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em Ensino a Distância
Sergio Crespo C. S. Pinto 1
Miryan Celaro 2
Elvira Hoffman 3
Miryan Celaro 2
Elvira Hoffman 3
USO DE TECNOLOGIAS DE COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO NO ENSINO SUPERIOR: DESAFIOS E POSSIBILIDADES
Introdução
As crises da universidade e o impacto das mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais sobre as instituições, nas últimas décadas e especialmente a partir dos anos 90, não parecem restringir a relevância do seu papel na transformação da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento e da informação. A incorporação das tecnologias digitais no ensino superior brasileiro é um processo motivador de mudanças na gestão, no ensino e na pesquisa. A Educação a Distância (EAD), em termos genéricos, catalisa as perspectivas de pensar de outro modo, fazer de outra forma, ser de outro jeito, como estratégia de ultrapassagem dessas crises.
A Portaria MEC n. 2.253, de 18 de outubro de 2001, que regulamenta a oferta de disciplinas não presenciais em cursos presenciais oferecidos em Instituições de Ensino Superior, estimula a implementação de iniciativas inovadoras.
Este relato se propõe a examinar algumas das iniciativas em andamento na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS: a capacitação de professores, a concepção e implementação do ambiente virtual de aprendizagem – AVA e o uso da tecnologia digital na flexibilização do processo de aprendizagem em cursos da graduação.
Cenários e motivações
O uso de tecnologias de informação e comunicação (TICs) no ensino superior ocorre principalmente na segunda metade da década de 90, impulsionado pela ampliação do acesso à Internet e pela implementação da Lei n.o 9.394/96 - LDB, de 1996. A LDB consolida a última reforma educacional brasileira e oficializa a EAD como modalidade válida e equivalente para todos os níveis de ensino: estabelece a necessidade de credenciamento das instituições; define a regulamentação dos requisitos para registro de diplomas; disciplina a produção, o controle e a avaliação de programas de educação a distância; faz referência a uma política de facilitação de condições operacionais para apoiar a sua implementação.
A UNISINOS discute e implementa um processo contínuo de mudanças, expressas no Plano Estratégico 1999-2005: revisão dos currículos dos cursos de graduação, concepção e implementação de cursos diferenciados na graduação, definição de linhas de pesquisa e de interesse social, revisão das metas de capacitação docente, modernização das instalações, criação de salas especiais e laboratórios, informatização de diferentes processos e serviços na universidade e implantação em 2003 de um sistema de ERP.
Em 1999, a comunidade acadêmica se reúne para discutir um plano de desenvolvimento da EAD na universidade, o que resultou em diversas iniciativas, entre as quais: o Programa Gênesis (integra projetos na área da tecnologia), o Millenium (projetos de EAD), o Conecta (videoconferências), concepção de ambientes virtuais, páginas pessoais de professores e de alunos.
A informatização da pesquisa marca uma nova era na UNISINOS com o lançamento, em outubro de 2001, do Unilattes, associado ao sistema de CV – Lattes do CNPq.
Projetos de pesquisas4, em andamento, que focalizam, de alguma forma, o impacto das tecnologias digitais na construção do conhecimento, envolvem professores-pesquisadores das áreas jurídica, da informática, da comunicação, da educação, da administração, entre outras.
Em 2003, a UNISINOS é credenciada pelo MEC para oferecimento de Cursos de Especialização a distância nas áreas da Educação e do Direito5.
Projetos de extensão, semi ou totalmente a distância, foram ou estão sendo oferecidos, tais como: Jornalismo Online, Inglês@Distância (em convênio com a Open University) e Capacitação de Professores dentre outras.
Para fins desse relato, focalizamos três dessas iniciativas: a capacitação de professores, a ampliação do uso de tecnologias digitais em disciplinas presenciais de cursos de graduação e a concepção do Ambiente Virtual de Aprendizagem – AVA6.
Capacitação de professores para o uso de tecnologias
A “paradigm shift in education” might mean that in education certain models or patterns no longer exist, because new models and patterns which differ from the old ones in a marked way have substituted them (Peters, 2003).
Segundo Peters (2003), não estamos lidando com um processo de transição no campo da educação, mas com transformações rápidas e abruptas que envolvem mudanças de paradigma. O envolvimento dos professores na construção de novas formas de ensinar e aprender e de implementação desse processo sob novas circunstâncias e com suporte de tecnologias foi considerado prioritário pela UNISINOS. Hoje, a UNISINOS possui mais de 31.357 alunos, 1.047 professores e 4.100 computadores. Desses, 3.800 estão conectados a internet.
Diversas iniciativas estão em andamento na universidade e são estruturadas a partir de objetivos e formatos variados. A capacitação de professores para docência, com suporte no Ambiente Virtual de Aprendizagem – AVA atingiu um total de onze professores. O processo de seleção desses professores ocorreu a partir da divulgação de um Edital para seleção de projetos de ensino, com o uso do AVA em cursos de graduação, oferecidos na modalidade presencial. “O objetivo era capacitar os docentes não só para o uso do AVA, mas também na concepção epistemológica”7.
Seis projetos foram selecionados8, levando-se em conta alguns princípios como: cooperação, colaboração e interdisciplinaridade. Os professores foram capacitados tanto na área pedagógica quanto na tecnológica. Todos os participantes receberam horas para participarem deste experimento. Os professores constituíram uma comunidade de aprendizagem (Projetos–Pilotos em Ação) que proporcionava um espaço virtual e presencial de discussão epistemológica e metodológica que desse suporte aos projetos a serem desenvolvidos. Na seqüência, cada professor ou equipe de professores criou sua própria comunidade de aprendizagem (com seus alunos), na qual foram desenvolvidas e aplicadas as propostas de ensino. Atualmente, cada professor que recebeu capacitação é um agente modificador e divulgador do trabalho já realizado durante os projetos-pilotos.
O processo de avaliação proposto pela metodologia do AVA contempla a possibilidade de diferentes focos: a auto-avaliação dos integrantes da comunidade, a avaliação da comunidade Projetos-Pilotos em Ação, a avaliação e validação da metodologia do AVA e a avaliação e validação da ferramenta.
Os resultados evidenciam dificuldades na ruptura do paradigma da relação aluno-professor, aluno-aluno, bem como em desenvolver certas atividades a distância. Entretanto, “apesar de os sujeitos estarem com a cultura do presencial muito arraigada [...] a maioria conseguiu se apropriar do manejo da metodologia e do manejo das ferramentas da Plataforma”. Os resultados evidenciam ainda que “os professores constataram que nos momentos presenciais conseguiram gerenciar melhor o processo de ensino e aprendizagem do que no ambiente virtual, confirmando a tese de que o ambiente virtual exige metodologia e fazer pedagógico diferenciado daquele do ensino presencial” .
Outro projeto de capacitação docente em andamento na universidade agrega 24 professores de diversas áreas do Centro de Ciências da Comunicação: Secretariado, Línguas Estrangeiras e Língua Materna, Publicidade e Propaganda, Jornalismo.
Os professores estão organizados em 4 grupos e receberam um desafio: o de construir uma proposta de curso, integral ou parcialmente a distância. As discussões ocorrem virtualmente. A metodologia propõe uma intensa interação entre os participantes: as propostas construídas pelos pequenos grupos são discutidas pelo grande grupo em momentos alternados. O curso prevê 04 módulos de 20 h ao longo de 2 semestres letivos.
Uso de tecnologias digitais em disciplinas presenciais de cursos de graduação
Os universitários-trabalhadores são a maioria (80%) nas universidades jesuítas. Na UNISINOS, um número significativo de estudantes trabalha e se desloca diariamente de cidades próximas para estudar no período noturno. Um grande número de alunos são trabalhadores de tempo integral: 43,57% dos inscritos no vestibular 2002/2 trabalham 40 h semanais ou mais, 19,63% não trabalham e apenas 0,30% não pretendem trabalhar durante a realização dos estudos universitários.
Esta situação contrasta com propostas de ensino estruturadas com tempos e espaços fixos. Nesse sentido, projetos com suporte em tecnologias digitais têm sido implementados, como o “Projeto Lendotexto” 9, em andamento desde 2001. A concepção do projeto apresenta uma alternativa para as restrições impostas a trabalhadores em turno integral, com deslocamentos diários (em média 100 km), tempo reduzido de estudos e em períodos noturnos, com média superior a 5 anos de estudos. Permitindo maior flexibilização das condições de ensino/aprendizagem: autonomia, ritmos, tempos, espaços plurais.
Uma enquete junto aos 50 alunos de uma turma de estudantes de informática revela, entre os pontos positivos: presença e segurança – a possibilidade de alcançar o professor 24h/7dias por semana; maior motivação – inclusão de interesses específicos; comunicação – facilidades no contato entre pares; interrupções e retomadas de estudos – redução do abandono e da reprovação provocados por contingências diversas (doenças, viagens, mudanças de emprego, etc.); possibilidade de estudar a partir do local de trabalho ou residência.
Entre os aspectos restritivos, foram mencionados: dificuldades relacionadas com a tecnologia (20% dos alunos utilizam os laboratórios públicos) e com o aumento da autonomia. O professor dessa turma destaca, entre os aspectos positivos: aumento na motivação dos alunos e melhora nos resultados acadêmicos; estreitamento das relações professor-alunos; humanização do processo educativo.
Entre os desafios e dificuldades: necessidade de desenvolvimento e domínio de novas habilidades associadas ao uso adequado de tecnologias; de novos modelos de ensino-aprendizagem; maior dependência de suporte técnico e administrativo; aumento significativo no tempo de preparação das atividades.
De maneira geral, as percepções dos professores e dos alunos, decorrentes da implementação do projeto de flexibilização da aprendizagem com suporte em tecnologias digitais, nesses cursos universitários, apontam para conquistas relevantes na redução de perdas ocasionadas pela rigidez da estrutura universitária atual.
Ambiente virtual de aprendizagem – AVA
O Ambiente AVA foi totalmente construído utilizando ferramentas de software livre. O AVA executa em cima do sistema operacional Linux. Utiliza um banco de dados PostgresSql e foi implementado em Java e JSP como linguagem de script. Como servidor http utiliza-se o Apache e o Tomcat como servidor JSP.
Como o AVA foi desenvolvido baseado em um plano pedagógico-comunicacional, ficou evidente que as diversas ferramentas existentes no mercado para interação e comunicação precisavam ser revistas (chat, email, listas, fórum, agendas, murais, etc.). É comum encontrarmos ambientes que utilizam um bom conjunto de ferramentas oferecidas por portais comerciais que não foram planejados para conter os requisitos educacionais.
Hoje, o AVA possui 2.736 participantes distribuídos em 139 comunidades, sendo que 14 universidades já fizeram o download do AVA10 para suas instituições de ensino. A UNISINOS aderiu a proposta de Open Source para o AVA, permitindo que mais instituições de ensino possam usufruir e colaborar para o desenvolvimento de novas facilidades neste ambiente de EAD (Pinto et al., 2002).
Considerações finais
A UNISINOS está ciente das modificações estruturais que a EAD exige de uma instituição de ensino. Também está ciente da necessidade de se repensar as metodologias de ensino e aprendizagem que esta nova modalidade e as novas TICs oferecem.
As transformações decorrentes deste novo paradigma de ensino atualmente estão presentes na formação dos novos cursos de graduação11 que a universidade está implantando.
O curso de Realização Audiovisual da Unisinos, com formação específica para cinema, televisão, vídeo e fotografia nos ambientes de ficção, documentário e propaganda, é voltado para a formação de profissionais qualificados a atuar nas diferentes funções de uma produção audiovisual, como roteiro, direção, direção de arte, direção de fotografia, montagem, produção e áudio.
O curso de graduação em Administração - Habilitação em Gestão para Inovação e Liderança é único no Brasil. O objetivo do curso é formar líderes inovadores, criativos e éticos, capazes de transformar e conduzir as organizações e de contribuir decisivamente para o desenvolvimento sustentável de um mundo marcado pela mudança.
Engenharia da Computação – Habilitação em Computação Aplicada às Engenharias é um curso com metodologia totalmente inovadora, integrado ao setor produtivo. Seu foco é a preparação de profissionais com formação em Computação, que possam desenvolver soluções para problemas ligados às engenharias, em especial a Elétrica, a Mecânica e a de Produção. O curso é seriado, tem duração de quatro anos, e as atividades ocorrem em turno integral. É possível utilizar, em todos os cursos, recursos de EAD com software próprios, adequados à proposta pedagógica do curso.
Concluindo, a EAD e as novas tecnologias de informação e comunicação já fazem parte da comunidade acadêmica em diversos níveis, permitindo uma maior qualificação tanto do quadro docente como discente.
Referências bibliográficas
PETERS, Otto. Distance Education in Transition New Trends and Challenges. v. 5. Bibliotheksb - und Informationssystem der Universität Oldenburg, 2003 e-book. p. 25.
PINTO, Sérgio Crespo, C. S.; SCHLEMMER, E.; SANTOS, C. T.; PÉREZ, C. C.; RHEINHEIMER, L. R. AVA: Um Ambiente Virtual Baseado em Comunidades. In: XIII Simpósio Brasileiro de Informática na Educação (SBIE), 2002, São Leopoldo, 2002. v. 1. p. 31-38.
NOTAS:
1 Prof. Titular, Doutor em Computação pela PUC-Rio, Coordenador do Laboratório de Engenharia de Software no Mestrado em Computação Aplicada – PIPCA – Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS http://www.inf.unisinos.br/~crespo
2 Doutoranda em Engenharia de Produção/Mídias e Conhecimento/UFSC, assessora para assuntos de EAD/Diretoria de Ensino/Pró-Reitoria de Ensino e Pesquisa (PROENPE).
3 Diretora de Graduação e Mestre em Semiótica pela UNISINOS.
Email:{crespo,miryan,elvira}@{exatas,mercurio,helios}.unisinos.br.
Site: www.unisinos.br
Site: www.unisinos.br
4 Apenas para citar alguns dos projetos em andamento: Alinhamento Estratégico da utilização da Internet, O voyeurismo televisivo: molduras, moldurações, emolduramentos, dentre outros.
5 Curso de Especialização a Distância em Educação Crítico-Humanizadora e em Direito Municipal.
6 http:// www.ava.unisinos.br
7 SCHLEMMER,E., MALLMANN, M.,DAUT, S. I.D., Relatório da avaliação e validação do AVA: comunidade projeto-piloto em ação. Programa de capacitação docente no uso do AVA. São Leopoldo:UNISINOS, 2002.
8 http://www.comunica.unisinos.br/ead
9 http://www.lendotexto.unisinos.br
10 http://www.unisinos.br/ava/
11 http://www.unisinos.br/novagraduacao/

