Wilson Azevêdo é diretor da Aquifolium Educacional
<http://www.aquifolium.com.br/educacional/>
e da Associação Brasileira de Educação a Distância
<http://www.abed.org.br/>. /
Treze anos depois da implantação do primeiro link entre uma rede de universidades brasileiras e norte-americanas e sete anos depois da entrada em operação do primeiro backbone comercial, começa a ficar difícil chamar de “novas” as tecnologias da informação e da comunicação que dão suporte à Internet. Embora ainda seja relativamente pouco tempo uma coisa é certa: perdemos o direito ao deslumbramento. O amadurecimento da perspectiva com que olhamos a Grande Rede hoje é o que se espera ver acontecer daqui para frente.
No campo educacional, isto significa avaliar de forma menos ingênua as promessas da tecnologia e identificar em que e para qual direção avançamos. Neste artigo, sugiro que o grande avanço proporcionado pelas Tecnologias da Informação e da Comunicação está na possibilidade de INTERAÇÃO COLETIVA A DISTÂNCIA MULTISSÍNCRONA EM MODO TEXTO.
A preeminência do texto
A revolução tecnológica dá seqüência à grande revolução que tirou a humanidade da pré-história e nos lançou na história: o desenvolvimento da escrita. A escrita, que como nos lembra Walter Ong também é uma tecnologia, permitiu disponibilizar a informação ao longo do tempo para um público mais amplo, não mais restrito a uma localidade e a um momento.
A informação que hoje circula nas redes de computadores encontra-se majoritariamente em modo texto. Seja em páginas Web ou em mensagens de correio eletrônico, em salas de chat ou em programas de mensagens instantâneas, é o texto que corre pelas veias da Internet e das Intranets, às vezes ilustrado por imagens, fotos, ou animações, mas fundamentalmente texto.
A novidade da multissincronia
A oralidade é síncrona. Estar no mesmo lugar ao mesmo tempo é pré-requisito para que se estabeleça a comunicação oral face-a-face. A escrita tornou possível uma outra experiência com o tempo que inaugurou a história: a assincronia, isto é, a possibilidade de se estabelecer comunicação independente da contigüidade e da simultaneidade.
As redes informatizadas vieram acelerar a transmissão da informação que circula em modo texto a velocidades inacreditáveis. Não só permite a comunicação síncrona, com a transmissão de mensagens de texto em fração de segundos, como também dá outra forma à comunicação assíncrona: um e-mail pode ser lido segundos depois de enviado, mas fica acessível para ser visto a qualquer momento pelo destinatário. A combinação de sincronia e assincronia na comunicação mediada por computador coloca-nos diante da temporalidade multissíncrona. A comunicação virtual vai se desenrolando como se cada pessoa controlasse o botão de "pause/play" de modo a encaixá-la em sua agenda cotidiana.
A positividade da distância
Ao longo de sua história a Educação a Distância desenvolveu técnicas, estratégias e metodologias para superar a distância física. Experiências e pesquisas revelam que a educação a distância permite e estimula o desenvolvimento da autonomia do aluno, o desenvolvimento de competências para o trabalho e a aprendizagem colaborativa. Estes aspectos exibem a produtividade pedagógica da distância, principalmente na educação on-line.
Uma das experiências mais marcantes da imersão em ambientes on-line de ensino e aprendizagem é a da sensação de CONTIGÜIDADE SEM SIMULTANEIDADE. Alunos e professores percebem que compartilham um mesmo espaço não físico, sem que a ele se conectem no mesmo momento. Estabelece-se entre os participantes destes ambientes virtuais uma sensação de proximidade afetiva, relacional e cognitiva que por vezes ultrapassa aquela experimentada em ambientes de proximidade física. Longe dos olhos mas perto do coração, pode-se viver em sala de aulas virtual uma proximidade a distância que contrasta com a proximidade distante por vezes vivida em sala de aulas presencial.
A surpresa da interação coletiva virtual
O que surpreende aqueles que se envolvem com educação a distância on-line é que nas salas de aula virtuais alunos são reunidos em turmas e interagem intensamente uns com os outros e com seus professores. O mito da suposta "frieza" e falta de calor humano cai por terra e deixa perplexos aqueles que antes imaginavam estar diante de máquinas sem vida e sem humanidade.
Mas a possibilidade de interação coletiva multissíncrona a distância em modo texto não tem sido percebida de imediato. Ainda prevalece a abordagem desenvolvida e aperfeiçoada ao longo de décadas na didática da educação a distância por meios convencionais (material impresso, rádio e TV), que privilegia a interação com conteúdos instrucionais e a comunicação quase sempre em via de mão única um-para-um ou de um-para-muitos.
Ainda são fortes as resistências aos novos paradigmas da aprendizagem colaborativa e da interação coletiva a distância, viabilizadas pelas redes informatizadas. Muito da perspectiva aqui exposta não coincide com o que algumas vozes mais entusiasmadas vêm proclamando. Há quem veja na sedução da multimídia, na comunicação em tempo real, na disponibilização de informação e conteúdo as principais inovações trazidas pelas tecnologias da informação e da comunicação. E há mesmo quem defenda não ser possível e eficaz a aprendizagem totalmente a distância, propondo a promoção de encontros presenciais como complemento necessário. Não penso que sejam ingredientes dispensáveis ou irrelevantes, mas acredito que ainda é necessário refletir muito sobre cada um desses pontos com vistas ao amadurecimento da Educação a Distância por meio das já não tão novas tecnologias da informação e da comunicação.
Wilson Azevêdo é diretor da Aquifolium Educacional <http://www.aquifolium.com.br/educacional/> e da Associação Brasileira de Educação a Distância <http://www.abed.org.br/>. /.