Educação de Adultos: Uma Abordagem Andragógica

em Andragogia
Rodrigo Goecks
andragogia@terra.com.br
 
 
Introdução:
 
Como tratamos nossos filhos pequenos? Como eles reagem e aprendem?
A dependência das crianças nos leva a uma postura protetora e ao exercício da autoridade. Inicialmente com os pais e, logo após, com os professores, a dependência é um componente natural no dia-a-dia e na educação.
 
Com o passar dos anos esta postura começa a ser questionada, os adolescentes iniciam o rompimento do “cordão umbilical” questionando e rebelando-se. Os pais e professores passam a não obter a “verdade absoluta”. Tudo é questionável.
 
A maturidade da fase adulta nos traz a independência. As experiências nos proporcionam aprendizados, os erros nos trazem vivências que marcam para toda a vida. Somos, então, capazes de criticar e analisar situações, fazer paralelos com as experiências já vividas, aceitar ou não as informações que nos chegam.
 
Mesmo diante de tantas transformações na vida do ser humano, os sistemas tradicionais de ensino continuam estruturados como se a mesma pedagogia utilizada para as crianças devesse ser aplicada aos adultos. O chamado “efeito esponja”, na qual a criança absorve todas as informações não é possível de ser observado na fase adulta. O adulto desenvolve uma habilidade mais intelectual, quer experimentar, vivenciar.
 
Andragogia –Um Conceito de Educação:
A Andragogia significa, portanto, “ensino para adultos”. Um caminho educacional que busca  compreender o adulto desde todos os componentes humanos, e decidir como um ente psicológico, biológico e social.
 
Busca promover o aprendizado através da experiência, fazendo com que a vivência estimule e transforme o conteúdo, impulsionando a assimilação.
 
O adulto, após absorver e digerir, aplica. É o aprender através do fazer, o “aprender fazendo”.
 Jorge Larrosa e Walter Kohan, na apresentação da coleção “Educação: Experiência e Sentido”, acentuam a importância da experiência do aprendizado:
“A experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à educação. Educamos para transformar o que sabemos, não para transmitir o que é sabido” 
Adriana Marquez em palestra no Primeiro Encontro Nacional de Educação e Pensamento, na República Dominicana, cita: 
“A Andragogia na essência é um estilo de vida, sustentado a partir de concepções de comunicação, respeito e ética, através de um alto nível de consciência e compromisso social”
 complementa ainda:
 “As regras são diferentes, o mestre (Facilitador) e os alunos (Participantes) sabem que tem diferentes funções, mas não há superioridade e inferioridade, normalmente não é o mesmo que acontece na educação com crianças”
 Paulo Freire, em “Pedagogia do Oprimido”, afirma:
Ninguém educa ninguém, nem ninguém aprende sozinho, nós homens (mulheres) aprendemos através do mundo”
 Em “Pedagogia da Autonomia”, Freire diz: “ Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”
 Eduard Lindeman, em “The Meaning of Adult Education" (1926),  identificou, pelo menos, cinco pressupostos-chave para a educação de adultos e que mais tarde transformaram-se em suporte de pesquisas. Hoje eles fazem parte dos fundamentos da moderna teoria de aprendizagem de adulto:
1. Adultos são motivados a aprender à medida em que experimentam que suas necessidades e interesses serão satisfeitos. Por isto estes são os pontos mais apropriados para se iniciar a organização das atividades de aprendizagem do adulto.
2. A orientação de aprendizagem do adulto está centrada na vida; por isto as unidades apropriadas para se organizar seu programa de aprendizagem são as situações de vida e não disciplinas.
 3. A experiência é a mais rica fonte para o adulto aprender; por isto, o centro da metodologia da educação do adulto é a análise das experiências.
 4. Adultos têm uma profunda necessidade de serem autodirigidos; por isto, o papel do professor é engajar-se no processo de mútua investigação com os alunos e não apenas transmitir-lhes seu conhecimento e depois avaliá-los.
 5. As diferenças individuais entre pessoas cresce com a idade; por isto, a educação de adultos deve considerar as diferenças de estilo, tempo, lugar e ritmo de aprendizagem.
 Pedagogia x Andragogia – Comparações:
Malcom Knowles, aborda comparativamente:
 
Modelo Pedagógico
Modelo Andragógico
 
Papel
Da
Experiência
 
A experiência daquele que aprende é considerada de pouca utilidade. O que é importante, pelo contrário, é a experiência do professor.
Os adultos são portadores de uma experiência que os distingue das crianças e dos jovens. Em numerosas situações de formação, são os próprios adultos com a sua experiência que constituem o recurso mais rico para as suas próprias aprendizagens
 
Vontade
De
Aprender
 
A disposição para aprender aquilo que o professor ensina tem como fundamento critérios e objetivos internos à lógica escolar, ou seja, a finalidade de obter êxito e progredir em termos escolares
Os adultos estão dispostos a iniciar um processo de aprendizagem desde que compreendam a sua utilidade para melhor afrontar problemas reais da sua vida pessoal e profissional.
 
Orientação
Da
Aprendizagem
 
A aprendizagem é encarada como um processo de conhecimento sobre um determinado tema. Isto significa que é dominante a lógica centrada nos conteúdos, e não nos problemas
Nos adultos a aprendizagem é orientada para a resolução de problemas e tarefas com que se confrontam na sua vida cotidiana (o que desaconselha uma lógica centrada nos conteúdos)
Motivação
A motivação para a aprendizagem é fundamentalmente resultado de estímulos externos ao sujeito, como é o caso das classificações escolares e das apreciações do professor
Os adultos são sensíveis a estímulos da natureza externa (notas, etc), mas são os fatores de ordem interna que motivam o adulto para a aprendizagem (satisfação, auto-estima, qualidade de vida,, etc)
 
 
Princípios e Caminhos de Aprendizagem na Andragogia:
 
 Pesquisas de Kelvin Miller, afirmam que estudantes adultos aprendem apenas 10% do que ouvem, após 72 horas. Entretanto são capazes de lembrar 85% do que ouvem, vêm e fazem, após as mesmas 72 horas.
 Não basta apenas, portanto, o envolvimento do ser humano na esfera do “pensar”, através de estímulos lógicos e racionais. É necessário o envolvimento na esfera do “sentir”, proporcionando estímulos interiores e emocionais. Desta forma, o sentir estimula o “querer”, transformando em vontade e ação.
O Eixo Andragógico constitui-se dos Participantes e do Facilitador, sendo direcionados pelos princípios da Horizontalidade e Participação.
Alcalá Adolfo, em “A Prática Andragógica em Adultos de Idade Avançada”, define:
“A Andragogia é a ciência e a arte que , sendo parte a Antropologia e estando imersa na Educação Permananente, se desenvolve através de uma prática fundamentada nos princípios da Participação e da Horizontalidade, cujo processo, orientado com características sinérgicas pelo Facilitado do aprendizado, permite incrementar o pensamento, a autogestão, a qualidade de vida e a criatividade do participante adulto, com o propósito de proporcionar uma oportunidade para que se atinja a auto-realização”
  
 
 
 
                                                                                            
 A Prática da Andragogia nas Universidades:
 
Na média, os universitários não são exatamente adultos. Estão em um processo de amadurecimento que o método andragógico pode ajudar nesta evolução.
A utilização na Andragogia nos cursos universitários é uma prática realizada atualmente. Apesar da rigidez dos programas é possível implementar algumas práticas andragógicas capazes de facilitar o aprendizado e estimular o desenvolvimento destes jovens.
Nas mesmas pesquisas citadas anteriormente, Kelvin Miller observou que as informações lembradas são as recebidas nos primeiros 15 minutos de aula.
É importante, portanto, evitar uma longa explanação. Segue abaixo uma sugestão de metodologia:
Passo 1)  O conceito deve ser oferecido, lembrando que o conteúdo maior virá das experiências. Uma explanação de até 50 minutos torna-se aceitável.
Passo 2) Os participantes são convidados a se dividirem em grupos (no máximo de 5 alunos) para discutir o conteúdo e associá-lo com a realidade. Uma forma de fazê-lo é utilizar um texto (reportagem, caso, etc)  e solicitar que o grupo elabore perguntas para serem discutidas em plenário. As perguntas não podem ser fechadas, elas precisam estimular o debate e a troca de experiências e percepções. Desta forma o grupo digere o conteúdo e o pratica.
Passo 3) Cada pergunta que é colocada no plenário é discutida. Os conceitos são expandidos e as respostas compartilhadas.
Passo 4) Após as perguntas respondidas, o Facilitador faz uma retrospectiva extraindo do grupo as ações e conclusões compartilhadas.
Uma forma de manter a seqüência e resgatar algo que não foi totalmente digerido é, ao longo do processo, anotar os tópicos e perguntas abordados no quadro.
A postura do Facilitador é de estimular o grupo a seguir o caminho do aprendizado.
 
Andragogia nas Empresas:
 
Métodos Andragógicos tem sido utilizados em empresas de todo o mundo. Os conceitos estão sendo expandidos para a gestão de pessoas, planejamento estratégico, marketing, comunicação, processos de qualidade, etc. Desde simples reuniões até complexos projetos de planejamento estratégico estão seguindo métodos baseados em conceitos andragógicos. As empresas já perceberam as vantagens e rapidamente implantaram programas de formação para transformarem seus funcionários em Facilitadores permanentes dentro da organização.
 
Conclusão:
 
 O Facilitador preparado está consciente dos complexos processos sociais envolvidos na interação grupal e no processo criativo. Compreende-o primeiro em si mesmo para depois capacitar-se a ajudar outras pessoas a se perceberem e a se fortalecerem no trabalho em grupo
Humildade para manter-se em segundo plano, isto é lembrar-se que “o juiz de um jogo é tido como bom, quando os jogadores e a torcida não percebem a sua presença”.
“É preciso que eu lhes ensine que nada tenho a ensinar-lhes”, disse o polêmico Joseph Jacotot.
A missão do Facilitador está em estimular os Participantes a um posicionamento ativo no aprendizado, provocar experiências, estimular a capacidade de autoavaliação e de trabalho em equipe, evitando a passividade e o esmorecimento.
Concluindo, lembremos da citação de Rudolf Steiner:
“Não importa que eu tenha uma opnião diferente do outro. Mas que o outro encontre o certo, a partir de si próprio, se eu contribuir um pouco para tal”
 
Autor:
Rodrigo Goecks
Professor de Pós-Graduação em Varejo da Universidade Cândido Mendes.
Professor de Graduação em Marketing das UNESA e UNIVERCIDADE.
 
Bibliografia:
 
-         ADIGO (2001) – Programa de Desenvolvimento de Líderes e Facilitadores. São Paulo.
-         Alcalá, Adolfo (1999) – Es la Andragogía una Ciencia?”. Ponencia. Caracas.
-         Canario, Rui (1999) – Educação de Adultos, um campo e uma problemática. Lisboa: Educa.
-         Cavacanti, Roberto de Albuquerque (1999) – Andragogia: A aprendizagem nos adultos. Revista de Clínica Cirúrgica da Paraíba.
-         Freire, Paulo (1987) – Pedagogia do Oprimido.  Paz e Terra. Rio de Janeiro.
-         Freire, Paulo (1996) – Pedagogia da Autonomia. Paz e Terra. Rio de Janeiro.
-         Marquez, Adriana (1998) – Andragogía: Propuesta Política para una Cultura Democrática en Educación Superior. Santo Domingo, República Dominicana.
-         Sancchez, Nestor (2001) – Andragogía. Universidad Nacional Autónoma de México.
-         Steiner, Rudolf (1988) – A Arte da Educação I e II – Antroposófica. São Paulo.
-         UNESCO (1997), La Declaración de Hamburgo. Memórias de la Conferencia Mundial de Educacion de Adultos. Bogotá.