Gilberto Teixeira ,Prof.Doutor (FEA/USP)
Aprender é uma necessidade constante em nossa vida. Por isso, no artigo a seguir, damos algumas sugestões que podem ajudar o leitor a não abandonar a estrada do eterno aprendizado.
Muita gente se habituou a pensar em aprendizagem como o período escolar: começamos no primeiro grau e chegamos até a faculdade, cuja conclusão representa o diploma que, em geral, vai permitir o exercício da profissão. De algum tempo para cá, esse conceito mudou um pouco: as constantes exigências trazidas por inovações tecnológicas trouxeram um certo consenso de que o desempenho fica limitado se o indivíduo não conseguir uma pós-graduação e mestrado, se não aprender outras línguas ou se não fizer cursos de especialização. Tudo isso é muito útil, pois enriquece o indivíduo e tira-lhe a idéia de que só se aprende naqueles anos específicos de escola, mas sua validade é relativa se não existe aplicação em outras áreas igualmente importantes de sua existência.
Além de obter conhecimentos, a pessoa deve desenvolver em si características como paciência, respeito, altruísmo, perseverança, tranqüilidade, flexibilidade, adaptabilidade e compaixão. O grande objetivo, é bom lembrar, reside em melhorar-se interiormente, e nesse sentido as qualidades citadas afiguram-se tão ou mais importantes do que o patrimônio intelectual. Embora não se fale costumeiramente em “aprendê-las”, é sua assimilação que nos permite passar sem maiores sobressaltos pelos mais complexos testes da vida, muito mais relevantes do que qualquer exame acadêmico. O escritor americano George Leonard observou certa vez: “Aprender é mudar. A educação é um processo que muda o aprendiz.” É fácil observar o que ocorre quando o indivíduo considera tal processo encerrado. Quando considera que aprendeu tudo sobre determinado tema, a pessoa impermeabiliza de tal forma seus pensamentos nessa área que nada é capaz de fazê-la mudar de opinião. Essa condição normalmente está associada à velhice, mas, na verdade, não tem prazo determinado para acontecer. Observe bem à sua volta: você descobrirá, além dos “velhos” de 60, 70 ou 80 anos, outros na faixa dos 40, 30 e até 20.
Para essas mentes que se desviaram da nossa eterna necessidade de aprendizado, é necessário incentivá-las a aprender como aprender. Algumas sugestões, colhidas em várias fontes por Rick Fields, Peggy Taylor, Rex Weyler e Rick Ingrasci em Chop Wood, Carry Water (Tarcher), ajudam-nos nessa tarefa. Acompanhe-as a seguir:
Esteja sempre com a mente aberta – Aprender é uma ação constante e incessante, dizia Krishnamurti. “A vida inteira, do instante do nascimento ao instante da morte, é um processo de aprendizagem.” Não importa o tamanho de nossa inteligência ou o número de diplomas pregados na parede: sempre existe muito mais a ser aprendido. A mente que coloca interferências nesse processo limita a amplitude do aprendizado.
Não tenha medo de ter medo – Tal como ocorre numa viagem, aprender, em todas as suas dimensões, significa sair de uma estabilidade já definida e previsível para entrar numa área desconhecida. São as dimensões – reais ou imaginárias – dessa área desconhecida que geram medo no aprendiz. Superá-lo, então, passa a ser o desafio e a meta. Em A Erva do Diabo (Nova Era), Carlos Castaneda descreve esse processo em termos de aprendizado interior: “O que ele aprende nunca é o que concebia ou imaginava, e então ele começa a ter medo. (...) Ele não deve fugir. Deve desafiar seu medo, e apesar dele deve dar o próximo passo no aprendizado, e o próximo, e o próximo. Ele deve estar completamente aterrorizado e não deve parar. Essa é a regra! E virá um momento em que seu primeiro inimigo se retirará. Aprender não é mais uma tarefa aterrorizante.”
Aprenda fazendo, tal qual um bebê – Não há outra maneira de aprender a fazer algo a não ser praticando. Em um boletim, o educador americano John Holt escreveu o seguinte sobre o assunto:
“Há não muitos anos eu comecei a tocar violoncelo. A maioria das pessoas diria que o que eu estava fazendo era ‘aprender a tocar’ violoncelo. Mas essas palavras levam até a nossa mente a estranha idéia de que existem dois processos bem diferentes: 1) aprender a tocar violoncelo; 2) tocar violoncelo. Eles implicam que eu farei o primeiro até completá-lo, ponto no qual eu interromperei o primeiro processo e iniciarei o segundo; em resumo, que eu seguirei ‘aprendendo a tocar’ até ter ‘aprendido a tocar’, e só então começarei a tocar. Com certeza, isso não faz sentido. Não há dois processos, mas um. Aprendemos a fazer algo fazendo-o. Não há outra maneira.”
Num livro posterior, Never Too Late, ele detalhou mais o tema:
“O que estou vagarosamente aprendendo em meu trabalho com música é reviver algo da resiliência do bebê ao explorar e aprender. Tenho de aceitar a cada momento, como um fato da vida, a minha presente habilidade ou falta de habilidade, e fazer o melhor que posso, sem me culpar por não ser capaz de fazer melhor. Tenho de estar consciente de meus erros e deficiências sem me envergonhar deles. Tenho de manter à vista a meta distante, sem me preocupar sobre quão longe estou dela ou repreender-me por ainda não estar lá. Isso é muito difícil para a maioria dos adultos. É o principal motivo pelo qual nós, pessoas maduras, freqüentemente achamos tão complicado aprender novas habilidades, sejam elas esportes, línguas, artes ou música. Mas, se trabalharmos em nossas habilidades enquanto lidamos com essas em nós mesmos, poderemos lentamente melhorar nesses dois sentidos.”
Não tenha medo de ser estúpido – A situação natural de um aprendizado é entrar em contato com uma informação ou idéia que o aluno não conhecia antes, mesmo que ela pareça elementar para alguns. O matemático G. Spencer Brown examina esse tópico em Laws of Form: “As descobertas de qualquer grande momento em matemática e em outras disciplinas são vistas, uma vez que foram definidas, como extremamente simples e óbvias, e fazem todo o mundo – inclusive o descobridor – parecer idiota por não ter descoberto aquilo antes. Esquece-se freqüentemente que o símbolo antigo da pré-nascença do mundo é um burro, e que a burrice, sendo um estado divino, não é uma condição da qual a pessoa se deva orgulhar ou envergonhar.”
Seja humilde – O tempo se encarrega constantemente de desfazer a ilusão da perfeição, ao colocá-la em padrões cada vez mais elevados e sofisticados. A era dos computadores, por exemplo, exigiu que um sem-número de pessoas, de exímios datilógrafos a bem-sucedidos proprietários de empresa, voltassem à posição de estudantes para poder lidar com os novos aparelhos. Portanto, a rotina existencial implica que sempre existe algo a ser aprendido. Confúcio disse: “Até mesmo quando estou numa reunião com não mais de três pessoas posso sempre ter a certeza de aprender com as minhas companhias. Haverá qualidades boas, que poderei selecionar para imitar, e más, que me ensinarão o que requer correção em mim mesmo.” O escritor Arthur Deikman definiu em The Observing Self: “Humildade é a aceitação da possibilidade de que alguém possa lhe ensinar algo mais que você não sabe ainda, especialmente sobre você mesmo. Do lado oposto, orgulho e arrogância fecham a porta da mente.” Por mais titulos que voce tenha,por mais conhecimentos que julga ter ,ninguem tem o direito de ser arrogante e dono do saber.Aquilo que voce afirma no Brasil pode estar se transformando em obsoleto e inutil no Japão ou na Europa.
Seja sincero – Prêmios e honrarias até podem servir como estímulo, mas o verdadeiro objetivo do aprendizado é melhorar-se e evoluir individualmente. Deikman diz a esse respeito: “Os místicos definem a sinceridade como a honestidade de intenção. As pessoas podem pensar que desejam aprender quando o que realmente querem é receber atenção. Quando a atenção some, elas perdem o interesse e partem em busca de outras fontes de ‘aprendizado’. Pode ser observado em qualquer sistema educacional que se o desejo dominante de um aluno é ser nutrido com elogios ou atenção, o aprendizado que ocorrerá será muito limitado, independentemente de o que o estudante possa pensar estar ou não acontecendo. Isso é especialmente verdadeiro se o aprendizado requer um auto-esforço inicial. A sobrevivência fisiológica e psicológica requer que sejamos eficientes em obter o que realmente queremos, e não o que dizemos que queremos, ou mesmo o que achamos que queremos.”
Evite a competição – Um corolário da recomendação anterior. A esse respeito, Krishnamurti observou: “O verdadeiro aprendizado vem quando o espírito competitivo cessou. O espírito competitivo é simplesmente um processo cumulativo que não está aprendendo em absoluto. Isso é verdadeiro não apenas em termos de competição com outrem, mas também em competição consigo mesmo.”
Encontre o padrão que se inter-relaciona – O holismo explica que tudo está conectado, e qualquer aprendizado fica facilitado quando se encontra esse ponto de conexão do assunto tratado com a vida do observador. A ciência não fazia essa ligação, mas ramos como a ecologia e a cibernética estão mudando isso. No fim, o estudante aprenderá que, por trás da aparente fragmentação, existe uma unidade final e sagrada, que engloba ciência e espiritualidade. “A educação nos ajuda a reunir a alma, o corpo e o espírito”, escreve M. C. Richards. “A forma como aprendemos aritmética afeta nosso senso moral. A maneira pela qual compreendemos geografia afeta nosso julgamento. Os obstáculos da vida terrena são uma escola na qual devemos desenvolver a consciência e o autoconhecimento e nos tornar transparentes ante nossos vizinhos. As transmutações dessa aprendizagem através dos tempos criarão novas qualidades de liberdade e amor.”