Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

APRENDEMOS NA INCERTEZA

 

José Manuel Moran

Queremos ter certezas e vivemos sempre na incerteza. Buscamos verdades absolutas e percebemos que tudo muda, é relativo, que tem vários ângulos. É doloroso constatar nossa ignorância fundamental.

Somos como uma lancha no meio de um oceano: temos que decidir o rumo com poucos instrumentos de navegação: conhecemos alguns "macetes", temos algumas experiências consolidadas, mas há uma grande margem de insegurança em cada opção, em qualquer campo, em qualquer momento. Não temos garantias definitivas. Temos algumas certezas e muitas incertezas.
De tudo, de qualquer situação, leitura ou pessoa podemos extrair alguma informação, experiência que nos pode ajudar a ampliar o nosso conhecimento, seja para confirmar o que já sabemos, seja para rejeitar determinadas visões de mundo ou para modificar o seu enfoque.
Viver é ir aprendendo a decidir da forma mais tranqüila possível, no meio de mil possibilidades, que na sua grande maioria não se realizarão. É ir escolhendo e renunciando, avaliando e, ao mesmo tempo, reconhecendo que nunca temos a certeza das decisões, porque não temos a experiência do que aconteceria com as outras escolhas que deixamos de lado.
Viver é buscar permanentemente o sentido que se constrói no dia a dia, nas pequenas decisões. Sentido que vai revelando seu desenho em alguns momentos marcantes ou quando conseguimos enxergar mais do alto, quando obtemos uma perspectiva mais abrangente. Esses momentos fortes ajudam a que tentemos ampliar os significados ocultos do cotidiano, quanto tudo parece tão banal e repetitivo.
Podemos aprender a desvendar, a compreender e a aceitar os caminhos que já percorremos. Aprender a compreender e a aceitar as escolhas atuais, a permanente dúvida de estar acertando nas decisões, a incerteza do que deixamos de lado, do que poderíamos ter sido, ter feito, ter tentado.
Equilibrar o manter uma estrutura básica constante e inúmeras pequenas escolhas novas, que acrescentam riqueza ao nosso presente, mas que também trazem tensões e inseguranças.
Podemos aprender a compreender que ao viver entre a segurança do já conhecido e a insegurança do novo, estamos abrindo sempre novas perspectivas, e que isso implica em ganhos e perdas, em ampliação do nosso repertório e em possível perda de síntese, em dúvidas quanto a que decisões são as melhores.
Aprender a aceitar que viver é uma permanente prática de escolhas, de ganhos, de renúncias, de acertos e de erros, com os quais vamos construindo nosso mosaico, nosso caminho. Aceitar a precariedade de, ao mesmo tempo, descobrir o que é permanente nessa precariedade é um desafio constante para a nossa evolução.
Aprender a confiar em nós, quando estamos no meio de ondas gigantescas que nos jogam para todos os lados, principalmente para o chão, quando nos sentimos sacudidos por todas as partes, desorientados, sem saber para onde ir.
Somos tentados, com freqüência a "mudar", a sair dos nossos trilhos, escolhendo radicalmente o oposto do que fazemos. É difícil avaliar se são alternativas de mudança ou fugas. Há mudanças que nos ajudam a crescer e outras que nos tiram do nosso eixo.
Muitos, diante da confusão e incerteza das escolhas optam por "viver o momento", por "não pensar", por "curtir a vida". Transformam seus dias num agito permanente, em uma movimentação feérica, em busca de gratificações contínuas.
Mas percebe-se, numa análise mais profunda, que não é fruto de escolhas conscientes, mas de uma atitude fundamentalmente desesperada diante da vida. Correm, para não ter que enfrentar-se. Correm, porque intimamente não se aceitam, não se gostam.
Aprendemos a viver quando navegamos na incerteza e, ao mesmo tempo, confiamos na nossa bússola, procuramos aprimorá-la e não nos punimos por erros de pilotagem, mas, ao contrário, aprendemos com eles. Se equilibramos a incerteza e a confiança encontraremos nossos melhores caminhos.
Viver significa estar de olhos abertos, aceitar-se, enfrentar decisões contraditórias e ir sentindo se no todo vamos sentido mais paz e realização. É constatar se, mesmo em situações não ideais, precárias, nos aceitamos melhor, se avançamos na compreensão de nós mesmos e do que nos rodeia e nos sentimos mais confiantes.