EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE DE INFORMAÇÃO
Gerenciando o Conhecimento no seculo XXI
Gilberto Teixeira ,Prof.Doutor (FEA/USP)
Tanto o conhecimento como a informação disponíveis para o ser humano são infinitas. E a cada dia mais. Mas a capacidade dos sentidos de reter, perceber ou sentir todas estas sensações é finita. Eis aí um dos grandes desafios para todos aqueles que estão hoje, e especialmente no futuro, envolvidos com formas e conteúdos da transmissão e gerenciamento de conhecimento e informação. Especialmente se considerarmos aquilo que emerge como uma tendência inevitável: o crescimento da importância e oportunidades de mercado na economia do conhecimento e atenção.
Mas por outro lado o crescimento no bombardeio de informações através das diferentes formas da “media”, já existentes ou ainda em desenvolvimento, exigirão dos profissionais e do cidadão comum uma capacidade de seleção e discernimento muito grandes. Sua análise deverá ser feita com base em dois parâmetros estritamente individuais. Ou seja, a fase de vida que cada um atravessa e suas prioridades bem como os diferentes papéis que todo indivíduo representa ao longo de sua vida.
Gestão do conhecimento
Os debates a respeito de como gerir conhecimento e captar a atenção das pessoas já chegaram ao Brasil. E ganham a cada dia importância na medida em que ocorrem mudanças muito rápidas tanto nas tecnologias como no comportamento humano. E especialmente o seu impacto sobre o mercado de oportunidades de trabalho que emergem deste quadro. Parte das dificuldades é ainda sobre quanto as empresas já podem desenvolver formas de administrar o conhecimento disponível em seu próprio benefício ou esta é uma questão individual que cada pessoa administra da melhor forma possível. Para Michel Sader, diretor de tecnologia da Lotus para a América Latina, “a solução é transformar o conhecimento implícito em explícito e recuperável. Desta forma ele volta a ser implícito, na cabeça de outra pessoa.”
O desafio para as organizações é como disponibilizar o conhecimento adquirido pelos funcionários tanto para uso imediato como também transmiti-lo aos demais. A saída, demissão ou aposentadoria de pessoal qualificado das empresas significa, em muitos casos, uma perda de conhecimento importante para a sobrevivência ou expansão de um negócio. E este ainda continua sendo um risco para as organizações.
Segundo Johan Roos, professor de Estratégia e Administração Geral do IMD, “para que as empresas possam continuar crescendo os executivos precisarão compreender como explorar características fora do comum da economia do conhecimento e como manejá-lo de forma eficaz. E isto exige três ações: criar redes que propiciem cada vez mais retornos; Unir as pessoas em redes organizacionais e Reconhecer a individualidade do desenvolvimento do conhecimento.”
No entanto é da maior importância que todos compreendam que o conhecimento tem uma dinâmica diferente. Ele não pode ficar parado ou estocado. Só terá valor e utilidade se houver troca na medida em que se mantém atualizado, relevante e vivo.
Portanto é ilusória a idéia que apenas a tecnologia será suficiente para aumentar o conhecimento humano. O gerenciamento é uma habilidade a ser desenvolvida tanto à nível individual como grupal. O conhecimento não está desvinculado de pessoas. E a principal função gerencial é colocar pessoas em contato direto discutindo, debatendo, perguntando, questionando e revisando idéias e conceitos permanentemente. Não basta um bom banco de dados estático.
Outro fenômeno crescente é o desafio da economia da atenção. Bombardeado por mensagens e informações num volume cada vez maior o ser humano tem limites. Acordado seus limites são físicos e mentais. E mesmo quando dorme já vem sendo feitos experimentos no sentido de observar os condicionamentos possíveis bem como sua atenção, passiva ou ativa. Os limites também são impostos pelo tempo que corre no sentido inverso da capacidade de armazenar e processar informações com o passar da idade.
Provocativamente afirma o neurocientista americano Gerald Edelman, ganhador do Prêmio Nobel, que “em certa medida seus filhos não são seus filhos. Eles são filhos da tecnologia da informação. Quem faz a cabeça deles, muito mais do que os pais, são os estímulos do mundo moderno.”
Para gerir toda esta complexidade entendemos que o ser humano, seja à nível pessoal ou profissional, deverá adotar uma postura de autocrítica e seletividade em relação ao que efetivamente necessita e deseja ouvir e assimilar. Neste sentido ele deverá levar em conta a fase de vida em que se encontra e suas necessidades para cada etapa. É evidente que no período que vai da infância à velhice intercalam-se adolescência, juventude, maturidade, meia-idade e outras tantas fases que requerem abordagens e apresentam exigências diversas. Esta é uma decisão individual. Não pode ser delegada.
Um segundo ponto que deve ser levado em conta pelos indivíduos são os diferentes papéis que vivemos. Cada um deles nos coloca frente ao mundo com exigências distintas no que se refere ao conhecimento necessário além de uma atenção cada vez mais seletiva das mensagens que nos são oferecidas.
Os papéis devem cada vez mais estabelecer um equilíbrio entre o ser profissional e pessoal. Inclusive com grandes possibilidades de corrigir um grave erro dos modelos de carreira do passado que privilegiaram exclusivamente o sucesso profissional em detrimento da realização nos diferentes níveis do universo pessoal.
O papel profissional não se refere exclusivamente ao vínculo do emprego, mas tudo aquilo que diga respeito às alternativas de identidades múltiplas que o indivíduo deverá desenvolver para reduzir seu grau de dependência de possuir apenas um “sobrenome” organizacional. Atividades alternativas na comunidade, empreendimentos próprios, participação associativa e maior envolvimento com o mundo serão úteis no gerenciamento do conhecimento e atenção.
No âmbito pessoal da mesma forma as pessoas deverão estar muito mais atentos às transformações que devem ocorrer no papel conjugal. Maior compreensão e busca da felicidade comum do casal poderá ser feita através de mais conhecimento, tanto mútuo como das mudanças nos universos masculino e feminino.
Segue-se o papel familiar. Ou seja, tudo que tem a ver com as relações entre as diferentes gerações. Na qualidade de pais ou filhos o grau das demandas e complexidade vão aumentar. Para tanto será inevitável descobrir formas inovadoras de gerenciar o conhecimento disponível e ter uma atenção mais seletiva. O desafio e formas de educar filhos em um mundo com um volume maior de informações será cada dia mais ocupado por perplexidades. E elas necessitam ser compartilhadas. Haverão cada vez menos verdades em contrapartida com muitas novas interrogações.
Seguem-se o papel social que envolve relacionamentos onde se estará buscando não apenas a amizade mas também enriquecimento mútuo na troca de experiências e idéias.
Ganhará maior importância o papel educacional. Ou seja, cada vez mais a questão do autodesenvolvimento será uma responsabilidade indelegável. Já não caberá à escola ou instituições convencionais cuidar desta área. O próprio indivíduo deverá estar atento à todas as formas e oportunidades de aprendizagem. Não esquecendo que haverá um aumento do número de estímulos disponíveis.
A ficção já nos mostra um pouco como poderá ser isto no futuro. Segundo Jonathan D. Spence, no livro “O palácio da memória de Matteo Ricci”, o jesuíta ensinava que era preciso construir usando a imaginação, a partir de um palácio que fosse conhecido ou criado com a mente, um enorme edifício mental. E o objetivo desta construção mental era o de oferecer espaços para a armazenagem de milhares de conceitos. Ou ainda como no filme “Farenheit 451”, uma sociedade totalitária que existiria no futuro onde todos os livros seriam queimados. Mas o conhecimento só sobreviveria porque um grupo de homens, escondidos na floresta, se dedicaria, cada um deles, a decorar e manter na mente o seu livro predileto.
Finalmente o papel individual. Que se refere ao tempo e atenção que o indivíduo deverá dedicar a si mesmo. Este papel hoje relegado muitas vezes à atender expectativas dos demais – família, publicidade, amigos, empresa, etc. – deverá estar mais concentrado em descobrir as próprias expectativas de cada um. Ou seja, preparemo-nos para o aumento das dúvidas e ambigüidades do ser humano nas suas relações.
Como disse John Maddox, jornalista inglês em seu livro “What remains to be descovered” (O que falta ser descoberto), ainda não disponível em português, “que as descobertas que aprofundam a compreensão humana também aumentam as dúvidas. Temos de aprender a viver com isso.”
Enfim, enquanto estudiosos, tecnocratas, cientistas e empresas procuram formas inovadoras de gerenciar o conhecimento é útil e necessário que cada um de nós descubra a maneira como vai administrar o impacto que este conhecimento e informações terão sobre a sua atenção. E atenção seletiva será um bem valioso na sociedade do futuro. Portanto não espere o futuro chegar. Antecipe-se a ele imaginando formas de criar algo em seu favor. Seja preventivo para não ter que adotar, no futuro, meras posturas defensivas. Neste tema, como em muitos outros, transforme desafios em oportunidades.
Data de publicação no site: 06/09/2010
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