Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

A EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO(*)

 

Regina Celia Baptista Belluzzo (**)
 
Ao se observar o processo de evolução da humanidade, constata-se a presença marcante das descobertas, inovações e os avanços, estreitamente relacionados ao espírito aventureiro, à inquietude, ao inconformismo e à capacidade inquisitiva dos seres humanos. Assim, o anseio pela busca do desconhecido, pela descoberta de novas fronteiras e produção de novos conhecimentos impulsionaram e continuam a projetar a sociedade em direção ao desenvolvimento.
É importante ressaltar que as transformações rápidas e profundas decorrentes dessas descobertas, refletem-se nos mais variados setores, destacando-se os avanços tecnológicos, a transformação dos paradigmas econômicos e produtivos e, em especial, as mudanças relacionadas à educação.
A visão educacional, considerada predominantemente tradicional, fundamenta-se no conceito-chave de que o professor transmite um conjunto fixo de informações aos alunos. Há que substituí-la por um enfoque alicerçado em processos de construção, gestão e disseminação do conhecimento, com ênfase no “aprender a aprender” e na educação ao longo da vida.
 Esse enfoque é melhor explicitado por Assmann (2001, p.32), ao mencionar em seu livro "Reencantar a educação", que
Educar é fazer emergir vivências do processo de
conhecimento. O "produto" da educação deve
levar  o nome de experiências de aprendizagem
 e não     simplesmente  aquisição de conhecimentos
   supostamente  já prontos e disponíveis para o ensino
  concebido como simples transmissão.
        Esse autor ainda nos oferece outras dimensões para reflexão, dentre os quais destacamos:
·  A educação só consegue "bons resultados" quando se preocupa com a geração de experiências de aprendizagem, criatividade para construir novos conhecimentos e habilidades para saber "acessar" fontes de informação sobre os mais variados assuntos.
· São três os analfabetismos por derrotar hoje: o da lecto-escritura (saber ler e escrever), o sócio-cultural (saber em que tipo de sociedade se vive) e o tecnológico ( saber interagir com máquinas complexas).
· O novo insight básico consiste na equiparação radical entre processos vitais e processos cognitivos. Não há verdadeiros processos de conhecimento sem conexão com as expectativas e a vida dos aprendentes.
· Duas coisas devem andar juntas em nossa maneira de entender a educação e o seu reencantamento: a melhoria pedagógica e o compromisso social.                          
A sociedade em que vivemos afasta-se radicalmente da Sociedade Industrial para se constituir em Sociedade da Informação, ou mais apropriadamente, em Sociedade do Conhecimento. Neste contexto, associam-se à informação,  características   de revisão  contínua   e  de crescente grau de  complexidade.
Seu conceito está intimamente ligado a novas experiências de espaço e tempo. Assim, as palavras Conhecimento e Educação voltaram a exercer um novo fascínio.
Todos os países integrantes da União Européia, por exemplo, há mais de 5 anos, vêm mobilizando um conjunto muito rico de novas linguagens e espectros para esse olhar diferente sobre a sociedade, destacando-se  inúmeras contribuições tendo como foco de atenção os atuais desafios para  a educação, como resultado de ampla discussão entre especialistas. Em decorrência , temos, então,  a existência de um campo semântico em implementação e que merece ser abordado mediante a leitura e reflexão crítica dos documentos denominados Livro Branco e LivroVerde. Este último, em nosso contexto, é fruto do esforço conjunto de profissionais que fazem parte do Programa Sociedade da Informação, do Ministério de Ciência e Tecnologia e se intitula "Sociedade da Informação no Brasil". Dele, extraímos o conceito de que "a educação é o elemento-chave para a construção de uma sociedade da informação e condição essencial para que as pessoas e organizações estejam aptas a lidar com o novo, a criar, e, assim, a garantir seu espaço de liberdade e autonomia" (Livro Verde, 2000, p.7).   Mas, informação não é sinônimo de conhecimento. Este implica em uma gestão criativa dessa informação e subentende a percepção das formas de acesso, seleção, articulação e organização das informações, a apreensão e concepção de contextos globais na compreensão do seu caráter multidimensional e das relações entre o todo e cada uma das partes.
As principais características da informação – complexidade, estabelecimento de novas conexões e atualização constante – implicam em uma nova visão da educação e da formação das pessoas.
O sistema educacional vê-se, assim, confrontado com requisitos cada vez mais elevados ao nível da criatividade, da aplicação e disseminação da informação, da transferência e adaptação de conhecimentos a novas situações socialmente relevantes e/ou exigentes, susceptíveis de ocorrer ao longo da vida. Portanto, a preparação  para responder a tais exigências coloca à educação, em todos os níveis, um desafio importante: o desenvolvimento de um intelecto habituado ao pensamento crítico, à aprendizagem autônoma, em síntese, ao processamento, elaboração e estruturação da informação para a geração do conhecimento.
Educar, sob esse cenário, significa incentivar a autonomia individual e a solidariedade, prevenir insucessos e lutar contra as desigualdades, favorecer o ensino experimental e o espírito científico, abrir novos horizontes, aliando a compreensão das origens e raízes à identidade da inovação científica e tecnológica, condições essenciais à mudança orientada para um desenvolvimento humano integral.
A Sociedade do Conhecimento, também chamada de Sociedade da Aprendizagem, requer uma nova leitura do mundo em que vivemos. Entretanto, difícil é nos despirmos de velhos conceitos, velhas linguagens, dos paradigmas passados, quando eles ainda são naturalmente uma parte de nós mesmos.
Para nos tornarmos aprendizes, precisamos desaprender, recuperando a capacidade, que as crianças naturalmente possuem, de nos surpreendermos com as coisas, a admiração na qual Aristóteles identificou a origem da Filosofia.
Enquanto seres pertencentes a um sistema biológico, certamente temos duas funções básicas: a necessidade de sobrevivência, que nos leva à adaptação e a necessidade de ter uma estrutura interna ordenada, que faz com que nos voltemos à organização. Em decorrência, devemos sempre buscar o equilíbrio, a assimilação e a adequação para gerenciar os conflitos relativos a tais funções.
Ao se efetuar a transferência desses princípios para a aprendizagem pode-se dizer que, enquanto seres humanos, precisamos adquirir o conhecimento sobre o nosso meio ambiente e nossas relações durante toda a vida. Assim, como resultado de experiências, fazemos as associações entre os eventos do mundo ao nosso redor. Isso nos leva a considerar que a aprendizagem somente acontece quando ocorre a mudança de comportamento do ser humano, em resposta a uma experiência anterior, requerendo a existência de um significado efetivo para o aprendiz. Propiciar uma aprendizagem significativa consiste em considerar a maneira própria de pensar das pessoas e perceber as contradições e inconsistências, buscando saber o que sabem e o que ainda precisam saber.
Há necessidade de se entender que aprender é um processo complexo, onde o ser humano deve ser o sujeito ativo na construção do conhecimento, e que este somente se dá a partir da ação do sujeito sobre a realidade.
O conhecimento é o principal fator de inovação disponível ao ser humano. Não é apenas um recurso renovável, ele cresce exponencialmente na medida em que é explorado. O conhecimento não é constituído de verdades estáticas, mas um processo dinâmico, que acompanha a vida humana e não constitui em  mera cópia do mundo exterior, sendo um guia para a ação. Ele emerge da interação social e tem como característica fundamental poder ser manifestado e transferido por intermédio da comunicação. Assim, a capacidade de aprender, de desenvolver novos padrões de interpretação e de ação, depende da diversidade e da natureza vária do conhecimento.
Existe uma concordância quanto à importância da presença da inovação e das práticas de investigação no contexto das instituições educacionais, assim como sobre a necessidade do desenvolvimento de competências para estas duas atividades nos processos de formação básica e permanente das pessoas. A competência, nesse contexto, é por nós entendida no sentido explicitado por Philippe Perrenoud (1999) que mencionou ser uma competência um saber-mobilizar. Trata-se, portanto,  não de uma técnica ou de mais um saber, mas de uma capacidade de mobilizar um conjunto de recursos, conhecimentos, know-how, esquemas de avaliação e de ação, ferramentas, atitudes – a fim de enfrentar com eficácia situações complexas e inéditas.
Sob a égide de uma educação voltada para o desenvolvimento de competências, uma visão prospectiva da educação nos é oferecida por Jacques Délors ( 2001, p.89-90) ao afirmar que
Não basta que cada qual acumule no começo da vida uma determinada quantidade de conhecimentos de que se possa abastecer indefinidamente. É, antes , necessário estar à altura de aproveitar e explorar, do começo ao fim da vida, todas as ocasiões de atualizar, aprofundar e enriquecer esses conhecimentos, e de se adaptar a um mundo em mudança.
Para poder dar resposta ao conjunto das suas missões, a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais, que, ao longo de toda a vida, serão de algum modo para cada indivíduo, os pilares do conhecimento: aprender a conhecer, isto é, adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer,  para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes. É claro que estas quatro vias do saber constituem apenas uma, dado que existem entre elas múltiplos pontos de contato, de relacionamento e de permuta. (DÉLORS, 2001, p.89-90)
A educação tem elos entre o passado e o futuro, entre os sujeitos e as sociedades e entre o desenvolvimento de competências e a formação de identidades. É o caminho pelo qual as sociedades compartilham o seu legado cultural, para que os momentos da história possam ser edificados sobre o que várias gerações construíram; do mesmo modo, torna possível que os sujeitos se apropriem desse legado e, a partir dele, construam uma identidade própria que os distinguem  em seu trajeto de vida. Além disso,  que ao mesmo tempo, os transforme em integrantes de alguma comunidade humana, sem a qual se perde o direito de viver. Por meio da educação, os indivíduos e as sociedades se tornam competentes para a sobrevivência, para a existência e a convivência.
        A Educação é o resultado do trabalho de milhares de pessoas que, em sua interação, ensinam e aprendem, podendo-se considerar a atividade educativa como uma responsabilidade das famílias, da sociedade e do Estado. Quando nos referimos às famílias, estamos enfatizando tanto a sua função socializadora primária , como o dever de buscar todos os meios para que os seus integrantes possam ter acesso aos bens culturais e às ofertas que cada sociedade disponibiliza aos seus cidadãos. Ao Estado, é confiada a responsabilidade de oferecer possibilidades concretas para que todos tenham acesso, permaneçam e alcancem os melhores resultados em cada contexto. Às sociedades, é solicitada de maneira difusa, que  apostem, tanto na instrução como na formação de valores, por intermédio dos meios de comunicação e das mais diversas formas de  cooperação.
        A missão da educação, na sociedade hoje,  reside em permitir que sejam exploradas e criadas formas de ajuda aos jovens para olhar a escola como um local  de aprendizagem e que, uma vez cumprido o ciclo básico, possam a ela regressar para continuar aprendendo mediante o encontro com crianças, com outros jovens e com adultos que ali também se  acham  para compartilhar seu saber, ampliar as fronteiras do conhecimento e encontrar novos caminhos para a vida.
        Todo ritual de uma sala de aula centra-se diariamente em torno do conhecimento, devendo todas as ações e práticas desse contexto orientar-se para a garantia do acesso às fontes de informação, estímulo ao trabalho intelectual, à mobilização das fronteiras próprias e coletivas do saber, colocando-o em circulação e incorporando-o à geração de novo conhecimento.
        Aliando-se à essa concepção educacional atual, encontramos também as chamadas Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC’s) que vêm contribuir com outros desafios, acrescentando às competências atribuídas aos  professores – científicas, curriculares, pedagógicas, relacionais, socioculturais – outras capacidades como as de exploração pedagógica de novos recursos tecnológicos, envolvendo desde a sua seleção, preparação do trabalho a ser desenvolvido com a multimídia, utilização e avaliação.
        A Sociedade do Conhecimento está em construção e nos obriga, por um lado à melhoria da qualidade da educação fundamental, na lógica da criação, da iniciativa, de responsabilidade social e do exercício da cidadania. Por outro lado, isso nos leva também à necessidade da promoção e diversificação da formação dos jovens, apostando na melhor qualificação, na produtividade e empregabilidade para as futuras gerações. Por fim, à criação de condições para uma educação ao longo da vida e para se reconhecer qualquer conhecimento que vier a ser adquirido também por outras formas, como requisito de inovação e desenvolvimento social.
        Se devemos pensar a educação como um processo ao longo da vida, reiteramos que estamos falando da intervenção da sociedade para que exista o estímulo à criatividade individual – que conduz as pessoas a alcançar a sua plenitude nesse sentido, aliado ao estímulo à criatividade social – que as leva à integração ao seu grupo cultural.
        Cabe-nos ressaltar, ainda, que toda proposta educacional deve estar balizada na ética da diversidade que se traduz em:
·        Respeito pelo outro em todas as suas diferenças.
·        Solidariedade para com o outro na satisfação de suas necessidades de sobrevivência e transcendência.
·        Cooperação com o outro na preservação e inovação do patrimônio natural  e cultural comum.
Lembramos, ainda, que as metas para os educadores neste novo século, devem ser a identificação do que é comum na busca da verdade e sabedoria entre todas as culturas e pessoas, aprendendo com os outros a corrigir os equívocos, a resistir à tentação de considerar as nossas tradições como sendo superiores a outras e a buscar uma solução consensada para os diferentes problemas que precisamos enfrentar de forma harmônica.
Para tanto, é necessário que tenhamos espaços de construção  e expressão,  como o que nos oferece este Simpósio, permitindo a existência de processos de comunicação, diálogo e debates, os quais devem dar legitimidade institucional, permanência no tempo e projeção local, regional ou internacional às idéias geradas.
Nesse particular,  gostaríamos de lembrar que há um provérbio chinês que diz que, se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando um pão e, ao se encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um. Porém,  se os dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando uma idéia e, ao se encontrarem, eles trocam as idéias, cada homem vai embora com duas.
Reproduzimos,  ao finalizar,  uma declaração de esperança  de Délors (2001) sobre um direito que é inalienável, quando mencionou que frente aos numerosos desafios do futuro, a educação constitui instrumento indispensável para que a humanidade possa progredir face aos ideais de Paz, Liberdade e Justiça Social. Esperamos que essa declaração realmente venha nortear as ações que envolvem a concepção de uma Sociedade do Conhecimento em direção à construção de um Mundo Melhor.
 
Referências Bibliográficas
ASSMANN, H. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
DÉLORS, J. Educação: um tesouro a descobrir : Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI.  6.ed.  São Paulo: Cortez, 2001.
MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Sociedade da Informação no Brasil: Livro verde. Brasília, 2000.
PERRENOUD, P. Construir as competências desde a escola.  Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
(*) Conferência de Abertura proferida no I Simpósio de Educação em Pedagogia, realizado na Universidade do Sagrado Coração (Bauru/SP), de 21 a 23 de outubro de 2002.
(**) Pró-Reitora Acadêmica da Universidade do Sagrado Coração, Doutora em Ciências da Comunicação.