Gilberto Teixeira (Doutor FEA/USP)
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Estamos no início de um processo muito dinâmico de mudanças em todas as dimensões da nossa existência. O fato novo que parece estar na raiz das mudanças é a digitalização crescente da informação e a evolução dramática da tecnologia para lidar com a informação digitalizada.
Alguns acham que estamos no início de uma grande revolução, parecida talvez com a Revolução Industrial, mas outros objetam ao uso do termo revolução. Um ponto de vista muito interessante é aquele de Phil Agre, que prevê que durante o processo em curso todas as instituições da nossa existência serão renegociadas.
Enfim, revolução ou não, poucos duvidam do fato de que a evolução tecnológica impactará fortemente os aspectos econômicos, sociais e culturais da nossa civilização. Ou seja, acredito que é ponto pacífico que haverá impacto. O problema está em tentar prever qual o impacto ou como o processo se desenrolará. Na verdade, acredito que estas coisas são intrinsecamente imprevisíveis.
Na minha opinião, o modelo que melhor se adapta a esta situação é aquele dos sistemas complexos adaptativos. Caos, auto-organização, conflitos incessantes, adaptabilidade são algumas das palavras-chave para descrever o processo.
Faz parte desta visão o fato de que o impacto (ou seja, a transição de fase) acontece de forma contínua e imprevisível, fora do controle de qualquer entidade ou ser. Isso é muito importante para a compreensão do fenômeno e é apavorante e tranqüilizador ao mesmo tempo (note o exemplo de conflito). O processo atinge um número muito grande de agentes que se comunicam entre si e cujo comportamento continuamente depende do comportamento de outros agentes. Todos agem simultaneamente, descoordenadamente, da forma que mais adequada lhes parece. A resultante das ações é que determina o impacto final e por esse motivo tal impacto é imprevisível.
Gostaria de focalizar agora um aspecto dessa revolução que considero um dos mais importantes. Trata-se da natureza extraordinariamente multidisciplinar e multicultural dos processos em curso. Isso é uma afirmação pesada, cujas conseqüências custamos a aceitar em geral. Até porque a sua aceitação implica em dores de cabeça monumentais, já que é muito difícil acostumar-se a uma só disciplina e aprofundar-se nela a ponto de poder dominá-la. Imagine então fazer isto em várias disciplinas, e ser capaz de entender a interação entre duas ou mais disciplinas.
Mais complicado ainda é substituir disciplina por cultura nessa transição do mono para o multi. São tarefas formidáveis, no entanto acho que é por aí que as coisas estão andando e é por aí que elas andarão cada vez mais. Continuamente a ênfase maior parece estar na interação ampla, ativa e significativa de duas ou mais disciplinas ou culturas. Elas têm que agir uma sobre a outra, de forma sinérgica, ou seja, cada uma aumentando a outra. É daí que virão os grandes impactos futuros. Faz parte dessa minha visão o fato de que os nossos estudos e conhecimentos necessários para a compreensão do dia-a-dia e para o exercício profissional serão cada vez menos verticais, de menor especialização, para serem cada vez mais horizontais, de maior abrangência temática.
Vou exemplificar estas afirmações, para que elas não se percam numa nuvem de generalidades. E para exemplificá-las vou à edição da revista The Economist de 24 a 30 de junho de 2000. Nessa edição, com 80 e poucas páginas de conteúdo editorial, quase 30 delas referem-se aos impactos da tecnologia digital na sociedade. A diversidade e abrangência tanto das matérias quanto das suas implicações ilustram muito bem a natureza multidisciplinar e multicultural do tema.
Um dos artigos principais da revista (editorial ou “leader”) é dedicado à questão da revolução causada pelo Napster no consumo de músicas e o impacto dessas mudanças sobre a indústria de entretenimento. Escreve-se cada vez mais sobre esse tema. Napster (a mudança tecnológica), Metallica (o artista), sindicato dos grandes rótulos (a entidade que representa os que se julgam os grandes prejudicados), o futuro da propriedade intelectual (um tema gigante e que está no olho do furacão), exércitos de advogados e exércitos de ativistas são os ingredientes principais dessa discussão causada pela interferência da Internet na distribuição de músicas digitalizadas. É muito interessante registrar o ponto de vista da revista, que tenta acordar a indústria de entretenimento para que ela perceba que há uma nova realidade que está aí, cujo progresso é inevitável, com a ponte do regresso ao passado destruída e que exige uma nova postura da indústria.
Esta postura deve se basear na nova realidade e aliar-se a ela em vez de lutar contra ela. É interessante observar que até mesmo em alguns círculos mais conservadores está cada vez mais freqüente uma opinião dessas. Sinal de mudanças irreversíveis.
Ainda ligado ao tema anterior, a revista traz um artigo de uma página e meia sobre um assunto essencialmente técnico, de ciência da computação, acessível ao leitor comum. Aliás, eu aproveito para chamar a sua atenção para esse tema, que considero ser um forte candidato a um dos campeões dos impactos futuros mais profundos. Chamo a atenção também para a beleza e a complexidade técnica do problema, bem refletidos nas soluções propostas até agora. Trata-se de artigo na seção de Ciência e Tecnologia que aborda o advento de sistemas distribuídos de informação. O artigo focaliza a atenção principalmente no projeto FreeNet que promete uma tecnologia distribuída para armazenar informação digital que poderá ser disponibilizada e consumida de forma anônima, sem que ninguém saiba onde a informação se encontra em cada instante.
Conseqüentemente, a informação não pode ser destruída. Esse sistema está sendo alardeado como uma ferramenta para tornar realidade a impossibilidade de censurar a informação. Que impacto econômico, social e cultural! Mais detalhes podem ser obtidos na página do projeto em freenet.sourceforge.net.
A revista traz ainda um artigo de uma página sobre a nova mania na rede: o "instant messaging" e a guerra de cunho comercial envolvida nessa questão. Um belo artigo, que acaba apontando para protocolos abertos como a ferramenta capaz de contrapor-se à tendência a monopólio que está despontando e que preocupa cada vez mais.
Outra matéria muito interessante é um artigo de um convidado da revista. Convidaram Jeffrey Sachs, o professor de Harvard, a escrever sobre globalização. Ele acabou concluindo que o mundo não é mais dividido por ideologia, mas por tecnologia. E escreve sobre o poder divisor da tecnologia e de como a percepção da tecnologia e a capacidade de inovação de cada país determinam o seu futuro no quadro que vivemos. Aborda também as mudanças necessárias para lidar com a nova realidade.
Esse artigo faz a gente pensar muito. A região sul do Brasil é classificada no artigo como “capaz de adotar tecnologias” enquanto a maior parte do país é classificada como “tecnologicamente excluída”. No Hemisfério Sul nem pensar na categoria de “inovadores tecnológicos” (com exceção da Austrália), cujos 5 maiores líderes do planeta correspondem a 10% da população mundial, são responsáveis por 41% da produção mundial e por 87% das patentes válidas nos Estados Unidos. E nós? Como vamos enfrentar essa situação? Será que estamos nos preparando adequadamente para o futuro?
Finalmente, o artigo mais extenso dessa edição é dedicado a um “survey” de 22 páginas sobre ``Governo e Internet'', um impacto e tanto, mas que não tenho condições de analisar aqui em maior profundidade.
Será que estamos preparados para adquirir e fornecer uma formação multidisciplinar e multicultural? Tenho as minhas dúvidas. Mas é importante registrar que o bacharel de ciência da computação é uma peça essencial nesse processo, se ele souber se adaptar à nova realidade. Ele é essencial, pois é o que melhores condições tem de entender e de interpretar a tecnologia digital das redes computacionais. E esse é um aspecto essencial e indispensável do processo em curso. Mas ele tem que entender que o seu maior valor não está mais em si mesmo, mas na sua capacidade de interagir com outras profissões e com outras culturas. Na sua capacidade de levar o seu conhecimento para fora da sua área específica de atuação.
Qual é a moral dessa história? Acho que é esta: vem impacto aí, não é possível evitá-lo, muito menos prevê-lo, mas se quiser refletir sobre ele ou se juntar a ele adote um ponto de vista cada vez mais multidisciplinar e mais multicultural e para lhe amparar nesta árdua caminhada procure ler muito
Leituras Recomendadas
CASTELLS, M. The Information Age: Economy, Society and Culture. Blackwell Publishers, 1999... Traduzidos para o português.
CASTELLS, M. The Information Age: Economy, Society and Culture. Blackwell Publishers, 1999... Traduzidos para o português.
CLARKE, I. A Distributed Decentralised Information Storage and Retrieval System, 1999. Pode ser encontrado em freenet.sourceforge.net.
LESSIG, L. Code and other Laws of Cyberspace. Basic Books, 1999.
DELYRA, J., A. MANDEL, A. e SIMON, I. "Informação: Computação e Comunicação". In: Revista USP (Dossiê Informática), 35:10-45, 1997. Veja www.usp.br/geral/infousp e www.ime.usp.br/~is/abc.
STACEY, D. Complexity and Creativity in Organizations. Barrett-Koehler Publishers,