Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

O ENSINO UNIVERSITÁRIO NUMA ÓTICA ROGERIANA

 

                                                     (Gilberto  Teixeira (,Prof.Doutor  FEA/USP
)
I - CONHECENDO O ALUNO
O ingresso em um curso superior, além de representar uma aspiração imposta aos jovens pela sociedade, é uma ruptura bastante grande a nível educacional. Há uma ótica diferente em relação ao saber.
No segundo grau estudava-se para ser aprovado e nos cursos preparatórios ao vestibular a motivação é ingressar em uma faculdade. Em ambos os casos, entretanto, o meio é o mesmo: saber regras, decorar fatos e datas, sem que a profissionalização interfira no processo do saber. Nos cursos de nível superior há ou deveriam haver mudanças neste aspecto. O "entender" assume grau superior e o "saber" é uma decorrência imposta necessidades do conhecimento adquirido com prolongamentos no futuro profissional do universitário. Este é um fato cultural entre os muitos que implicam na mudança do comportamento humano.
Em conseqüência desta inversão de valores, a responsabilidade docente deve ser encarada não como mera função de serviço, de cumprimento de horários e deveres impostos 1ª instituição. É necessário ir além, entender que se está auxiliando, a curto prazo, o nascimento de gerações que serão agentes de mudanças que se refletirão em novas formas de comportamento e, portanto, em mudanças sociais.
Em 1967, pesquisadores da UNESCO[1] alertavam os docentes das escolas superiores, concluindo que "a maioria" dos estudantes que iniciam os estudos de 3º grau espera deles uma vida mais livre do que a que conheceu nos bancos da escola, um novo tipo de relacionamento com seus professores".
De fato, se analisarmos os método de ensino utilizados pelas universidades, vamos constatar que há relativo progresso na vida do estudante universitário em relação a estágios inferiores da educação. Entretanto, esses métodos, ainda que menos alienantes, são prolongamentos de surradas técnicas educacionais empregadas no segundo grau.
No secundário, a aula expositiva acompanhada de exercícios de reforço é a técnica de ensino mais comum. Na verdade, é uma forma de escamotear a obrigação do aluno de decorar soluções padronizadas para alguns tipos de problemas. Neste caso, o estudante ao enfrentar situações não resolvidas dentro de parâmetros vistos em aulas, não estará preparado para usar seu intelecto e chegar a resultados corretos.
Uma outra forma comum chamada de avançada por algumas escolas de segundo grau é a técnica da pesquisa. Nota-se, contudo, que o aluno não é incentivado e orientado a realizar pesquisas dentro dos mais primários métodos e técnicas. Em geral, o levantamento bibliográfico resume-se a uma enciclopédia escolar, limitando-se, o aluno, a copiar o texto relativo ao assunto, para obter a nota necessária que lhe garantirá boa média bimestral.
Os seminários, quando aconteceu, são desprovidos de análise crítica, refletindo fidedignamente o baixo índice de leitura de alunos e professores.
O chamado ensino seqüencial está, aos poucos, obtendo status de ensino do futuro. Mais que outros métodos - ao menos dentro do modelo atual - ele em nada acrescenta ao crescimento potencial dos estudantes. A técnica de apresentação de questões para as respostas discentes, leva o estudante a refletir soluções corretas sem qualquer participação subjetiva em suas respostas. esta técnica ensejou o aparecimento das "máquinas de ensinar" que acabará por nivelar os conhecimentos a um mero banco de dados.
Estes e outros métodos carentes de espaço para a criatividade individual, lamentavelmente, parece que perdurarão ainda por muito tempo. Segundo alguns, eles são eficientes para a democratização do ensino onde o conceito de democracia em educação é interpretado tão somente pelo número elevado daqueles que têm acesso a tais tipos de formação direcionada. A própria UNESCO[2] considera modernas as grandes universidades em que determinadas aulas são assistidas por mais de duzentos estudantes. Como conseqüência dessa massificação educacional, que pouco contribui ao crescimento do indivíduo, assistimos, inertes, ao domínio da sociedade por elites (intelectuais, econômicas e detentoras dos meios de comunicação) que encontram campo fértil para o domínio de suas idéias.
Na universidade, os métodos são similares. Exige-se do aluno, entretanto, descuida-se do preparo não obtido em escolas do segundo grau e, muito menos, nos preparatórios aos vestibulares que se preocupam exclusivamente em descobrir técnicas que permitam aos seus alunos grandes chances de aprovação nos exames de ingresso às escolas superiores.
Segundo Rich[3] pode-se fazer uma analogia entre o estudante e o trabalhador. O autor lembra que, para Marx, "o homem realiza-se através de seu trabalho, de seu sentido de criatividade e da satisfação de seus desejos. O mesmo ocorre com o estudante que deve realizar-se através dos mesmos fatores, ligados a sua atividade de obtenção do saber".
Ora, quando a política educacional de um país retira de seus estudantes todas as possibilidades de auto realização, não oferecendo condições para o aprimoramento de suas condições intelectuais e a organização das escolas superiores optam por metodologias impróprias ao crescimento individual, fazendo de suas atividades uma obrigação, criam-se campos propícios ao descontentamento e desconfiança. Tal qual o trabalhador em uma sociedade capitalista, o estudante aliena-se de seus afazeres discentes.
Freinet, citado por Léveque e Best[4] diz que a pretensão de se definir antecipadamente, para os alunos, a sociedade na qual desejaríamos vê-los viver mais tarde, é absurdo pedagógico e histórico, tanto são importantes de determinantes os múltiplos elementos de apreciação e de ação que escapam aos pedagogos e que os próprios sociólogos mais avisados não saberiam prever, nem precisar.
Essa visão fenomenológica parece ser uma das bases sobre as quais se deve alicerçar princípios educacionais.
A mesma opinião é esposada por Lembo[5] que, ao comentar as convicções que norteiam e fundamentam os processos tradicionais de ensino, delineia as crenças de que há necessidade de manipulação, para que o aluno aprenda; de que os adultos sabem o que os jovens devem aprender; de que há um processo determinado de aprendizagem para a orientação dos estudantes e de que os estudantes devem ter um desempenho previsível de ser alcançado.
Estas premissas significam que a aprendizagem deve ser controlada, atribuindo ao professor o papel de juiz, detentor de todo o saber e justiça. Aos alunos cabe a incomoda posição de ser submisso, coagido e castigado - por diversas maneiras - toda a vez que sua individualidade não se concilia com o poder instituído.
O papel de agente, atribuído ao professor, e de paciente, atribuído ao aluno. é a repetição de vários fatos históricos de dominação que acabaram em grandes conflitos, onde os dominados se rebelaram impondo derrotas aos seus dominadores.
Em educação, esses confrontos não acontecem com freqüência. Na maioria das vezes os dominados abandonam o campo de batalha e procura outras frentes onde se repetirá o mesmo processo de luta e acabam por se conformar com a estrutura que lhes é imposta pela classe dominante.
Como a própria história revela, entre os dominadores surgem elementos inconformados com seu papel e função e, deste inconformismo, nascem novas idéias e conceitos destinados a substituir os vigentes. Maslow, Rogers, Murphy e os educadores humanistas podem ser citados, em Educação, como os revolucionários que traçaram novas metas para a aprendizagem efetiva.
De acordo com a abordagem de Rogers, por exemplo, pode-se falar em uma teoria o crescimento, aqui entendido como um caminho para a maturidade, o que deve coincidir com a faixa etária que vai desde os primeiros passos para o ingresso na universidade até parte do curso superior do estudante. O ser humano, para o psicanalista e educador, é um organismo em processo de integração; independente e autônomo e, como tal, deve ser aceito e respeitado; é movido por sentimentos e experiências que são importantes fatores de crescimento; tem condições de se autodirigir e se ajustar de acordo com suas necessidades e, finalmente, tem o presente a motivá-lo.
A escola deve considerar todos esses fatores ao traçar os objetivos educacionais de seus cursos, visando o crescimento dos indivíduos de sua clientela. Ela não deve impor, deve favorecer a cada um as possibilidades do respectivo auto equilíbrio.
Há, ainda um outro fator importante a ser pesado no relacionamento com alunos: o momento histórico vivido e do qual o estudante é parte ativa e passiva. O estudante traz para a sala de aula todas as ansiedades e experiências. Esses valores devem ser considerados em todos os momentos da vida do estudante. O desejo de entender o mundo que o cerca e a cultura de que faz parte é elemento propulsor para o aprendizado. Sua forma de expressar a realidade e criar soluções para os problemas inseridos em seu meio são formas de ampliar seus conhecimentos e atingir seus objetivos de maturidade. Sua forma de expressão não deve ser limitada por princípios e regras castradoras. Essas normas inibem a criatividade e o crescimento individual.
Rogers[6] trata também da avaliação, dando ênfase a ela como uma forma de engrandecimento do indivíduo. Suas proposições (hipóteses, como prefere) revela que as pessoas têm um processo organizado de avaliação. Isto é, o indivíduo está sempre aberto a reajustar-se, desde que consiga sobrepor novos valores aos que lhe foram introjetados. Diz ainda que o ser humano está aberto a mudança que resultem no seu engrandecimento individual, ou seja, avaliando os valores que lhes são apresentados, julga-os e os adotará se sentir que eles representam possibilidades de crescimento.
A adoção das teses de Rogers, de outros humanístas, porém abaixo os conceitos dos comportamentalistas que vêem o ser humano como produto de condicionamentos. Tem-se, através dos humanistas, a visão do homem como ser em processo, em crescimento contínuo e próprio para cada indivíduo.
Para o professor essas premissas são importantes. Se o ser humano está em contínuo reprocessar e os fatos culturais são elementos intervenientes nestas atividades, por que não usar esses fatores como meio e fim do processo de aprendizagem?

II - CONHECENDO O PROFESSOR
Morales[7], citando Hildebrand, delineou o perfil do bom professor, obtido através de pesquisa que "destruiu o mito de que se desconhece a natureza do bom ensino ou de que esta é demasiado sutil para ser compreendida". Os resultados apontam que os bons professores:
1 - Conhecem a matéria;
2 - se comunicam facilmente com os estudantes;
3 - estabelecem relação de cordialidade com a classe, são hábeis para organizar a participação do grupo e permitir a mútua interação;
4 - respondem de forma pessoal a cada estudante e
5 - manifestam entusiasmo contagioso que desperta o interesse do estudante e estimula a reação deste.
Podem parecer óbvias as características apontadas entretanto, uma análise um pouco mais profunda revela que pouco mestres conseguem reunir todos os citados atributos.
Lembo[8], por exemplo, responsabiliza o professor pelo insucesso do aluno quando emprega estratégia de coerção e de controle usando métodos inadequados. Cita processos institucionais utilizados que são maléficos para a formação do estudante. Entre eles, identifica a competição como um dos males da educação tradicional. Para o autor, o aluno sujeito a tal "incentivo" procurará formas obter os resultados que o classificará dentro dos padrões desejados e idealizados por instituição e professores, ferindo os princípios de ética e honestidade, com a utilização de "cola", decoração e até corrupção.
Bartels[9] apresenta outros procedimentos docentes incompatíveis com o aprendizado efetivo do aluno. Indica a aula expositiva tipo monólogo, que converte os alunos em meros receptores, como forma alienante de aula. Atribui ao relacionamento inamistoso com os alunos e à excessiva preocupação com o conteúdo formal do curso como origens de insucesso educacional e causas de muitos conflitos. Condena o professor que se esquece da extensa rede de informação a que está sujeito o aluno e considera suas aulas como o único centro irradiador de saber e cultura e, finalmente, repreende a expressa preferência por determinados alunos clientelismo - em detrimento de outros, como fator gerador de controvérsias e desestímulo à criação de um ambiente favorável ao aprendizado.
Fritz, citado no artigo "Em torno de uma melhora da comunicação professor-aluno"[10] , enumera cinco condições para que haja relação satisfatória à promoção do aprendizado:
1 - Comunicação aberta, que deve trazer um clima amistoso às dependências onde se dá o aprendizado;
2 - Considerações e respeito ao sentimento dos alunos, isto é, as pessoas devem ser vistas dentro de suas indivualidades e, como tal, respeitadas;
3 - Processos democráticos de decisão, que retira do professor a figura de mero agente do sabre;
4 - Comunicação livre de toda a autoridade, que não exime as partes de responsabilidade e respeito e
5 - Apreço mútuo, ou seja, respeito às individualidades na solução das controvérsias que surgem em todos os momentos do relacionamento humano.
Conclui-se pois que o professor, na visão humanística, deve ter consciência de seu trabalho de comunicação interpessoal, de interação com seus alunos em busca do crescimento individual respeitando as características de personalidade de cada um.
Lepargneur[11] comentando as forças que atuam sobre a formação do estudante, diz que "não há liberdade sem ciência das dependências que, de toda parte, nos encerram: estruturas, leis, determinismos" etc. Deve-se entender que a liberdade desejável não implica em caos. Há toda uma estrutura social e cultural que interage no comportamento humano e que, portanto, por natureza, não há perigo de que o relacionamento em sala de aula ou na sociedade tenda ao anarquismo ou ao conflito irreconciliável. Ao assumir a síntese do passado e as possibilidades futuras, o homem empreende marcha para a maturação e para sua plena liberdade que, em última análise, significa obter condições para desenvolver sua criatividade.
É do citado autor[12], também, a conclusão que a educação, tal qual a sociedade (unidade e diversidade) tem duas faces: a inserção, que permite ao indivíduo reconhecer os valores coletivos, necessários à sua adaptação à sociedade e a utilização, através da qual o indivíduo coloca a serviço da coletividade seus valores pessoais que contribuirão para as transformações sociais. Essa dupla articulação, antes de ser incongruente, é fator de adaptação e criatividade.
Siloé[13], quando apresenta os pressupostos de Maslow amplia as conclusões de Pepargneur. Para Maslow, o ser humano deve ser entendido como:
1 - Possuidor de uma natureza interna, herdada, com tend6encia a persistir;
2 - Parte dela é universal e parte individual;
3 - É possível um estudo científico da natureza humana e a descoberta de suas características;
4 - Grande parte da natureza interna é inconsciente, por ter sido alvo de repressões;
5 - Mesmo tendo sido reprimida, a natureza interna possui forças que geram impulsos para o crescimento, em busca de identidade;
6 - O homem amadurece em parte pela descoberta e em parte pela criação individual;
7 - A repressão da natureza pessoal resulta em desequilíbrio e frustrações;
8 - O equilíbrio pessoal será possível através do respeito interno e externo;
9 - A auto realização se define pela aceitação pessoal e social e pela existência de fatores que impliquem na redução de capacidade;
10 - A educação deve facilitar a expressão e a espontaneidade do ser humano.
Essa visão existencial do ser dá novas dimensões à Educação. Os alunos, como seres humano, devem ser ponderados pelos professores em suas plenitudes individuais e os objetivos educacionais devem ter como meta a liberdade e o crescimento pessoal.
Rogers[14], neste aspecto, confirma as afirmações de Maslow, quando entende que a função do professor não pode ser a de ensinar, eis que este ato tem pouca significância no comportamento. Conclui que a solução é facilitar o aprendizado de seus alunos, levando-os à autodescoberta, à experimentação, que se refletirá no seu auto crescimento.
 


[1]      UNESCO. A Educação no Mundo - Vol. 2 (trad. Fúlvia M. Luiza Moretto). São Paulo, Saraiva / EDUSP, 1982, p. 85.
[2]      UNESCO, obra citada, p. 97.
[3]      RICH, J. M. Bases Humanísticas da Educação (tradução de Fernando de Castro Ferro). Rio de Janeiro, ZAHAR 1975, p 83.
[4]      LÉVEQUE, R. & BEST, F. Por uma filosofia da educação, Tratado de Ciências Pedagógicas - Vol. 1 (trad. Luiz D. Penna e J. B. D. Penna) São Paulo, Nacional / EDUSP, 1974, p 107.
[5]      LEMBO, J. M. Por que falham os professores (trad. Maria Pia M. Charlier e René F. J. Charlier) São Paulo EPU/EDUSP, 1975, p. 9.
[6]      Rogers, Carl - Liberdade para aprender, Interlivros Belo Horizonte, 1.967
[7]      MORALES, Ernesto M. Un perfil del maestro universitário, in Revista de la Educação Superior, México, 24: 3-18, out/dez 1977, p 3.
[8]      LEMBO, obra citada, p. 27.
[9]      BARTELS, Klaus. La dimensión personal en la clase. 'Su abandono y redescubrimiente critico en las modernas teorias de enseñanza. Educación, Tubingen, Inst. de Colaboración Científica, 21:41-59, 1980 p. 51.
 
[10]    STEINHILBER. Horst et alli. En torno a una mejora de la comunicación profesor-alumno, Educación. Tubingen Inst. de Colaboración Científica, 21:41-92, 1980, p. 79.
[11]    LEPARGNEUR, Hubert. Liberdade e Diálogo em Educação (Tradução de Eliseu Lopes), 1º ed. Rio, Vozes, 1971 p. 137.
[12]    LEPARGNEUR, obra citada, p. 157.
[13]    PRETTO, Siloé P. N. Educação Humanística, São Paulo Cortez & Moraes, 1978, p. 13.
[14]    ROGERS, obra citada, p. 155.