EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE DE INFORMAÇÃO
Gestão do Conhecimento e Pedagogia Empresarial na Sociedade Informatizada
 
Resumo: A partir da relação entre Filosofia, Epistemologia e Gestão do Conhecimento, pretende-se questionar: o que mudou na atitude do homem com o conhecimento na atual sociedade informatizada? O que é gestão do conhecimento e inovação nas empresas e outras organizações sociais? Trata-se de investigar uma nova pedagogia empresarial para o mercado de trabalho.
Palavras-chave: Epistemologia. Gestão do Conhecimento. Sociedade Informatizada.

Abstract: Taking into account the relationship between Philosophy, Epistemology and Knowledge Management, the aim of this study is to question: what has changed in the attitude of Man considering the Knowledge that the current informatized society possesses? What is Knowledge Management and innovation in Businesses and other social organizations? The study also aims investigate a new businesses pedagogy for the work market.
Key-words: Epistemology; Knowledge Management; Informatized Society.
 
 
I. O que é Filosofia e Epistemologia?
É próprio dos sistemas científicos, indagar, questionar e problematizar. Com isso, o homem se defronta com problemáticas da vida frente à sua existência no mundo: o que é o homem produtor de tecnologias da inteligência, que inventa a linguagem? Qual a relação entre saber, ciência e epistemologia? Que tipo de saberes são as ciências sociais aplicadas no mundo de hoje? O que mudou na relação do homem com o conhecimento na atual sociedade informatizada? O que é Gestão de conhecimento e inovação nas empresas e outras organizações sociais? Por que a filosofia? O que é epistemologia? Quais os princípios e novos paradigmas da organização baseada no conhecimento?
Teríamos, então, uma percepção de que todos os saberes humanos, como sistemas culturais em evolução, são o resultado de uma atividade construtiva da razão humana que se defronta com a realidade do ser, operando com conceitos e práticas, não isoladamente, mas em sua totalidade. Surge daí um tipo de conhecimento que, em sua radicalidade, procura o sentido do mundo. É a filosofia numa atitude reflexiva. Pois, com ela, abandona-se a ingenuidade e os preconceitos do senso comum. Busca-se compreender a significação da história e da sua cultura.
A Filosofia da Ciência e da Tecnologia (1) nos fornece algumas categorias que nos situam o lugar, os limites e a natureza do conhecimento científico e sua relação com a técnica. Trata-se de fazer uma indagação crítica sobre as afirmações científicas, de Filosofia e sua aplicação em Administração e outras ciências sociais aplicadas, por exemplo. Examinar o aparato científico, discutir suas teorias, seus princípios; saber aquilo que faz, o faz com "cons-ciência", critérios e cientificidade, eis, entre outras, as tarefas da Epistemologia.
Epistemologia significa, etimologicamente, discurso (logos) sobre a ciência (episteme). Ao lado da epistemologia lógica e genética, surge, recentemente, um novo tipo de epistemologia, a "epistemologia crítica", fruto da reflexão que os próprios cientistas estão fazendo sobre a ciência em si mesma:
"Trata-se de uma reflexão histórica feita pelos cientistas sobre os pressupostos, os resultados, a utilização, o lugar, o alcance, os limites e a significação sócio-culturais da atividade científica" (2).
A epistemologia crítica, pois, tem por objetivo essencial interrogar-se sobre a "responsabilidade social dos cientistas e dos técnicos" (3) de interrogar sobre a significação real das ciências no mundo tecnoglobalizado, seus fundamentos ideológicos e suas conseqüências para esta mesma sociedade biotecnológica. É com este instrumento filosófico que vamos fazer um "exercício dialético", submetendo a prática dos cientistas a uma reflexão que, diferentemente de uma filosofia metafísica, toma as categorias de uma práxis histórica.
Iniciaremos nosso debate epistemológico. O que é ciência? O que é conhecimento científico? O que é uma verdade científica? Em que condições há verdade? Em que limites podemos falar de verdade científica? Quais os desafios éticos e políticos da ciência? Qual é o papel da experiência na pesquisa? Por que existe, hoje, um movimento de anticiência?
Definições, é o que não falta (4). Algumas amplas, outras restritas. Todas, idealistas. A verdadeira ciência seria o conhecimento da essência das coisas. Conhecer a estrutura ontológica de cada ente e o lugar da coisa na escala hierárquica, eis o que era a ciência na Idade Média. Hoje, o "modelo metafísico" cedeu o passo ao "modelo científico". A ciência moderna é pesquisa. Requer hipóteses e métodos de verificação e de exatidão. A realidade fica reduzida à pura objetividade: real é tudo aquilo e só aquilo que é objetivo. Ciência e Técnica modernas tendem a converter a realidade em objeto. A técnica visa efeitos, resultados. A técnica visa a eficácia. A técnica, como desafio, provoca a natureza obrigando-a a liberar energias. Essas são acumuladas, comercializadas e convertidas em moeda. A questão dos sentidos e da essência nem sequer lhes ocorre. Muito menos, a dimensão axiológica.
Diante dessa situação, que é nova, os cientistas começaram a reagir, a fazer uma "anticiência" (5) a fazer uma epistemologia crítica e, numa expressão de G. Bachelard (6), a "dar à ciência a filosofia que ela merece". Focalizaremos sucessivamente dois aspectos dessa questão epistemológica.
Em primeiro lugar, a ciência apresenta-se como um biopoder. Trata-se de um saber eminentemente tecnicizado, governado de modo quase absoluto - "global" - um gigantesco processo de produção racionalizado e industrializado. O que a "epistemologia crítica" pretende mostrar é que, uma vez que o conhecimento científico se torna cada vez mais um poder, é este próprio poder que irá constituir nas sociedades industrializadas, a significação real da ciência. Deverá ser procurada no poder que o saber hoje em dia confere. É a "religião-ciência" verdade revelada e ensinada dogmaticamente, sem nenhum senso crítico-epistemológico. É assim que a "ciência moderna associa-se estreitamente ao poder sobre as coisas e sobre o próprio homem" (7), torna-se um objeto do jogo político. Há um discurso político-ideológico da Ciência e da Tecnologia.
Por outro, existe o mito da ciência pura e neutra. Como uma instituição-sistema, a ciência não pode ser neutra nem pura. Basta pensar na "irresponsabilidade social" dos cientistas e, do outro lado, no fornecer ao Estado uma justificação do apolitismo da pesquisa científica. É verdade, não se pode negar, a dimensão social da Ciência e da Tecnologia. Quer queiramos, quer não, a ciência tem uma função social crescente no desenvolvimento da sociedade e no progresso tecnológico. Hoje, mais do que nunca, existe uma tomada de consciência dos problemas ecológicos, a destruição da terra, a "degradação das relações individuais nas sociedades industrializadas, a utilização das pesquisas científicas para fins destruidores, a possibilidade de manipulação crescente dos indivíduos, a utilização maciça dos cientistas, de seus métodos e de seus produtos para fins repressivos e recessivos, a obsessão patológica pelo consumo..."(8).São as conseqüências do desenvolvimento científico para o homem.
"Torna-se então falso e ilusório falar da ciência como se fazia outrora, como um domínio de conhecimento objetivo desinteressado, neutro com relação as suas aplicações e independente com relação às finalidades da ação (...) é fazer dela um uso ideológico..." (9). A ciência torna-se não somente um instrumento nas mãos dos membros dos poderes econômicos e políticos, mas também a cobertura ideológica de todo o sistema do "capitalismo global" . Assume papel ideológico.
Essas questões epistemológicas servem como pontos de partida para se trabalhar a Filosofia e Epistemologia em sua relação com as ciências afins envolvidas, no encontro do saber simbólico com o saber científico na atual sociedade tecnoglobalizada.
Com essas discussões, aqui suscintamente produzidas, concebe-se a filosofia como um modo de pensar, uma postura diante do mundo voltada para qualquer objeto "em situar-se no objeto mesmo por um esforço de intuição", de não apenas "interpretar o mundo, mas transformá-lo". Ela pensa a ciência (10), seus valores, seus métodos, seus mitos, a religião, a arte, o homem, a tecnologia, a vida, as pessoas, cultura, mundo. Os filósofos indagam, hoje, o que vem a ser a "Sociedade do Conhecimento", descobrem seus significados mais profundos. Produzem conhecimento filosófico, radical por sua reflexão em profundidade; rigoroso, por seu método adequado; e de conjunto, não isolado, mas em relação com a totalidade. Integrado com outras ciências.

II. O que mudou na relação do homem com o Conhecimento na atual sociedade informatizada?
As Ciências Sociais Aplicadas enfrentam, hoje, os desafios da era da globalização (11), a chamada "modernidade ou pós modernidade, "o de pensar-se nos dias de hoje" e "a chamada pós-modernidade", entre outros, de repensar o pensamento científico, não só enquanto atividade de pesquisa e atividade intelectual, mas enquanto atividade social estreitamente ligada, de modo complexo, às estruturas e às conjunturas sócio e econômico-políticas. É o tempo propício de conceber e de se praticar a filosofia: a habilidade de buscar um outro modo de ver e de pensar as realidades em suas múltiplas dimensões, entre as quais as novas teorias da linguagem provenientes das tecnologias da inteligência.
Nesta "sociedade do conhecimento", vivemos um tempo de expectativas, de perplexidades, de crises de concepções e paradigmas. É um momento novo e rico de possibilidades. É uma perspectiva e uma possibilidade do conhecimento filosófico nos dias de hoje em sua relação com a comunicação, educação e outros objetos e pesquisas.
Esse olhar para compreender os diversos saberes humanos constitui um dos desafios para se tematizar um novo tipo de saber: falar, discutir, identificar o "espírito" presente no campo das idéias, dos valores e das práticas da comunicação, entre outros campos, do conhecimento, que os perpassam, marcando o passado, caracterizando o presente e abrindo possibilidades para o futuro.
Que teorias e práticas se fixaram no "ethos" das novas tecnologias da inteligência (12) e criaram raízes éticas, muitas das vezes, excluindo o homem dos benefícios da globalização?
Costuma-se definir nosso tempo como a era do conhecimento e do processo de globalização (13), das novas tecnologias de comunicação. Elas estocam, de forma prática, o conhecimento e gigantescos volumes de informações. Elas são armazenadas inteligentemente permitindo a pesquisa e o acesso de maneira muito simples, amigável e flexível.
O usuário da internet, por exemplo, não significa apenas receptor de informações. Nela o usuário é, também, emissor de informações - acessar inúmeras bibliotecas em qualquer parte do mundo, também imagens, sons, fatos, vídeos - uma dimensão de tudo, transformando profundamente a forma como a sociedade se organiza e produz conhecimento.
Assim, hoje, vivemos num mundo formado por rápidas e profundas mudanças (14), num mundo diferente, fruto da revolução tecnológica, do avanço das ciências, da comunicação, da informática, das surpreendentes descobertas no campo da cultura, da política e da economia.
Esse mundo da informática e da comunicação está criando um ambiente mental, afetivo e comportamental bem diferente que as gerações passadas: estreitando relacionamento entre pessoas, povos e culturas, fontes de esperanças para a humanidade. Afetam, sobretudo, a vida do cidadão - a educação em todos os níveis: massificação de uma cultura superficial, violenta, sem ética e imposta pela "mídia", um novo tempo de perversidade -, a do desrespeito à vida e aos direitos humanos.
Esse novo mundo constitui-se um desafio à filosofia que indaga: o que é o ser humano? Que tipo de ser é esse que conhece e age, mudando o meio em que se vive? O que queremos fazer de nós mesmos? Qual o sentido do homem na era tecnocientífica?
Hoje essas questões se colocam à luz dos atos tecnocientíficos. Nesse sentido, o conhecimento do "tempo global" tem priorizado a dimensão tecnológica, em estreita sintonia com as relações de mercado. O saber e o conhecimento no mundo globalizado parecem perder muito de sua função de busca de sentido para a vida, o destino humano e a sociedade - do conhecimento esse não do "sentir e simbolizar" -, para tornar-se "produto comercial de circulação" orientado pelo novo paradigma da aplicabilidade. Os paradigmas da pós-modernidade, que ensejam rotas previstas para o desenho do futuro humano, estão em crise. Por isso, é cedo ainda afirmar-se a prepotência da globalização em seu progresso de ciência e tecnologia.
A nova sociedade globalizada, que prioriza o econômico, contribui ainda para o estreitamento da esfera pública, colocando igualmente em crise o tradicional papel do Estado. A esfera pública, ao se privatizar, coloca em evidência um novo "modelo de cidadania" que não nutre mais dos valores coletivos e, conseqüentemente, constata-se a emergência de uma nova ética, na qual se valoriza, não mais o humano, mas o que atende aos interesses do mundo econômico.
Por outro lado, podemos pensar outras perspectivas de respostas àquelas questões sobre o conhecer o ser humano. Afirma-se ser o homem (15) capaz de modificar o meio não apenas com o uso da tecnologia, por meio de mudanças físicas, mas, básica e fundamentalmente através da "palavra", dos símbolos que cria para interpretar o mundo. Um símbolo constitui um determinado objeto ou sinal "representa algo", que permite-o conhecimento de coisas e eventos não presentes ou, mesmo, inexistentes concretamente.
Desta maneira, o homem cria um sentido para a vida. Indaga acerca de um valor que as coisas têm a respeito de sua significação.
Nesta perspectiva, sob o prisma da "vida com sentido", (16) percebe-se o conhecimento-sentir-simbolizar como uma postura crítica da globalização em sua pretensão de progresso das tecnociências. É neste contexto do sentido ético da vida que convém discutir, engenharia genética, projeto genoma humano, concepção "in vitro", clonagem etc. Neste sentido, sustenta-se, não só a existência humana é mutável e evolutiva, mas também, os princípios éticos. A ética, como a vida é uma contínua descoberta de sentido e de estilos de se viver com dignidade. As verdades éticas absolutas são incompatíveis com o processo temporal da existência, notadamente nesta época de extraordinárias e profundíssimas descobertas no campo das biotecnologias que obrigaram a repensar nossos modos tradicionais de conduta.
Essa discussão na era da atual sociedade tecnológica requer atenção aos apelos desse novo tempo, que se impõe sob o signo da comunicação e da informação. Torna-se necessário (17) rever as formas de pensar, sentir e atuar sobre essas realidades, que não se apresentam de forma linear, num "continuum" de causa e efeito, mas de modo plural, numa multiplicidade e complexidade inscritas em redes e conexões, ampliando nossa inserção no mundo.
Sem excluir sua prática, pensamos poder tomar o capitalismo (18), como via de acesso à modernidade. Pois, de nenhuma criação histórica pode se dizer com mais propriedade que seja tipicamente moderna como do modo capitalista de reprodução da riqueza social e inversamente, nenhum conteúdo característico da vida moderna é tão essencial para defini-la como o capitalismo.
Esse caráter peculiar da modernidade configurada pelo capitalismo, de mudança radical revolucionária da história, abre caminho à "emancipação social" do homem. Realidade efetiva e ativa da riqueza moderna, o capitalismo, porém, desvela processo limitado e contraditório. Indispensável para a existência concreta da riqueza social moderna, a mediação capitalista, contudo, corrói. Dilui-se. Não se afirma como condição essencial e única de sua existência, enquanto explora a força do trabalho.
A atitude reflexiva da Filosofia serve como instrumento na arte de pensar e transformar a realidade social de nossos dias, principalmente se se trata de compreender a "moderna sociedade capitalista" (19). Esse exercício do filosofar tem sua importância ao mostrar o real significado da modernidade, indo às raízes da questão para apreendê-la como movimento real, movimento contraditório, movimento dialético entre os diversos momentos do político, do jurídico, ideológico, científico e religioso que compõem a totalidade social, tendo como "última instância" a economia. Essa Filosofia tem muito a dizer do "capital global", desvendando o dinamismo, as contradições e as crises desse sistema, também numa perspectiva do proletariado, cujo trabalho constitui o ser humano, em sua sociabilidade, consciência e liberdade.
Assim, entendemos a modernidade como um processo histórico. Como conhecer o sentido profundo desse tempo? Ela não é uma elaboração subjetiva, mas uma apreensão do movimento da própria realidade, da materialidade, das condições de existência do homem. É uma "atividade humana sensível... atividade humana como atividade objetiva".
A modernidade não é uma idéia em si mesma, mas a idéia como produto humano, a forma pela qual os homens pensam e refletem as suas condições e relações sociais. Ela é essa realidade do mundo do homem, como realidade feita pelo homem. É a coisidade da "sociedade burguesa moderna".
É a partir desse conhecimento do processo histórico enquanto totalidade social, na "globalidade" e no conjunto das relações de produção como "base real" que se apreendem dialeticamente as formas de consciência que dela se desprendem. Desse "ser social que determina a sua consciência" é que se entendem os processos sociais da globalidade capitalista, nos dias de hoje, e numa perspectiva do trabalho humano. E nasce uma nova questão que desafia à Filosofia: a pós-modernidade. A que idéias e práticas se refere algo tido como pós-moderno?
De qualquer forma, a noção que está em jogo é a do novo, daquilo que está acontecendo no presente. É um mundo em ebulição, onde não há, então, nada definitivo. Tudo é passível de mudança, o que permite a afirmação: "Tudo o que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas".
A globalização, que hoje conhecemos como prática, é assim percebida. Nascido nas ruínas do Feudalismo, o Capitalismo ultrapassou os limites da Europa Ocidental, implantou-se nas mais diferentes regiões do mundo, como modo de produção dominante na maioria dos países, inclusive, com mais evidência na destruição de outros modos de produção enquanto estava nesse movimento de expansão pelo mundo. Na fala de Marx "A necessidade de um mercado constantemente em expansão impele a burguesia invadir todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda a parte, explorar em toda parte... deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países... As velhas indústrias nacionais foram destruídas diariamente... encontramos novas necessidades, que requerem para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas".
De fato, urge considerar que, nas últimas décadas, ocorreram grandes revoluções científicas, transformações aceleradas das práticas culturais e político-econômicas. De modo cada vez mais perfeito, embora limitado, o homem produz novas tecnologias. Com elas se relaciona, vive e morre. Fabrica instrumentos da inteligência na pesquisa de técnicas e de objetos técnicos. As biociências produzem as biotecnologias com o poder de continuar investigando a utilização da matéria com a industrialização e com o mercado da vida.
Essa postura desperta em nós algumas questões do conhecimento humano. Indagamos: o que é o conhecimento? O que é a verdade? É possível o conhecimento? O que é Gestão do Conhecimento nas atuais empresas?
Conhecer é captar o objeto. Nele, a presença de um sujeito conhecedor, que apreende o objeto. Um outro aspecto, o objeto conhecido como exigência da presença do sujeito conhecedor. Nem aquele nem esse é passivo. Sujeito e objeto são ativos no processo do conhecimento. Vamos a uma nova discussão.

III. Gestão do Conhecimento e Inovação
Refletimos algumas questões epistemológicas, discutindo categorias que nos situam nos limites e na natureza do conhecimento, da "verdade científica". Ponderamos que não existe a ciência, mas sistemas de conhecimentos específicos em evolução e apropriados a seus objetos (Filosofia, Direito, Economia, Administração, Ciências Contábeis, Pedagogia e outros saberes humanos).
Desta vez, chegamos no coração da temática: o que é gestão do conhecimento (20)? Que desafios existem, hoje, às teorias e práticas do conhecimento nas empresas?
Sustentamos que, neste tempo de globalização, vivemos um processo histórico de expectativas, de perplexidades, crises de concepções e paradigmas. É um momento novo e rico para a "Gestão do Conhecimento" nas empresas (21), de reinventá-la com o poder de inovação contínua.
Na atual sociedade informatizada, toma-se consciência da existência de uma sociedade aberta, focalizada no conhecimento e no trabalho que explica porque alguns países ficaram muito mais ricos ao investirem na inteligência humana. Enquanto isso, outros permaneceram abaixo da linha da pobreza porque seus cidadãos foram excluídos dos benefícios da ciência e da tecnologia. Refletiram, assim, a constatação de que a gestão competente do conhecimento é determinante da capacidade das organizações, sociedades e pessoas, países e regiões, liderarem com o ambiente em acelerada transformação e crescente complexidade do mundo global.
Com aquelas questões epistemológicas, anteriormente aqui discutidas, buscamos respostas das principais lições de uma "Pedagogia Empresarial", empreendedora e inovadora, trilhando novos caminhos por onde a sociedade e os indivíduos podem sobreviver nesta era do conhecimento.
A inserção dos "pedagogos empresariais" (22) no mercado de trabalho tende a preparar este profissional para atuar na área empresarial, e desenvolver habilidades humanas e técnicas com vistas à compreensão das transformações provocadas pelos avanços das ciências e das novas tecnologias. Esta, a capacidade de se perceber a educação continuada como poder de "inovar e reinventar" o perfil do pedagogo brasileiro para enfrentar e ampliar o novo mercado de trabalho na atual sociedade informatizada.

IV. Educação e poder: formação do professor brasileiro e mercado de trabalho na atual sociedade informatizada
É tempo propício de se conceber e de se praticar o diálogo interdisciplinar, da Filosofia com a Pedagogia e sua prática de gestão de conhecimento nas empresas, enfrentar os novos processos históricos o de "pensar-se nos dias de hoje", habilidade profissional, essa de buscar um outro modo de ver e de se refletir as realidades e suas múltiplas dimensões, entre outras, as novas teorias da linguagem da Pedagogia em sua relação com a Filosofia, decorrentes dos avanços das "tecnologias da inteligência".
Ciência da Educação, entendo por Pedagogia, neste momento, não apenas o saber escolar, mas aquele novo tipo de Conhecimento, produzido pelas novas teorias e práticas da Comunicação informatizada, dessa "era do conhecimento" inovador, criativo e empreendedor, desencadeado pela "Gestão do Conhecimento" nas instituições de Pesquisa e nas atuais empresas.
Esse, o provável estatuto epistemológico, aventar a possibilidade de novas teorias e práticas do conhecimento pedagógico neste "tempo global" de uma Pedagogia Empresarial, questão a ser tratada necessariamente na Universidade; de repensar o pensamento científico no universo do saber da UNIVERSO como espaço de autonomia e da reflexão compartilhadas.
Situar-se no lugar e nos limites do conhecimento humano, produzido numa reflexão histórica, eis os desafios à Pedagogia no tempo da Internet.
Pensamos que o primeiro desafio à Pedagogia nos dias de hoje é ter acesso à concepção de globalização como prática. Nascido nas ruínas do Feudalismo, o Capitalismo ultrapassou os limites da Europa Ocidental, implantou-se nas mais diferentes regiões do mundo, como modo de produção dominante na maioria dos países, inclusive, com mais evidência na destruição de outros modos de produção enquanto estava nesse movimento de expansão pelo mundo. Na fala do escritor da obra "Ideologia Alemã", "A necessidade de um mercado constantemente em expansão impele a burguesia invadir todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda a parte, explorar em toda parte... deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países... As velhas indústrias nacionais foram destruídas diariamente... encontramos novas necessidades, que requerem para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas".
A globalização, assim é perversa. Contraditória. Ela está se impondo como uma fábrica de perversidades. O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes. A educação de qualidade e para o mercado de trabalho é cada vez inacessível. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos, a impunidade, as deslealdades, a corrupção, a violência. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao processo de globalização.
Este processo não se afirma como condição essencial e única da existência do capital em sua relação com o trabalho. Marcado pelos avanços na comunicação e na informática e por outras tantas transformações tecnológicas e científicas, esse "capital global" intervém nas várias esferas da vida social provocando mudanças econômicas, sociais, políticas, culturais e pedagógicas. Afetam também as escolas e o exercício profissional da docência.
O segundo desafio à Pedagogia é a "produção biopolítica" (23), na atual sociedade tecnoglobalizada uma nova Constituição política e de uma Pedagogia Empresarial, empreendedora e com o poder de reinventar práticas pedagógicas num mundo de hoje. Preparar professorandos para alternativas de mercado de trabalho.
Ao se elaborar uma proposta do pré-projeto de pesquisa sobre este desafio, penso que a Filosofia do Direito nos fornece alguns subsídios hipotéticos: a existência de uma ordem mundial como forma jurídica (24), de uma "constituição da ordem" que está sendo formada hoje. Segundo esses jusfilósofos, não se trata de uma ordem nascida "espontaneamente" de forças globais, nem ditada por uma única potência e um único centro de racionalidade transcendente fora da história. Nem Hans Kelsen, nem Thomas Hobbes e John Locke; com suas respectivas pretensões - de "Estado mundial e Universal"; da "entidade soberana - deus na terra", da "sociedade global" -, não explicam a novidade real dos processos históricos que estamos testemunhando. Surge um novo paradigma de "relações globais de poder" de uma forte união do poder econômico ao poder político para materializar o projeto do capital global.
Com efeito, a camuflada transformação jurídica funciona como sintoma das mudanças da constituição material biopolítica de nossas sociedades. Põe em movimento uma dinâmica ético-política. É peculiar a prática desse "direito global" em que leva ao extremo a coincidência e a universalidade do ético e do jurídico. Na "Aldeia Global" há paz, há garantia de justiça para todos. Ao poder único, do "direito de intervenção", é dada a força necessária para conduzir "guerras justas" nas fronteiras contra os bárbaros e, no plano interno, contra os rebeldes. Vida moral descartável: valem mais os interesses pragmáticos e imediatos dos indivíduos do que princípios, valores, atitudes voltadas para vida coletiva, para o respeito à vida.
A nova sociedade globalizada, que prioriza o econômico, contribui ainda para o estreitamento da esfera pública, colocando igualmente em crise o tradicional papel do Estado. A esfera pública, ao se privatizar, coloca em evidência um novo "modelo de cidadania" que não nutre mais dos valores coletivos e, conseqüentemente, constata-se a emergência de uma nova ética, na qual se valoriza, não mais o humano, mas o que atende aos interesses do mundo econômico, do mercado global.
Essa violência simbólica na cidade é praticada no campo político-ideológico da ciência e da tecnologia em sua prática pedagógica. Trata-se de um poder de comunicação e informação, eminentemente tecnicisado, governando de modo quase absoluto a produção da existência humana, criando um "novo modelo de cidadão" - o homem-máquina -, que sociedade tecnoglobalizada com os valores humanos.
É verdade, não se pode negar a dimensão social da ciência e da tecnologia. Quer queiramos, quer não, a ciência tem uma tarefa social no desenvolvimento atual dessa sociedade tecnológica. É a ética da pesquisa tecnocientífica. Entretanto, existe hoje, a violência simbólica do poder da mídia na degradação das relações individuais pela manipulação crescente da Mulher e do Homem neste tempo da cidade globalizada. Nela, impera a obsessão patológica pelo consumo e pela criação de novas necessidades e de novos mercados. A globalização invade toda parte, dominando as mentes humanas. Desta forma, a ideologia da ciência e do progresso gera, hoje, a desconfiança, e produz a perversidade: a violência simbólica na cidade. Exclui a Mulher e o Homem de sua Casa, de sua Terra. De seus Bens. Pois, o poder político é legitimado pela tecnificação da política, violência simbólica essa da ideologia do intercâmbio livre, substituída por uma política econômica do governo a serviço de uma minoria. Eis uma violência simbólica, veiculada pela mídia. Ela substitui e exclui a participação democrática dos cidadãos na discussão moral e ética do sistema por uma participação democrática formal, isto é, apenas na eleição de pessoas que exercerá as tarefas da administração. Despolitizam as massas. É a pedagogia da violência simbólica no mundo político.
Ainda um terceiro desafio à Pedagogia: detectar a formação do "educador para o novo Mercado de Trabalho na atual sociedade tecnoglobalizada".
Pensamos que esta é a questão central para a produção de um novo discurso pedagógico na busca de uma outra globalização. E indaga-se: o que é educador? , e qual seu lugar no "mercado de trabalho global"?
Educador e mercado de trabalho! Eis a tarefa de desmistificação pedagógica na atual educação globalizada. Neste tempo: professor ou educador? Submisso ao papel social da profissão ou aquele que tem amor e paixão pelo que faz? Aquele que reproduz os sermões prontos e acabados ou aquele que desperta a consciência de que educar é desinstalar, questionar e criar?
O educador se envolve, com seu trabalho, na mundialização do Capital. É convidado a produzir uma nova convivência ética da Pedagogia no atual processo de globalização, a descobrir, pela pesquisa, uma outra relação entre trabalho e educação com prática do sistema econômico de hoje. O educador encontrará aqui o significado pedagógico do trabalho como uma especificidade da prática educativa, como processo de emancipação de uma nova sociedade.
Com base nesta atitude reflexiva, da razão filosófica aplicada às novas necessidades humanas do mundo de hoje. Neste sentido, o pedagogo é um ser criativo, inovador e produtor de um processo que resulta na emergência de algo novo e original. Ele é empreendedor. Experimenta uma nova prática pedagógica na Internet.
 

Notas:
1. ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de. Discurso Ideológico em Ciência e Tecnologia. in: Revista Brasileira de Tecnologia - RBT, do CNPq, Brasília: v. 17, n. 01, jan/fev, 1986, p. 1.
2. JAPIASSU,Hilton. Introdução ao Pensamento Epistemológico. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 7ª edição, 1992, p. 26
3. ANDRADE FILHO, op. Cit. p. 15.
4. MARCOVITCH, Jacques. Administração em Ciência e Tecnologia. São Paulo: Edgard Blücher, 1983, p. 18 - 19.
5. LADRIÈRE, Jean. Ciência e Anticiência. In: Cadernos SEAF, ano 1, n. 2, fev, 1979, p. 47 - 54.
6. BACHELAR, Gaston. Um Novo Espírito Científico. São Paulo: Nova Cultural, 1998, p. 70.
7. LADRIÈRE, Jean. Filosofia e Práxis Científica; Relatividade dos Modelos, de Olinto Pegoraro. Petrópolis;
vozes, 1997, p. 94.
8. JAPIASSU, op. Cit. p. 139.
9. LADRIÈRE, op. Cit. P. 53.
10. ANDERY, Maria Amália (org) Para Compreender a Ciência - uma perspectiva histórica. São Paulo/Rio de Janeiro: EDUC, 1996, p. 17.
11. Serão fontes de estudos e pesquisas os textos: "Teorias da Globalização", 8ª edição, de Octávio Ianni, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000; "Cidadania e Globalização", 5ª edição, de LISZT Vieira, Rio de Janeiro: Record, 2001; "Por Uma Outra Globalização" - do pensamento único à consciência universal", 2ª edição, de Milton Santos, Rio de Janeiro: Record,2000; "Império", de Michael Hardt e Antônio Negri, Rio de Janeiro: Record, 2001.
12. Veja-se Pierre Levy. "As Tecnologias da Inteligência - o futuro do pensamento na era da informática", trad. Carlos Irineu da Costa, São Paulo: Editora 34, 1993. Igualmente, Marcelo Araújo Franco. "Ensaios Sobre as Tcnologias Digitais da Inteligência", Campinas, SP: Papirus, 1997.
13. ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de. "Filosofia da Globalização". In: http://www.orecado.cjb.net outubro, 2000.
14. ROCHA, Adriana Magalhães. Pós-Modernidade: Ruptura ou Revisão? São Paulo: Editora Cidade Nova, 1998.
15. DUARTE JÚNIOR, João Francisco. Fundamentos Estéticos da Educação. São Paulo: Cortez, 1991.
16. PEGORARO, Olinto "O que é o ser humano", A Moralidade dos Atos Científicos, publicações FIOCRUZ, Rio de Janeiro, 1999.
17. FÓRUM de Pró-Reitores de Graduação das Universidades Brasileiras, FOR GRAD, 1999.
18. ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de. "O Problema da Modernidade no Pensamento Político da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil" (Tese de Doutorado, texto digitado), 1994.
19. MARX, K. & ENGELS, F. Obras Escolhidas. Lisboa: Avante, 1982 (três volumes).
20. Existe, hoje, uma vasta literatura sobre essa temática. Aqui, inspira-se em alguns textos valiosos, tais como: "Gestão do Conhecimento - o grande desafio empresarial", de José Cláudio Cyrineu Terra, São Paulo: Negócio Editora,2001; "Facilitando a Criação do Conhecimento - Reinventando a Empresa com o Poder de Inovação Contínua", de Georg Von Krog, Rio de Janeiro: Campus, 2001; "O Melhor, de Peter Ferdinand Drucker: obra completa", São Paulo: Nobel, 2001.
21. Veja-se "Gestão do Conhecimento no Fórum de Gestão Empresarial ADVB & UNIVERSO", de Francisco Antônio de Andrade Filho, publicado no site http://www.orecado.cjb.net, 2002.
22. A Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), em Canoas/RS, já implantou o curso de Pedagogia Empresarial, estabelecendo parcerias com empresas para ampliar o contato dos alunos deste curso com o mercado. E-mail: ulbracanoas@ulbra.br
23. HARDT & NEGRI, cit. 21 a 29
24. id. Ib.p. 26
 

Bibliografia:
. ANDERY, Maria Amália (org) Para Compreender a Ciência - uma perspectiva histórica. São Paulo/Rio de Janeiro: EDUC, 1996, p. 17.
. ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de. "Filosofia da Globalização". In: http://www.orecado.cjb.net outubro, 2000.
. ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de. Discurso Ideológico em Ciência e Tecnologia. in: Revista Brasileira de Tecnologia - RBT, do CNPq, Brasília: v. 17, n. 01, jan/fev, 1986, p. 1.
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. LADRIÈRE, Jean. Filosofia e Práxis Científica; Relatividade dos Modelos, de Olinto Pegoraro. Petrópolis;
. LEVY Pierre. As Tecnologias da Inteligência - o futuro do pensamento na era da informática, trad. Carlos Irineu da Costa, São Paulo: Editora 34, 1993.
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. SANTOS, Milton . Por Uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal, 2ª edição, Rio de Janeiro: Record,2000.
. TERRA José Cláudio Cyrineu Gestão do Conhecimento - o grande desafio empresarial. São Paulo: Negócio Editora,2001.
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Data de publicação no site: 09/09/2010


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