projeto. Um professor responsável pelo projeto como um todo dedica ainda mais 2 horas para a coordenação, manutenção da home-page e contato com outras instituições.
Vemos que esse projeto é riquíssimo também do ponto de vista de abertura e motivação. Com essa abordagem é possível envolver professores de várias áreas. Mas o que fazer com o currículo tradicional? A substituição de aulas convencionais por aulas para trabalhos com base nesse projeto deve levar em conta que os mesmos conteúdos deverão ser abordados.
Pensando na flexibilização de currículos sugerida pela nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as escolas podem começar a se planejar para propôr novos cursos e integrá-los à formação geral do aluno. O InterArte é sugestivo nessa direção. Nesse site pode-se trabalhar conjuntamente o desenvolvimento da sensibilidade artística e literária do aluno. Numa abordagem muito motivadora, no site são sugeridas várias atividades para serem realizadas com os alunos para melhor aproveitamento do material. Porém, a integração com o currículo e com as metas de ensino da escola tem de ser cuidadosamente planejada em cada caso. Convém mencionar que várias previsões indicam que no futuro as profissões de maior sucesso estarão relacionadas à cultura e ao entretenimento, portanto vale a pena investir desde agora.
 
Avaliação do aluno

Chegamos a mais um ponto crucial: a avaliação. O trabalho por projetos forma os alunos sob um ponto de vista mais geral. Analisá-los apenas segundo os critérios usuais de conhecimentos "decorados" não é suficiente para detetar progressos e dificuldades quanto aos outros aspectos trabalhados. Não é só o ensino, a avaliação também tem de ser diferente: mais uma sobrecarga para o professor! Este deve estar atento ao envolvimento do aluno, à qualidade de suas intervenções, aos resultados obtidos etc.

A avaliação com caráter punitivo e comparativo tende a ter um efeito negativo no ensino. Os alunos se esforçam  quando percebem  que o que estão fazendo é util e tambem ludico.
Por outro lado, são cada vez mais aceitas as idéias de que alunos com dificuldades numa área podem se mostrar muito capazes em outras e de que a escola deve incentivar o desenvolvimento das diferentes inteligências.
Quando alunos usam a Internet para buscar recursos ou desenvolver projetos colaborativos, pode-se avaliar: iniciativa própria, autonomia, postura positiva, capacidade de expressão e colaboração, organização de idéias e de recursos coletados, aproveitamento dos recursos, maturidade frente a problemas reais, senso crítico, criatividade etc. Esses pontos geralmente não são trabalhados nem cobrados no esquema tradicional de ensino baseado em livro-texto/notas de aula e aferidos em provas/testes.
Na avaliação do aprendizado adquirido com apoio da Internet, os professores têm de acompanhar os alunos enquanto eles trabalham sozinhos ou em grupos. Tal tarefa não é inviável, uma vez que o papel do professor nesse momento não é o de transmissor de conhecimento "digerido" e sim o de sugerir caminhos e acompanhar progressos. Enquanto acompanha ele já pode avaliar, preferencialmente em formulários já prontos para isso ou em planilhas específicas em um computador portátil. Esses formulários dependem do contexto em que vão ser utilizados: dependem do nível da turma avaliada, dependem da importância que se dá a esse tipo de conhecimento e de sua colocação em relação aos outros métodos de avaliação utilizados. Como essas habilidades não são exclusivas de nenhuma matéria, é importante comparar as avaliações obtidas por diferentes professores para construir o perfil do aluno, detetando suas dificuldades. Isso exige colaboração entre os professores, orientadores e coordenadores.
Os próprios alunos devem ser envolvidos no processo avaliativo. Pode-se pedir uma auto-avaliação por parte de cada aluno, em itens preestabelecidos, e dar nota a essa auto-avaliação. Avaliações feitas por colegas também são importantes e estes devem ter notas por esse trabalho. Quando os trabalhos forem desenvolvidos em grupo, o mesmo se aplica aos componentes do grupo, ou seja, avaliação do próprio trabalho, dos colegas e avaliação da avaliação.
Quando se incluem na avaliação itens como postura positiva, senso crítico e capacidade colaborativa tanto nos trabalhos como nas avaliações das avaliações, incentiva-se um espírito colaborativo cuja tendência é criar verdadeiras comunidades de aprendizagem nas quais todos se ajudam. A avaliação deixa de ser punitiva e passa a fazer parte importante do trabalho de formação.
É bom ter como máxima: "A avaliação como crítica de um percurso de ação será, então, um ato amoroso, um ato de cuidado, pelo qual todos verificam como estão criando o seu 'bebê' e como podem trabalhar para que ele cresça" (Cipriano Luckesi, in Raízes e Asas, Cenpec).
Deve-se também levar em conta o projeto inicial e o produto final: qualidade da proposição, realização dos objetivos propostos, profundidade, respeito ao cronograma.
A avaliação faz parte do processo de ensino e portanto deve ser feita durante o processo, com feedback aos alunos e intervenções corretivas. Não se deve esperar o resultado final para simplesmente dar nota, mesmo porque muitos projetos duram por vezes algumas semanas e o aluno não pode ficar todo esse tempo "à deriva".