Rubens Antonio de Melo Machado
Graduado em Engenharia, Matemática e Pedagogia e Mestre em Educação
Graduado em Engenharia, Matemática e Pedagogia e Mestre em Educação
Esse título deveria vir entre aspas, pois, na verdade, é uma frase da sabedoria do escritor russo Leon Tolstoi. Esse místico — que foi um gênio da literatura e um homem cheio de conflitos e contradições —, no fim de seus dias, estava preocupado com o que fizera de sua vida e alertava todos para que “construíssem” bem o seu viver.
Mas o que primeiramente nos salta à compreensão é que nós somos, em larga medida, construídos pelo ambiente. Nascemos no interior de uma cultura, de uma sociedade. Quando aprendemos a falar nossa língua, mal percebemos que ela já nos transmite uma mentalidade, pois, como já foi dito, os limites de nossa língua são as fronteiras de nossa visão do mundo. Vamos crescendo no interior de uma família, e esta nos transmite inúmeros valores da grande sociedade, bem como aqueles que são peculiarmente dela. Até que chega a época em que a convivência se estende para fora do círculo familiar e, então, defrontamo-nos com uma estrutura social que, por meio de pressões e condicionamentos (às vezes, pesados), procura nos impor seus hábitos, códigos de leis e muitas de suas expectativas em termos morais.
A sociedade acaba usando a família, a igreja, a escola e os locais de trabalho para tentar nos modelar a seu gosto. Não podemos negar que ela consegue muito de seu intento e, em algumas circunstâncias, pode até aniquilar personalidades. Em razão de tudo isso, é inevitável que incomodem nosso espírito algumas questões especiais: Será que somos apenas táxis nos quais viajam as vontades e os valores dos outros? Ou nos tornamos mero produto de uma melancólica fabricação em série? Há como negar que, em boa medida, somos construídos pelo meio?
Não, não há como negar isso. No desenvolvimento do ser humano, é inteiramente impossível evitar influências. Não é possível construir, em torno das pessoas, uma redoma que as proteja de condicionamentos.
Entretanto, atenção: no exato momento de nossa evolução em que adquirirmos consciência de todas essas forças que agem sobre nós, começaremos a olhar para elas com senso crítico. Principiaremos a praticar, com relação às influências do meio, a arte da desconfiança, que é uma coisa muito mais sutil do que a neurótica mania de desconfiança. Afinal, arte é arte, e mania é outra coisa de tom doentio.
O filósofo dinamarquês Kierkegaard diz que, depois de muita obediência sem discussão, chega-se na vida a um momento em que sentimos necessidade de dar uns passos para trás e olhar panoramicamente para o conjunto de valores que o meio incutiu em nós, para que, então, façamos desse nosso julgamento pessoal um momento que exige coragem para separar o trigo do joio e, decididamente, amar o amável e rejeitar o inaceitável.
Considerando isso, mais uma vez vem a questão: Afinal, somos construídos ou construímos? Mas a questão está errada! Não se trata de “isto ou aquilo” nesse assunto, mas de “isto e aquilo”. Sim, na vida, tanto somos construídos quanto construímos, e seria necessário garantir a cada um a possibilidade de intimamente criticar as heranças que recebeu. Pelo que parece, isso não é possível para todas as pessoas, infelizmente.
“O que vamos fazer de nossa vida?” Em condições normais, esse é o único problema verdadeiramente sério que surge para os seres humanos, porque pouco ou nada adianta a um homem ficar lamuriando-se de uma época dura, pontilhada de guerras e cheia de explorações econômicas criminosas de fortes sobre fracos — é uma época tumultuada esse século, em que parecem ter desabado de vez muitos valores de uma civilização. Pôr a culpa no meio algumas vezes está certo. Mas culpar sempre o meio é negar que somos pessoas — e não trastes que são jogados daqui para ali. De tudo o que desabou, é preciso catar nos escombros as vigas sãs, os metais resistentes que sobraram e os tijolos perfeitos que tenham restado para fazer algum tipo de reconstrução.
Quando Tolstoi disse que “a obra-prima de um homem é a sua vida”, fez logo com que as pessoas se lembrassem de tantos seres humanos quase ou inteiramente anônimos, que nunca escreveram livro nenhum ou realizaram feitos socialmente considerados importantes, mas que, em sua vila ou cidade, pelejaram sem descanso para fazer de sua vida uma obra-prima da humanidade. Homens para quem estava claro que é o viver que justifica o viver (ou condena-o).
Ninguém saberá ensinar a outrem como se realizar. Nenhum homem tem como explicar a outro como enriquecer sua trajetória de vida. O pouco que se pode dizer, com relação a isso, se resume em: 1) cabe a cada um escolher os valores pelos quais quererá viver; 2) diz respeito também a cada indivíduo ter claro que o trágico não é ter escolhido valores equivocados — se um homem se equivocar, mas mantiver sinceridade e fidelidade a seus princípios, não terá mentido a si mesmo nem a ninguém; 3) também competirá a todo homem não deixar seus valores se transformarem em teimosia preconceituosa e, para que isso não aconteça, ele precisa rever constantemente e criticar suas posições; 4) finalmente, o caminho que uma pessoa escolheu deve ser percorrido de forma sensível e inteligente — tanto quanto suas limitações permitirem.
Só alguns fanáticos se metem a ensinar coisas como: que valores ter, como não se equivocar, que caminho escolher... A milenar sabedoria chinesa já disse, e jamais será demais repetir, que cada ser humano tem um caminho que é seu — a sua vida — e que ninguém poderá percorrer o caminho do outro da mesma forma, porque ninguém poderá morrer em nosso lugar ou sofrer as nossas dores.
Só alguns fanáticos se metem a ensinar coisas como: que valores ter, como não se equivocar, que caminho escolher... A milenar sabedoria chinesa já disse, e jamais será demais repetir, que cada ser humano tem um caminho que é seu — a sua vida — e que ninguém poderá percorrer o caminho do outro da mesma forma, porque ninguém poderá morrer em nosso lugar ou sofrer as nossas dores.
Como ensinava o filósofo antigo Sócrates, o importante mesmo é que, no fim da vida, cada um se pareça cada vez mais consigo mesmo. Afinal, o homem autêntico é uma obra-prima. E “a obra-prima de um homem é a sua vida”. A vida humana consciente é uma tentativa de navegar no oceano dos condicionamentos do ambiente, evitando naufragar neles.