IVÁN IZQUIERDO
Professor titular de neuroquímica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Para um dos mais ativos cientistas do país, exercitar a memória é uma das chaves para envelhecer com qualidade
CRISTIANE SEGATTO
Para um dos mais ativos cientistas do país, exercitar a memória é uma das chaves para envelhecer com qualidade
CRISTIANE SEGATTO
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Aos 64 anos, o médico e pesquisador Iván Izquierdo exibe uma produtividade invejável. Decidido a desvendar os mistérios da memória, produziu 469 artigos científicos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros. Suas descobertas são fruto de parceria com mais de 200 colaboradores em 13 países. Uma das mais importantes provas que tanto a memória recente quanto a de longo prazo são formadas nas mesmas células cerebrais – e não em áreas distintas. Ela pode orientar o desenvolvimento de medicamentos que atuem nos processos bioquímicos responsáveis pela construção das lembranças. Para comemorar 40 anos de atividade, Izquierdo reuniu os principais achados no livro Memória, destinado a médicos, biólogos e psicólogos. Mas ninguém precisa ser especialista para acompanhar as reflexões sobre o funcionamento dos neurônios. Muito a propósito, o autor sugere que seus leitores não congestionem a memória à toa e desprezem os capítulos que não forem de seu interesse. Cita o exemplo do escritor Jorge Luis Borges, que confessou nunca ter podido ler James Joyce sem pular páginas inteiras. O cientista cultiva o diálogo com parceiros e alunos, e ainda escreve contos, 'para manter a memória em funcionamento'. É sobre o movediço mundo das recordações que ele fala nesta entrevista.
ÉPOCA – O senhor costuma dizer que somos aquilo que recordamos e também o que resolvemos esquecer. Esse processo é consciente?
Iván Izquierdo – Fazemos um esforço consciente para esquecer coisas desagradáveis, como as humilhações. Mas às vezes não nos damos conta desse esforço. Existem processos que permitem ocultar certas memórias. Isso é um aprendizado importante. Há lembranças que precisamos extinguir. Caso contrário, passaríamos a vida fazendo coisas que não nos interessam. Por um mecanismo de autoproteção, o cérebro simplesmente apaga determinada memória. É um fenômeno que os psicanalistas chamam de repressão. Isso ocorre o tempo todo, mesmo sem percebermos. ÉPOCA – O esquecimento então é importante para a saúde mental...
Izquierdo – Sem ele, o convívio social seria impossível. Um jogo de futebol, uma reunião de condomínio ou uma briga de casal acabariam em desastre. Esquecer é uma arte que se aprende lentamente. As pessoas ficam mais tolerantes quando envelhecem porque aprendem a identificar as lembranças que valem a pena e a selecioná-las. Os velhos sabem que é inútil brigar por qualquer motivo. ÉPOCA – Como os idosos desenvolvem a memória seletiva?
Izquierdo – Os velhos escolhem suas memórias. Não se deve confundir amnésia senil com a tendência das pessoas idosas a relembrar memórias antigas em detrimento das recentes. Quem melhor explicou isso foi o escritor argentino Jorge Luis Borges. Os velhos preferem lembrar episódios da infância e da juventude que correspondem ao 'tempo da felicidade': aquele em que eram ágeis, fortes, bonitos, potentes, com toda uma vida pela frente. ÉPOCA – Nossas memórias pessoais e coletivas incorporam fatos irreais?
Izquierdo – Sim. Todo mundo quer acreditar que viveu uma infância feliz e, por isso, retoca algumas passagens. Isso também acontece coletivamente. Todos os nossos próceres são mitos. Simón Bolívar não foi um general tão heróico. Era um mulherengo que adiava batalhas porque tinha algo mais interessante a fazer com suas amantes. Precisamos inventar heróis para sentir que pertencemos a alguma coisa. Por isso, o Brasil criou os heróis do futebol. Temos a necessidade de cultuar exemplos para mostrar o que somos quando nos defrontamos com o mundo.
ÉPOCA – Diz-se que o brasileiro não tem memória histórica. É verdade?
Izquierdo Sim. O Brasil é um país sem heróis militares e por isso lhe faltam marcos. Não quero dizer que seja bom ter muitos generais cultuados. A existência de vultos militares pode significar apenas que uma nação foi muito belicosa. Não é garantia de uma sociedade melhor. Os argentinos colecionam heróis militares e nem por isso sabem eleger seus governantes. Mas, em geral, os cidadãos identificam mais facilmente os descendentes políticos de figuras heróicas. A cada eleição sabem que votaram a favor ou contra o sucessor de determinado líder. Esse tipo de memória faz falta ao Brasil. Talvez isso ajude a explicar por que, ideologicamente, os partidos brasileiros são tão amorfos. ÉPOCA – Antes de seus trabalhos, acreditava-se que a memória recente e a de longa duração fossem formadas em pontos distintos no cérebro. Como o senhor alterou essa concepção?
Izquierdo – Depois de décadas de investigação em ratos de laboratório, conseguimos mapear a seqüência de processos bioquímicos envolvidos nas lembranças. Concluímos que os dois tipos de memória usam as mesmas células, mas com enzimas diferentes. Por isso são processos independentes. O cérebro cria uma memória que dura poucas horas, caso precise dela em seguida. Paralelamente, desenvolve outra, que pode durar a vida inteira. ÉPOCA – Alguns indivíduos conservam a memória mesmo depois dos 80 anos. Qual é o segredo?
Izquierdo – A maioria das pessoas alcança essa idade com o intelecto íntegro. A memória fica mais lenta, mas também fica mais vasta. Só depois dos 90 começa a decair. O uso constante do intelecto é o truque. Novamente, cito o exemplo de Jorge Luis Borges, que praticou com intensidade a literatura e o aprendizado de línguas até sua morte, aos 86 anos. A memória é uma função que depende muito do uso. Quanto mais a usamos, mais a conservamos. Está provado que o mal de Alzheimer é menos severo em pessoas com nível superior porque elas usaram mais o intelecto. ÉPOCA – Como estimular a memória? Palavras cruzadas têm alguma serventia?
Izquierdo – Fazer palavras cruzadas estimula mais o cérebro que ficar em casa zapeando a TV sem se ater a nenhum programa em especial. O xadrez é um bom exercício, mas envolve um tipo de memória muito especializada nos movimentos do jogo. Não existe nada mais eficiente que ler atentamente, tentando refletir sobre o texto. ÉPOCA – Por quê?
Izquierdo – A leitura põe em prática a memória das letras, a memória verbal e a memória da imaginação. Até mesmo uma frase simples de três palavras estimula a memória. A sociedade precisa cultivar a instrução e o uso da memória. Para a maioria dos brasileiros, ler é uma excentricidade. ÉPOCA – Alguns pacientes com mal de Alzheimer não reconhecem os filhos, mas continuam craques no xadrez...
Izquierdo – Por algum motivo ainda não explicado, 'ilhas' compostas de redes de neurônios sadias e preservadas resistem em meio às lesões. É como um pequeno espaço seco entre poças d'água. A doença ataca vários pontos do cérebro e nas regiões ilesas sobrevivem memórias. Os neuropsicólogos tentam cultivar essas ilhas para recuperar outras memórias. ÉPOCA – É verdade que utilizamos só uma fração do cérebro?
Izquierdo – Essa é uma daquelas bobagens que de tão repetidas parecem verdade. Isso nunca foi demonstrado. Pelo contrário. Os trabalhos comprovam que o hipocampo, região do cérebro em que a memória se constrói, trabalha no limite. Os animais precisam descansar para continuar a aprender. ÉPOCA – Com os homens ocorre o mesmo?
Izquierdo – Utilizamos toda a capacidade de memória. Depois de ouvir três palestras precisamos de uma pausa para o café. Sem o intervalo não conseguimos registrar as coisas com eficiência. É a saturação. ÉPOCA – Crianças familiarizadas com computador têm mais capacidade de memória?
Izquierdo – A intimidade com computadores pode trazer benefícios à memória. As crianças têm acesso a um maior volume de informações e fazem muitas atividades ao mesmo tempo. Isso tem um impacto positivo. Mas os meninos não são mais inteligentes que seus avós. Em qualquer escola do mundo, sempre haverá 60% de alunos medianos e uns 10% muito ruins. ÉPOCA – Teremos a pílula da memória?
Izquierdo – Estamos longe disso. No início da década de 90, o presidente americano George Bush anunciou que aquela seria a década do cérebro. A promessa de investimento em pesquisas era uma resposta aos sintomas de mal de Alzheimer do ex-presidente Ronald Reagan. Mas pouco foi feito em termos de prevenção e tratamento. Nos últimos anos, aprendemos muito sobre os mecanismos da memória, mas estamos longe da cura de doenças degenerativas. Progresso verdadeiro ocorreu na biologia molecular. Agora todos querem descobrir um tratamento preventivo das doenças do cérebro. O caminho mais promissor parece ser o de manipular genes e impedir que o mal se manifeste. Enquanto não chegamos lá, a leitura é a melhor prevenção. |