A MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA

em Ensino e Aprendizagem
Gilberto Teixeira (Prof. Doutor FEA/USP)
           I - OBJETIVO
            Neste texto discutiremos a importância da mediação pedagógica e sua fundamentação teórica. O conceito de “mediação pedagógica” tem o mesmo significado de auto-aprendizagem  ou aprendizagem  centrada no aluno e tem sido defendida como a abordagem do processo ensino-aprendizagem que é não só mais eficiente mas também capaz de provocar nos alunos maior motivação e mais acelerada maturidade. As  bases teóricas  mais significativas a respeito de aprendizagem centrada no aluno foram os estudos de Carl Rogers  e Piaget,este ultimo com a Teoria do Construtivismo.
 A expressão “mediação pedagógica” foi criada por Francisco Gutierrez e Daniel Prieto (1991) .Em uma perspectiva histórica  pode-se concluir que Prieto  foi um seguidor de Rogers e Piaget.
 
 
II - INTRODUÇÃO
            É de fundamental importância diferenciar com clareza um modelo pedagógico, cujo sentido é educar, de um modelo temático, cujo propósito é ensinar. Este último dá ênfase aos conteúdos como chave de todo processo; trata-se de passar informação, de verificar assimilação da mesma e de avaliar a retenção por parte do estudante. Há sistemas educativos organizados desta maneira e uma enorme quantidade de docentes que apenas concebem a educação como transmissão de conhecimentos.
            Essa mesma lógica está na base da pretensão de fazer ciência, de seguir um discurso rigoroso que só avança por acumulação de informação. Não descartamos o valor do discurso científico. porém, entre este e a educação pode haver um verdadeiro abismo, já que nesta entram em jogo vários outros processos. Não insistiremos aqui na denúncia dos esquemas tradicionais, mas vale a pena assinalar que os mesmos não combinam com a auto-aprendizagem.
            Por isso tudo a mediação pedagógica ocupa um lugar privilegiado em qualquer sistema de ensino-aprendizagem. No caso da relação de presença é o docente quem deveria atuar como mediador pedagógico entre a informação a oferecer e a aprendizagem por parte dos estudantes.
            A mediação pedagógica parte de uma concepção radicalmente oposta aos sistemas de instrução baseados na primazia do ensino como mera transferência de informação. A expressão “mediação pedagógica”, significa o tratamento dos conteúdos e das formas de expressão dos diferentes assuntos (disciplinas), a fim de tornar possível o ato educativo dentro do horizonte de uma educação concebida como participação, criatividade, expressividade e relacionalidade.
 
 
 
 
III - OS PROCEDIMENTOS
            O tratamento pedagógico propriamente dito, desenvolve os procedimentos mais adequados, para que a auto-aprendizagem converta-se em ato educativo.
            Trata-se de usar exercícios que enriqueçam os textos com referência a experiência e ao contexto do educando; a designação de aprendizagem vivencial (“Experiential Learning”) criada pelo psicólogo David Kolb é a teorização em que se fundamentam esses exercícios.
            A sustentação teórica dos procedimentos pedagógicos, isto é , os modos de concretizar o ato educativo apoia-se em três pontos:
           
 
1. A auto-aprendizagem
            2. O interlocutor presente
            3. O jogo pedagógico
 
 
IV - A AUTO APRENDIZAGEM
            Partiremos de um princípio básico: sem auto-aprendizagem é impossível um sistema alternativo e inovativo de educação.
            Dizemos alternativo e inovativo porque a maior parte (senão a totalidade) dos sistemas institucionalizados, em especial no ensino universitário, têm trabalhado orientados para a instrução, para o ensino no pior sentido do termo, e não para a aprendizagem .
            Não poderíamos deixar de chamar a atenção para os riscos da auto-aprendizagem. A sociedade está organizada de tal maneira que o conveniente é que o educando não procure por si mesmo a auto-aprendizagem, não assuma a tarefa de construir conhecimentos ou de confrontar suas experiências com a sua realidade. O sistema educacional tornou-o um viciado na mera transferência de informação; por isso a sua inicial resistência a adoção da auto-aprendizagem. Além disso a auto-aprendizagem não é como alguns julgam uma simples transferência de responsabilidades do professor para o aluno. Envolve processos mais complexos que os de simples recepção de dados.
            Deve ficar claro que num processo  como este, trata-se de oferecer elementos para se aprender a realizar a auto-aprendizagem ou em outras palavras “Ensinar a Aprender “..
            Assim, a responsabilidade não recai apenas no estudante, mas também em todos os envolvidos e, de modo especial, nas características dos materiais didáticos a serem utilizados. Não estamos diante de um ser que, isolado da instituição e de seus semelhantes, procura objetivos e os desenvolve. Estamos, sim, diante de um processo no qual participam autores (mediadores pedagógicos), programadores e estudantes.
            Tudo isso não contradiz em absoluto a possibilidade da auto-aprendizagem; pelo contrário, tudo isso é a condição para essa possibilidade.
            À luz dessas considerações concebemos a auto-aprendizagem como: “processo mediante o qual o estudante à distância pode conseguir uma maior independência ou autonomia no manejo de sua situação de aprendizagem”.
 
 
V - O INTERLOCUTOR PRESENTE
            O título deste bloco não é casual. Em muitas propostas educativas o interlocutor está ausente e só contam o emissor e suas mensagens. Para chegar ao interlocutor presente no processo partimos das seguintes reflexões:
            O interlocutor não sabe, o importante é a mensagem.
            O interlocutor sabe tudo, o importante é o processo.
            O interlocutor sabe e não sabe, o importante são o processo e a mensagem.
            Na primeira opção cai grande parte das instituições que consideram todo o trabalho educativo como uma simples extensão, como uma transferência de tecnologia e de informação a pessoas carentes de conhecimento e cultura.
            Caem   aqui também muitas atitudes ligadas à mercadologia social: o que interessa saber do interlocutor não vai além de suas reações diante das mensagens. Trata-se definitivamente, de um interlocutor ausente, por mais que se refira a ele, façam-se-lhe algumas perguntas ou se lhe proponham guias didáticas.
            Na segunda opção estamos diante dos exageros de alguns defensores da comunicação popular: nada há a que se acrescentar à sabedoria do povo, a tarefa consiste apenas em ajudar a encontrar o que já se tem,
            Na terceira opção parte-se da cultura dos interlocutores, mas também do reconhecimento de que toda cultura compõe-se de acertos e erros, toda, a nossa e a de qualquer um.
            A percepção do educativo varia de caso a caso. No primeiro, o polo emissor é o rei, a mensagem trará a consciência ou a mudança da conduta; no segundo o interlocutor sabe tudo, ele nos educa, nada tem que aprender de nossas mensagens; no terceiro, a educação constitui-se num acompanhamento, num intercâmbio de experiência e de conhecimento, dentro do qual ganham sentido as mensagens.
            Trata-se, então, de partir sempre do outro. Mas não de maneira ingênua, de uma idealização, mas considerando-se a seguinte pergunta: O que sabe e o que ignora o outro ?
            Acrescentemos que na auto-aprendizagem o maior contato é principalmente com os materiais: Como pode contribuir o outro, considerando-se a sua prática, seu contesto, sua experiência ?
            Essa interlocução é a base do ato educativo, percebido como uma co-responsabilidade entre a instituição que fornece os materiais e o s participantes; um encontro, então, orientado para a construção de conhecimentos e a apropriação da significação da própria realidade.
 
 
VI - O JOGO PEDAGÓGICO
            Esta sustentação teórica culmina com alguns princípios incluídos no que denominamos o jogo pedagógico. Como todos os pontos anteriores, eles estarão na base do pôr em prática os procedimentos para um processo aferente de auto-aprendizagem.
a)  Poucos conceitos, com maior aprofundamento - Muitos materiais de educação incluem grande quantidade de conceitos, como se a apropriação de uma área temática fosse equivalente à quantidade de informação absorvida. É preferível um avanço mais em profundidade, numa real reflexão e discussão de cada um dos conceitos.
b) O pôr em experiência -  Um discurso pedagógico centrado na experiência dos interlocutores resulta muito mais rico do que outro centrado apenas nos conceitos, O método consiste em ir das experiências aos conceitos e destes à experiência para apoiá-la. Além disso, a experiência dá lugar a novos conceitos.
c) Os acordos mínimos - Numa tentativa de não forçar ninguém, é possível avançar por acordos mínimos entre os participantes de um processo educativo. Tais acordos giram em torno da interpretação de experiências e do valor dos conceitos, métodos e técnicas para a prática cotidiana. possibilitam, portanto, a construção de conhecimentos.
d) A educação não é apenas uma questão de conteúdo - Em pedagogia pode-se dizer que a teoria é o método. Mesmo quando se conta com valiosos conteúdos, se não os colocamos em jogo dentro de um método rico em expressão e comunicação não se chega muito longe.
e) Construir o texto - Os textos são o apoio para o trabalho. por si mesmos não realizam o trabalho pedagógico. Os textos são iluminados considerando-se a experiência das pessoas e,  nesse sentido, todo processo é de construção do texto e não de simples aceitação.
f) O lúdico, a alegria de construir - Não cremos na pretendida seriedade da educação, quando se confunde com uma rígida apresentação de teorias já armadas, como um conjunto de dados a transmitir. Um processo pedagógico pode dar lugar ao lúdico, à alegria de construir experiências e conceitos.
g) Saber esperar - Um processo educativo constitui um pôr em comum experiências e conceitos, o que vai ligado sempre a capacidade de esperar os outros e de respeitar seus ritmos de aprendizagem.
h) Não forçar ninguém - A violência e a educação são impossíveis de conciliar. Provoca-se violência quando são impostos conceitos, métodos e técnicas destinados apenas a cumprir os propósitos da instituição.
i) Partir sempre do outro - Partir sempre das experiências, expectativas, crenças, rotinas, sonhos dos outros. Esse é o ponto de partida de todo processo pedagógico e não uma proposta centralizada no professor.
j) Partilhar, não invadir - Um ato pedagógico baseia-se no respeito, na tolerância e no reconhecimento  das características específicas de todos e de cada um dos participantes, portanto, no reconhecimento das diferenças.
k) O sentir e aprender - “O que não se faz sentir, não se entende - dizia Dom Simón Rodríguez - , e o que se não entende não interessa.”
l) A criatividade - Todo ato pedagógico pode abrir espaços à criatividade, com o que ele acarreta capacidade de descobrir e de nos maravilharmos,
m) Toda aprendizagem é uma interaprendizagem - A frase foi cunhada também por Dom Simón Rodríguez. A chave disso passa pelo partilhado, pelo que pode ser aprendido pelos outros. Fica impossível a interaprendizagem quando se parte de uma desqualificação dos outros. É impossível aprender de alguém em quem não se acredita,
n) Não há pressa - Reconhecemos em muitas experiências educativas a neurose do curto prazo; tudo está planificado a fim de acumular dados em marchas forçadas. Um sistema semelhante busca produtos e não processos, fecha caminhos à reflexão e ao partilhar.
o) Todo ato pedagógico abre espaço ao imprevisível - Quando se parte das experiências dos participantes não é possível prever tudo, planificar até os mínimos detalhes. Há temas nascidos na caminhada, conceitos novos, experiências capazes de iluminar todo um leque de problemas.
p) A educação é um ato de liberdade - Não apenas como espaço para se sentir bem durante o processo, mas também como uma possibilidade de expressão, de comunicação e de crítica.
q) A educação é um ato de amor.
 
 
VII - BIBLIOGRAFIA
FAURE, Edgar et. allAprender a Ser.  Madrid: Alianza Universidad UNESCO, 1973.
GUTIERREZ, Francisco e PRIETO, C. Daniel. Democracia y Comunicacion Alternativa. Santiago do Chile: La Piragua, CEAAL no 3, setembro, 1990.
PRIETO, C. Daniel. Diagnóstico de la Comunicacion.  Quito:Cospal,  1985.
PRIETO, C. Daniel  e CORTES, Eduardo.  El Interlocutor Ausente. San Jose: RNTC, 1990.
RODRÍGUEZ, Simón. Critica de las Providencias del Gobierno. Obras Completas Caracas: Universidad Simón Rodríguez, 1975.
GUTIERREZ, F. e PRIETO, Daniel. A Mediação Pedagógica: Educação à Distância Alternativa. Campinas: Editora Papirus, 1991.