Os IGNORANTES, que acham saber tudo, privam -se de um dos maiores prazeres da vida: APRENDER.

AUTONOMIA INTELECTUAL

 

Edgar Linhares
 
Nos rituais da escola de hoje, consolida-se cada vez mais o rito da semana pedagógica, que ainda não é bem uma semana , mas já é um evento  no qual   o corpo docente se reúne para  acertar os ponteiros, antes da partida inicial dos relógios do calendário escolar.
Estou aqui para desempenhar neste ritual bem vindo o papel de  provocador de algumas reflexões que circulam junto ao universo da sala de aula. Escolhi algumas dessas reflexões, porque elas estão preocupando de um modo geral a todos os pesquisadores atuais.
Vamos começar pela discussão de um dos pontos mais críticos  em educação:
A rentabilidade dos estudos dos alunos.
Na legislação brasileira, qualquer curso legalmente habilitado deve ter duzentos dias letivos, com pelo menos 800 horas anuais, não incluídas as horas de provas ou exames. Isto já é uma definição do legislador sobre o papel da aula na visão da lei. Este é na verdade um respeitável ano letivo( 200 dias) – 40 semanas de 5 dias letivos, com 4 horas de aula. Se fosse permitido admitir que a cada aula deve corresponder pelo menos uma hora posterior de estudo ou trabalho do aluno, já teríamos 1.600 horas de trabalho intelectual, o que corresponderia a 8 horas de trabalho por dia , tirante o domingo e um mês de férias. Seria, portanto cada aluno um trabalhador intelectual em regime de tempo integral
Sabemos que há alunos que superam estes números, mas sabemos que , além desses , há alunos que  estão muito longe dessa performance.
A lei, com esses números, concentra a importância do estudo, fundamentalmente no tempo da sala de aula.
E aí vem a primeira questão para reflexão:
As nossas práticas pedagógicas podem garantir-nos que esse tempo de sala de aula é realmente um tempo produtivo para o aluno?
Qualquer pesquisador  estagiário pode levantar a opinião de uma amostra bem  representativa de professores, de alunos e de administradores escolares e logo chegar à conclusão de que as respostas a esta pergunta  nos deixam em dúvida sobre a rentabilidade da sala de aula.
Para a pergunta: O que faz que não haja a produtividade que se espera? Aí as respostas variam em função de um dos três interessados acima citados.
Os alunos culparão o professor, o professor culpará  os alunos e os administradores culparão os dois.
Quando isto acontece, só há um caminho: que todos concordem que são todos culpados, ou que nenhum é culpado mesmo. Então o caminho fica fácil: estudar formas novas de uso do tempo da sala de aula.
Aí eu entro com um conjunto de reflexões. A primeira delas: O modo como os professores estão trabalhando pressupõe que os alunos gostam de estudar e sabem estudar . Numa escola privada, fica difícil acreditar que eles pagam para fazer o que não querem; portanto é de supor que eles querem estudar.
Posso responder que entre gostar e saber há uma relação de dependência. Ele não poderá gostar, se ele não souber estudar.
Saber estudar é, pois, para mim, o ponto de partida da mudança do espírito da sala de aula
A este saber estudar, eu dou o nome mais apropriado de  autonomia intelectual
A autonomia intelectual é a capacidade de enfrentar a busca de conhecimento de um assunto, tema, disciplina, corpo de conhecimento, ou qualquer outro nome que se dê a algum  algoritmo cognitivo, sabendo orientar-se dentro de uma  lógica coerente.
Para o comum da nossa cultura, o instrumento fundamental de trabalho, nessa busca , é  a leitura
Vamos tentar justificar melhor o papel da leitura na autonomia intelectual.
Primeiro é preciso entender que o ato de ler é um habilidade. Sendo habilidade, só pode ser conseguida com muito exercício e com muita repetição. A importância da habilidade reside no fato de que ela reduz drasticamente a exigência da atenção na sua execução.  Quando está aprendendo a ler, a criança sua frio para conseguir ler  as sílabas de uma palavra. Isto depois será feito automaticamente, se ele conseguir elevado nível de habilidade.
A  leitura , porém,  tem  mais de uma habilidade. Tem a habilidade de decodificar as letras  para os seus sons correspondentes , arrumá-los na direção da palavra e de seu significado , articular as palavras com seus significados dentro de uma frase, entendendo as suas relações léxicas, sintáticas e semânticas. Como vêem, é uma atividade altamente complexa, que se torna fácil em função da quantidade de vezes que você  a executa.  Há habilidades diversas: a de dirigir veículos, por exemplo. Ou a de  executar o software  de busca de endereço numa central telefônica. Ou a de somar listas infindáveis de centenas na busca de um total.
São  relativamente recentes os estudos sobre a anatomia do ato de ler. Eles só foram possíveis com as descobertas de instrumentos especiais de  aliados às técnicas de ressonância magnética com uso de micro-eletrônica , para rastreamento das sinapses transmissoras de informações entre  neurônios. Agora se pode ver o que acontece no cérebro quando você olha para uma página e lê. Agora se sabe como os olhos se movimentam na leitura e como esse movimento é produto da sua experiência em decodificar, pesquisar significado no cérebro, a velocidades  correspondentes a milésimos de segundo.   Agora se pode  saber que um leitor mediano gasta em torno de 250 milissegundos para ler uma palavra comum, gasta cerca de 25 milissegundos para passar de uma palavra para outra  e, mesmo sendo hábil, volta a ler a frase em cerca de dez por cento do que lê. Isto tudo já nos permite fazer escalas de desenvolvimento de leitura, desde  a primeira série até a universidade. Segundo as pesquisas mais respeitáveis, a criança deve terminar a 1a série com 60 palavras por minuto e  chegar à oitava com 171. E para uns pesquisadores mais exigentes, se ele não ler na universidade a pelo menos 180 palavras por minuto, ele vai pagar os seus estudos,  mas não vai aprender coisa nenhuma.
Há técnicas especiais para uso da leitura em sala de aula, como forma de desenvolver a habilidade de leitura do aluno e melhorar o padrão de autonomia dele.  Isto é uma coisa muito importante para o aluno. Talvez a coisa mais importante na sua formação.
O PAPEL DO VOCABULÁRIO
Essa importância da leitura está relacionada com o papel dela na  aquisição de vocabulário. 85% do que lê está concentrado em perto de 500 palavras. São as palavras mais freqüentes de sua língua. O problema sãos os 15% restantes que são palavras relacionadas especificamente com o assunto em pauta e requerem muita precisão conceitual. Um estudante universitário precisa ler pelo menos 12  mil páginas/ano que correspondem a cerca de  seis milhões de palavras. A probabilidade de aprendizagem de vocabulário novo nessa leitura gira em torno de  15.000 a 25.000 palavras. Num teste  de múltipla escolha feito por um pesquisador ,  depois de uma semana da leitura, o que ficou razoavelmente assimilado pelo aluno foi apenas cinco por cento , ou  750 a 1250 palavras por ano.
É ingênuo  esperar que um aluno goste de ouvir uma aula  expositiva em que o vocabulário que dá sentido ao texto não lhe é familiar.
Pode-se imaginar que cada disciplina tem o seu vocabulário específico. Para catalogá-lo existem os dicionários especializados. Cada disciplina deve enriquecer a cultura do aluno com um conjunto de conceitos sem os quais ele nada pode esperar dela.
Aprender a ler implica, pois compreender  e  assimilar o vocabulário da leitura no qual se guardam  os conhecimentos. 
Posso dar um depoimento pessoal disso. Nos quatro primeiros anos de  minha vida como professor universitário, trabalhei com uma turma de alunos  numa faculdade recém criada. Tive que ensinar  nessa turma algo como sete disciplinas. Naquele tempo a gente chamava cadeiras. Ao final do curso, perguntei a uma de minhas alunas: O que você aprendeu comigo nesse curso? A resposta foi imediata: AH! professor, eu aprendi a ler. Foi uma descoberta definitiva para minha vida. Agora eu me sinto realmente independente. O que ela estava realmente sentindo era sua autonomia intelectual. Nem eu tinha consciência do que estava se passando com aquela jovem. Fiquei até meio deprimido, pensando: AH! Ela só aprendeu a ler?
Alguns pecados contra a autonomia:
·        quanto mais você falar, enquanto ele olha para você, pior.
·        Se você falar cinco minutos, indicando o caminho da floresta, vá lá. Se você falar 10 minutos, está sendo longo. Se você falar mais de 15, já estamos em campo de tragédia.
A exposição oral supõe um diálogo entre o aluno e o professor. Você não conta com a participação dele, portanto não há diálogo. Fico muito irritado quando assistindo à televisão anunciam uma entrevista com um  personagem excelente e não nos informam uma maneira de copiá-la  depois. Não pude dialogar com ele, lendo pelo menos lendo.
Então o professor não deve falar?
Pode e deve. Mas na hora certa., segundo o estágio de autonomia em que se encontra o aluno. Na dúvida só comece a falar depois que o aluno leu o texto que contém  a razão do seu discurso. Depois disso, sua fala se torna um diálogo na cabeça do aluno. Porque ele tem referências  para entender o que você fala. 
Aprende-se a nadar, nadando. Aprende-se a ler, lendo. Mas há técnicas que ajudam a nadar melhor. E há técnicas que ajudam a ler melhor.
A maior dificuldade é que cada professor deve debruçar-se sobre o estado de autonomia intelectual do aluno para poder ajuda-lo a partir do estágio em que ele se encontra.
É bom esclarecer que a autonomia intelectual é uma competência eminentemente individual, altamente personalizada, que cresce em escala indefinida.
No nível escolar fundamental , há técnicas para sua construção inicial, para seus alicerces. No nível  médio, há outras técnicas;  no nível superior, ou você recupera o tempo perdido antes e processa a sua continuação, ou vai perder tempo.
Uma coisa é indispensável: o exercício . Não se compra autonomia como quem compra um computador. Constrói-se autonomia intelectual com estratégias de aprendizagem e continuado exercício.
Para terminar, vamos pensar em algumas estratégias construtoras de autonomia intelectual.
·        Implante um hábito de só aceitar conversar sobre o tema de uma aula, após a leitura de um texto básico. ( Saiba escolher esse texto em função do nível de seus alunos)
·        Essa leitura deve começar na sala de aula, porque eles ainda não sabem ler. Planeje o seu tempo para que eles assimilem  o mais rapidamente possível pelo menos quatro  práticas : a) ler o texto b) dividi-lo em partes c ) resumi-lo numa frase; e  c) dar uma opinião sobre ele.
·        Com isso você está exercitando o que Bloom chama os três estágios superiores da inteligência: analisar, sintetizar, avaliar. A escala ascendente aí é verdadeira e muito íngreme.
·        Nunca deixe uma aula terminar sem recomendar objetivamente um exercício de leitura estimulante . Nem que seja a releitura de um texto já lido para observar um dado novo.
·        Não se restrinja a sugerir leitura apenas da sua disciplina. Busque leituras contextualizadoras de assuntos da sua disciplina.
·        Descubra alguma forma de elogiar o esforço que seu aluno fizer, por menor que ele seja. Para quem gosta de construir atitudes positivas em seus alunos, aconselho os textos que estão no site: metáforas.com.br . Você pode ler um texto de adolescente e situá-lo num patamar da mais alta filosofia.
·        Se você for capaz de levar seus alunos a um lugar qualquer – um sítio, um museu, uma biblioteca, um shoping e com eles desenvolver alguma atividade interessante e original, por certo você provocará, nesse tipo de atividade um incentivo ao que você pretende que eles aprendam. Isto é particularmente interessante para estudar observações do mundo real que podem ser levadas a uma reflexão acadêmica de alta significação. Onde se pode melhor estudar cadeia produtiva em administração, indústria, economia ou publicidade? E dará ao aluno a certeza de que você realmente se preocupa que eles aprendam.
·        Nunca  comece uma unidade de seu programa sem uma preparação dos alunos:
·        Todo aluno tem o direito de saber o que vai fazer, porque vai fazer e quando vai fazer.
·        Habitue-se a dar bibliografia  nas suas unidades. Diga na bibliografia o que ele vai encontrar. Se você quer especificar o que ler no livro, é melhor. Indique algo como. Basta ler o capítulo 3º. O resto, se você gostar.
·        Meta no seu coração o desejo mais profundo de ver seu aluno progredindo. Isto fará que seu olhar , seu sorriso, sua voz, tudo em você , na aula, estimule o aluno a acreditar no que você acredita. Se você não  habitar nesses sentimentos, você vai trabalhar numa profissão que só lhe dará dissabores. Até câncer.
PALESTRA APRESENTADA AOS PROFESSORES DA FANOR NO DIA 31 DE JANEIRO DE 2004.