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em Ensino e Aprendizagem
Gilberto Teixeira
(Prof. Doutor FEA/USP)
(Prof. Doutor FEA/USP)
I – A DIDÁTICA ENSINO‑APRENDIZAGEM
Entre outras expectativas lançadas sobre a qual deva ser o papel da educação, encontra‑se o de aprender a aprender, para além do mero ensinar e do mero aprender.
Em si, trata‑se do velho tema, socratico na verdade, mas empalidecido através dos tempos pela didática "ensino‑aprendizagem".
E preciso que se deixe claro que esta ultima não faleceu, mas ocupa, nesta nova visao, o lugar instrumental, ou seja, um insumo.
E nisto tem sua importância preservada.
Acontece que a didática usual "ensino‑aprendizagem" concentra‑se na absorção de conhecimento, permanecendo o educando como objeto receptivo e domesticado.
Ainda assim, detem seu lugar, porque na vida também é preciso simplesmente "aprender".
O processo chamado de "socialização" tem como dinâmica mais visivel a absorção de comportamentos e atitudes de fora para dentro e de cima para baixo.
Todavia, tudo isto não passa de insumo para o "aprender a aprender", fundando‑se este na construção auto‑suficiente do sujeito social competente, com base em conhecimento atualizado.
II – PORQUE É IMPORTANTE O "APRENDER A APRENDER"?
A didática "ensino‑aprendizagem" concentra‑se em repassar lotes de conhecimentos (ensinar) e de se apropriar deles pela via de adequação funcional (aprender).
Já no caso da didática "aprender a aprender", trata‑se menos de produtos a serem dominados, do que de metodologia emancipatória, traduzida em competência a habilidades.
· A pessoa torna‑se capaz de saber pensar, de avaliar processos, de criticar a de criar.
Chama‑se formação básica o processo continuado e sempre atualizado de cultivo deste tipo de competência, essencialmente fundamentado no saber pensar, interpretar a realidade crítica e criativamente e nela intervir como fator de mudança histórica.
É reconhecido que educação, ciência e tecnologia são os móveis mais decisivos das mudanças estruturais sobrevindas neste fim de século.
De certa maneira, as mudanças estruturais se impoem como processo de dentro para fora – por isso estrutural – e menos como resultado de estardalhaços políticos, como teria sido usual antes.
Dialeticamente, cada fase gera as condições da nova fase, num movimento tipicamente histórico‑estrutural.
Esta marca histórico‑estrutural fundada na potencialidade da educação, ciência e tecnologia representa um tipo bem mais organico e aceitavel de mudança, porque ancorado na noção de sujeito histórico, em particular quando esta em jogo a competência em termos de conhecimento.
Embora tecnologia e ciência possam, de meios, passar a fim, ou reduzir‑se apenas a instrumento de poder, por tratar‑se do contexto educativo podem implicar processos amadurecidos de dentro para fora, como conquistas coletivas.
Neste sentido, a chamada modernidade, tomada como complexo de mudanças estruturais neste limiar dos tempos, poderia, pelo menos em parte, ser humanizada a traduzir um tipo de desenvolvimento sustentável.
Para usar expressão análoga, tais mudanças são motivadas pela via do manejo a produção de conhecimento, alqo que perpassa todas as instâncias da sociedade e da economia.
Esta marca dos tempos, que muitos chamam de "modernidade", exige outro posicionamento diante da realidade, marcado pela sempre renovada criatividade, na condição de sujeito histórico capaz de desenhar a efetivar projeto próprio e moderno de desenvolvimento.
Para construir posicionamento positivo, auto‑suficiente, crítico a criativo, sempre renovado, faz‑se mister a didática do aprender a aprender, cujo cerne é a atitude de pesquisa.
Pesquisa como atitude significa principio científico e educativo, ou seja, base da produção científica e base da educação ancorada no manejo e produção de conhecimento.
Faz parte de todo processo educativo emancipatório, porque fundamenta a a postura crítica e criativa diante da realidade e leva a intervir nela com base no conhecimento renovado e renovador.
Seu espectro cobre todo o ciclo da educação formal desde a maior sofisticação metodológica (que supõe aprimoramentos técnicos típicos do PhD), até condições educativas básicas próprias de todo o processo, a partir do pré-escolar.
Atitude de pesquisa na criança significa o despertar e motivar da atitude de questionamento, de criatividade via manifestação lúdica, de curiosidade crítica, de postura de sujeito.
III – APRENDER A APRENDER COMO DIDÁTICA DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO
O aprender a aprender indica uma visão didática composta de dois horizontes entrelaçados, pervadidos pela competência fundamental do ser humano, que e a competência de construir a competência, em contato com o mundo, com a sociedade, num processo interativo produtivo.
Um dos horizontes aponta para a necessidade de se apropriar do estoque de conhecimento disponível importante e se confunde com o processo de socialização.
Socialização do ponto de vista educacional significa privilegiar a apropriação de normas, valores, culturas a saberes relacionados
com a formação do sujeito histórico, sobretudo os
patrimônios do conhecimento.
com a formação do sujeito histórico, sobretudo os
patrimônios do conhecimento.
Trata‑se do campo mais específico da aprendizagem, mais voltada a cobrir conteúdos úteis ou necessários ao desempenho social.
O outro horizonte aponta para o desafio emancipatório que o conhecimento pode contribuir e enfrentar, a medida que forma a atitude produtiva diante do conhecimento, uma das pilastras atuais da construção de um projeto moderno e próprio de desenvolvimento.
Neste caso, trata‑se menos de dominar conteúdos, do que uma metodologia crítica e criativa, sempre renovável e renovadora, para dar conta de todo desafio que surge ao longo da vida.
Portanto, aprender a aprender não indica, simplisticamente, um estoque acumulado de conhecimento, mas uma estratégia de manejar e produzir conhecimento, em constante renovação; e, portanto, um processo dinâmico.
Por conta disso, o aprender a aprender afasta‑se totalmente de táticas clássicas de armazenar conhecimento copiado, como "decorar", escutar infinitas aulas, fazer prova, reproduzir imitativamente o saber etc, para privilegiar atitude de questionamento construtivo, teórico e prático, onde o conhecimento atualizado e modo de ver a realidade e sobretudo base para intervir nela.
Combina, portanto, com currículos intensivos, não com ofertas extensivas, repassadas pela via da reprodução (por professores que apenas ensinam, não pesquisam, nem detem capacidade de produzir conhecimento próprio).
Assim, conhecer é menos "saber muito" (apropriar‑se de um estoque farto de saberes) do que saber, ou seja, habilidade de manejar a produzir conhecimento em sentido ativo, produtivo, construtivo.
O ensino atual ainda predominantemente voltado apenas para o repasse de conhecimento, através de um professor que, a rigor, nada tem a repassar, e não ser pela imitação subalterna.
Sedimenta no aluno atitude passiva, receptiva, copiadora, imitativa, o que dificulta qualquer perspectiva de um projeto moderno e próprio de desenvolvimento.
IV – COMO CHEGAR NO APRENDER A APRENDER?
É urgente e necessário construir a didática do aprender a aprender, no contexto globalizado do conhecimento moderno.
As teorias mais atuais em educação apontam com insistência persistente para esta direção, a par do reconhecimento consensual em torno da relevância da educação, ciência e tecnologia para o desenvolvimento.
Alguns desafios na construção crítica e criativa dessa didática seriam:
a) estudo atualizado das teorias modernas afins, que incluem autores como Piaget e Escola, Vygotsky, Bernstein, Habermas/Kohlberg etc, com vistas a manter‑se em dia;
b) reconstrução desse cabedal teórico no contexto nacional a local, introduzindo ainda o componente essencial da prática;
c) construção de contribuições relevantes a pertinentes para o processo educacional, trazendo para a prática didática as estratégias do aprender a aprender;
d) montagem de apoios eletrônicos que poderiam absorver grande parte do repasse de conhecimento, fácilitando o ambiente produtivo;
e) revisão radical dos conceitos e práticas de capacitação e atualização, para dimensioná‑los no aprender a aprender.
Para chegarmos na fase do aprender a aprender há que realizar um trabalho crítico e criativo que precisa ser organizado pelas universidades (através das faculdades de Educação) de modo interdiscipllinar a sistêmico, buscando reagir contra os vezos arcaicos ainda persistentes, entre eles:
a) redução do professor a ministrador de aulas, ou a figura que apenas ensina a copiar;
b) redução da pesquisa e atividade sofisticada, especial a privilegiada, em vez de atitude central de todo processo educativo a científico;
c) entendimento de que a prática e atividade destituida da devida teorização;
d) a tendencia de fazer da escola um lugar de mero repasse, mera aprendizagem, mera reprodução;
e) a resistencia a ultrapassar noções apequenadas de cursos de capacitação e atualização;
f) dispersão de esforços em currículos extensivos a superficiais, baseados no repasse copiado cumulativo.
Não a uma tarefa fácil na medida em que implica em mudança de atitude tanto de professores como de Administração Acadêmica.
E isso só se consegue através da capacitação dos professores.
Como resultado ou consequência da nova atitude terá que ser reformulado o conceito de currículo universitário adotando‑se um ciclo básico, comum a todas as carreiras no qual o processo de ensino‑aprendizagem servirá para preparar o estudante para a etapa posterior (profissionalizante) onde predominará a didática do aprender a aprender.
Esse ciclo básico é a etapa estratégica do processo de conhecimento e se assentará sobre três dimensões:
· Filosofia
· Língua
· Matemática
Esta trilogia expressa o conjunto básico (chamando pelos pedagogos de propedêutica) que se justifica pelas seguintes razões:
a) é preciso saber matemática, tanto quanto se sabe língua, até porque matemática é linguagem do mundo moderno; trata‑se de motivar a habilidade no raciocínio lógico, indutivo e dedutivo, no pensamento abstrato teórico;
b) é importante huamnizar a técnica, via filosofia, entendida aqui como competência em trermos críticos-criativos, inclusive diante do conhecimento;
c) é essencial comunicar‑se com desenvoltura, dominando a habilidade de expressão oral e escrita (em lugar do estudo teórico da língua).
O desafio propedêutico está na marca de típica formação básica que esta trilogia representa, preparando a pessoa para manejar e produzir conhecimento.
Para tanto, é mister saber pensar em termos lógicos, cultivar espírito crítico e questionador, informar‑se e transmitir informação.
Embora isto sempre inclua o domínio extensivo de conteúdos (acumular saber), trata‑se no fundo e na essência de uma conquista metodológica, no sentido de instrumentar‑se da capacidade de manejar a produzir conhecimento.
Conhecimento, na substância, é menos estoque de coisas sabidas, do que habilidade de desvendar desafios e realidades, de questionar o que se sabe para refazer o saber, de criar horizontes próprios da informação, de reciclar‑se continuadamente.
Formação básica deixa portanto de ser um monte de conhecimento que a professora tem que enfiar na cabeça dura dos alunos, pela via da aula copiada, para significar um tipo de capacitação metodológica destinada a fundar e a alimentar competência recorrente em termos de criar soluções, enfrentar novos desafios,
refazer conhecimento.
refazer conhecimento.
Esta trilogia representativa da formação básica aponta menos um estoque de coisas a serem sabidas e guardadas na memória, do que um tipo de instrumentação metodológica capaz de criar e renovar o conhecimento, no sentido específico da estratégia de "competência" ou "habilidade".
E isto dá à Educação (em qualquer nível de análise) importância substancial na sociedade e na economia, que sobrepassa de muito o seu papel de complementação do lar ou extensão da família.
Nesta visão a família, como regra geral, será incapaz de "educar" no sentido de aprender a aprender, embora possa até ser capaz de motivar atitudes favoráveis.
Tenderá a permanecer como instância principal socializadora, aparecendo a "educação escolar" como lugar específico dotado de competência específica, destinado à equalização de oportunidades (um dos direitos da cidadania) e ao manejo e produção de conhecimento (móvel primordial de mudança na sociedade e na economia).
A didática do aprender a aprender é hoje a competência própria do educador modemo, de quem se espera principalmente que consiga motivar o aluno para o mesmo desafio.
O aluno não comparece apenas para aprender (decorar, memorizar, copiar, fazer provas, colar), mas sobretudo e essencialmente para aprender a aprender.
Deve poder construir a atitude de pesquisa e a capacidade de elaboração própria.
De acordo com os níveis, tais desafios precisam ser modulados convenientemente.
Assim, por exemplo, elaboração própria no ciclo elementar (1° grau) significa capacidade de expressão criativa com base lúdica.
Este desafio impregna hoje não apenas o ambiente educacional a todos estudos a pesquisas pedagógicas, mas inclusive a economia moderna.
A produtividade econômica na sociedade do conhecimento baseia‑se num trabalhador capaz de saber pensar, de participar de processos decisórios, de avaliar a qualidade dos processos, formular racíocinio lógico‑abstrato, discutir com conhecimento de
causa a assim por diante.
causa a assim por diante.
Esta passando o tempo de valorizagao dos "treinamentos", porque estes atrelam o trabalhador ao desempenho prático na máquinas.
E esta, inapelavelmente, decai para sucata, leva com ela o trabalhador.
Para evitar isto, o trabalhador precisa logo de sólida e renovada formação básica, que lhe permite sempre reciclar‑se, refazer‑se e repensar‑se.
Este tipo de posicionamento leva a entender o reconhecimento crescente de que qualidade é sempre referenciada à qualidade dos recursos humanos.
· Isto não só valoriza a face humana da questão, como, sobretudo, indica que a qualidade técnica ganha sentido e medida que fundamenta a qualidade humana e nesta se inspira.
Uma das qualidades mais eminentes a precisamente a de aprender a aprender, algo próprio do ser humano em sociedade.
Esta qualidade engloba alguns dos pontos mais relevantes da discussão:
a) capacidade de aprimoramento tecnológico e progresso técnico, com base no manejo à produção de conhecimento;
b) satisfação pessoal, no sentido da evolução continuada da competência emancipatória;
c) participação construtiva no projeto moderno a prÓprio de desenvolvimento.
Educação inspirada no aprender a aprender torna‑se a instrumentagao mais efetiva da potencializagao das oportunidades histdricas da pessoa a da sociedade.
Por isso, transformou‑se na vantagem comparativa (competitiva) decisiva hoje, sobrepujando todas as outras, que uma vez decidiam as chances historicas (recursos naturais, tamanho geografico do pals, populagao etc).
Significa que as oportunidades podem, em parte, ser construídas, desde que se forme uma população capaz de ser sujeito de sua própria história.
Os constrangimentos impostos pela natureza, pela cultura, pela história, podem ser manejados estrategicamente, desde que se construa devida competência com base no manejo a produção de conhecimento.
Em síntese, a didática do aprender a aprender tem a virtude ainda de conjugar adequadamente o desafio técnico e humanista, espargindo sobre a modernidade expectativa muito mais aceitável.
De um lado, em termos de formação básica, não se pode fugir da propedêutica fundamental que sempre inclui também matemática.
O ímpeto inovador, próprio da moderna definição de ciência como inovação em processo, faz parte essencial dessa didática intrinsecamente construtiva.
De outro, representando típica qualidade humana, ressalta que o fim de tudo e o homem a recoloca sempre o compromisso humanista da educação.
Certamente, trata‑se ja de humanismo capaz de manejar e produzir conhecimento, não de resistência obtusa, de costas para o futuro.
Importante é perceber que educação tem toda a chance de ocupar o lugar onde se faz o futuro, ou seja, de estratégia de "puxar"
sentido etimológico de "educar" o futuro.
sentido etimológico de "educar" o futuro.
Se assim fosse, a modernidade poderia, em grande parte, ser conquista a obra humanizada, superando‑se a propulsão impositiva de um projeto de fora para dentro a de cima para baixo.
O aprender a aprender pode recuperar, com vantagem, toda a tradirão emancipatória que sempre se depositou sobre
a capacidade de conhecer.
a capacidade de conhecer.

