Wilson Azevedo
Outubro de 2001. 12 anos depois da implantação do primeiro link entre uma rede de universidades brasileiras e norte-americanas e 6 anos depois da entrada em operação do primeiro backbone comercial, começa a ficar difícil chamar de novas as tecnologias da informação e da comunicação que dão suporte à Internet. Embora ainda seja relativamente pouco tempo uma coisa é certa: perdemos o direito ao deslumbramento. O amadurecimento da perspectiva com que olhamos a Grande Rede hoje é o que se espera ver acontecer daqui para frente.
Outubro de 2001. 12 anos depois da implantação do primeiro link entre uma rede de universidades brasileiras e norte-americanas e 6 anos depois da entrada em operação do primeiro backbone comercial, começa a ficar difícil chamar de novas as tecnologias da informação e da comunicação que dão suporte à Internet. Embora ainda seja relativamente pouco tempo uma coisa é certa: perdemos o direito ao deslumbramento. O amadurecimento da perspectiva com que olhamos a Grande Rede hoje é o que se espera ver acontecer daqui para frente.
No campo educacional, isto significa avaliar de forma menos ingênua as promessas da tecnologia e identificar em que e para qual direção avançamos. Neste artigo sugiro que o grande avanço proporcionado pelas Tecnologias da Informação e da Comunicação está na possibilidade de INTERAÇÃO COLETIVA A DISTÂNCIA MULTISSÍNCRONA EM MODO TEXTO. Vejamos cada um dos componentes desta expressão.
1. A PREEMINÊNCIA DO TEXTO
A revolução tecnológica a que assistimos hoje dá seqüência à grande revolução que tirou a humanidade da pré-história e nos lançou na história: o desenvolvimento da escrita que, como muito bem lembrou Walter Ong , é uma tecnologia. A proposta de popularização da tecnologia da escrita é coisa recente na história: está para completar 500 anos. Por milhares de anos a escrita foi uma tecnologia dominada por uma elite de especialistas em ler e escrever: cronistas, escribas, copistas, profissionais que dispuham da técnica, do conhecimento especializado, dos códigos para registro e recuperação da informação.
A escrita disponibiliza a informação ao longo do tempo para um público mais amplo, não mais restrita a uma localidade e a um momento. O texto torna-se autônomo em relação tanto a seu autor quanto a seus destinatários iniciais e à situação comum a ambos.
Esta característica de autonomia do texto foi ampliada primeiramente pelo desenvolvimento das tecnologias de impressão e de encadernação que não apenas possibilitaram a distribuição de várias cópias de um mesmo livro como também tornaram-nos portáteis, e, depois, pela recente digitalização informática.
A informação que hoje circula abundantemente através das redes de computadores encontra-se majoritariamente em modo texto. Seja em páginas web ou em mensagens de correio eletrônico, seja em salas de chat ou em programas de mensagens instantâneas, é o texto que corre pelas veias da Internet e das Intranets, às vezes ilustrado por imagens, fotos, ou animações, mas fundamentalmente texto.
Nas salas de chat, nas mensagens de e-mail ou no ICQ, uma forma mista de comunicação que incorpora características da linguagem oral se desenvolve em modo texto, uma espécie de oralidade secundária, uma maneira de "falar" escrevendo, que é uma das marcas características da comunicação mediada por computador. Para alegria ou desespero dos amantes da literatura e da boa redação, nunca se escreveu tanto quanto em nossa sociedade em rede. E mesmo quando não se mostra explicitamente como texto, sob a forma de roteiro, ele é o fundamento do teatro, do cinema, do rádio, da TV e da multimídia.
Quando atentamos para o que as novas tecnologias da informação e da comunicação oferecem à Educação, destaca-se a preeminência do texto.
2. A NOVIDADE DA MULTISSINCRONIA
A oralidade se desenvolve na temporalidade síncrona. Para falar e ser ouvido, para ouvir o que é falado, é preciso atender a duas condições: contigüidade e simultaneidade. Estar no mesmo lugar ao mesmo tempo é pré-requisito para que se estabeleça a comunicação oral face-a-face.
A escrita tornou possível uma outra experiência com o tempo que inaugurou a história: a assincronia, isto é, a possibilidade de se estabelecer comunicação independente da contigüidade e da simultaneidade. As paredes das cavernas, os papiros, os livros ou as cartas tornam-se portadores de mensagens que são comunicadas ao longo do tempo e, à exceção das primeiras, em diferentes lugares.
As redes informatizadas aceleraram a transmissão da informação que circula em modo texto a velocidades inacreditáveis. Esta aceleração proporciona coisas curiosas. Não só permite a comunicação síncrona, com a transmissão de mensagens de texto em fração de segundos de um ponto a outro da rede por chat ou mensagens instantâneas (ICQ), como também dá outra forma à comunicação assíncrona: uma mensagem de e-mail não leva mais que alguns segundos para sair da máquina do remetente até à e-mailbox do destinatário. Mas apesar de poder ser lida segundos depois de enviada, na maioria das vezes ela fica apenas disponível para ser lida em outro momento, de acordo com a agenda do destinatário. Isto pode acontecer minutos, horas ou dias depois.
A combinação de sincronia e assincronia na comunicação mediada por computador coloca-nos diante de uma nova temporalidade, a temporalidade multissíncrona. A distância ou não, via Internet ou em redes locais, a multissincronia amplia as possibilidades de comunicação, permitindo que ela aconteça de forma mais elástica, como que "esticada" por sobre a temporalidade síncrona cotidiana. O tempo vivido em ambientes virtuais transcorre como que em "slow motion". A comunicação virtual vai se desenrolando como se cada pessoa controlasse o botão de "pause/play" de modo a encaixá-la em sua agenda cotidiana . A novidade da multissincronia afeta também a prática educativa online.
3. A POSITIVIDADE DA DISTÂNCIA
Paul Ricoeur, um dos principais nomes da Filosofia Hermenêutica contemporânea, num célebre artigo destaca a função hermenêutica do distanciamento. Segundo ele, a distância espacial e temporal não constitui um obstáculo a ser transposto, mas uma oportunidade a ser aproveitada e, mais ainda, uma condição de possibilidade da interpretação - da MELHOR interpretação. A distância permite compreender melhor um texto ou um fato, situá-los no contexto mais amplo de uma obra ou de uma seqüência histórica e, assim, melhor apreender seu significado.
Peters destaca que ao longo de sua história a Didática da Educação a Distância caracterizou-se por desenvolver técnicas, estratégias e metodologias para superar a distância, vista como um obstáculo a ser vencido. Porém, se seguirmos em educação a sugestão apresentada por Ricoeur, podemos imaginar que a distância seria uma oportunidade a ser aproveitada e, talvez, uma condição de possibilidade da melhor aprendizagem.
Com efeito, relatos de experiências e pesquisas revelam que a educação a distância permite e estimula o desenvolvimento da autonomia do aluno. E a educação a distância online, via Internet ou através de redes corporativas, permite e estimula, além desta, o desenvolvimento de competências para o trabalho e a aprendizagem colaborativos. Estes aspectos exibem a produtividade pedagógica da distância na educação online.
Uma das experiências mais marcantes da imersão em ambientes online de ensino e aprendizagem é a da sensação de CONTIGÜIDADE SEM SIMULTANEIDADE. Alunos e professores percebem que no ambiente online compartilham de um mesmo espaço não físico, sem que a ele se conectem no mesmo momento. Estabelece-se entre os participantes destes ambientes virtuais uma sensação de proximidade afetiva, relacional e cognitiva que por vezes ultrapassa aquela experimentada em ambientes de proximidade física. Tão longe dos olhos e tão perto do coração, pode-se viver em sala de aulas virtual uma proximidade a distância que contrasta com a proximidade distante por vezes vivida em sala de aulas presencial.
4. A SURPRESA DA INTERAÇÄO COLETIVA VIRTUAL
Alunos em turma interagindo uns com os outros e com o professor: por séculos este tem sido o cotidiano da sala de aulas presencial. O que surpreende aqueles que se envolvem com educação a distância online é que exatamente o mesmo pode acontecer em salas de aula virtuais: alunos reunidos em turmas e interagindo uns com os outros e com seus professores. A surpresa da interação coletiva virtual prossegue quando se testemunha o processo gradual de formação de laços afetivos e de desenvolvimento de vida comunitária online. Estas turmas acabam por constituir comunidades virtuais de aprendizagem colaborativa em que, independente do tempo e do lugar, alunos se apóiam mutuamente, contribuem para a aprendizagem uns dos outros com o compartilhamento de indagações, dúvidas, questionamentos, opiniões ou informações. O mito da suposta "frieza" e falta de calor humano de ambientes virtuais cai por terra e deixa perplexos aqueles que antes imaginavam estar diante de máquinas sem vida e sem humanidade. Em bits e bytes, por fibra ótica ou sinais de rádio e satélite circulam emoções e sentimentos, impressões e pensamentos, tudo o que contribui para tecer uma teia de relações profundamente humanas.
A possibilidade de interação coletiva multissíncrona a distância em modo texto não tem sido percebida de imediato por muitos dos que desenvolvem educação a distância via Internet. Ainda prevalece para estes uma abordagem desenvolvida e aperfeiçoada ao longo de décadas na didática da educação a distância por meios convencionais (material impresso, rádio e TV), que privilegia a interação com conteúdos instrucionais e a comunicação quase sempre em via de mão única um-para-um ou de um-para-muitos. Ainda são infelizmente fortes as resistências aos novos paradigmas da aprendizagem colaborativa e da interação coletiva a distância viabilizadas pelas redes informatizadas, uma espécie de "vício de formação" que acomete aqueles que se especializaram em educação a distância nas últimas décadas e os impede de ver e valorizar aquilo que constitui precisamente o diferencial da Internet com relação a outras mídias.
Muito da perspectiva aqui exposta não coincide com o que algumas vozes mais entusiasmadas vem proclamando. Há quem veja na sedução da multimídia, na comunicação em tempo real, na disponibilização de informação e conteúdo as principais inovações trazidas pelas tecnologias da informação e da comunicação. E há mesmo quem defenda não ser possível e eficaz a aprendizagem totalmente a distância, propondo a promoção de encontros presenciais como complemento necessário. Não penso que sejam ingredientes dispensáveis ou irrelevantes e, por isto mesmo, gostaria de concluir levantando algumas questões para reflexão:
1. Se o texto é este recurso eficaz e suficiente para a interação coletiva e a transmissão de informação, o que fazer com a multimíidia? Quando, onde, como e em que condições adotá-la em programas educacionais e cursos online?
2. Se a multissincronia é este ingrediente de tão grande impacto sobre a educação que se realiza via Internet, o que fazer com a sincronia? Onde, quando, como e em que condições adotá-la?
3. Se a distância se revela com toda esta positividade, o que fazer com o ensino presencal? Onde, quando, como e em que condições adotá-lo em projetos de educação online?
4. Se a apreendizagem colaborativa em comunidades virtuais mostra-se como uma das principais conquistas da educação online, que fazer com a auto-instrução? Onde, quando, como e em que condições adotá-la?
As respostas que viermos a dar a estas questões serão decisivas para o amadurecimento da Educação a Distância por meio das já não tão novas tecnologias da informação e da comunicação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ONG, Walter J. Orality & Literacy: the technologizing of the word. London/N. York, Rotledge, 1982.
ONG, Walter J. Orality & Literacy: the technologizing of the word. London/N. York, Rotledge, 1982.
PETERS, Otto. Didática do Ensino a Distância: experiências e estágio da discussão numa visão internacional. S. Leopoldo, Editora Unisinos, 2001.
RICOEUR, Paul. Interpretação e Ideologias. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1988.