Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

PERDAS SEM DANOS

 

                                           Celso Antunes  professor e psicopedagogo
                                     http://www.educacional.com.br/articulistas/celso_bd.asp?codtexto=486
 
Uma boa prova não pode sobreviver sem exorcismo. Sem a expulsão definitiva e o incontrolável pavor de que ela somente exista para exaltar inocentes e fabricar culpados, para destacar os melhores e execrar os malditos.
 
A escola brasileira, de maneira geral, e muitos professores, especificamente, porque no cenário desse regime se formaram, ainda acreditam na purgação dos impuros e, muitas vezes inconscientemente, fazem do erro de seus alunos não o imprescindível diagnóstico para uma saudável ajuda, mas instrumento revelador de incapacidade, símbolo amaldiçoado de uma culpa em nome da qual se criou o inferno. Essa forma de procedimento, ainda que disfarçada por lindas palavras que o negam, remonta ao período medieval ou antes ainda, quando se construía uma visão humana maniqueísta e na qual os homens eram necessariamente anjos ou demônios, artífices do bem ou satânicos criadores do mal.
 
Façamos, sem preconceitos, uma análise sobre o erro.
 
O que é o erro do corpo e que nos remete à busca da saúde ou o que significa o erro do veículo que nos leva a procurar substituição de uma peça? Algo abominável que merece execração? Claro que não. É apenas um pequeno defeito que requer acerto, um singelo desvio de rota que clama por uma segura orientação. Alguém sente-se culpado por ser hipertenso? Ao contrário; ao saber que está com problemas, busca caminhos que não os agravam, espera soluções que possam levar a seu corpo o que este deveria naturalmente produzir. Não seria, por acaso, esse exemplo transferível para a prova de Matemática ou a lição de Inglês?
 
Que não se veja nesta crítica o desejo de que não mais se atribuam notas ou conceitos ou, pior ainda, que estejamos proclamando aos professores que, bonzinhos, não mais descubram erros em seus alunos. Ao contrário; o que com ela buscamos é realmente o desejo exorcista de separar erros de culpas e, conseqüentemente, abominar a idéia de que todo estudante necessita acertar sempre ou buscar meios e recursos para burlar suas falhas, ocultando-as com a "cola" ou escondendo-as com a evasão ou a procura de uma escola "menos rigorosa". Um aluno que, apavorado com a culpa que seus professores buscam incutir-lhe, reclama por escola menos difícil, proporcionalmente, equivale a um paciente que, temeroso pelo resultado de uma cirurgia necessária, procura tratamento mentiroso ou falsifica sua radiografia.
 
Acreditamos que a avaliação constitui elemento essencial em um projeto de aprendizagem, da mesma maneira como achamos que um bom regime para perda de peso não exclui a ação de competente balança. Quando escolhemos a camisa a combinar com a calça ou buscamos este e não aquele produto no supermercado, também estamos avaliando. Dessa maneira, toda aprendizagem significativa não pode prescindir de uma avaliação educativa, mas que seja uma avaliação redentora que mostre caminhos, uma ação do professor que, guardando-se as devidas proporções, possa assemelhar-se à do grande cozinheiro que mostra ao estagiário a proporção da pitada certa de condimento, do velho pintor que não se assusta em segurar a mão do jovem aspirante para sensibilizar o dedo no contato com o pincel.
 
A culpa, provavelmente, representa invenção muito antiga para provocar,  por meio do desafio do medo,  o risco da quebra de tabus essenciais para a tribo. Como tolher o apetite sexual ou a voracidade da gula senão pela ameaça da maldição?
 
Alunos e professores de hoje já não são mais trogloditas que se atiram irracionalmente aos apetites do instinto e necessitam ser domados com a ameaça do inferno. É chegada, pois, a hora de fazê-los perceber que é importante que errem, pois assim aprendem, e que o verdadeiro mestre outro não é senão aquele que, pela constatação de desvios na trilha, mostra os caminhos bonitos do saber.
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e escreve especialmente para o Educacional