Gilberto Teixeira (Prof. Doutor FEA/USP)
Até hoje, no Brasil, continuamos imbuidos da crença de que parao exercício eficiente do magistério em nível superior, basta o domínio adequado daquele campo do saber que seria objeto da comunicação docente. Neste sentido, a capacitaçao de professores
estaria reduzida ao aperfeiçoamento no campo específico de especialjização do professor e o melhor professor seria aquele que dominasse em maior profundidade e extensão uma determinada área do conhecimento cientifico.Partindo-se desse pressuposto, implícito tanto na sistematica habitualmente utilizada no recrutamento de quadros docentes para o ensino superior, como no modelo de carreira docente definido pelos organismos oficiais (MEC e CAPES), nenhuma preparação sistemática de caráter propriamente didático é, até hoje,exigida do candidato a professor.
Nenhuma instituição de ensino superior brasileira tem uma maior preocupação com a capacitação efetiva dos seus docentes inserindo essa capacitação como elemento do desenvolvimento da carreira, nos moldes do que-jé é feito na quase totalidade
das universidades americanas.bem como na Universidades Inglesas e Australianas.
É fácil compreender porque isso vem ocorrendo. Em primeiro lugar porque os organismos oficiais (Conselho Nacional de Pós –Graduação e CAPES) que centralizam as diretrizes e regulamento do ensino superior desde o início adotam a postura de que o Mestradoo e o Doutoramento são suficientes por si próprios a capacitar para o magistério universitário.. Em um período muito curto foi elaborado um Plano Nacional de Capacitação de Docentes, razoavelmente ambicioso mas de vida curta. A grande falha do sistema então proposta é ter sido um plano de emergência e. essa capacitação nunca foi inscrita como um requisito da carreira. O requisito inicialmente fixado (e depois este mesmo relaxado) para alguem tornar-se professor universitária era o Mestrado.. Por isso, as universidades brasileiras cada vez mais castradas de sua autonomia e ao mesmo tempo resistentes as inovaçoes, não tomaram qualquer iniciativa a respeito.
Alem disso a mentalidade predominante no Sistema Universitario Brasileiro segue
um modelo já abandonado no mundo desenvolvido que tem como via de acesso ao
magistério o Pos Graduação e que acredita ( sem ser capaz de justificar) que a
pós graduação faz o milagre de simultaneamente preparar pesquisadores e professores
A segunda razão que explica a ausência de qualquer iniciativa de mudança é que o ensino superior brasileiro modelado inicialmente na linha européia e posteriormente aderindo ao modelo americano, desconheceu e ainda continua desconhecendo a evolução que vem ocorrendo tanto na Europa como nos Estados Unidas, a respeito de capacitação de professores. Como soe acontecer, copiou-se o modelo americano esquecendo do que ele tem de mais rico e promissor que é- a estratégia de aperfeiçoamento e capacitação para a carreira do magistério universitário.
No entanto no plano internacional nos últimos anos tem sido grande a preocupação com os problemas metodológicos da aprendizagem no ensina superior.
Que motivos provocaram este interesse? Procuraremos salientar aqueles que nos parecem mais significativos.
O primeiro deles foi possivelmente a chamada crise estundantil que abalou o mundo universitário em particular entre os últimos anos da década de sessenta e os primeiros da década setenta. Entre os questionamentos, muitos visavam aos próprios objetivo e funções das instituições de nível superior e sua interação com a sociedade, outros se referiam mais diretamente à organização academica, à estrutura dos currículos, aos métodos de ensino, à relação professor x aluno, ao sistema de avaliação, à participação e cogestão dos estudantes no planejamento e desenvolvimento das atividades, etc..
.
O certo é que o movimento estudantil contribuiu decisivamente,para colocar em evidência como afirmaram Mackenzie, Eraut e Jones que, se é verdade que a universidade nasceu no claustro,ela se transformou numa arena; se ela foi concebida originariamente como um refúgio para os eruditos desejosos de se retirarem do mundo, hoje, o problema que as universidades devem resolver prioritariamente é aquele da medida e da forma de sua participação na vida da sociedade.
Outro fenômeno que vem abalando o mundo universitário, é o da expansão quantitativa do ensino superior. Fato de alcance universal é vivido como especial força entre nós, o ensino superior, que tradicionalmente se caracterizou por ser um ensino de elite, já está transformado num ensino de massa. Este fato que representa indiscuti velmente uma conquista, nos coloca diante de problemas que se caracterizam como autênticos desafios: como conciliar um ensino de massa com um ensino de excelência Deixando o ensino superior de ser privilégio de poucos e abrindo suas portas para um número cada vez maior de estudantes deverá abaixar.seus padrões de qualidade? Do ponto de vista didático, o problema se coloca na busca de um tipo de organização de situações de ensino-aprendizagem capaz de manter e mesmo melhorar os níveis de eficiência do ensino e ao mesmo tempo oferecê-lo a um grande número de alunos. Intimamente unido ao problema da expansão quantitativa, sem se confundir com ele, está a situação provocada pela reforma universitária, em especial pela matrícula por disciplinas: turmas além de numerosas extremamente heterogêneas. Alunos procedentes de distintas áreas de conhecimento, e em diferentes períodos acadêmicos, cursando juntos uma mesma disciplina.
Um terceiro fenomeno é o da expansão dos conhecimentos.
Ao mesmo tempo que o numero de estudantes aumenta, assistimos a um processo de expansão tão importante e ainda mais rápida que influencia também diretamente os programas e métodos do ensino superior. Trata-se da explosão dos conhecimentos: do fato que a massa dos conhecimentos humanos cresce segundo uma curva exponenencial
E não só isso, mas também as fronteiras entre muitos dos campos do saber, antes delineados como gozando de uma certa autonomia, vão desaparecendo; cada vez maior é a ênfase que se dá à articulação entre as diferentes ciências, a sua complementariedade e interdependencia.
Junto a esses problemas a nova estrutura do ensino superior no Brasil, coloca o professor universitário diante de novas funções, como por exemplo, a de orientação acadêmica dos alunos, exigida pelo regime de créditos.
É evidente que o docente concebido exclusiva ou fundamentalmente como um especialista de uma determinada área do conhecimento, que domina adequadamente seu conteúdo e sua metodologia científica,ao enfrentar-se com a problemática pedagógica vivida pelas instituições de nível superior, se encontra completamente despreparado.
. Este fato irá sem dúvida gerar um verdadeiro mal estar entre os docentes universitários, tornando-os inseguros do seu papel,dos reais objetivos de sua função, da razão de ser da própria universidade.
Em resposta a esta problemática algumas instituições de ensina superior têm promovido, paralelo com a preparação científica dos professores especialmente através dos cursos de especialização,mestrado ou doutoramento, cursos de "Didática do Ensino Superior.' Este titulo encobre, na quase totalidade dos casos a análise de noções fundamentais de didática sem nenhuma referência a uma problemãtica específica do ensino superior. Neste trabalho pretendemos defender a posição de que este tipo de abordagem de capacitação e aperfeiçoamento do professor universitário ainda que valiosa pelo seu pioneirismo é modesto e insuficiente. Não podemos satisfazermo-nos em reduzir esta preparação a uma capacitação didática, por mais importante que esta seja.
Como um subsídio para reflexão e busca de soluções para a problemática acima apresentada sugerimos que um programa destinado à capacitação de docentes deve- incluir pelo menos as
seguintese áreas:
Os fins e missão do ensino universitário;
Organização e estrutura do ensino superior;
Didática do Ensino Superior;
O professor universitário e a função tutorial.
Além da proposta de um programa que obviamente deverá ser amplamente discutido parece-nos imprescindirvel que a iniciativa e a modelo de capacitação a ser adotado não podem ser deixados na completa liberdade de decisão das instituições de ensino
superior. O centralismo das decisões e normas pelo Governo Federal, acompanhado quase sempre do centralismo da alocação dos recursos, é um fato a que todos se acostumaram e que tem servido de comoda desculpa para ausencia de iniciativas inovadoras.
Porisso mesmo os problemas serão solucionados se o Governo Federal, através de suas agências, assumir a responsabilidade de criar uma política e um modelo de capacitação de docentes que não seja episódico mas que seja incorporado como requisito da carreira.
OS FINS E MISSÀO DO ENSINO UNIVERSITARIO
Parece-nos que toda atualização ou capacitação para a ensino superior deverá ter como ponto de partida uma reflexão sobre a propria razão de ser das instituições de nível superior .Não apenas em sua essência ideal mas em sua condição concreta no mundo em que vivemos, em particular a sua inserção na sociedade e cultura brasileira. , seu papel no processo de desenvolvimento. Trata-se de questões extremamente complexas pois inúmeras a conflitantes são as concepções da universidade em nossa época. No entanto, somente a partir de uma concepção da universidade, do seu papel e missão no mundo atual, e em especial no nosso país, podemos construir ao longo do tempo uma verdadeira filosofia do ensino universitário brasileiro e definir quais seus fins e sua missão. É impresssionante a falta de reflexão critica dos professores de nível superior neste campo. Em geral, não se tem uma idéia clara da missão da universidade a do ponto de vista prático nos deixamos levar pela tendência dominante que faz da profissionalização o principal e, algumas vezes,
o unico objetivo da universidade.
Entendemos que não existe possiblidade de atualização e inovação em instituições de nível superior sem um processo de conscientização da razão de ser, das finalidades e missão dessas instituições. Por mais atualizados que possam ser os métodos didáticos, os sistemas-meio, eles devem estar a serviço de determinados fins e a tomada de consciência dessas fins deve orientar todo o processo de atualização. E para que se consiga uma conscientização o processo deve iniciar-se pela discussão o questionamento das correntes e idéias existentes.
Cada instituição isolada ou Universidade deve lutar pela liberdad e e autonomia de pelo menos neste aspecto decidir seus fins e missão. Não podemos imaginar, numa sociedade que pretenda ser pluralista e aberta, que a definição dos fins e missão das suas instituições de ensino seja autocraticamente definida pela poder central e padronizada para todas regiões e localidades do pais.
Junto com a reflexão em torno ao conceito de universidade e de seus -Fins e intimamente unida a ela deve ir o estudo das relações da universidade e o contexto socio-cultural e o da problemática da juventude atual. Os jovens constituem fundamentalmente a ser a, clientela-alvo das instituições de ,nível superior. São eles, ou pelo menos devem ser, o sujeito da educação. Um conhecimento objetivo de suas aspirações, seus questionamentos, suas características, constitui uma base imprescindível à definição dos fins
da universidade e à elaboração de uma didática do ensina superior.
ORGANIZAÇAO E ESTRUTURA DO ENSINO SUPERIOR
Outro aspecto que nos parece imprescindível a toda capacítação e atualização de professores no ensino superior, é o que se refere ao conhecimento da organização a estrutura do ensino superior no Brasil.
É evidente que todo professor universitário não deve ser concebido como um especialista neste campo. No entanto, deverá ter conhecimentos básicos que lhe permitam uma compreensão adequada do seu papel e da sua missão. O ensino superior no Brasil passou a partir de 1968, por uma reforma estrutural de grande envergadura.
E no atual Governo grandes mudanças estão ocorrendo ou planejadas
No entanto a maioria dos universitários ignoram os princípios fundamentais da reforma e a razão de ser de muitas das modifica ções introduzidas. .Alem do fato que
quase nada foi discutido no ambiente acadêmico ;alega-se sempre que no
Congresso isso é discutido o que nào é o forum ideal.
Esta situação o provoca na ordem prática, que, em muitos casos, os nomes mudam mas a praxis universitária não é atingida, mantendo-se sob nomes propostos pela nova estrutura um modo de agir que corresponde a antiga estrutura. Foi o caso tipico na Reforma de 1968 com a departamentalizaçâo. A estrutura departamental, deveria suscitar na vida universitária um dinamismo profundamente renovador. Estando concebido na atual configuração do ensino superior como a menor fração da estrutura universitária para todos os efeitos da organização administrativa, didático-científica e de distribuição de pessoal, compreendendo disciplinas afins e congregando professores para objetivos comuns de ensino e pesquisa, o departamento deveria constituir a base de um novo estilo didatico,
isto é, ser a base organizacional da formação de autênticas equipes de ensino.; o modelo
rompia com a tradição individualista do ensino superior, onde cada professor era o responsável total pela organização e desenvolvimento das disciplinas e turmas a ele encarre
gados ;O departamento deveria permitir um dinamismo em que varios professores, com a ajuda ou não de auxiliares, planejaam, executam e avaliam cooperativamente um grupo determinado, num espaço determinado, e em um tempo adequado de modo a tirar proveito da especial competência de cada um.
Se a estrutura departamertal funcionar como era desejado pela Reforma Universitária, e não exclusivamente do ponto de vista burocrático e formal, mantendo-se o estilo individualista do docente universitário, estaremos desperdiçando um dos elementos a mais renovadores da dinãmica do ensino superior. Portanto,a preocupação pela dinamizáção da vida departamental a interdepartamental nos parece ser um ponto fundamental na capacitação e atualização pedagógica do professor universitário.
Além deste aspecto, um conhecimento e colaboração na estruturação curricular dos cursos, na organização acadêmica, etc., um conhecimento da estrutura da entidade concreta em que atua, seus canais de comunicação e decisão, etc., constituem elementos necessarios para que o docente se situe de modo comprometido e consciente na dinãmica de sua instituição de nível superior.
A discussão deste tópico conduzida no contexto de um programa de capacitação e portanto isolada da luta pela poder e dos interesses que quase sempre são o pano de fundo desse tipo de debate,com certeza resultará na conscientização dos professores a respeito de inumeros problemas que muitos deles irão enfrentar quando assumirem funções administrativo-acadãmicas. Provavelmente estarão muito mais bem preparados do que atualmente para assumir tais responsabilidades (Chefe de Departamento, Membros de
Colegiados e Comissões). Através dessa discussão provavelmente será possível chegar a propostas de soluções para os problemas criados a partir de Reforma Universitária, que em verdade foi uma reforma outorgada autoritariamente diferente daquela que se propunha. Sem pretendermos esgotar este particular destacamos a seguir os problemas de maiores impactos sobre a qualidade do ensino e a eficiência da universidade, causados pela Reforma Universitãria na forma como foi implantada:
(1) A preocupação em reformar só as estruturas em busca do que se pensava ser a "democratização" da Universidade. Em função disso foi eliminada a cátedra, criados órgãos colegiados (os Conselhos de Departamento e Interdepartamento) com a "parti
cipaçao comunitária" em todos eles. Todos acreditaram ou fingiram acreditar que mudando o organograma estava sendo salva a Universidade do naufrágio. Na realidade o que ocorreu, iludindo todos os docentes e marginalizando-os do processo decisorio, foi uma monumental centralização o controle absoluto do poder pelo aparelho burocrático nos órgãos centrais da Reitoria.
A reforma como foi implantado provocou a eliminação de antigas faculdades e dos cursos fechados em cada uma, o que contribuiu para fragmentar o corpo discente pulverizando os alunos pelas disciplinas as mais diversas, ministradas em locais diferentes. Para reduz,ir os males dessa medida, que em si não é má, não foi criada a figura de um "orientador de curso" capaz de aconselhar os alunos na sua decisão de matricula A estrutura departamental por sua vez., embora tenha na maioria dos casos reunido professores de disciplinas afins em unidades mais amplas,isolou essas unidades umas das outras, dificultando toda comuni
cação horizontal. Isso sem citarmos os casos em que, para atender a interesses políticos e do corpo docente (ignorando o interesse de sua clientela-alvo, os alunos a finalidade maior da Universidade) os departamentos então criados reuniram não as disciplinas afins mas as disciplinas que compunham no seu conjunto uma profissão específica (por exemplo: Economia, Administração, Relações Públicas).
A criação de novos institutos contribuiu para separar as ciências básicas das aplicadas, as disciplinas formativas das profissionalizantes, marginalizando umas e empobrecendo outras.
(2) A centralização das decisões e normas no aparelho burocrãtico tornou a Universidade cada vez mais desligada da realidade externa, com a sociedade. O que servia para a Faculdade de Direito deveria servir para a Faculdade de Economia, para a Engenharia e assim por diante. A Universidade voltou-se para si mesma, passou à mercê do tráfico de influência e da luta pelo poder interno. Sua mais nobre missão - o ensino e a pesquisa - deixaram de ser tão prioritãrias nas ações diárias embora continuem a constar com palavras muito bonitas de todos regulamentos, estatutos, regimentos, enfim, todos documentos normativos.
Por outro lado, a execução, que deveria ser descentralizada se se desejasse democratizar a racionalizar efetivamente a ação administrativa e acadêmica, está também presa a deta
lhadas diretrizes emanadas do aparelho burocrático onde muitas vezes o cargo de chefia está nas mãos de professores mas cuja única tarefa é assinar o encaminhamento de pareceres elaborados pelo aparelho burocrático.
Nesse sistema, as decisões tomadas longe dos problemas concretos de ensina a pesquisa (que deveriam ser de conhecimento e competência do departamento) tendem a assumir um carater meramente formal pois so disso entendem os burocratas e por isso mesmo so com isso ficam satisfeitos.A elegãncia das formas, organogramas e relatórios periódicos constituiem maneira propria do burocrata e o satisfazem, constuindo com isso uma universidade simétrica, harmônica e ideal que nada tem a ver com a realidade da vida acadêmica e os fins maiores da Universidade. E como as decisões formais não resolvem os problemas de ensino e pesquisa apenas os enquadram, elas acabam sendo distorcidas ou inoperantes na prática. O resultado final é uma tendência a produzir informações e dados quase sempre fictícios e exclusivamente para satisfazer exigências burocrãticas. Mesmo nos mais altos escalões, o domínio da burocracia é completo. As Comissões e o Orgão Colegiado mais alto que é o Conselho Universitário embora criados com um objetivo e responsabilidades elevados acabaram por se tornar em melancólicos homologadores das decisões que a burocracia leva empacotadas para as reuniões.
Didatica do Ensino Superior: é somente no contexto mais amplo do conceito de universidade, da sua missão e finalidade, da caracterização da população universitária, da organização e estrutura do ensino superior, e- que podemos situar a didática
do ensino superior.
Sob título DIDATICA DO ENSINO SUPERIOR caberia responder a algumas duvidas que aparecem com freqüência em reuniões e debates de professores:
· Existe realmente uma didática do ensino superior?
· Até que ponto há uma metodologia de ensino- aprendizagem
específica para determinadas áreas de conhecimento oudisciplinas?
As duas dúvidas decorrem do fato da quase totalidade dos professores no ensino superior nunca ter tido um contato formal em sua formação e preparação para o magistério com teorias de aprendizagem, metodologia de planejamento e avaliação de currículos, métodos e procedimentos didáticos, métodos e procedimentos de avaliação educacional.
Porisso é facilmente compreensível que todo planejamento curricular e todos os procedimentos de avaliação baseiam-se no empirismo total e na "achologia", a ciência parece ter sido desenvolvida no âmbito do ensino superior brasileiro e que é aperfeiçoada em cada reuniío de docentes.
É compreensível que os professores desconheçam uma vasta experiência e toda a literatura acumulada a respeito de Ensino Superior, onde são analisados desde os aspectos de teoria de aprendizagem do aluno adolescente e adulto (que é afinal a clientela-alvo, o sujeito do processo) até os métodos de ensino para campos de conhecimentos específicos testados e utilizados há várias décadas nos Estados Unidos, França, Inglaterra, Espanha e Austrália e nesta lista incluímos somente os países onde houve maior evolução. Em particular no ensino-aprendizagem de PSICOLOGIA, ADMINISTRAÇÃO, FISICA, QUIMICA, temos conhecimento de métodos específicos utilizados nessas áreas de conhecimento. Para não nos alongarmos muito basta citarmos o "Método do Caso" e as "Simulações" como metodos específicos do ensino de Administração.
É compreensível que mesmo alguns dos mais aclamados e renomados educadores no âmbito de ensino superior brasileiro, desconhecendo a que há décadas vem acontecendo naqueles paises, apresentam artigos e proponham soluções baseados exclusivamente na sua "experiência" que pode ser enorme mas raramente teve por base qualquer fundamento teorico.
O melhor exemplo desse amadorismo é o processo de elaboração ou modificação de currículos. Quase sempre que se discute qualquer reforma curricular maior ou menor, há uma preocupaçãode "copiar" currículos similares americanos ou europeus. Nunca ocorreu entretanto a preocupação de "copiar" os processos decisorios adotados no exterior. Nunca ocorreu a preocupação de conhecer "como" os americanos ou europeus (principalmente ingleses e franceses) estão capacitando e aperfeiçoando seus quadros docentes nas últimas décadas ou como introduzem e gerenciam suas inovações educacionais.
É também compreensível que as"autoridades educacionais!'sendona maior parte das vezes recrutadas dos quadros docentes assim formados, não tenham sido capazes nem criativos para encontrar soluções para a crise do curso superior brasileiro.
Um programa de "DIDATICA DO ENSINO SUPERIOR" deverá abranger topicos como: (a) Fundamentos teóricos do processo ensinoaprendizagem,; (b) Planejamento didático a níveel micro (disci plina isolada) e a nirvel macro (curso , conjunto de disciplias), (e) Pratica de ensino; (d) Métodos e Estratégias deaprendizagem gerais e os específicos da área de conhecimento
O Professor Universitário e a Função Tutorial:
Com a complexidade, diversificação e flexibilidade crescente dos currículos dos cursos superiores, substituindo-se progressivamente o regime seriado pelo regime de créditos,a necessidade de institucionalizáção de um processo de acompanhamento do aluno estruturalmente organizado torna-se imprescindível. Este processo, proporcionando ocasiões especificas de personalizáção e individualização do ensino universitãrio, permite ao professar exercer uma função pedagógica de grande valor educacional: a tutoria concebida como um processo que envolve determinado professor com determinados alunos numa relação: profissional, isto é, duas pessoas em situação de trabalho uma mais experiente dando apoio a outra que está "aprendendo" a tomar decisões, através de um processo explorat6rio, a fim de facilitar a aquisição de auto-conceito, segurança e competência aceita por ambos, pois um acredita que pode ajudar e o outro que encontrará ajuda, resultando em enríqueciemto mútuo
A relação assim estabelecida; é integralizadora, onde ambos são convocados a participar da vida universitária, em termos humanos: o professor assume o papel de educador, deixando de ser apenas um transmissor de informações e o aluno encontra a possibilidade de uma vivência facilitadora do seu processo de amadurecimento.
Assim, o sistema tutorial implica em oferecer ajuda ao discente na sua problemática global, desde que não ultrapasse os limites em que uma relação-ajuda não especializada possa ser útil. Se o que se pretende é oferecer ajuda ao estudante no sentido de facilitar a tomada de decisões nas opções profissionais e de programas de estudo, assim como favorecer a fortalecimento do seu auto-conceito, através do desenvolvimento da habilidade auto-explorat6ria é o mesmo que dizer -o objetivo da tutoria, é a pessoa do aluno na sua totalidade.
É comum em algumas instituições de ensino superior a funçãode "orientador de curso", especialmente no nível de pós-graduação. É também uma exigência formal dos programas de pósgraduação a existência do "oriantador de tese ou dissertação". Todos esses papéis são desempenhados por professores sem que antes tenham sido para isso eles capacitados e qualquer que seja a designação adotada, nada mais são que uma função tutorial com peculiaridades próprias. O sistema de tutoria conduzida por professores despreparados, mais que ajuda, muitas vezes confunde mais o aluno que se sente uma peça dentro da complicada engrenagem da organização do ensino superior.
A função tutorial supõe, para obter os resultados adequadosuma preparação específica e certas condições pessoais determinadas. Cremos que nem todos os professares universitários terão condições para exercê-la de maneira adequada. A preocupação com a criação de um sistema tutorial eficiente nos parece ser outra preocupação fundamental a todo esforço de atualização pedagógica do ensino superior. Um idéia seria incluir a nível de Doutoramento como disciplina obrigatória a função Tutorial, interpretada neste nível como orientação de tese e dissertação. Ao nível de mestrado seria compatível a disciplina Função Tutorial destinada a orientar alunos de graduação (Orientador de Curso, Orientador de Estágio Supervisionado, etc . ) .
COMO ORGANIZAR A CAPACITAÇÃO DE PROFESSORES?
Finalmente, seria incompleto um trabalho que se resumisse em cri ticar a situação existente e não indicasse sugestões para corrigir as inadequações apontadas. Como já discutimos antes, no Brasil a capacitarão de professores para o ensino superior foi tentado de modo episódica fracassando não sus nas suas metas qualitativas como quantitativas. O modelo adotado inicialmente considerou que o pós-graduação 'strictu-sensu" (Mestrado e Doutorado) seria capaz, por si só, de capacitar ao desempenho futuro do papel de professor. Mais adiante acelerar a capacitação por via do pós-graduação "latu-senso" com o pomposo titulo de Programa Nacional de CapacitaçÃo - de Docentes. As mais recente "
iniciativas de melhoria de qualidade do ensino superior (Governo FHC) continuam insistindo na milagrosa tese de que os titulos de Mestre e Doutor serão capazes de
transformar em bons professores os pós graduandos quando em nenhum desses programas o estudante tem algum envolvimento com conteudos e habilidades de
ensino –aprendizagem.
É portanto inócua a politica de exigir uma determinada quantidade de titulados
para compor os quadros docentes de institições de ensino superior como medida
capaz de melhorar a qualidade do ensino .Sem duvida que esses titulados serão
professores com maior e mais atualisado dominio dos conteudos que irão ensinar,
mas isso em nada irá garantir melhor desempenho como educador.
.
Em nenhum documento, legislação ou diretriz oficial foi considerada a capacitação e o aperfeiçoamento no seu sentido estrito e incluindo-se, por exemplo, como requisito de ingresso e ascenção na carreira. Em nenhum modelo de avaliação de docentes e
progressão na carreira é considerado o desempenho enquanto professor,sendo
exclusivamente considerados desempenhos enquanto pesquisador
Apesar da tendência de copiar modelos americanos,neste assunto de capacitação
E aperfeiçoamento de professores tem sido completamente ignorada a experiência das universidades americanas ,inglesas e australianas.E foi enorme o esforço nesse sentido realizado por aquelas universidades nas últimas décadas.
As várias estratégias adotadas tiveram todas como objetivo comum e foco central de sua ação o aperfeiçoamento e melhoria da qualidade do ensino.
Dada a importância dos resultados obtidos e a variedade das estratégias adotadas nas universidades americanas parece-nos valido relatar ,ainda que de forma resumida ,as soluções adotadas.
Como dissemos acima, foi bastante variada a formatação dos organismos a cargo
dos programas destinados a implementar o conceito de aperfeiçoamento de instrução e isso se pode constatar através do título atribuido a esses orgãos:
-Projeto
-Centro
- Instituto
-Pró Reitoria
-Programa
- Departamento/Divisão
Tambem foi variado a designação da missão desses orgãos,embora na descrição detalhada possa ser constatado que um objetivo é commum a todos:Capacitação
e Aperfeiçoamento de Professores e melhoria da qualidade do ensino.As missões
mais frequentemente encontradas são : Desenvolvimento Instrucional /Desenvolvimento
do Corpo Docente / Recursos Instrucionais/Desenvolvimento Profissional/ Tecnologia Instrucional.
Embora a estrutura organizacional varie muito entre as universidades americanas
no que se refere às estratégias adotadas é possivel classifica-las em tres grandes grupos segundo o objetivo (GOAL) que perseguem:
(1) Desenvolvimento do Corpo Docente (2) Desenvolvimento da Instrução
(3) Desenvolvimento Organizacional
A estratégia "Desenvolvimento do Corpo Docente" focaliza os professares procurando promover o desenvolvimento e capacitação individual. Os mecanismos de atuação adotado são semináriose cursos decurta duração.
A estratégia "Desenvolvimento da Instrução focalisa o currículo dos cursos, procurando aperfeiçoar as condições e materiais através dos quais se promove a aprendizagem dos
alunos. Procura auxiliar e capacitar os professores a especificar seus objetivos de aprendizagem, criar e explorar as experiências de aprendizagem para atingir esses objetivos e avaliar como eles foram atingidos. O mecanismo de atuação é não só o de cursos
curtos e seminários, como projetos individuais realizados pelos professores sob orientação de consultores pertencentes a um "Centro de Capacitação de Docentes" (este título ciutado aqui é um dentre vários existentes).
A estratégia "Desenvolvimento Organizacional" focaliza primariamente a instituição de ensino como um todo (ou parte dela, como por exemplo um Departamento);Procura desenvolver um ambiente de maior potencialidade para que possa ocorrer efetivamente a aprendizagem. Os mecanismos de atuação mais comuns são o “workshop” ou projetos realizados internamente na própria instituição, tambem sob a orientação de um consultor externo pertencente ao "Centro de Capacitação de Docentes".
É importante ficar ressaltado que essa classificação é meramente didática e não é estanque nem mutuamente exclusiva.Em outras palavras, - podem ocorrer combinação de estratégias
ou mecanismos de atuaçao.
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