Gilberto Teixeira
(Prof. Doutor FEA/USP)
1‑ INTRODUÇÃO
O impacto de um conjunto de transformações nas ultimas décadas
do seculo XX ja evidenciaram a necessidade de uma transformação e de novos papéis da atividade educacional (em todos os níveis) e,em especial de novos papéis para seu agente principal - o professor.
Em textos anteriores já discutimos a questão.
O objetivo deste texto a discutir qual devera ser o papel do professor como agente de mudanças para que se possa passar do estágio de Didática do Ensino‑Aprendizagem para a Didática do "Aprender a Aprender".
II ‑ A DIDÁTICA DOS DIAS DE HOJE
Pedagogia é a oficina de gestão de sujeitos.
Didática é o processo de motivaçao do saber pensar.
Todavia, na teoria e sobretudo na prática, temos o contrário.
Os professores, como regra, só foram treinados para ensinar, e nunca ultrapassaram o estágio da mera aprendizagem.
De cópia em cópia, são cópia, e isto recópiam indefinidamente.
Trata‑se da multiplicação de objetos.
As escolas são lugares de "decoreba", onde o aluno é tangido para a domesticação.
Por vezes internaliza coisas, ajunta na cabega um monte de informações, aprende pedaços de conhecimento.
Mas não os junta, sistematiza, questiona, reconstrói, porque o próprio professor nao sabe fazer isso.
Um professor incapaz de elaborar projeto pedagógico próprio é incompetente para motivar emancipatórios (Silvia, T.M.N, 1990; Souza & Kramer, 1988).
Infelizmente, a didática continua presa ao repasse mecânico, a aula expositiva, para ser cópiada e decorada.
Depois, é restituida na prova.
Na "cola" é cópiada com a máxima perfeição.
Aula, prova e cola sao sinônimos, no espírito da coisa. Pesquisa, entretanto, poderia ser maneira inteligente de reverter o processo instrumentalizante, à medida que fundasse atitude alternativa participante, construtiva, questionadora.
Mostra a relevancia de conjugar qualidade formal a política, porquanto saber pensar e, ao mesmo tempo, a capacidade de dominar a renovar informação, a de decidir o que fazer com ela.
Não se contenta em apropriar‑se do conhecimento, porque faz dele a estratégia do questionamento.
Une saber e mudar.
Para tanto, formação básica qualitativa a instrumentação absolutamente estratégica, através da qual a pessoa se apropria de conhecimentos relevantes e sobretudo gesta atitude metodológica construtiva, para ocupar a cena atual como sujeito.
Não é apenas repasse informativo, mas o cultivo da capacidade de confrontar‑se a renovar‑se.
Cabe à pedagogia e à didatica:
a) Construir o contexto de totalização da formação básica, revelando que seus componentes formam um todo interligado a dinâmico;
b) Mostrar que diz respeito a realidade histórica, desvelando ser capaz de compreender processos e de neles entrar como figura ativa;
c) Ressaltar que formação básica não é pacote fechado, apropriado, mas, mais que produto, um procedimento para renovar o conhecimento e renovar‑se através dele;
d) Indicar que seu cerne nao é um lote decorado de informaçao, mas a capacidade de sempre se informar;
e) Argumentar que a alfabetização não é enunciar e desenhar letras, mas ler a realidade, interpretar o mundo, sobretudo intervir nele como sujeito;
f) Construir a reconstruir a atitude do aprender a aprender em nosso ambiente historico a social.
III ‑ O SIGNIFICADO DO APRENDER A APRENDER
Aprender é necessário como insumo do aprender a aprender.
Aprender é apenas meio.
A qualidade da formação básica é fator modernizante mais eficaz da sociedade a da economia.
Tal reconhecimento leva a perceber que a inovação depende muito mais de sujeitos competentes em termos do aprender a aprender, do que das instrumentações tecnológicas.
Tecnologia pode ser resultado apenas da qualidade formal.
Inova cientificamente, mas pode ser inimiga da sociedade.
O "idiota especializado" é capaz de produzir tecnologia, restringindo formação básica ao aspecto face técnico.
Facilmente torna‑se um monstro, que agride a sociedade e o meio ambiente (Paiva, 1989).
· No contexto educacional é mister equilibrar qualidade formal a política, para que o processo de inovação se inspire em sujeitos críticos e autocriticos.
Assim colocada a questão, e avaliação do processo escolar pode admitir alternativas:
Primeiro, se o professor for deveras competente, formal e políticamente, será capaz de gestar formação básica adequada, instalando o ambiente do aprender a aprender, do saber pensar, do questionar criativamente.
Segundo, se isto ocorrer, o aluno avança dentro de seu ritmo próprio, "puxado" até onde for possível.
Não caberia reprovar, porque, se fosse o caso,
reprovado seria o professor.
reprovado seria o professor.
Terceiro, não se põe a progressão automática, porque não há progresso automático, mas construção de avanços possíveis.
Assim, não reprovar não significaria acobertar inadimplências e mesmo fracassos, a menos que o processo didático‑pedagógico tenha fracassado.
Em si, no contexto educacional, nao se trata tanto de fracasso do aluno, quanto do professor.
O aluno pode ser prejudicado por outras questões, sobretudo pobreza, doença, trabalho, mas isto escapa à ação da escola.
Um professor competente "tira água de pedra",
porque para isto se preparou.
porque para isto se preparou.
Podera reprovar, quando percebe que o aluno não rendeu o que podia/devia.
De modo algum se rechaça à necessidade de avaliação.
Antes, é recriada em contexto muito mais apropriado.
Passa a significar a consciência crítica e autocrítica da relação professor/aluno, no contexto do aprender a aprender.
Mais que colocar o aluno à prova, está em xeque a capacidade pedagógica e didática do professor.
Os atuais níveis de repetência, sobretudo na 1° série, denotam antes o fracasso do professor, de sua pedagogia e de sua didática.
Nesta consideração, é mister cuidar de não empurrar o professor para a condição de réu, pois é possível que o mal aproveitamento do aluno tenha razões incontroláveis, externas e mesmo internas ao sistema (vícios de aprendizagem, incompetência dos ciclos educacionais anteriores, desinteresse).
· Não se abandona a avaliação, pois acerta‑se outra muito mais rigorosa, para desvendar o processo de aprender a aprender.
A habilidade didática a pedagógica que se espera do novo professor já não se resume ao formato expositivo das aulas.
A fluência vernácula, e aparência externa.
Precisa centrar‑se na competência estimuladora da pesquisa, incentivando com engenho a arte e gestação de sujeitos críticos e autocríticos, participantes e construtivos.
Como meta, coloca‑se a gestação do aluno da capacidade de saber pensar, aprender e aprender, construir/reconstruir – dentro de seu contexto – questionamentos pertinentes.
Não se trata de exigir produção científica, porque já é importante que saiba reconstruir, no sentido de construir para sí mesmo a habilidade de ler a realidade, questioná‑la a lançar projeto próprio de desenvolvimento.
Em termos formais, o aluno precisa municiar‑se de formação básica adequada, que the permita acesso sempre renovado ao saber estratégico, necessário para compreender o mundo e nele agir como sujeito.
Em termos políticos, o aluno precisa saber compreender a questionar a sociedade, participar como cidadão, ser membro ativo em seu meio.
A didática está necessitando ser virada de pernas para o ar.
Seu cerne será sempre a capacidade de resposta criativa a construtiva do aluno, não formatos exarados no professor.
O aluno nao a "ensinado", mas "puxado" (educado) a desempenhar o papel de figura central do processo.
De preceptor, o professor passa a orientador de processos (re)construtivos, cuja meta é o aprender a aprender, passando, como insumo, pelo aprender também.
Aulas expositivas são importantes, na dosagem suficiente, em momentos adequados e desde que sejam apenas instrumentais.
Valem somente pelo o que fica como bagagem incorporada em termos de competência inovadora.
· O aluno que apenas ouve, cópia, repete, reproduz, faz prova a cola, nao abandona a condição de objeto de domesticação.
Precisa ser instigado, provocado, desafiado a contribuir, a desenvolver capacidade de raciocínio, de posicionamento.
O professor, para tanto, carece capacitar‑se e construir ambiente propício, dentro do qual ainda tem seu espago, cabe a aula expositiva desde que instrumentadora de emancipação.
E importante aprender a ler críticamente, estabelecendo com autores um relacionamento dialético; alcançar redação própria a expressar‑se com desenvoltura; dominar conhecimentos e informações estratégicas do processo de transformação da realidade atual; começar a produzir alguma coisa, desde pequenas pesquisas, trabalhos em grupo, experimentos, algumas práticas, até elaborações mais exigentes,
que já expressam capacidade de síntese, de compreensão global,
de posicionamento crítico criativo; aprimorar habilidade
metodológica para manejar e produzir conhecimento.
que já expressam capacidade de síntese, de compreensão global,
de posicionamento crítico criativo; aprimorar habilidade
metodológica para manejar e produzir conhecimento.
Instrumentações eletrônicas tem o seu espaço pois podem ser expediente de grande motivação (Candau, 1991; Fleury, 1991; Libanio, 1990, 1986; Saviani, 1991; Wachowicz, 1989).
IV ‑ A QUESTÃO DOS PROFESSORES
Para atingir patamares aceitáveis de qualidade educativa da população a estratégia primordial resolver a questao dos professores.
A questao dos professores a complexa, incluindo pelo menos dois planos mais relevantes: valorização profissional e competência técnica.
O problema é de qualidade formal e política.
Em termos de qualidade formal, é fato que o professor de educação básica, como regra, não detém formação adequada, seja porque é ministrada em instituições de educação superior de idoneidade duvidosa, seja porque ainda persiste o esquema de Escola Normal, seja porque a pedagogia continua atrasada em termos de competência técnica, seja porque não existe sistema conveniente de atualização constante, seja porque a atividade de professor tem decaído para o rol das facilitadas e marcadas pela seleção negativa (Mello, 1986).
Em termos de qualidade política, a questão também a muito grave, porquanto, se educação básica a instrumentação fundamental da cidadania, o professor não poderia ser agente dela, sem ser, ele mesmo, um cidadão.
Este horizonte da cidadania é multiplo, incluindo a valorização profissional, sobretudo em termos de remuneração, encarreiramento a organização associativa e sindical.
No lado negativo, temos hoje exarcebado o corporativismo, subproduto do esforgo organizativo da classe.
E compreensivel, pois não passa de resposta extrema ao extremo da relegação.
Por outra, representa muitas vezes o sacrifício da qualidade formal em nome da qualidade política e, com isto, prejuizo também para os direitos essenciais das crianças.
Qualidade, em si, é sempre processo humano, mesmo quando se trata de qualidade formal.
Um texto de português formalmente bem feito tem sua qualidade na habilidade de fazer, não na forma como tal, que é vazia.
Assim, é o aprimoramento do fator humano que transmite a produz qualidade.
Existe hoje reconhecimento crescente sobre isso, inclusive no sistema produtivo, cuja qualidade e expressão da competência humana, muito mais que dos insumos, a materia‑prima, dos metodos etc.
A pedra de toque da qualidade educativa é o professor (Demo, 1988).
Poderíamos colocar como meta para a qualidade do professor e capacidade de elaborar projeto pedagógico próprio.
Para tanto é mister competência formal a política acurada, que supõe outros processos formativos, conforme vimos acima.
Grande maioria dos professores não conseguiu sequer colocar a questão, porque jamais produziu com mão própria.
Pior que isto, eles não teriam condições de incorporar na definição de professor esta exigência.
Bastam‑se com a cópia!
O que afinal são strictu sensu?
Reproduzem a cópia da cópia.
Tendem a apequenar a necessidade educativa da população, em vez de fundamentar a imprescindível formação básica estratégica.
Acumulam‑se dois problemas cruciais: de um lado, má formação na origem, de outro, obsolescência crescente, por falta de atualização sistemática.
O desafio da qualidade torna‑se tanto mais decisivo quando se toma em conta que o aluno a figura carente em todos os sentidos, na média.
Pobre materialmente, indigente culturalmente, coloca dificuldades extremas de aproveitamento escolar, que só poderiam ser bem manejadas por profissionais muito bem preparados.
Em parte, tais dificuldades não podem ser tratadas adequadamente no espaço escolar (pobreza material), mas em parte e problema específico da escola (pobreza política).
Nenhum aluno poderia, em tese e por direito, ter seu aproveitamento prejudicado pela incompetência do professor.
Todos os apoios didáticos, importantes em sí, dependem da capacidade do professor, inclusive aproveitamento das adequações físicas dos estabelecimentos, do material escolar etc.
O único livro didático insubstituível é o próprio professor.
Isto coloca o desafio com clareza: professor deve ser a imagem viva do "aprender a aprender", estabelecendo que o centro desta expressão é o cerne da educação.
Na verdade, se não for capaz de elaborar projeto pedagógico próprio, nunca foi educador, não tem condições de ser, representa exatamente o oposto (Silva, T.M.N., 1990).
Deve saber comandar o repto da formação básica, patrimônio essencial da educação como inspiração proeminente da cidadania e da produtividade.
A alma da formação básica é aprender a aprender, saber pensar, informar‑se e refazer todo dia a informação, questionar.
Conhecimentos pertinentes e sobretudo seu manejo propedêutico são base para o exercício do papel de sujeito participativo e produtivo.
Com isto, parece claro que dificilmente outra profissão seria mais estratégica do que esta.
Deve receber atenção devida, em termos de remuneração e forrmação, com todas as conseqüências daí advindas.
A sociedade tem o direito de cobrar dele competência, desde que o valorize/remunere convenientemente.
Não cabe manter o incompetente, a titulo de direito adquirido, porque isto nada tem a ver com direito.
· O professor precisa assim, ser avaliado; não só o aluno.
Neste processo de avaliação devem participar também os alunos tendo pelo menos a chance de reciclar e retreinar o incapaz ou inadequado.
Como qualquer processo de avaliação, coloca questões sensíveis, duras, complicadas, mas pior é deixar como está, para ver como fica.
O professor foge de ser avaliado, porque teme a sanção autoritária e injusta porque o sistema não o capacitou como deveria.
É fundamental associar, definitivamente, o prestígio profissional com a exigência da competência.
As associações ou sindicatos precisam descobrir que esta questão da competência é tão importante quanto a dignidade salarial.
O corporativismo pode ser entendido, neste contexto, como mal pubertário, inevitável nas circunstâncias, porque é uma resposta extremada à uma miséria também extrema.
O lado justo desta luta carece de reconhecimento explícito, porque é um desacerto inaceitavel a depressão profissional, tratando‑se de algo tão estratégico.
No calor da luta, é como reação, surge o corporativismo, que hoje recebe restrições fortes da sociedade, pois sente‑se prejudicada, sobretudo com as greves incessantes.
Uma associação de professores que não zela pela competência, tanto quanto pelo salário, não tem chance de credibilidade futura, a ficará na retaguarda da história.
Dois desafios sao centrais:
· Zelar pelos processos de formação e capacitação enredados na didática arcaica do ensino/aprendizagem;
· Recriar oportunidades de atualização, como tarefa incessante, para corresponder as repto inovador dos tempos.
É necessário, com urgência, rever o perfil do professor, abandonando a imagem de "auleiro", para sedimentar a competência renovada a renovadora, crítica a criativa, capaz de estabelecer a restabelecer dialogo inovador com os desafios do futuro, na cidadania a produtividade.
Prepará‑lo, enfim, para a sociedade do conhecimento.
A questao salarial torna‑se tanto mais relevante, pois para formar‑se adequadamente e manter‑se atualizado é mister acesso às devidas instrumentações, tais como cursos, livros, produtos a meios eletrônicos, participação em eventos pertinentes.
Mas não é possível continuar colocando a questao salarial como capaz de resolver problemas de capacitação dos professores.
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