EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE DE INFORMAÇÃO
FUNDAMENTOS DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO
Gilberto Teixeira (Doutor FEA/USP)
Informação, conhecimento, saber
Para usar uma série metafórica, digamos assim: a informação é um instrumento; o conhecimento é uma mina; o saber é o ouro que se encontra sem garimpar.
Em princípio, não é possível "manter" o saber. Quer dizer: não é possível preservá-lo imobilizado dentro de um aparato qualquer. Isso só pode ser feito com a informação, passível de ser arquivada numa biblioteca ou num museu.
Para que a informação resulte em conhecimento ela deve ser disponibilizada, compartilhada, comunicada - o que nem sempre é fácil ou possível.
Finalmente o saber é um produto da operação de tratamento do conhecimento pelo sujeito.
Nesta lógica, todo instrumento que tende a disponibilizar informações é capaz de produzir conhecimento e, na aventura do sujeito, tornar-se saber.
Assim é com a hipermídia: instrumento informativo que trabalha matérias expressivas diferentes (som, imagem, texto) que, compartilhadas, podem gerar conhecimento e, processadas pelo sujeito, devir saber.
Conhecimento na realidade
A singularidade da hipermídia está em sua estrutura aparentemente desordenada. Assim como acontece com a realidade, as pessoas podem fazer uso destes sistemas sem necessariamente ter um conhecimento prévio de sua ordem.
Este é certamente o traço da hipermídia que mais incomoda aqueles que se aventuram a utilizá-la como instrumento didático.
Muitos pesquisadores têm dedicado horas, dias, meses, anos em busca de modelos que orientem os usuários de hipermídia, facilitando a estes encontrar a informação que eles - os educadores - julgam ter importância.
Mas a hipermídia não se enquadra nestas estruturas preconcebidas. Para utilizá-la de forma aberta e ampla é preciso romper com este paradigma que durante séculos limitou estudantes e educadores a meros repetidores capazes apenas de reproduzir aquilo que lhes havia sido apresentado como a verdade autolegitimada dentro de uma ordem comum.
A banalização do uso da Internet tem criado situações em que alunos e educadores aprendem em parceria enquanto buscam respostas para seus questionamentos.
Em princípio, afastamo-nos da necessidade de descobrir a ordem destes sistemas. Na verdade, a hipermídia solicita, no seu movimento integrado, a aplicação da ordem implícita do sujeito.
A aparente desordem
Durante os anos 80, falou-se na possibilidade da informática estar colaborando para a formação de uma sociedade baseada no espírito cartesiano, através de seus sistemas algoritmizados. Os usuários estariam obrigados a pensar de maneira ordenada para dominar o computador e acabariam influenciados por este modelo cognitivo.
Atualmente fala-se na hipermídia como um sistema que se aproxima da estrutura aparentemente desordenada do pensamento humano, o que nos levaria a um caminho inverso daquele discutido na década anterior.
Mas o problema visivelmente não reside no fato da informática estimular esta ou aquela forma de pensamento, e sim na necessidade de se exteriorizar tal ordem cognitiva. A construção de modelos reduzidos da realidade em função de explicitar uma ordem cognitiva não parece mais capaz de nos ajudar a conhecer o mundo onde vivemos.
A hipermídia constitui-se como o resultado de um processo que leva à elaboração de novos sistemas de registro de conhecimentos mais atrelados à realidade. A grande dificuldade estaria na incapacidade de algumas pessoas em conviver com a ordem implícita (ou a aparente desordem) da realidade.
Pensamento e caos
Pensamos por associação. E não separamos informações pelo fato de serem icônicas, sonoras, olfativas, textuais etc.
Se alguém nos diz: "O vermelho é a cor que representa a violência", desenvolvemos imediatamente uma rede de informações diversas envolvendo, por exemplo, o espectro de cores, imagens de violência, talvez lembranças do som de gritos, quem sabe divagamos sobre o próprio conceito de representação etc.
Além do mais - e isto é outra evidência - todas as informações são tratadas afetivamente: fatos conexos que nos marcaram, memórias arcaicas, reflexos inconscientes.
Pensar assim não nos parece caótico. Trabalhando por conexões muitas vezes aleatórias, simplesmente pensamos.
O que a cultura ocidental classifica como caótico é, como dissemos, a exteriorização, isto é, uma "representação" do pensamento que se dê ao outro de forma parcialmente aleatória.
Quando abrimos um livro de filosofia, quase sempre esperamos que o autor nos conduza linearmente de uma questão à sua resposta, passo a passo. Se um filósofo trabalhasse ao mesmo tempo com imagens, sons, frases isoladas etc, para tratar, por exemplo, de uma questão como a ética, muitos diriam que seu pensamento é "caótico", simplesmente por estar exteriorizado ("representado") de forma não linear. Este exemplo mostra o quão limitada pode ser a relação positivista com o conhecimento em geral e com a filosofia em particular, cuja função é criar conceitos, independente da maneira de representá-los.
A natureza caótica
Se considerarmos a estrutura da comunicação humana - extremamente caótica - baseada numa multiplicidade de recursos de expressão, entendidos como interfaces entre o universo cosmogônico do comunicante frente ao interlocutor, podemos com mais facilidade pensar na hipermídia como um artificializador da condição natural da expressão humana.
Assim como pensamos, no processo de comunicação, além da mídia voz, utilizamos correntemente o gestual, ilustradores mímicos, indicadores e outras linguagens acessórias ao ato do falar. Estes recursos são utilizados com o fim de traduzir da forma mais clara possível a informação a ser passada adiante.
Esta interface multiplexa nem sempre consegue dar conta plenamente do ato de comunicar, levando muitas vezes o comunicante a repetir seguidas vezes a mesma mensagem até esta ser compreendida pelo ouvinte.
Assim, o homem é hipertextual e multimídico por essência, como reflexo de uma ordem caótica que lhe governa o ser. A hipermídia, em alguma medida, busca recuperar esta condição.
Além disso, em contraponto à interface fonética, a expressão mediada pela escrita encontra grandes barreiras naturais para comunicar, explicando em parte a dificuldade comum da grande massa dos humanos em dominar a "forma culta". Enquanto a expressão falada é "livre" e multimídica, a escrita tem que se valer do código e da poética para comunicar.
Desmaterialização e barbárie
Como toda tecnologia, a era digital potencializa o desenvolvimento intelectual do homem. Como toda tecnologia, ela pode também ser empregada para instaurar a barbárie.
Não é possível analisar o fenômeno da desmaterialização como uma fatalidade que impediria o homem de se afirmar. Sobretudo porque, de fato, o desenvolvimento intelectual não se instrumentaliza, isto é, não pode ser submetido a esta ou aquela tecnologia. Seria um preconceito inaceitável acreditar, por exemplo, que crianças que foram educadas em sociedades altamente tecnológicas fossem mais ou menos desenvolvidas intelectualmente do que as que cresceram em sociedades não-tecnológicas.
Há séculos, uma gradual separação entre tarefas manuais e intelectuais marca a trajetória do humano. Esta separação representou, em muitos casos, a possibilidade de crescimento intelectual e, em muitos outros, uma regressão.
Além do mais, como vimos acima, não foi a tecnologia digital que desmaterializou os objetos. Muito antes dela, aplicações do pensamento abstrato serviram para que arquitetos desenhassem prédios antes de construí-los, ou que mecânicos redefinissem peças de um motor antes de moldá-las.
A desmaterialização é, em si, parte fundamental do pensamento humano e a própria escrita - que desmaterializa a casa ao escrever o significante "casa" - faz parte deste tipo de relação do homem com o mundo.
O embrutecimento possível não está na aplicação do imaterial e sim no abandono radical das coisas concretas. Imaginar um sujeito cuja relação com o mundo se dê apenas na dimensão virtual (sem atualização) é vislumbrar a quebra de seu elo com o real - algo terrível a se tratar como qualquer patologia mental de igual gravidade. Mas se, ao invés disto, imaginarmos um sujeito apto a ampliar sua relação com o imaterial e aproveitar-se dela para criar um mundo melhor, retornamos ao sistema da esperança.
Muitos dos que acusam atualmente a tecnologia digital de ser nefasta - por basear-se na imaterialidade - são pessoas que há muito cortaram seus vínculos com a realidade, guardando-se protegidos numa relação meramente intelectual com o mundo. Outros são materialistas convictos, incapazes de descobrir, no que é metafísico, alternativas para um mundo sem exclusões. Finalmente, há os que temem - com justa razão - o estabelecimento de relações egocêntricas intermediadas apenas pelas estruturas difusas do ciberespaço.
Os dois primeiros grupos de críticos estão raciocinando em bases preconceituosas. O terceiro grupo tem tido o papel de alertar contra todo fascínio e toda ingenuidade.
Os caminhos e os caminhantes
Eis uma parábola: um arquiteto, ao construir um gramado que dividia dois grandes prédios, tomou por partido não definir nenhum caminho para pedestres na grama, deixando esta tarefa para ser realizada depois de algum tempo de uso, quando estes pedestres já teriam marcado no gramado os seus próprios caminhos.
Esta parábola ilustra perfeitamente o projeto de sistemas em hipermídia. É preciso construir a base, porém, os caminhos a serem seguidos dependem do interesse do usuário. Não adianta obrigá-lo a seguir uma trilha preconcebida.
A W3 é um exemplo real, apesar de virtual, de um sistema onde pode-se observar caminhos sem antevir aquilo que iremos encontrar. Rumos de aparente desordem, não muito diferentes daqueles que tomamos ao sair de casa, já que raramente sabemos com absoluta certeza de tudo aquilo que encontraremos pela frente; simplesmente rumamos.
Esta realidade provavelmente não se encaixará em nenhum modelo de sistema passível de ser especificado a priori. Mas ninguém duvida que ela exista e funcione. Resta-nos aprender a construir sistemas com as características daquele gramado sem trilhas preconcebidas.
A tecno-lógica
Uma das angústias mais evidentes entre os estudiosos e usuários da Internet deriva do seu caráter profundamente técnico. Ela teria uma lógica fundamentalmente técnica. Uma tecno-lógica. Mas qual seria a profundidade desta dimensão?
Em primeiro lugar, o específico da ciência e da técnica é o conceito de progresso, inexoravelmente cumulativo. Esta acumulação vem se impondo de tal forma que, comparado ao progresso científico e tecnológico, todos os outros avanços humanos são duvidosos ou, na melhor das hipóteses, metáforas do primeiro.
Segundo: a evolução tecno-científica nem sempre representou o progresso da mesma forma. No século XVIII, por exemplo, a ciência eqüivaleria preferencialmente ao progresso moral da burguesia (período das luzes). No século XIX, por sua vez, a ciência torna-se equivalente ao progresso da técnica, e se volta para a emancipação do proletariado.
Essa situação evolui até o estado atual, onde a independência da ciência em relação à técnica se transformou numa interdependência. Não há mais ciência sem a visão imediata (ou mesmo anterior) de uma aplicação técnica.
A tecnicização da ciência se acompanha de uma cientifização de todo tipo de saber. Ciência e técnica não se sustentam mais sem vinculação à produção industrial.
Esta produção industrial (vista aqui como um sistema envolvendo a comunicação, a publicidade, a organização do "tempo livre" - lazer, turismo etc.) exige a inovação permanente e neste sentido se fala, por exemplo, na universidade integrada ao setor produtivo, algo impensável até o início do século XVIII.
Percebe-se ainda a consolidação de um complexo ciência-tecnologia-segurança-gestão pública. É este complexo que determina, em última instância, a ideologia do sistema que, por sua vez, solicita a proliferação das técnicas de origem científica e a objetivação do mundo.
Neste quadro se coloca a questão da sociedade industrial e planetária, da qual a W3 poderia ser o registro mais visível e mais eficiente. Trata-se, a um só tempo, de um sistema distribuído e distribuidor de informação, comunicação, design, e de venda, compra, assim como é - em si mesmo - um complexo científico-tecnológico.
A Internet é ao mesmo tempo objeto e metáfora da sociedade pós-industrial.
Como mediador de "valores" (econômico-financeiros e comportamentais), a W3 atua como elemento de ligação e troca, mas dentro de uma perspectiva calculada de acesso e disponibilidade.
Uma aventura (d)escrita
O desenvolvimento intelectual dos símios humanos há pelo menos dois milhões de anos (facilitado pelo bipedismo que permitiu o uso dos membros superiores para manipulação), tornaram nossa espécie especialista em artefatos ampliadores técnicos do seu poder físico.
Os instrumentos intelectuais como a escrita e sua lógica surgiram a seu turno e permitiram ao homem ampliar o poder da cultura através do espírito crítico observador.
A agricultura, na seqüência de revoluções, surgiu há 10 000 anos e imprimiu profundas transformações nas sociedades, levando-nos a dividir o trabalho e criando estruturas (como a família) e relações (como a propriedade privada). Passaram-se 9,5 milhares de anos até que outra grande revolução social se desse.
Em meados do século XV, surge a imprensa marcando o advento da cultura de massa. Talvez tenha sido uma das tecnologias que mais transformações trouxeram aos humanos, levando-os a modificar hábitos, recriar estruturas e repensar conceitos milenariamente estabelecidos.
Já no nosso século, rompem-se novas fronteiras, sob as feridas ainda frescas causadas pelo aparecimento da imprensa e se estabelece uma nova ordem mundial capitaneada pela informação.
Todas estas transformações ocorridas na sociedade dos humanos foram caracterizadas pela migração tecnológica contínua, gradual e crescente. A adoção de analogias de mídias ancestrais às novas tecnologias fazem parte do processo natural de descoberta e aquisição cultural.
Acomodação Social
Qualquer nova solução expressiva - sobretudo as da era técnica - mantém, pelo menos por algum tempo, características de mídias anteriores.
Neste sentido, o caso do cinema é exemplar: durante cerca de dez anos, os filmes reproduziram elementos da pintura, do teatro, dos espetáculos de feira. Trata-se de um período de adaptação social do aparato expressivo.
Apesar de ter provocado uma revolução cultural imensa, Gutemberg imprimia sobre pergaminho. Apesar de usar câmeras móveis, os primeiros filmes trabalhavam com planos estáveis. Apesar de unir imagem e som, a televisão começou reproduzindo a era do rádio.
Não é surpreendente, considerando o período de acomodação social, que um jornal impresso inicie sua edição on-line tentando colocar na Internet algo extremamente parecido com o que faz em papel. Ou que um site acadêmico esteja repleto de textos longos idênticos aos que são publicados nas revistas científicas.
Na verdade, são os experimentalistas que descobrem, mais cedo ou mais tarde, as potencialidades específicas de um novo aparato. É a experimentação que abre as portas da percepção, enfrentando, muitas vezes, acusações de loucura ou de rebeldia gratuita.
A hipermídia, como campo novo, está aberta para a experimentação. Devido à velocidade com que as transformações estão acontecendo, é possível acreditar na rápida descoberta de soluções específicas.
A interpretação circular
Algumas sociedades primitivas, como forma de manter sua cultura, elegiam membros de seu grupo a quem atribuíam a incumbência de manter a tradição tribal através da narrativa, da mítica, do épico. O uso da escrita permitiu a ampliação da capacidade de memória, dividindo com os indivíduos a responsabilidade da perpetuação cultural.
Num dado momento da história, a alma (informação) incorpora um ente (o suporte) criando o documento.
Durante milênios confiou-se aos documentos a tarefa de armazenar a memória. Muitos narradores desapareceram, outros evoluíram apoiados nos documentos e tornaram-se célebres em suas comunidades por sua condição de detentores temporários dos conhecimentos que habitavam as escrituras.
O modelo se perpetuou em sistemas herméticos de informação que precisavam sempre de intermediários entre o saber e o aprendiz.
Eis que ocorrem novas mudanças neste paradigma de conhecimento. As novas tecnologias simplesmente disponibilizam - com muito menos barreiras de acesso - grandes volumes de informação para a sociedade. E agora?
Agora o intérprete da cultura que substituiu o narrador tribal, mais uma vez vai ter de mudar e passar da condição de intermediário para a de condutor, facilitador da informação.
O conhecimento estabelecido não é estável. O novo modelo exige a dinâmica e o intérprete se vê compelido a buscar novas fontes para confrontar seus conhecimentos e gerar conhecimento novo.
A condição de erudito é secundária. Vale mais neste novo modelo aquele que souber fazer uso mais adequado da circularidade do que da memória para fazer valer seu conhecimento.
A tradição estabilizadora
Nossa tradição defende a preservação de informações aparentemente estáveis (isto é: apenas representadas de forma estável).
Como nossos instrumentos de gerenciamento de informações foram, até bem pouco tempo, também estáveis (na verdade: conservadores), não se colocava a questão de lidar com alterações permanentes da informação arquivada.
Já tínhamos soluções para informações de caráter "temporário": a edição impressa de periódicos (jornais e revistas). Isto demonstra bem que eram as soluções de mídia que determinavam, em última instância, o tipo de tratamento da informação.
A hipermídia, disponibilizada em rede, permite pensar num autor que altere permanentemente o resultado de sua produção. Estamos diante portanto de uma mudança radical da nossa relação com a informação, que deixa de ser pretensamente "estável" (ou, no máximo, periódica) para tornar-se mutante.
E o que fazer então com o oceano de informações aparentemente estáveis que produzimos ao longo dos séculos e que, com certeza, continuaremos a produzir? Será preciso preservar, dentro do sistema instável das redes digitais, um espaço que garanta a disponibilização das informações pretensamente "estáveis".
Apenas, para não voltar ao período crítico (e improvável) dos bancos de dados, talvez fosse interessante permitir que esta parte de "estabilidade" simulada do sistema fosse pensada de forma a garantir aspectos que só a hipermídia foi capaz de aplicar: velocidade, interatividade, conectividade.
O rito do tempo
As primeiras sociedades dos símios humanos a se organizarem foram os bandos de caçadores, quando perceberam que esta tarefa ritualística carecia de uma estratégia rígida para lograr sucesso. Desta forma, definiram-se atribuições e tarefas, surgindo a divisão do trabalho e castas sociais ligadas à hierarquia destas funções no seio do grupo - os mais fortes se apoderando de tarefas que resultassem em mais status.
Assim foi com os caçadores, com os agricultores a as demais corporações vindouras, resultando num crescente de sofisticação, organização e estratificação social.
Em um dado momento desta aventura do corpo social, surge a escrita, desencadeando as mais complexas mudanças já experimentadas por sociedades até então. Este instrumento lógico elevou o homem à condição de modulador, não apenas de objetivações mas de informações.
Para as hierarquias mais altas era óbvia a importância do domínio desta nova tecnologia como condição de manutenção da ordem e do poder. Geraram-se então sistemas herméticos que tinham como base conceitual o controle da informação e da sua intermediação, para a qual os sacerdotes serviam de filtro à interface possível.
Este paradigma de poder, estabelecido há 6 mil anos, foi repassado a pelo menos 150 gerações, não sem contestação. Os estratos mais baixos da sociedade, em busca de ascensão, iniciaram uma luta de subterrâneos pelo acesso à informação. Os sistemas herméticos, contudo, continuavam a se reproduzir e ampliar o poderio dos sacerdotes.
Com os gregos surgiram os primeiros modelos abertos e democráticos de informação, mas que logo foram abafados. A biblioteca de Alexandria - que fora criada como centro de cultura helênica por Ptolomeu Soter, no ano 283 AC - era muito mais um armazém de papiros em volumens que um verdadeiro centro de difusão do saber. Contrastando com a filosofia que advogavam, os bibliotecários de Alexandria só permitiam o acesso a um grupo de doutos e sacerdotes.
Assim foi até o surgimento das universidades na Europa medieval (século XI). Neste momento, em que urgia uma reação à letargia medieval, aparecem os modernos modelos de repasse do conhecimento.
Numa luta lenta e contínua, os sistemas foram se abrindo e permitindo acesso à informação a segmentos cada vez maiores.
Com as novas tecnologias, sobretudo a hipermídia, o processo de repasse de informações indiscriminadamente no ciberespaço passa a ser do interesse das novas elites, pois representam antes de mais nada a criação de gigantescos mercados remotos.
O que talvez não estivesse programado seria a tomada das formas de controle das mãos das elites. Com certeza elas encontrarão rapidamente novas formas de controlar os excluídos, mas até lá - e depois - a guerrilha continua permitindo uma boa dianteira aos laicos.
Criação e uso
Sempre produzimos de forma artesanal. Apenas durante uma curta temporada da microhistória não conseguimos dar conta de nossa produção e procuramos soluções alternativas que afastaram o criador da execução direta de sua obra.
Desde a manufatura, os artesãos vêm sendo substituídos por duas classes de profissionais, os que criam e aqueles que executam o produto daquela criação. Com isso, passamos a conviver com dois problemas até então inexistentes:
· aqueles que executam estão de tal forma distantes da criação que são incapazes de imaginar os motivos que levaram à concepção daquele objeto e · aqueles que criaram, por se afastarem da execução, não são capazes de realizar ajustes durante a confecção de seus projetos.
Com a informatização, os processos de produção ganharam a agilidade necessária para que profissionais envolvidos no projeto de hipermídia possam criar enquanto executam ou executar enquanto criam, otimizando o resultado de sua obra.
O grau de complexidade destes projetos exige que estes novos artesãos não se limitem a uma única pessoa, mas a uma equipe transdisciplinar que participe de todas as etapas do processo de criação e execução.
Mesmo que não surjam novas profissões, novas atitudes em investigação serão incontornáveis para nos possibilitar a construção de sistemas hipermídicos. Esta é a razão que nos leva a crer que nenhum profissional isolado será capaz de dar conta da problemática que envolve o fazer hipermídia.
É preciso que se encontre uma linguagem comum a estas profissões para que todos possam transitar em torno deste objeto de estudo.
Algumas profissões isoladas, como adiantamos, têm tentado tomar para si esta atribuição por interesses corporativistas ou por medo de deixarem de existir diante deste novo objeto. Mas com toda certeza, os que estão defendendo esta possibilidade não conhecem nada de hipermídia.
O fim das massas
De certa maneira, a comunicação de massa acabou. Pelo menos estaria com os dias contados, nas condições em que ela existiu com as mídias da era industrial (rádio, cinema, televisão), cuja base era a distribuição de informações para o maior número de pessoas possível a partir de poucos centros de difusão.
O que se constata hoje é a segmentação, isto é, o aumento dos pontos de difusão (ou de multidifusão) e a fragmentação dos grupos de audiência - o que explica, por exemplo, a recente explosão quase incontrolável de estações de rádio e de televisões por assinatura.
No caso das redes telemáticas, este dado é ainda mais evidente. Basta navegar na W3 para descortinar um horizonte quase infinito de opções. Nesta perspectiva, a Internet é massiva apenas numa visão macro, que leve em conta o número global de usuários. Observada em detalhe, trata-se de um rizoma espalhado em várias direções e com conexões que partem dos - e chegam aos -mais diversos nós de influência.
Refletindo esta condição, os instrumentos tradicionais de comunicação da era industrial têm necessitado aumentar a participação ativa das suas audiências. Basta verificar a ampliação dos sistemas de feed-back que são testados diariamente até pelas televisões abertas.
Ainda neste aspecto, a informática permite que a diferença dos aparatos de emissão e recepção se reduza. É uma tendência crescente o fato de que, entre o usuário que ativa seu micro para receber informações e aquele que o faz para transmitir, as distâncias aproximam-se do zero.
Resta que, como qualquer outro aparato de comunicação da era técnica, a Internet continua se construindo a partir de máquinas. Mesmo considerando que o aumento da produção leva ao barateamento dos equipamentos, continuamos diante de um custo que, quanto mais pobre a região onde ela se implanta, mais alta é em relação ao poder de compra da população.
Informação é poder ?
A história do homem pode ser contada através do desenvolvimento de suas técnicas, permitida em grande medida pelo domínio da escrita e das ditas tecnologias da informação. No desenrolar desta história, fica claro que o monopólio dos instrumentos do saber foi visto desde cedo como veículo de domínio e perpetuação do poder.
Foi assim no Egito dos faraós, na Mesopotâmia dos sacerdotes, nas abadias medievais e nos governos modernos. O aparecimento das universidades no século XI, como dissemos, marcou uma mudança significativa de mentalidade, com corporações de alunos e mestres se insubordinando ao poder temporal da igreja, detentora à época do cálice do saber.
A esta época, a classificação social medida pelo saber distinguia duas classes: a dos laicos ou leigos e a dos clérigos. Entre os laicos situavam-se aqueles que não sabiam ler e escrever, independentemente de posição social, e entre os clérigos estavam os que partilhavam o código escrito, sem que necessariamente fossem ligados ao clero.
A fundação das universidades medievais marca o início de um processo de laicização: a tomada lenta e progressiva do cálice do conhecimento das mãos dos sacerdotes para o domínio laico, transformando o saber sacrário em conhecimento cada vez mais popular e democrático.
É oportuno frisar que este processo nunca foi produto do altruísmo humano, caridade ou mesmo boa fé dos donos do poder. Antes, foi o resultado de uma luta contínua e silenciosa do homem comum pelos direitos civis, reflexo forte das necessidades de criação de mercados amplos e especializados pelas corporações burguesas.
Desta forma, sem querer cair em determinismo histórico, os fatos mostram um contínuo crescente de liberdade de expressão e acesso ao conhecimento. A esta altura do jogo histórico, qualquer procedimento que leve ao domínio de grandes massas humanas via informação modulada por clérigos será exceção e não regra.
O modelo dissertativo
A idéia de "se perder" está estreitamente ligada à linearidade impressa na lógica escrita. Tem a ver com a sensação de desgoverno que toma o leitor quando este não encontra o encadeamento de informações esperado no modelo dissertativo.
O texto dissertativo se vale de um modelo desenvolvido milenarmente e que procura dar conta da informação usando o recurso da repetição/sedimentação, objetivando à fixação da informação. Assim no texto linear pode-se encontrar a seguinte estrutura:
capa - sumário - resumo - prefácio - introdução - texto - conclusão
Na capa busca-se num título a reflexão simbólica do conteúdo do texto; o sumário tem a intenção de resumir em tópicos o que vai ser exposto no desenvolvimento; o resumo deve dar conta em poucas palavras do conteúdo do texto; no prefácio se destaca a importância da contribuição à compreensão do tema e outras qualidades do texto; no segmento introdução o autor faz uma abordagem inicial explicitando o que vai desenvolver pormenorizadamente no texto; só então o autor passa a desenvolver as idéias que já foram preparadas em diversos níveis anteriores. Para fechar o texto, o autor passa à conclusão, onde se recoloca tudo que já foi dito.
Mas por que tantas etapas explicativas no texto dissertativo? A razão é que esta estrutura, experimentada há séculos, foi a forma encontrada para dar conta da informação em meio linear com o mínimo de perdas entre a informação pensada e a informação escrita.
Perde-se em performance de informação na comunicação documental porque a mídia natural humana é muito mais rica e funcional. A não-linearidade permitida pelo hipertexto recupera uma quantidade muito maior de informações do que o texto linear.
Com sistemas hipermídicos ganha-se mais, portanto, em possibilidades de comunicação e navegabilidade, mas corre-se o risco de não se chegar ao ponto pretendido. Entretanto, como dissemos, uma das características fundamentais desta nova era da informação é não se querer, ou precisar, saber onde se quer ir, desde o ponto de vista linear.
O vazio primordial
A hipermídia se liga diretamente ao ciberespaço. Para relacionarmo-nos melhor com este novo cronotopo, verificamos a necessidade de superar as construções estritamente positivistas.
O positivismo apareceu num momento em que a ciência buscava sua identidade como estrutura "fechada", diferenciando-se, por exemplo, da filosofia e do empirismo. A sistemática, o método e o objeto de estudo eram palavras de ordem (no sentido mais direto: palavras do poder) dos positivistas, que levaram os cientistas a uma busca frenética pela norma e pela formalidade como condição de adequar seus procedimentos à "cientificidade" exigida.
A cientificização do conhecimento não incluiu apenas os que lidavam com os conhecimentos voltados para a compreensão da natureza (ditos "exatos"). Até historiadores, sociólogos, psicólogos, arquivistas e bibliotecários, por exemplo, empreenderam o culto ao documento e seus instrumentos de controle e pesquisa. O centro das atenções se voltou para o objeto, para o suporte, em detrimento das informações que eles continham.
Não obstante o imponente avanço no campo da metodologia e das formas de controle alcançado pelo esforço positivista, o conhecimento acabaria se tornando mecanicista. Positivamente procurava-se tratar documentos como elementos estanques, assim como os dados eram tratados pelas ciências exatas.
Em reação a esta corrente de pensamento, alguns cientistas iniciaram um movimento que buscava a restauração da informação aberta e da ciência como reflexo do fluxo da inteligência, independente de seus modelos. Muitos, é claro, permanecem impassíveis diante desta restauração e não partilharam da aventura que nos leva ao paradigma transdisciplinar e à complexidade.
A hipermídia nasceu de uma concepção fundamentalmente orgânica de informação. Nela, as partes dependem do todo e, por sua natureza, prescindem de suporte físico como o documento positivista.
Em nada o hipertexto herdou dos positivistas.
Data de publicação no site: 09/09/2010
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