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Poucas profissões, em todo o mundo, gozam de tanto prestígio junto à sociedade quanto os professores. Transmitir conhecimento, a crianças ou adultos, é tido como um sacerdócio pela maioria das pessoas. Como toda a sociedade, porém, o trabalho realizado pelos docentes - em todas as fases da vida estudantil - sofreu profundas alterações nos últimos anos. As bases para as transformações estão na própria evolução vivida no mundo. E não apenas tecnológica, mas também de comportamento, pedagógica e até mesmo na administração do ensino.
Estas alterações obrigaram os professores a enxergar a própria profissão de maneira diferente. Segundo dados colhidos pelo INEP (Instituto Nacional de estudos e Pesquisas), o Brasil conta atualmente com 2,6 milhões de professores, sendo que, destes, 220.000 lecionam no Ensino Superior. Pesquisas do instituto apontam ainda que, entre 1996 e 2002, cresceu, entre os docentes, a busca por uma melhor qualificação. Do total de professores do Ensino Superior, 54% têm mestrado ou doutorado concluídos, 31% possuem especialização e cerca de 15% terminaram somente a graduação.
De certa maneira, embora o próprio governo tenha tomado iniciativas para melhorar o nível dos professores, os grandes agentes de transformação têm sido os próprios. A rotina vivida dentro da sala de aula tem levado os docentes a repensar métodos pedagógicos, instrumentos de ensino, uso de tecnologias e o relacionamento com os alunos. "As mudanças acontecem pela insatisfação do professor. Principalmente com a transformação que as comunicações provocaram. Ninguém mais detém o saber. Cada vez mais o conhecimento é partilhado", afirma o professor do departamento de Estudos Básicos da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Fernando Becker.
Alunos despreparados
Para Becker, professor desde 1970, parte das transformações dizem respeito à maneira como o docente encarava o ensino. "Houve uma mudança muito forte na compreensão de que o aluno não aprende por repetição do conteúdo. Essa é a fórmula básica da escola convencional, mas ela não funciona", lamenta. Esta percepção surge em um momento crucial para o ensino. Cada vez mais, as universidades têm recebido alunos com graves deficiências de aprendizado das matérias do Ensino Fundamental. Desajustes que exigem do professor universitário uma mudança na postura em sala de aula para corrigir falhas e envolver o aluno no estudo.
"Os alunos mudaram muito. A formação dos alunos que entram na universidade caiu bastante. Tanto é que no nosso departamento, de matemática, tivemos que modificar vários cursos, para ´puxar` o estudante um pouco mais. Criamos disciplinas específicas para cobrir deficiências do ensino médio", conta o professor do Instituto de Ciências Matemáticas da USP São Carlos (Universidade de São Paulo), Ozirid Manzoli. "Nós tivemos, por exemplo, que criar uma matéria chamada pré-cálculo para fazer revisão do Ensino Médio. Isso é horrível. Temos que refazer uma parte do estudo, o aluno perde quase um ano para se colocar em um nível razoável."
Embora seja da natureza da profissão lidar com grupos heterogêneos, o desnível entre os alunos se ampliou bastante nos últimos 30 anos. Não se trata apenas de lidar com estudantes diferentes, de origens diferentes. Para os professores, a deficiência na educação básica passou a ser a maior dificuldade no dia a dia da sala de aula. "Isso gera um ciclo vicioso. Como o aluno é despreparado, as universidades, em geral, formam maus professores. Que vão e ensinam mal aos alunos, que chegam ao ensino superior com deficiências. De alguma forma, a universidade tem culpa nisso. Porque também não consegue formar bons docentes e em boa quantidade", detalha Manzoli, professor universitário há 29 anos.
Esta falha no ensino obriga os professores a buscar novas saídas para estes alunos. São obrigados a encontrar uma nova maneira de envolver os estudantes, forçá-los a aprender e produzir conhecimento. "O professor precisa estimular o aluno no caminho da independência intelectual. Ele não pode resolver todos os problemas do aluno, mas deve estimulá-lo a resolver os problemas", alerta o professor do departamento de Biologia Geral da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Rogério Parentone Martins, que leciona há 27 anos. "Com isso, ele é obrigado a dar ao aluno meios para suprir a deficiência que vem do segundo grau e orientá-lo na procura de soluções para os problemas."
Velocidade da Informação
Em meio à crise surgida pela deficiência da Educação Básica, o professor ainda precisa lidar com os problemas normais da profissão. Em determinados momentos, elementos "benéficos" como o avanço tecnológico ou a velocidade da informação passam a ser uma espada de dois gumes. Ao mesmo tempo em que dão aos profissionais novas opções de atuação, abrindo caminhos desconhecidos, exigem constante renovação. A expressão "manter-se atualizado", no caso daqueles que vivem para produzir e transmitir conhecimento, é mais que um clichê administrativo - é exigência fundamental.
"Existem dois desafios combinados. Cara e coroa da mesma moeda. Por um lado, a evolução dos conhecimentos, quase em progressão geométrica, que vai sucateando tudo que está por aí. E, por outro lado, a evolução tecnológica, que ainda está no começo. As possibilidades são grandes e relativamente pouco exploradas. Estes fatores combinados é que serão o grande desafio dos professores", afirma Becker. Para Martins, o professor universitário tende a ter mais facilidade para se adaptar a este tipo de trabalho. Segundo ele, o envolvimento com pesquisas que o ambiente proporciona faz com que o docente se adapte mais rapidamente às novas tecnologias.
"O professor universitário não se dedica exclusivamente ao ensino. A própria inovação tecnológica vem através da pesquisa. E isso reflete, sem dúvida, no ensino. Na universidade é muito difícil separar o que é pesquisa e o que é ensino, e a experiência da pesquisa vai para o ensino. O trabalho se complementa", conta Martins. Mesmo adaptados ao uso da tecnologia, porém, os professores destacam a necessidade de um contato efetivo com o aluno. "Existe um pensamento generalizado na sociedade de que as novas tecnologias são milagrosas e elas não o são. Você pode até ter um computador de última geração, mas para ensinar é preciso o contato pessoal", exemplifica Manzoli.
Em ambos os casos - deficiência dos alunos e o avanço tecnológico -, as saídas não serão encontradas no curto prazo, reconhecem os docentes. Será preciso que os próprios professores, em conjunto com a sociedade, coordenem uma reformulação da visão do que é "ser professor". "A formação dos professores está na berlinda. Ela tem que ser mudada profundamente, porque senão perdemos o compasso. Continuaremos trabalhando com a sucata pedagógica e perdemos as possibilidades, inclusive, de satisfação pessoal", finaliza Becker.
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