Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

CAPACITAÇÃO DE RECURSOS HUMANOS PARA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

 

Para conversarmos sobre a capacitação de Recursos Humanos (RH) para Educação a Distância (EaD), precisamos primeiramente esclarecer de qual EaD e de que RH estamos falando.
Os mais recentes desenvolvimentos no campo da EaD tem nos levado, grosso modo, a duas modalidades: uma de perfil notadamente auto-instrucional, desenvolvida no contexto da sociedade industrial e perfeitamente adaptada às exigências desta sociedade, e outra de perfil mais colaborativo ou sócio-interacionista, desenvolvida no contexto de surgimento da chamada "sociedade pós-industrial" ou "da informação", em resposta a novas demandas desta nova sociedade.
A primeira modalidade tem sua máxima expressão nas universidades a distância que a partir de fins dos anos 60 e início dos anos 70 do século recentemente encerrado cresceram em todo o mundo, mas notadamente na Europa, tendo a Open University britânica como modelo. Utilizando principalmente material didático impresso e o serviço postal, eventualmente recursos de áudio e vídeo de forma complementar, esta modalidade aplica de modo intensivo a auto-instrução, já que a distância e a adoção de recursos de comunicação do tipo um-para-muitos e um-para-um não permitem a interação coletiva entre professores e alunos. Raros momentos de encontros presenciais promovem alguma oportunidade de interação coletiva, mas em essência o processo de ensino-aprendizagem ocorre, nesta modalidade, fundamentalmente através da interação do aluno com um conteúdo estruturado e organizado em material impresso, contando com um suporte pedagógico sob a forma de tutoria, isto é, docentes a quem o aluno pode recorrer quando precisa esclarecer dúvidas ou deseja orientação.
A outra modalidade surgiu em meados dos anos 70 mas encontrou um amplo campo de desenvolvimento nos últimos 10 anos principalmente nos EUA. Utiliza redes informatizadas e recursos de comunicação mediada por computador de forma a dar acesso a material didático em formato eletrônico e permitir interação coletiva entre professores e alunos em modo fundamentalmente assíncrono. Nesta modalidade de EaD, mais adaptada aos novos tempos que requerem e valorizam o trabalho em equipe, a aprendizagem colaborativa é estimulada e desenvolvida na interação coletiva, do tipo muitos-para-muitos, entre alunos e professores, SOBRE conteúdos. Esta EaD pós-industrial ainda não se estabilizou em termos de modelos e práticas de referência. Ou pelo menos estes modelos e práticas de referência ainda não são tão visíveis quanto os modelos e práticas da EaD industrial. Por isto ainda encontramos hoje, de 2 ou 3 anos para cá, alguma confusão  especialmente em torno do conceito de "curso" aplicado a expressões como "curso online" ou "curso virtual".
A confusão resulta de uma certa imaturidade deste momento da história da EaD em que novos conceitos ainda precisam ser expressos em vocabulário um tanto gasto. Tomemos o conceito de "curso". Presencial ou a distância, um curso se define como um conjunto de atividades educacionais orientadas por objetivos de aprendizagem claros e explicitados em currículos e programas. Em cursos presenciais, a imensa maioria destas atividades acontece em ambientes de interação coletiva, como salas de aula, laboratórios e auditórios. Em cursos na modalidade industrial de EaD, dadas as limitações impostas pela tecnologia adotada, a interação coletiva é bastante reduzida, até inexistente em alguns casos. Mas em cursos segundo a modalidade de EaD pós-industrial, que usam intensivamente a conferência eletrônica assíncrona e em modo texto, a interação coletiva é não apenas possível como constitui mesmo sua principal característica. 
No entanto, a imaturidade deste momento da história da EaD faz com que, com freqüência, práticas e modelos desenvolvidos para a primeira modalidade sejam inadequadamente adotados de forma irrefletida em iniciativas que se pretendem da segunda modalidade. Isto explica o fenômeno recente da proliferação de TUTORIAIS - conteúdos estruturados e organizados eletronicamente para a aprendizagem auto-instrucional - ingênua e equivocadamente denominados de "cursos", distribuídos pela Internet. Tutoriais são publicações em hipermídia, não são cursos. Seus equivalentes no mundo não virtual são livros, manuais e apostilas. Podem ser MATERIAL DIDÁTICO para cursos. Mas de forma alguma podem ser confundidos com cursos. No entanto, a imaturidade deste momento ainda faz com que alguns chamem urubu de "meu louro" (1) e em conseqüência outros comprem gato por lebre.
Portanto, para o desenvolvimento de iniciativas de capacitação de RH para EaD, é preciso antes de tudo ter-se clareza quanto a que tipo de EaD se pretende desenvolver. A falta desta clareza tem provocado desde retumbantes fracassos a pesadas dificuldades e prejuízos financeiros e institucionais com reflexos sobre a credibilidade e a reputação de instituições de ensino, educadores e, no limite, da própria EaD.
Se estamos de acordo quanto aos tipos de EaD de que tratamos, podemos então caracterizar melhor a que recursos humanos nos referimos. Os recursos humanos necessários ao desenvolvimento de programas de EaD do primeiro tipo (industrial, auto-instrucional) não são os mesmos recursos humanos necessários ao desenvolvimento de programas de EaD do segundo tipo (pós-industrial, baseada em aprendizagem colaborativa). 
Para a primeira modalidade de EaD são necessários profissionais especializados no tratamento de conteúdos para o formato auto-instrucional (chamados de "instructional designers" por alguns), profissionais especializados no atendimento pedagógico a alunos (os chamados "tutores") e profissionais convencionalmente chamados de "conteudistas", especialistas em ramos diversos, que fornecem a matéria-prima sobre a qual trabalham os primeiros. Dada a importância fundamental que o desenvolvimento de material didático tem para esta modalidade e o perfil industrial que esta atividade de desenvolvimento tem, esta divisão de funções acabou se estabelecendo e tornou-se um padrão em equipes de EaD do tipo industrial.
Para a segunda modalidade de EaD são necessários profissionais especializados em animação de comunidades virtuais de aprendizagem colaborativa, capazes de mobilizar alunos para a interação coletiva com outros alunos e seus professores. Estes profissionais são os próprios docentes. Não são necessários "tutores", pois o atendimento pedagógico ao aluno é realizado pelo próprio professor, devidamente capacitado para as funções de animação e mobilização da comunidade de aprendizagem. Não são necessários "conteudistas", pois o próprio professor organiza o programa de estudo com exercícios e leituras oferecidas pela web ou em artigos e livros publicados ou ainda em apostilas próprias. Não são necessários "instructional designers" para dar tratamento auto-instrucional a um material didático especialmente desenvolvido, pois o modelo pedagógico é outro, baseado em aprendizagem colaborativa, na interação de todos com todos. O recurso humano básico é mesmo o professor.
Mas há um recurso humano que também requer capacitação específica e que não pode ser esquecido: o aluno! Especialmente para o tipo de EaD que estamos aqui chamando de pós-industrial e se serve de ambientes radicalmente diversos dos ambientes que alunos estão acostumados a freqüentar: os ambientes online. Ambientes online envolvem uma temporalidade multissíncrona (síncrona e assíncrona), um espaço relacional, não-físico, e uma sociabilidade virtual que acontece na interação coletiva a distância pela troca de mensagens em modo texto. É preciso promover a adaptação do aluno a esta nova realidade, facilitar sua ambientação online, levá-lo a desenvolver competências específicas para freqüentar este novo ambiente e aprender colaborativamente em comunidade virtual. Isto de modo algum se confunde com a mera operação de software e hardware. Desenvolver habilidades técnico-operacionais não é suficiente. Trata-se de um outro tempo dentro do qual o aluno precisa agendar-se, um outro espaço no qual ele deve localizar-se, uma outra comunidade com a qual vai relacionar-se. Mais e além do que técnico-operacional, esta ambientação é fundamentalmente PSICO-PEDAGÓGICA (2).
Nas condições atuais, de transição da sociedade industrial para a sociedade da informação, as duas modalidades de EaD convivem. Afinal a velha sociedade industrial ainda está aí, com suas demandas para serem atendidas. Os programas de EaD desenvolvidos para atendê-las continuam dando conta destas necessidades. Mas, ao mesmo tempo, novas demandas surgem, requerendo novas abordagens e novos modelos pedagógicos. É na direção do atendimento a estas demandas cada vez mais crescentes e desafiadoras que precisa caminhar a EaD. A capacitação de conteudistas, tutores e profissionais para a modelagem auto-instrucional é ainda necessária, pois certamente, embora decrescente, é ainda significativa em nossa sociedade brasileira a demanda por este tipo de EaD industrial. Mas não há dúvidas de que é para a capacitação de docentes especificamente em pedagogia online, em estratégias de ensino online, em animação de comunidades virtuais de aprendizagem colaborativa, que deve se voltar a atenção dos que olham para o futuro.
Esta capacitação não pode ser feita de outra forma que não online. Não faz sentido aprender a nadar senão na água. E aí um ponto simples, porém de grande importância, se apresenta: para ser um professor online, é preciso antes ter sido um aluno online. Aquele que vai capacitar-se para lecionar a distância via Internet precisa também ser ambientado, precisa também passar pela mesma experiência de adaptação ao novo espaço-tempo-comunidade virtuais. E, novamente, isto nada tem de puramente técnico-operacional. Adaptação psico-pedagógica é o objetivo a ser buscado. E, depois, capacitação PEDAGÓGICA específica em Educação Online. Embora feita através de computadores, ela é essencialmente EDUCAÇÃO. 
A expansão das redes informatizadas, das Intranets e principalmente da Internet, não dá sinais de redução de ritmo. Pelo contrário, iniciativas governamentais como as anunciadas recentemente pelo governo federal para o ano de 2002 deverão provocar um crescimento ainda maior no número de usuários da Internet no país. Também, ao mesmo tempo, intensifica-se a procura por formação superior nas mais diversas áreas. A coincidência destes dois movimentos de expansão, aliada à recente portaria do MEC autorizando a inclusão de carga horária não-presencial em cursos regulares, aponta para o caráter estratégico dos investimentos em EaD online. Capacitar PEDAGOGICAMENTE (e não apenas técnico-operacionalmente) seus docentes especificamente para serem professores online é o grande desafio a que as universidades brasileiras são chamadas a responder hoje.
(1) Ver o artigo "Para Não Chamar Urubu de Meu Louro: afinal, o que é um Curso Online?", em http://www.aquifolium.com.br/educacional/artigos/louro.html.
(2) Ver o artigo "Muito Além do Jardim de Infância: o desafio do preparo de alunos e professores online", em
http://www.aquifolium.com.br/educacional/artigos/muitoalem.html.