Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

A Educação Superior a distância, uma modalidade de educação permanente para a UFPR

 


Onilza Borges Martins, doutora em educação, professora da UFPR e da Universidade Estadual de Ponta Grossa-PR, especialista em educação a distância, consultora do INED-Paraná.



Educar para um futuro novo é uma tarefa difícil e desafiante. A visão prospectiva da realidade exige um enfoque global de todos os problemas educativos do mundo. É ilusório, conceber neste momento histórico o sistema escolar sem levar em conta todas as instâncias da sociedade onde a educação ocorre. Tanto o para-escolar como o pós-escolar dependem intimamente do escolar que constitue sempre o ponto de partida obrigatório. No entanto a educação permanente também não pode se reduzir ao pós-escolar ou pós-universitário, como acreditam alguns educadores contemporâneos que estão sensibilizados com os problemas da formação contínua dos adultos. É preciso esclarecer a diferença entre educação permanente e formação contínua de adultos. Sem dúvida, a formação contínua representa uma etapa suplementar no conjunto das instituições educativas. Mas é a educação permanente que engloba como totalidade esses dois subconjuntos que se sobrepõem: a formação inicial de jovens e a formação contínua de adultos. Qualquer separação implica em fragmentação da educação, já que a formação contínua de adultos só pode efetuar-se articulada às formações anteriores.
Visão prospectiva e enfoque global se completam com um ensino inovador e progressista e uma atitude crítica da escola. Assim, o sistema escolar não pode planejar a educação sem tomar como marco de referência a problemática da educação permanente, da mesma maneira que esta última não poderá ignorar a realidade escolar, tão pouco eximir-se de uma análise de sua dimensão institucional. A educação permanente do mundo atual deve definir-se como uma ruptura dos modelos educativos do passado.
Rejeitando qualquer proposta de "escolarização indefinida" ou da utopia da "desescolarização", o desenvolvimento atual da educação permanente cria condições para a modificação profunda da escola, assim como para a instauração de um sistema educativo que esteja em total ruptura com os interesses e as exigências de grupos minoritários, que possam comprometer a educação do homem trabalhador.
As últimas décadas tem alertado e difundido o sentimento dos perigos presentes na sociedade.
A grande civilização industrial vem aumentando a produção além das necessidades sociais e individuais. O povo carente de uma educação conscientizadora continua trabalhando muito e usufruindo pouco dos bens ofertados pela sociedade de consumo.
O modelo consumita de vida que se estruturou nos países ricos está sendo repassado aos países pobres como o nosso, onde a maioria da população não possui as condições mínimas de sobrevivência.
Estes são alguns dos efeitos produzidos pela moderna civilização científica no contexto da sociedade. Os conflitos sociais aumentam dia-a-dia e os países, cada vez mais separados pelos seus interesses de crescimento, tentam impor sua soberania pelo poder aos países pobres.
Uma vasta onda de violência contamina a sociedade e aumenta o temor dos oprimidos. Alguns governantes e ditadores que conseguem poder utilizam o mesmo como instrumento de coação sob os governados. Qual deverá ser o propósito de uma educação que passa assegurar a conexão dialética do compromisso e da participação?
Uma educação direcionada ao futuro é aquela que se preocupa com as necessidades sociais presentes na realidade de nosso país com a natureza do homem, com o trabalho e sua criação. É necessário que os educadores se despreguem da educação puramente acadêmica e se preocupem com a atividade onde o homem cria algo "não para si mesmo", mas para o mundo onde ocorre a sua identificação coletiva.
A condição para que se efetive esse avanço, esse processo de conscientização, dependerá da unidade atingida entre escola e vida, entre educação e trabalho.
A preparação da juventude e da sociedade para o compromisso e a participaração necessita de uma mobilização de todos os educadores. Uma ação grandiosa e relevante não poderá alcançar êxito sem o entusiasmo e o empenho dos seus responsáveis.
Segundo Suchodolski (1985) "a realização de um programa completo de educação permanente depende de um grande número de fatores que determinam as condições básicas e os princípios da existência humana, ainda que a conexão entre estes aspectos e a educação seja mais indireta... A educação permanente é apenas uma questão de organização levada a cabo pelos professores e educadores. Está profundamente enraizada nas circunstâncias sociais que determinam os motivos da ação social e deste modo influem na evolução dos distintos princípios e dos diferentes objetivos da vida humana. De acordo com este princípio, segundo o referido autor, a influência da educação dominará a vida de cada dia ..." (1)
Segundo este raciocínio, aceitar a idéia do autor implica em acreditarmos que as circunstâncias sociais nas quais nos encontramos, tem condições de proporcionar uma realização completa das potencialidades humanas.
Numa sociedade como a nossa, portanto, uma das condições indispensáveis para superar a alienação do povo é a realização efetiva de um programa de educação permanente contendo uma grande variedade de projetos com modalidades diferentes de educação.
O modelo de vida imposto pelo progresso da ciência e da tecnologia está fortemente conectado à uma nova concepção de homem e de sociedade.
Para o homem brasileiro possa realmente se tornar um cidadão de nosso país e do mundo, é preciso que a nossa realidade se converta em um ambiente que não seja hostil e indiferente às necessidades coletivas.
É difícil encontrar respostas adequadas à estas questões. Uma das mais cruciais é a vida econômica e social que o homem brasileiro enfrenta. É extremamente complexo encontrar pontos comuns na demandas dos vários grupos sociais. Todos estes fenômenos nos levam a concluir de que o futuro de nossa civilização depende de ações racionais e responsáveis e de modalidades de educação que facilitem e enriqueçam a organização da sociedade civil.
Por estas razões acreditamos que para fazer avançar o projeto social de nosso país, reduzindo o caráter excludente e antidemocrático do modelo de crescimento econômico vigente, uma modalidade de educação relevante seria - a educação superior aberta e a distância - que poderia romper com dois condicionantes básicos do ensino convencional difundido nas Universidades de nosso país: o espaço e o tempo.
Entendendo-se a Universidade como instituição partícipe da realidade, e portanto como uma totalidade de movimentos, o ensino aberto e a distância, modalidade de educação permanente atual nos países desenvolvidos e subdesenvolvidos, seria apenas uma complementação do ensino regular.
Realizando o ensino aberto e a distância como atividade complementar, as universidades estariam resgatando o saber como um valor indispensável à toda coletividade e nos diferentes níveis sociais.
Conforme Holmberg (1977) "a educação a distância é uma forma de comunicação pedagógica não contínua, seja ela unidirecional ou bidirecional". (2)
Em virtude da não contigüidade, a educação a distância é uma terceira via concreta, que amplia a oferta educativa para atender os interesses e as necessidades sociais. Desta maneira, ela permite o atendimento de alunos das mais diversas regiões geográficas, ampliando seus conhecimento nos diferentes campos do saber, com flexibilidade para os interessados, dispensando a dedicação exclusiva ao estudo, sem manter os educandos articulados a um bloco de disciplinas obrigatórias.
Da mesma forma que o estudante se libera da obrigação de assistir aulas em locais e horas determinadas, compromete-se a utilizar os meios que oferece a organização tutorial, que fornece as fontes para a sua aprendizagem.
Tanto a educação a distância como a presencial coincidem em ter o homem - cidadão como seu destinatário, no entanto um homem pode diferenciar-se de outro por múltiplas razões.
Tradicionalmente a universidade regular tem atendido uma clientela de elite, com a idade exigida e com nível econômico e social razoável. Fora dela no entanto existe uma outra, que por condições de sobrevivência, não teve tempo ou não possue recursos para freqüentar. E nas duas situações, o compromisso social da Universidade poderá ser cumprido, quando a mesma instituição se predispõe a democratizar o ensino superior, dentro de uma nova concepção de sociedade aberta onde haja uma democracia política social e econômica, que permita ao povo compartilhar o poder conscientemente.
No momento atual parece quase impossível encontrar um trabalho acadêmico comprometido com a transformação de toda a sociedade. Temos consciência que esta proposta é um desafio que requer a participação e a mobilização de muitos educadores.
A nossa tarefa não pode mais se limitar só ao contexto do ensino superior regular. Se assumimos compromissos de que a educação é um poderoso instrumento de luta, o ensino superior aberto e a distância deverá exercer papel essencial no progresso da sociedade brasileira e dos países iberoamericanos, para que possamos alcançar os objetivos de democratização, tão reiterados nas instâncias políticas da educação de nosso país.
A questão da alienação dos membros da sociedade revela-se fundamental no quadro da democracia política de uma nação.
Mais do que um direito a educação é um dever com o qual o Estado deve se comprometer: o de preparar o seu povo.
Para Suchodolski (1985) "a situação só poderá mudar quando considerarmos a cultura como realidade criativa e não apenas como criada". (3) A cultura assim contextualizada é uma cultura política e democrática porque vai permitir a todos discutir as questões pertinentes e pensar os meios adequados à ela. Para criar e organizar uma nova cultura, tornar-se imprescindível que os profissionais de educação descubram novos horizontes e reiventem novas formas de apropriação do saber.
É precisamente sobre estas formas e princípios que se embasa o programa de Ettore Gelpi (1980) na educação dos trabalhadores. Ele articula em um todo coerente "a formação profissional, a educação sindical, a educação dos trabalhadores e a educação de adultos. Espõe a extrema necessidade de realizar incessantemente uma sistemática batalha pelo progresso científico e tecnológico e tecnológico em direção à função democratizadora na vida humana totalmente contraditória aos que desejam a construção de uma sociedade autoritária". (4)
Esta função democratizadora, aponta sem dúvida, para a substituição de uma escola de poucos, para a educação de muitos. É a escola que deve formar o cidadão que seja capaz de pensar, de estudar, de dirigir ou até de avaliar quem dirige a sociedade - "Desenvolver o homem" afirma Gelpi, e não apenas o produtor é mais um princípio humanístico, é também uma estratégia para a ação frente a discriminação, a desigualdade e a violência do homem contra o homem". (5)
As reflexões acima suscitam por sua vez, outras inquietações articuladas à problemática com a qual se defrontam as Universidades tradicionais:
  • Como realizar programas educativos que possam realmente atender a todas as camadas de nossa sociedade?
  • O que deveria ser feito, em uma escala mais ampla, para que se pudesse construir uma nova cultura?
É nesta direção que apontam as nossas sugestões para o primeiro projeto de educação superior a distância em nossa Universidade Federal do Paraná-UFPR, visando especialmente:
  • 1. Facilitar a criação de uma comunidade universitária ampla e com pluralidade de idéias;
  • 2. Oferecer programas educativos para a atualização profissional dos professores que atuam no Ensino de 1º, 2º e 3º graus do Estado do Paraná.
  • 3. Elevar o nível de educação geral da sociedade.

Notas
(1) Suchodolski, Bogdan. Educación Permanente y Creatividad. Paris, UNESCO, ED-85/WS/38, pp. 30-31.
(2) Holmbert, B. Status and Trends of Distance Educacion. 2nd Edition, Sector Publishing: Sweden, 1985, In Revista Iberoamericana de Educación Superior a Distancia, Vol. I, nº 3, juno de 1989, pg. 20.
(3) Suchodolski, Bogdan. op.cit., pg. 51.
(4) KUCZINSKI, Janusz. La creatividad como una filosofia practica: Ettore Gelpi en la Educación Permanente, . Paris, UNESCO, ED-85/WS/38, p. 156.
  1. Idem, pp. 157-158.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GELPI, Ettore. Políticas y actividades de educación permanente. Austurias, Ed. UNED, 1988.
HOLMBERG, B. Status and Trends of Distance Education, 2nd. Edition, Sector Publishing, Siveden, 1985.
KUCZINSKI, Janus. La creatividad como una filosofia prática. Paris. UNESCO, ED-85/WS/38, 1985.
LISSEANU, Dorna Popa. Un reto mundial: la educación a distancia. Madrid, I.C.E., UNED, 1988.
MARTINS, Onilza Borges. A educação superior a distância e a democratização do saber. Petrópolis: Ed. Vozes, 1991.
SUCHODOLSKI, Bogdan. Educacion permanente y creatividad. Paris, UNESCO, ED-85/WS/38, 1985.
VILARROEL, Armando. Tres reflexiones sobre la educación a distancia en América Latina. In: La educación a distancia em América Latina. Tomo I, Caracas, Editorial Kapelusz Venezolana, 1987.