Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

O MÉTODO VIVENCIAL NO ENSINO DE ADMINISTRAÇÃO

 

Gilberto Teixeira
(Prof. Doutor FEA/USP)
 
 
 
I – O QUE É APRENDIZAGEM VIVENCIAL ?
Há diferentes pontos de vista e conceituações sobre o que seja a aprendizagem vivencial e sobre o campo abrangido por esse método.
A seguir listamos uma serie de definições sobre a aprendizagem vivencial, que embora sejam referentes ao ensino de marketing, podem por extensão abranger outras áreas
 
"A aprendizagem vivencial no ensino, significa colocar o aluno no ambiente real ou simulado de tal forma que ele se
engaje na atividade em estudo.
Esta abordagem contrasta com o processo tradicional de aprendizagem que se desenvolve através da leitura de textos, aulas expositivas ou participação em discussões (1)"
 
"A expressão aprendizagem vivencial refere-se àquela técnica em que é utilizado como base para o processo de aprendizagem a experiência e vivência do aluno.
Esta definição implica em adotar a postura de que o processo de aprendizagem é ativo (2)".
 
"A aprendizagem vivencial é uma abordagem educacional que envolve de forma ativa o aluno no processo de aprendizagem (2)".
Observa-se nos últimos anos uma tendência crescente do uso de materiais de aprendizagem vivencial na educação e treinamento de administradores (3).
A abrangência do que possa ser considerado material de aprendizagem vivencial varia muito entre os diversos autores,
que incluem :
·        Jogos
·        Simulações
·        "Role Playing"
·        Método de caso
·        Projetos de pesquisa
·        Exercícios estruturados
 
Ha autores que adotam uma definição mais restrita e consequentemente exclui alguns dos métodos relacionados acima (4).
A mais simples conceituação do que seja aprendizagem vivencial é de que ela abrange todo material em que os individuos
"aprendem fazendo" (5).
 
Talvez tenha sido Confúcio um dos precursores a definir a aprendizagem vivencial quando disse:
·        Quando eu ouço, eu esqueço
·        Quando eu vejo, eu me recordo
·        Quando eu faqo, eu compreendo
 
Na verdade a aprendizagem vivencial não se resume somente em "aprender fazendo"; ela implica em mudança de comportamento a para bem compreender este aspecto de mudança a melhor maneira é analisar as etapas da aplicação de um exercício de aprendizagem vivencial:
1°) O aluno é solicitado a descrever como ele agiria ou como deveria agir em uma dada situação (esta é uma etapa opcional).
2°) O aluno é colocado numa situação que deve agir, isto é, tomar uma decisão, desempenhar um papel ou analisar fatos relativos a situação dada.
3°) A experiência do aluno na etapa 2 é analisada. Como foi seu comportamento na situação; como ele se sentiu ?
4°) E feita uma comparação entre a forma de agir que era esperado (da etapa 1) e a ação real (da etapa 3).
5°) É sugerido pelo facilitador (professor) uma abordagem alternativa e dada ao aluno a oportunidade de experimentar a alternativa sugerida (também opcional esta etapa).
6°) O grupo (a classe) e o facilitador (professor) auxiliam a apoiar o aluno no momento em que ele está experimentando a alternativa (nova abordagem ou nova ideia).
Esta etapa, tambédm opcional, pode se realizar através de discussão de grupo e leituras extras que tratem da situação vivencial.
Essas experiencias tendem a sensibilizar os alunos para discussões e leituras subsequentes na medida em que induzem‑nos a buscar uma "resposta" para seu problema.
7°) O aluno avalia a nova abordagem (ideia) e faz pianos de ação futura quando se defrontar com uma situação similar.
 
Da analise das etapas acima, podemos sintetizar que a aprendizagem vivencial significa que uma pessoa (aluno)
(1) define (para si próprio), como ele iria (ou deveria) agir numa dada situação;
(2) é colocado na situação em que deve agir (fazer algo novo);
(3) analisa como agiu e como se sentiu após a ação
(4) comparar a diferenca entre o que ele achava previamente que deveria ser a ação tomada efetivamente.
Após fazer a comparação (e constatar a discrepância) o aluno considera uma abordagem diferente (oferecida pelo facilitador ou pelo grupo) a avaliar essa nova alternativa.
Desta forma, a aprendizagem vivencial não se resume em somente "fazer", ela envolve execução, comparação, avaliação de uma nova alternativa e recebimento de apoio (ou reforço), para criar a mudança de comportamento do aluno.
No ambiente de aprendizagem vivencial o aluno é engajado ativamente na execução de uma tarefa (exercício, decisão etc) para a qual existe uma meta fixada e ele aprende tanto com a execução da tarefa, como também com a avaliação da sua performance pela comparação dela com uma norma ou teoria apropriada (6).
Os resultados de um exercício de aprendizagem vivencial são em grande escala determinados pelo desempenho do professor ou facilitador.
Por isso, discutiremos a seguir o papel que deve ser desempenhado pelo professor no exercício de aprendizagem vivencial de forma a maximizar os efeitos de aprendizagem.
 
 
2. O PAPEL DO PROFESSOR
De acordo com Kolb, Rubin a McIntyre (7)
 
"... a finalidade do exercício de aprendizagem vivencial não é
somente a de aumentar a compreensão de situações
concretas em termos de princípios.

Eles podem ser úteis também como um meio de desenvolver habilidades para situacoes grupais; habilidades de observação, habilidades de autocompreensão, habilidades de adaptar o comportamento as exigencias da tarefa a as
necessidades do grupo a dos indivíduos."
 
Hoover, por outro lado (8), apoia esses ideais ao indicar a aprendizagem vivencial como uma métodologia de ensino que é centralizada no individuo como um ser integral.
O papel do professor no exercício de aprendizagem vivencial deriva fundamentalmente da postura de centralizar o processo na "aplicação" ou seja, "centralizado nas habilidades".
Isto implica numa dramatica e radical mudança em relação a postura tradicional que é a do processo de aprendizagem centralizado na teoria.
O professor vivencial seria melhor descrito como um integrador e facilitador do processo, como muito bem define Samuel Certo (8).
 
"A habilidade não decorre nem da teoria exclusivamente nem da experiencia, mas da integração de uma com a outra. O papel do professor a garantir que essa integracdo ocorra".
 
De acordo com Keys (9) o objetivo de um eficiente professor
deve ser o ter que misturar, integrar, de forma equilibrada
os três fatores conteudo, experiencia a feedback".

 
Para realizar essa função integradora o professor deve:
[1] Encorajar a discussão e integração grupal.
Como os alunos aprendem tanto com o professor como seus companheiros, envolvimento dos participantes e um pre‑requisito para cesso da experiência da aprendizagem vivencial.
[2] Desenvolver um clima educacional em que os alunos aprendem novos comportamentos ao realizarem exercícios vivenciais.
Dimock (10) indica que o ambiente de aprendizagem vivencial deve incluir a oportunidade para que o individuo adquira e reforce novos padrões de comportamento através da prática desses padrões com a liberdade e seguranca de uma situação de aprendizagem.
Veiga a Anderson (11) por sua vez afirmam que o papel do professor envolve a demonstração e o reforco do comportamento desejado nos alunos; abrangem também proporcionar‑lhes encorajamento, orientação e direcionamento enquanto estão no processo de aprendizagem.
[3] Agir como um recurso de aprendizagem, um consultor
do grupo.
[4] Facilitar a aprendizagem através da teoria e da experiencia.
Os professores Certo a Dougherty (8), a este respeito enfatizam:
 
"a experiencia por si so não constitui a aprendizagem.



A experiência pode tornar‑se agradavél e divertida a um grande entretenimento mas isso não é aprendizagem.



A aprendizagem ocorre através da reflexao cuidadosa do exercício realizado.
E ao professor cabe dirigir esse processo de reflexão.
 
Como um facilitador do processo nas situações de aprendizagem vivencial, o professor deve assegurar que a essa aprendizagem ocorra em dois níveis.
O primeiro nível é o de "conteudo" de exercício vivencial, isto é, todas as atividades e material de leitura que o grupo deve conhecer para que possa posteriormente reconstruir e refletir sobre o que ocorreu no exercício.
O segundo nível é o "processo" através do qual o exercício é realizado.
Isto implica não só no que foi falado e porque foi falado, mas também em como e porque foi falado e nas conseqüências das afirmações feitas.

3‑ REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
Ronald h. Gorman; James h. Sood, "Experimental learning in the study of Marketing: an overview", in M. Waine delozier, Dale M. Lewison a Ruth Andress (ed.) “Experimental learning in Marketinp" Education: Proceedings of the October 1976 Conference of the MidAtlantic Marketing Association (division of Research, College of Business Administration, University of South Carolina, March 1977), p. 1.
J. Scott Armstrong, "Designing and using experiential exercises" ibid., p. 8.
Roberts, Ralph M., Stephen E. field., "Using Student Opinion in Evaluating Results with Business Game", in Richard H. Bwokurk (ed.) Simulation, Games and Experiential Learning in Action, Associations of Business Simulation and Experiential Learning Proceeding's, 1975, pp. 92‑99.
Ver por exemplo, George M. Dupuy a William J. Kchoe, "Article Presentation Module : A supplementary program for Marketing Courses", Ibid. pp. 121‑123.
Hoover, J. Duane, "Experiential learning : conceptualization and definition", in James Kenderdine a Bernard Keys (ed.) Simulation, Games end Experiential Learning techniques: on the road to a new frontier Association for Business Simulation and Experiential learning Proceeding's, 1974, pp. 31‑35
Certo, Samuel C., a J. Paul Peter, "An exploratory analysis of perceived learning dimensions in an experiential learning situation" em Robert L. Taylor et. Alii, (Ed), Academy of Management Proceedings, 1976.
Kolb, David A., Irwin M. Rubin a James M. Mcintyr Organizational Psychology: an experimental approach Ind. Ed., Englewood Cliffs, NJ, Prentice Hall, 1974.
Certo, Samuel, C.; Robert Dougherty, Organizational Leadership: skills through theorv and experience, Dubuque: Kendall Hunt, 1975.
Keys, Bernard, "Socrates, all others teachers fit on learning grid somewhere" Simulation/Gamin News, vol. 3, n.° 2 (1976), 9‑10.
Dimock, Hedley G. "Improving communication skills trough training", The Journal of Communication, vol. II, n.° 3 (1961), pp. 149, 156.
Veiga, John; Thomas C. Anderson "Some thoughts about the experiential approach: the exercise, the teacher, the student, and educational climate”, em Martini J,. Gannon (Ed.) Eastern Academy of Management Proceeding s, 1974.