Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

EDUCAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES: UMA EXIGÊNCIA DO SÉCULO XXI

 


                             Docente do Departamento de Educação
                              Faculdade de Ciências - UNESP/Bauru
                http://www.suigeneris.pro.br/edvariedade_educa3.htm
 
 
 
Desde 1993 a UNESCO(1) constituiu uma comissão internacional independente para conduzir uma reflexão inovadora sobre as formas pelas quais a educação pode fazer face às exigências do século XXI.
O avanço dos conhecimentos, especialmente da ciência e da tecnologia nos aponta para um amanhã pleno de esperança, mas nos coloca frente à frente com os conflitos e problemas do mundo contemporâneo, os quais tendem a aumentar com a chegada do futuro.
A interdependência das nações se torna um marco deste fim de século e a globalização veio para nos mostrar possibilidades de crescimento e de risco, criando, todavia, condições de cooperação, nacional e internacional que, se bem administradas podem favorecer melhores condições de vida para a humanidade. Surge uma consciência planetária, mas surgem também, de forma vergonhosamente clara, as disparidades e as diferenças, tanto entre os povos como entre os cidadãos de uma mesma nacionalidade.
Isso dá a certeza de que a única arma para vencer as diferenças e preparar os cidadãos do amanhã e que, entre as questões que se impõem, é particularmente importante, é a educação: "Como a educação pode desempenhar um papel dinâmico e construtivo para preparar os indivíduos e as sociedades do século XXI?"
O texto elaborado pela citada comissão se refere ao resultado do trabalho de uma outra comissão que se reunira 20 anos antes (1972) e que concluiu que uma das formas de viabilizar a educação seria planejar sistemas através dos quais o homem, sujeito de sua aprendizagem e de seu próprio destino, deveria "Aprender a ser"(2). Entretanto coloca quatro questões fundamentais à respeito do problema:
- teriam os sistemas educativos, condições de se adaptar à evolução da sociedade?
- poderiam, tais sistemas, atender à demanda por uma educação que contribua para a formação de uma mão de obra criativa e qualificada que se adapte às evolução da tecnologia e participe da revolução da inteligência fazendo frente às economias mundiais?
- como se estabeleceriam pesquisas das relações entre os sistemas educativos e o estado? Como se relacionariam os sistemas públicos e privados de educação no sentido de garantir os resultados necessários ?
- e finalmente a questão mais importante. Em que medida a educação poderia criar uma linguagem universal que permitisse superar as contradições e transmitir a todos os habitantes do planeta, apesar delas, os valores de abertura para o outro. de compreensão mútua e os ideais da paz?
O pano de fundo das discussões foram as três grandes crises pelas quais passa a humanidade em nossos dias: a crise econômica, a crise da ideologia do progresso e uma certa forma de crise moral. E levando em conta a diversidade das culturas e a especificidade dos problemas e das experiências, assim como a diversidade dos objetivos políticos e sociais dos Estados Membros da UNESCO, tentou-se compreender algumas relações fundamentais, como por exemplo, as relações da educação com a cultura, com a cidadania, com o trabalho e com emprego e o papel essencial que deve ter dentro do progresso da pesquisa.
Para que isso se torne possível, são eleitos quatro processos que devem se constituir em bases da educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver em comunidade e aprender a ser.
0 primeiro se justifica em função da rapidez das mudanças da ciência e das novas formas de atividade econômica e social, o que obriga a conciliar uma cultura geral entendida como a possibilidade de trabalhar um número reduzido de matérias, mas que permite assentar as bases de uma educação permanente. Uma educação que tenha continuidade e que garanta ao cidadão aprender qualquer coisa por toda a vida.
Por aprender a fazer se entende a aquisição de certas competências que o tornem apto a enfrentar novas situações e que facilitem o trabalho em equipe, dimensão hoje bastante negligenciada pela maioria das metodologias de ensino. Tais competências e qualificações se tornariam acessíveis se os estudantes tiverem a possibilidade de se testar e se enriquecer participando de atividades profissionais e sociais paralelamente às atividades de estudo.
Aprender a ser porque, com certeza o século XXI exigirá de todos uma grande capacidade de autonomia e de julgamento, que serão o reforço da responsabilidade pessoal diante da realização do destino coletivo
"Aprender a viver em comunidade, finalmente, desenvolvendo a consciência do outro, de sua história, de suas tradições e de sua espiritualidade. E, a partir daí, criar um espírito novo que, graças à percepção de nossas interdependências crescentes e uma análise partilhada dos riscos e as dificuldades do futuro, permita a realização de projetos comuns ou melhor, uma gestão inteligente e conciliadora quando dos inevitáveis conflitos. Utopia, pode-se pensar, mas utopia necessária, utopia vital, para sair de um ciclo perigoso nutrido pelo cinismo ou pela resignação."(3)
O conceito de educação permanente preconizado no Relatório Faure aparece como uma das portas de entrada do século XXI. Educação permanente deve ser uma construção contínua da pessoa humana, de seu saber e de suas atitudes, mas principalmente de sua capacidade de julgar e agir.
Isso porém, vai exigir uma educação básica de qualidade, através de uma escola que mobilize o gosto e o prazer de aprender, a capacidade de aprender a aprender e a curiosidade do espírito.
Há que se pensar mesmo uma sociedade em que cada um de nós será, ao mesmo tempo, professor e aprendiz. O diálogo deve substituir a relação de autoridade entre professor e aluno. A educação deve se adaptar às mudanças da sociedade sem, todavia, negligenciar a transmissão das aquisições, das bases e dos frutos da experiência e das descobertas da humanidade.
Os conhecimentos de base têm lugar predominante: ler, escrever e calcular. A combinação do ensino clássico e a aproximação com a realidade ou a escola extra-muros deve permitir à criança o acesso às três dimensões da educação: ética e cultural, científica e tecnológica, econômica e social.
As parcerias se fazem necessárias. Estado e comunidade devem propiciar a reflexão e as condições para que tais mudanças se operem.
Para que isso tudo se concretize, o relatório recomenda uma atenção particular para com o professor, que deve ter condições sociais, culturais e materiais para desenvolver uma projeto educacional de qualidade: acesso a livros, meios modernos de comunicação, ambiente cultural de qualidade, assim como a estrutura pedagógica da escola.
Visto desta maneira, a melhoria da qualidade do sistema educativo requer uma política que assuma toda a responsabilidade. O princípio da igualdade de oportunidades deve dominar todas as escolhas realizadas. A idéia de parcerias deve se sobrepor à perspectiva de assistência. E será uma maneira de engajar toda a sociedade no processo educativo, processo esse que deverá repensar a ciência sob o ângulo da pluralidade de conhecimentos, embora se saiba que esta ciência, apesar de tudo, por si só não tem conseguido deter as guerras e a barbárie.
A educação escolar não precisa, necessariamente ensinar as mesmas coisas ou cobrir um exaustivo espectro. Torna-se necessário estabelecer um núcleo comum, uma cultura científica de base sem a qual não se poderia aprofundar os conhecimentos que serão necessários para aquisição e desenvolvimento posterior.
A ciência é parte integrante da cultura e sua prática deveria naturalmente conduzir á idéia de solidariedade internacional e de tolerância.
A pedagogia dos livros deverá ser substituída pela análise das questões sob o ponto de vista da prática e da ética, dentro de uma dimensão universal, integrando a formação científica à formação literária, artística, política ou mesmo econômica a fim de que o cidadão do século XXI considere a ciência, antes de tudo, um aliado dentro dos empreendimentos que se farão, pelo bem do país, da civilização ou apenas dentro da comunidade.
Adiantando-nos ao relatório Faure, no Município de Macatuba, desde 1993 se pretende que, pelo menos na pré-escola se vivencie a educação na direção do futuro. Assim, ..."Refletindo a idéia de que o atendimento às crianças pequenas deve ser considerado o primeiro elo da cadeia educacional e não apenas o lugar do guarda de crianças" (PASCAL e BERTRAND, 1994:292)(4)
om a educação pré-escolar se começou o Projeto para a formação do cidadão do século XXI. Utopia ou necessidade, tal Projeto vem exigindo a cada dia a formação de profissionais mais qualificados.
Em países como Inglaterra, Suécia e Espanha, a legislação prevê para um futuro próximo, que a formação de professores para creches e pré-escolas se realize em cursos universitários, de curta ou longa duração. Isso se deve à preocupação cada vez maior dos diversos níveis administrativos com a qualidade do trabalho educativo nelas desenvolvido.
Quanto à reformulação do currículo e da metodologia do ensino, têm sido pensadas no sentido de adequação ao desenvolvimento da criança, o que conduz, fatalmente, à substituição dos modelos formais por metodologias experimentais centradas na criança e seu desenvolvimento, descentralizando o currículo e garantindo a inovação e a flexibilidade que permitem atender às necessidades e ao contexto de cada escola.
E se isso é verdadeiro para o primeiro mundo, podemos dizer que é também no Município de Macatuba/SP.
Desde que o corpo docente municipal apresentou sinais de inquietação quanto à linha de trabalho a ser seguida deu-se o primeiro passo em direção aos novos rumos. Daí para a frente foi só seguir firmando o caminhar em estudos e pesquisas. Trilhou-se um caminho sem volta.
Seguramente a pré-escola municipal em Macatuba começou a ser notada e valorizada, não só pela comunidade que se serve dela como também pelos profissionais dos outros níveis e graus de ensino que se integraram ao processo, opinando, avaliando e colaborando com os resultados obtidos.
Percebidas as mudanças, houve muitos questionamentos, mas pais e professores aprenderam a não cobrar dos alunos as respostas esperadas por si mesmos e sim, a colaborar e construir com eles o conhecimento e a postura de cidadão.
Este é entre muitas outras razões, o motivo pelo qual sentimos necessário deixar registrados mais uma vez, nossos avanços e tropeços na certeza que servirão de leme para aqueles que desejam, como nós, tornar concretas suas aspirações, fazendo aquilo que deve ser feito para que exista um mundo melhor.
Por essa razão vamos nós, administração, profissionais, comunidade e principalmente crianças, caminhando num caminho sem volta, na direção a uma ética planetária.

































 
Notas:
1. UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

2. "Comment l'education peut-elle jouer un rôle dynamique et constructif pour préparer les individus et les sociétés du 21° siécle? In: Le Courrier de l'UNESCO, Paris/France:Le Courrier de l'UNESCO, Avril/1996, p. 6.

3. "Apprendre à être?" foi o Relatório da Comissão da UNESCO presidida por Edgard Faure que discutiu, em 1972, os destinos da educação no planeta. "Comment l'education peut-elle jouer un rôle dynamique et constructif pour préparer les individus et les sociétés du 21° siécle? In: Le Courrier de l'UNESCO, Paris/France:Le Courrier de l'UNESCO, Avril/1996,p.8.

4. Cristine PASCAL e Anthony BERTRAM. A educação de crianças pequenas e seus professores em três países europeus, in: ROSEMBERG, Fúlvia e CAMPOS, Maria Malta (Orgs.) Creches e Pré-escolas no hemisfério Norte, São Paulo: Cortez Editora, 1994.