NAVEGANDO NAS ONDAS DA TRANSFORMAÇÃO

em Educação na Sociedade de Informação
Gilberto Teixeira (Prof. Doutor FEA/USP)
 
I - INTRODUÇÃO
            Nos últimos anos fala-se muito em reengenharia, sociedade da informação  e todo um conjunto de transformações que as organizações terão  que sofrer para se adaptar aos impactos do progresso tecnológico. Um dos primeiros estudiosos a prever o que viria acontecer foi Alvin Toffler em seu livro “O Choque do Futuro”, ao qual seguiu-se, na década de 80, com o livro  “A Terceira Onda”.
            Neste último livro Toffler introduziu o conceito de “ondas de transformação” sendo seu intuito oferecer um referencial do mundo, especialmente as organizações sociais, como seria no século XXI.
            Esse seu referencial tem sido amplamente utilizado e, mais recentemente, Herman Bryant Maynard Jr. e Susan E. Mehrtens lançaram um livro intitulado “A Quarta Onda”, que examina as maneiras como os negócios têm mudado na Segunda e Terceira Ondas e como continuarão a mudar em direção a uma futura, porém já emergente, Quarta Onda.
            Segundo os autores, a Quarta Onda vai influenciar profundamente a atividade de negócios, transformando como as empresas se estruturam , como definem riqueza, como se relacionam com a comunidade, como respondem às necessidades ambientais, como participam de processo políticos e como são lideradas. Essas tendências e suas manifestações concretas tornam-se cada vez mais claras no dia-a-dia.
            As ondas de transformação e as possibilidades e necessidades de novos comportamentos e relacionamentos é o tema básico deste texto, inspirado pela “Quarta Onda” de Maynard Jr. e Susan Mehrten. Nesta ordem de idéias viemos apresentar alguns quadros descrevendo os movimentos das ondas de mudança mais recentes. Além disso, adicionamos uma reflexão ampliada da quarta onda e sugerimos algumas questões chave, especialmente em relação ao papel da educação, que as empresas e as universidades precisam, cada vez mais, assumir.
            Mudanças culturais profundas se fazem necessárias e só poderão acontecer a a partir de um amplo e eficiente processo educativo. Vivemos um momento em que estamos capacitados a perceber mais amplamente a realidade, não só por pressões externas de um mundo paradoxal e imprevisível, mas também pelas pressões internas de uma nova consciência que pede para nascer nas mentes e corações humanos. Tendo experimentado ao longo de séculos de civilização e cultura a influência de ondas cíclicas de mudança, é natural que respondamos com qualidade cada vez maior aos impulsos de uma nova realidade, em nada igual à que conhecemos hoje. Essa é uma responsabilidade fundamental de nossas vidas não apenas como pais ou cidadãos, mas principalmente como  professores de administração atuando sobre as organizações empresariais - provavelmente a principal arena de alavancagem de transformação das próximas décadas.
 
 
II - ONDAS, ONDAS, ONDAS
            Falar sobre ondas de mudança traz sempre consigo o risco de que não se consiga escapar de lugares comuns, aparentes obviedades. Paradoxalmente, porém, as pessoas ainda ficam muito fascinadas diante da possibilidade de saber “qual é a próxima onda?”. No entanto, é importante ter em mente que num oceano repleto de ondas de transformação, a questão mais importante não é “qual é a próxima onda?” e sim “como podemos nos relacionar com ela?”. Isso ocorre porque é impossível controlar o surgimento das ondas na superfície oceânica de um mundo marcado pela impermanência e pela imprevisibilidade.
            Também deve se levar em conta o fato de que o “como relacionar-se” difere de indivíduo para indivíduo (ou de grupo para grupo). Há aqueles que percebem a onda antes que ela se forme no oceano. São como aqueles surfistas que percebem a onda antes de ela se insinuar na superfície do oceano. Mais tarde, essas pessoas são chamadas de intuitivas, inovadoras, criativas, pioneiras ou visionárias, pois “pegam as ondas” antes que a maioria possa vê-las.
            Há aqueles que “processam” a onda e escalam sua crista assim que ela se evidencia. são os chamados “implantadores pragmáticos”, aqueles que procuram fazer o melhor com suas potencialidades e sabem fazer acontecer. Podem ser vistos como oportunistas se não forem orientados por intenções abrangentes e nobres.
            Outros esperam que a onda chegue na praia. De seu ponto de vista, o único jeito - e o menos arriscado - é banhar-se na onda quando esta se espalha e fica disponível para todos. Normalmente, não é preciso muito esforço para participar do banho refrescante e democrático que a onda oferece a todos que estão na praia. Mas, quando a percepção se reduz e todos veem a onda que chega como a única oportunidade, tendem a ocorrer disputas ferozes. Essas pessoas se esquecem de que o oceano é abundante em ondas e muitas, por certo, se sucederão. O bom surfista sabe disso e fica firme na sua prancha, de olho no horizonte.
            Finalmente, alguns são capazes de ver as ondas num vôo de avião e, assim, perceber certas sutilezas. Como, por exemplo, notar que o tempo das ondas muda a partir daquela perspectiva e todas parecem se unificar em uma só onda. Ao atingir essa perspectiva , essas pessoas tendem a permitir que uma calma interior se faça presente com revigorados sentimentos de modéstia e reverência. Essa visão instantânea de um “todo” é, de modo geral, iluminante. No momento da visão pode não se fazer muita coisa mas, após aterrissagem, pode-se reconhecer a mais motivadora dentre as ondas de possibilidades. E a mais motivadora das ondas é geralmente aquela que fala ao âmago de nossa existência.
           
 
III - AS ONDAS E AS MEGATENDÊNCIAS DE MUDANÇAS
            Olhar para as ondas de transformação e apenas nos inquietarmos com o fato de que elas se sucedem inexoravelmente não nos capacita a responder aos desafios e oportunidades que elas apresentam. É preciso compreender porque essas ondas de transformação assumem características próprias e encontrar os meios adequados de processá-las.
            Alguns observadores já começam a identificar as características de um tempo que aponta para uma total mudança de mentalidade. Essa mudança manifesta-se em todos os campos da experiência e da atividade humana, do mais interno e individual -a consciência - ao mais externo e coletivo - a globalidade.
            As transformações em todos esses níveis modificam de forma profunda a essência e a forma da atividade empresarial. Nesse novo contexto, velhas receitas e práticas são anacronismo que conduzem à inércia e ao desaparecimento. O principal papel dos líderes de empresas nessa realidade em mutação é criar novas práticas, coerentes com a nova realidade. Para tanto, precisam compreender de forma refinada as transformações trazidas pelas ondas de mudança.
           
Consciência
            Consciência é o fator primário e diretivo de qualquer experiência e o elemento determinante de como será a qualidade de qualquer ação humana. As descobertas científicas contemporâneas nos levam a reexaminar premissas e crenças que se fundamentam em dados lógicos e materiais. Ao mesmo tempo, nos convidam a perceber que somos muito mais que corpos físicos e mentes dedutivas e que há realidades que não podem ser abarcadas unicamente pelos cinco sentidos.
            O grande insight nesse campo é o de que, com a nossa consciência afetamos a realidade em que vivemos. na verdade, a nossa interconexão e interdependência com um universo repleto de objetividade e subjetividade é tão evidente , que já não é mais possível adiar a percepção do verdadeiro papel do ser humano na co-criação de uma qualidade de vida global.
            Robert Ornsteins em seu livro The Evolution of Consciousness nos leva a uma reflexão instigante nesse sentido, quando afirma que a mente é uma colagem de adaptações não racionais, em sua maioria adequadas a uma  época que há muito ficou para trás. Segundo suas observações, a consciência humana ainda reage à realidade com respostas adequadas e a uma sociedade que considerava os perigos de predadores reconhecíveis, aos quais se davam respostas imediatas, e desconsiderava ainda o efeito de suas ações em situações ambíguas e de longo prazo (a degradação ecológica e seu efeito na camada de ozônio são um bom exemplo). O sistema mental humano não se modificou muito nos últimos 40.000 anos e, portanto, está em conflito com as necessidades do mundo moderno. Isso leva o autor a firmar que esta é a era da reeducação; uma época em que assumiremos a responsabilidade de nossa própria evolução ou tornaremos a vida pior do que pode ser. Não será mais possível uma evolução biológica sem uma evolução da consciência”.
 
Ciência
            A revolução que se processa no mundo científico vai do total desencanto ao desenvolvimento de uma atitude de reverência pela vida. A ciência que fragmentava a realidade em minúsculas partículas para compreendê-las como uma verdade racional torna-se insuficiente diante de “verdades” que não se adaptam aos seus modelos matemáticos. São muitos os eventos e experiências que não podem ser explicados por uma ciência que precisa tocar e medir para determinar que alguma coisa é real. Fenômenos racionais e não-racionais passam a fazer parte de qualquer processo na busca de uma compreensão e de um conhecimento legítimos.
 
Autoridade e Poder
            A idéia da dominação e da sobrevivência dos mais aptos num processo de evolução biológica condicionou por muito tempo a experiência com o poder. O poder sempre esteve aliado à competição e é exercido sobre tudo aquilo que é concretamente palpável; um poder projetado para fora.
            À medida que nem sempre é possível explicar tudo e, principalmente, controlar a maneira como os eventos se sucedem, o  ser humano começa a se apoiar num  “centro interior“ de poder e autoridade. Esse centro se manifesta muitas vezes em experiências que se caracterizam por uma extraordinária  criatividade, momentos profundos de inspiração e certeza intuitiva, levando muitos a experimentar um contato com o seu self mais profundo ou alma.
            Desse modo., a fonte de poder e autoridade passa a ser vista como algo intrínseco ao ser humano e serve para capacitá-lo a dar o melhor de si e a compartilhar os seus talentos e habilidades de modo compassivo e interdependente. O “poder sobre” (dominação), típico das eras fundamentadas num padrão onde a autoridade é vista do lado de fora da pessoa humana, dá lugar ao “poder com” (parceria) onde a potencialização vem do contato com o poder autêntico da alma.
 
Reespiritualização da Sociedade
            Para muitas pessoas, o local de trabalho significa o seu elo mais vitalizado com um senso de comunidade, um senso de pertencer a um grupo que quer estar unido por afinidades e vontade de aprender. Mesmo que isso não seja conscientemente reconhecido, o fato é que a busca de sentido, de propósito, de qual é a verdadeira vocação que motiva o ser humano a agir está diretamente ligada ao mais amplo sentido de espiritualidade.
            As organizações passam, nesta virada de século, a ser as instituições mais capacitadas a facilitar situações, concretas de aprendizagem e, portanto, as instituições mais aptas a estimular o processo de reespiritualização da sociedade. Esse processo está além da religiosidade, pois se baseia em valores universais que reconectam o ser humano  com Natureza e com uma fonte interior de conhecimento e sabedoria além de dogmas e fragmentações.
            O despertar para a importância da ecologia profunda como elemento orientador de estratégias organizacionais é, também, um fator decisivo para a concretização dessa tendência. Não há espiritualização maior do que o reconhecimento de que, qualquer que seja o caminho espiritual escolhido, ele terá que ser experimentado no “lar” Terra. E como está a saúde planetária?
            As formas dessa espiritualização assumem características diferentes, levando em conta as diversidades culturais e ambientais, com possibilidades infinitas de participação em processos de cura e criatividade. Mas o elemento de síntese e unificação fica por conta de valores universais - paz, dignidade, verdade, liberdade, sabedoria, amor, compaixão etc. - presentes em todas as tradições filosóficas, espirituais e religiosas do mundo.
 
Declínio do Materialismo
            Quando valores como cooperação, parceria, justiça social, igualdade de direitos, liderança compartilhada passam a ser reconhecidos como necessários para fazer o mundo organizacional funcionar, evidencia-se muito claramente um declínio no pensamento e na atitude materialista do ganho sem limite e do consumismo exacerbado. O desencanto com o cientificismo e a espiritualização da sociedade são fatores determinantes para um conseqüente declínio do materialismo.
            À medida que as organizações se redirecionam para  o “serviço” e para uma liderança que está muito mais voltada para  “ser a guardiã de“ (stewardship) do que “ser a proprietária de” (ownership), há um  declínio na priorização exclusiva de retorno material e quantitativo. Cada vez mais, as organizações passam a ser o espaço onde as pessoas podem desenvolver um sentido de visão e de participação no processo de criar um mundo melhor. Gradativamente, as pessoas começam a perceber que o trabalho não é só um meio de ganhar dinheiro, mas principalmente um meio de agregar valor e qualidade de vida sustentável às gerações atuais e futuras.
            Com essas questões presentes, a própria realidade do “negócio” se redefine e cria possibilidades ainda não imaginadas.
 
Democratização Política e Econômica
            Num mundo interconectado pela tecnologia da informação, toda e qualquer forma de opressão se transforma num apelo à prática da democracia. Os imperialismos políticos e econômicos vão encontrando cada vez menos espaço na consciência e no dia-a-dia de nações por todo o mundo.
            Movimentos, pequenas organizações e indivíduos exercitando  cidadania se constituem nos elementos que exigem uma maior democratização das estratégias políticas e econômicas de governos que já não podem esconder o estado precário em que se encontram. Os conflitos assumem proporções globais e não mais podem ser evitados ou adiados: Brasil, Estados Unidos. a antiga União Soviética, África do Sul, Alemanha, Cuba, Ruanda, são apenas alguns exemplos concretos da truculência em que se encontram os sistemas políticos e econômicos.
            A organização New International Economic Order (NIEO) é um exemplo da tendência à democratização econômica. Seus componentes, em grande parte das pessoas do Terceiro Mundo e economistas teóricos alternativos do Ocidente, propõem um novo sistema de valores e advogam o fim do imperialismo econômico. Além de frisar a importância da criação de tecnologias apropriadas para o nível cultural e segundo a necessidade real das pessoas, A NIEO trabalha para que acabe a dominação econômica global por parte dos poderes ocidentais, a partir do reconhecimento da realidade global e interdependente onde existimos.
 
Além  da Nacionalidade
            O reconhecimento dessa interdependência abre o caminho, para que a nossa civilização evolua para um mundo além da nacionalidade. O termo que surge para apoiar essa idéia é biorregionalismo - nações-estados formando grupos regionais interligados econômica e tecnologicamente num mundo interdependente e sem fronteiras. A nova visão ponta para uma terra dividida em áreas ecologicamente unificadas, onde habitat, solo, clima e semelhanças na fauna e na flora serão compartilhados.
            Essas tendências e visões estão descritas em A Quarta Onda de Maynard, Jr. e Susan Mehrtens e assinalam o surgimento de uma visão de mundo fundamentalmente diferente da que conhecemos até então. O caos aparente em que se encontra grande parte das culturas planetárias pode ser apenas a indicação de que uma nova ordem já pode ser intuída. Como e quando irá depender do modo como escolhermos nos relacionar com as ondas de transformação. Os quadros nas páginas visam a dar subsídios para que líderes possam fazer escolhas que conduzam ao desenvolvimento sustentável de suas organizações.