EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE DE INFORMAÇÃO
Conhecimento, inovação e o papel da Universidade
Entrevistas
 
Entrevistado :Brito  Cruz
 
Entrevistadora:KarlaVaz


A partir dos anos 90 principalmente, a soma de capacitação de recursos humanos, avanço do conhecimento e estímulo da parceria universidade-empresa consagrou-se como a fórmula em direção ao crescimento econômico e ao desenvolvimento sustentável de uma nação. Diante de tal equação, perguntar-se sobre o papel da Universidade num país como o Brasil, com tantas diferenças regionais, entrou na ordem do dia. Ainda mais hoje, diante da recente discussão sobre a transferência da gestão do ensino superior do Ministério da Educação para o de Ciência e Tecnologia.

Enquanto as opiniões se dividem, para o Reitor Carlos Henrique de Brito Cruz , da Universidade de Campinas ( http://www.unicamp.br ), a resposta à pergunta é direta: Universidade existe para fazer avançar o conhecimento humano através da formação de pessoal capaz de criar conhecimento e inovação.

Além do papel das Universidades, nessa entrevista exclusiva para o i-Coletiva , Brito Cruz fala, entre outras questões, da importância do conhecimento e da inovação tecnológica para o país e do papel do governo e dos atores sociais, principalmente empresariado, nesse avanço: “As universidades podem, às vezes, ajudar empresas a desenvolver tecnologia, mas esta não é a regra. Institutos de pesquisa fazem isto com maior freqüência quando têm como objetivo desenvolver certas tecnologias. (...) Seria um erro de proporções oceânicas acreditar que o desenvolvimento tecnológico no Brasil pudesse ser feito exclusivamente pelas boas universidades. Nenhum país do mundo fez ou faz assim. Nos países que souberam fazer desenvolvimento baseado no conhecimento a maior parte dos pesquisadores trabalha para empresas. Então aqui, como lá, a empresa deve ser o local privilegiado da inovação”.

Carioca de nascimento, mas paulista por adoção (mudou-se para São Paulo aos 4 anos de idade), Carlos Henrique de Brito Cruz é reitor da Unicamp desde abril de 2002. Professor titular do Instituto de Física da Unicamp (http://www.ifi.unicamp.br/ ), do qual foi diretor por duas vezes, graduou-se em Engenharia Eletrônica no ITA (1978) e obteve mestrado e doutorado em Física na Unicamp (1980 e 1983). Sua área de pesquisa é a Física Experimental, na qual estuda fenômenos ultra-rápidos usando lasers de pulsos ultracurtos. Foi também pró-reitor de Pesquisa da Unicamp ( http://www.unicamp.br/prp ) de 1994 a 1998. Desde 1995 é membro do Conselho Superior da Fapesp (http://www.fapesp.br ), entidade que presidiu de 1996 a junho de 2002. É membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, da Academia Brasileira de Ciências e da Ordem do Mérito Científico.

i-Coletiva: Em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo , de 13/11 (http://www.estado.com.br/editorias/2002/11/13/aberto002.html ), o sr. afirma que o início do século 21 nos mostra, escancaradamente, que o conhecimento é a base do desenvolvimento. Ou seja, e como o sr. mesmo diz, além de capital e trabalho, o insumo fundamental para a criação de riqueza é o conhecimento. Nesse sentido, qual a avaliação que o sr. faz das atuais políticas de fomento, sejam elas governamentais ou privadas, que buscam inserir a sociedade brasileira nesse contexto?
Brito Cruz: Tem havido progressos importantes nos últimos anos. O Ministério de Ciência e Tecnologia e algumas agências estaduais de apoio à pesquisa têm reconhecido a importância do conhecimento para o desenvolvimento e criado programas para apoiar a difusão e a aplicação do conhecimento. As universidades têm respondido muito bem a isso, mostrando interesse e vitalidade. Resta como desafio maior aquele de mobilizar as empresas para que realizem atividades de pesquisa e desenvolvimento. Seria um erro de proporções oceânicas acreditar que o desenvolvimento tecnológico no Brasil pudesse ser feito exclusivamente pelas boas universidades. Nenhum país do mundo fez ou faz assim. Nos países que souberam fazer desenvolvimento baseado no conhecimento a maior parte dos pesquisadores trabalha para empresas. Então aqui, como lá, a empresa deve ser o local privilegiado da inovação.

i-Coletiva: Hoje não há quem discorde que o crescimento econômico e o desenvolvimento sustentável de uma nação apoiam-se no tripé recursos humanos, avanço do conhecimento e estímulo da parceria universidade-empresa. A fórmula parece bem clara, mas como aplicá-la numa sociedade como a brasileira, com tantas diferenças regionais?
Brito Cruz: É preciso uma política forte para a formação de pessoal e o desenvolvimento de capacidades regionais. Para que as desigualdades regionais sejam superadas é necessário que os estados reconheçam a importância do conhecimento e se associem aos esforços federais para desenvolver capacidade inovadora local. O apoio dos estados brasileiros à pesquisa deixa muito a desejar. Quase todos têm uma fundação de amparo à pesquisa, organizada nos moldes da fundação paulista, a Fapesp (http://www.fapesp.br/ ). Entretanto, o único estado brasileiro que cumpre integralmente o dispositivo constitucional que apóia estas fundações é o Estado de São Paulo.

i-Coletiva: No caso de um país como o Brasil, a regionalização das políticas de fomento parece ser, segundo alguns, a fórmula melhor acabada para gerar os resultados esperados com vistas ao desenvolvimento. Contudo, tal solução não poderia levar ao desenvolvimento de áreas já historicamente desenvolvidas?
Brito Cruz: Isto pode acontecer, mas, por outro lado, creio que só poderá haver desenvolvimento regional se as várias regiões valorizarem com seus próprios recursos as atividades relacionadas à inovação e à P&D. Os recursos federais não deveriam substituir o esforço estadual, mas sim potencializá-lo. O Estado de São Paulo acaba por conseguir mobilizar mais recursos federais para pesquisa e para C&T exatamente porque investe fortemente na criação de uma capacidade local, financiando a Fapesp e três grandes e qualificadas universidades estaduais juntamente com 19 institutos de pesquisa.

i-Coletiva: Quais são os instrumentos de fomento mais efetivos para a mobilização do setor empresarial brasileiro em um grande programa voltado para a geração de inovações tecnológicas no país?
Brito Cruz: A mobilização do setor empresarial para atividades de P&D empresariais requer o apoio do estado brasileiro. Esse apoio pode vir na forma de incentivos fiscais, na forma de apoio à infra-estrutura de pesquisa e de formação de pessoal, como já ocorre com os programas de pós-graduação tão desenvolvidos no país. O terceiro mecanismo de apoio estatal à P&D empresarial é o uso do poder de compra do estado para reduzir o risco inerente à pesquisa na empresa.

i-Coletiva: Qual é o agente motor da inovação tecnológica?
Brito Cruz: O agente motor da inovação tecnológica é a busca de competitividade nas empresas. Por isso a empresa é o local privilegiado da inovação. Dizer isto não diminui o papel fundamental das universidades em avançar o conhecimento humano, criando as bases para a inovação tecnológica e formando pessoal. Mas é forçoso reconhecer que sem uma ação decidida das empresas, realizando pesquisas e empregando grande número de cientistas em seus quadros, não se pode falar em inovação tecnológica.

i-Coletiva: Qual deveria ser o principal papel da Universidade, e dos institutos de P&D, em processos de inovação tecnológica? Nesse sentido, como se encaixaria a lei de inovação proposta pelo governo?
Brito Cruz: O papel das universidades é fazer avançar o conhecimento humano e com isto formar pessoal capaz de criar conhecimento e inovação. As universidades podem, às vezes, ajudar empresas a desenvolver tecnologia, mas esta não é a regra. Institutos de pesquisa fazem isto com maior freqüência quando têm como objetivo desenvolver certas tecnologias. Entretanto, nem as universidades nem os institutos podem substituir a iniciativa empresarial na especificação, na identificação de oportunidades e no desenvolvimento de pesquisas para os objetivos da empresa.

i-Coletiva: Qual é a sua expectativa, como Reitor, em relação aos recursos provenientes das empresas privadas para o financiamento das pesquisas da Unicamp?
Brito Cruz: Nossa atitude é realista. Quanto mais as empresas no Brasil souberem reconhecer a importância das atividades de P&D dentro da empresa, mais oportunidades surgirão para que a universidade possa contribuir com elas. No entanto, prioritariamente, uma universidade como a Unicamp quer estabelecer projetos de parceria porque isto nos ajudará a educar melhor nossos estudantes e a identificar áreas e temas de pesquisa conectados à nossa realidade. Não se trata de substituir com recursos empresariais os recursos que o estado deve aportar à universidade pública. Afinal, em todo o mundo a pesquisa acadêmica é financiada prioritariamente pelo estado.
                                                                                                                
 
 
 

Data de publicação no site: 06/09/2010


IMPRIMIR TEXTO
Créditos